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100 Dias Em Paris – Tania Carvalho

Não tenho a pretensão de fazer um guia, muitos já fizeram “bem mais e melhor do que você” — salve Chico Buarque! Nem um livro de autoajuda para viajantes solitários. Neste livro ninguém vai encontrar dicas de lojas que vendem perfumes. Por quê? Porque eu não uso perfumes e sou alérgica a eles. Vinhos? Tampouco, sou daquelas que bebe dois goles para ser educada e quando chega no restaurante nem olha a carta e pede logo “une carafe d’eau”, água natural, que é de graça e refresca a boca. Pareceu antipatia? Não é não. Simplesmente minha intenção é contar o que vivi em 100 dias emParis, aos 60 anos, morando em uma cidade estranha e me “perdendo para me achar” — o mote principal desta trajetória. Este 100 dias em Paris, digamos, assim é um inventário de sensações. Para muitos, o que digo pode ser óbvio. Para outros, novidade. E, ainda, como pode ser útil para alguns, dou conta do que vi e conto. Durante esta jornada, que podia ser somente uma viagem, mas se tornou algo bem maior, resolvi dividir a experiência com outras pessoas através de um site e de uma página no Facebook. A repercussão foi maravilhosa, tive fiéis curtidores, meus posts foram vistos por milhares de pessoas diariamente, o que para mim foi um espanto e uma felicidade. Os comentários sempre foram deliciosos e fiquei com a sensação de ter feito milhares de amigos. E foram eles que me incentivaram a transformar a experiência em livro. O que seria simplesmente um e-book feito por mim mesma se ampliou com a chegada da Ímã Editorial. E aqui estou eu. O livro é uma versão ampliada e revista do que postei no dia a dia. Não é mais blog, virou livro: cresceu, ganhou maturidade, os verbos foram para o seu tempo certo, sumiram os “hoje” e os “aqui” e as emoções tornaram-se mais perenes, não tão passageiras. O humor, no entanto, permaneceu, às vezes mesclado com pequenos banzos. É a vida, não é mesmo? Espero que 100 dias em Paris proporcione o mesmo prazer para seus leitores que senti ao viver as experiências, e que inspire outros a viver a aventura que desejam. Afinal, nunca se é tão velho que não possa sonhar e realizar os próprios desejos. Agradecimentos Para todos os amigos e amigas que me deram a maior força nestes 100 dias em Paris; Para Maria Ignez França e Valéria Schilling, em especial, que ouviram as minhas preocupações e me ajudaram a solucioná-las durante três anos; Para Thiago Barroncas e Vânia de Mello, parceiros desde o primeiro minuto; Para Carla Edel e Marisa Prado, que me deram força em todos os momentos; Para Wagner de Assis, que acreditou mais em mim do que eu mesma; Para Lúcia Helena Ramos, que criou a marca perfeita do site e do Facebook; Para Ana Beatriz Faulhaber e Fabiana Faulhaber, pela imensa força e ajuda em todos os momentos; Para Bia Radunsky, que sempre me disse que eu devia escrever crônicas bem-humoradas; Para Deborah Berman, que sabe tudo sobre os restaurantes de Paris; Para Marcus Soares, pelas lindas fotos que me deixou compartilhar neste livro; Para Rubens Ewald Filho, Hubert Alquéres, Caloca Fernandes, Christiane Costa e Julio Silveira, as primeiras pessoas que acreditaram que eu podia escrever livros; Para ID*Bag, Axent, Estúdio PV, Cinética Filmes , CP-4, Coris e Cotação, parceiros desta jornada. Para os amigos virtuais e reais que me acompanharam durante toda a viagem e Para todos que participaram do esforço coletivo para publicar este livro. QUARTIER LATIN, UM SOFÁ E A PRIMEIRA VEZ Aqui em Paris, faz frio hibernal em uma época que a temperatura devia estar primaveril. E os franceses não têm outro assunto, sonham com o sol tanto quanto eu sonho em usar casacão só para variar.


Dizem que ninguém se esquece da primeira vez. Eu mesma sou capaz de lembrar com detalhes o que aconteceu há muitas décadas: o espanto, a surpresa, o deslumbramento, a alegria e o prazer. Dor alguma. E como seria possível sentir dor diante de uma experiência tão importante na vida? O momento de transformação, do antes e do depois, do que ficou para trás e do que virá pela frente. Antes que a sua mente seja totalmente consumida por imagens inadequadas, garanto que mais importante do que a tradicional “primeira vez”, da qual tenho uma lembrança difusa de pernas embaralhadas, minha experiência mais transformadora foi a primeira vez que vi Paris. Eu estava, finalmente, na cidade dos meus sonhos e disso me lembro em detalhes. Minha mãe Amaryllis foi criada na cultura francesa. Nascida no início do século passado, no Piauí, conhecia a obra de Guy de Maupassant. Eu, que nasci em 1953, também no século passado, sou da geração calça Lee, cinema americano e Coca-Cola. Aos sete anos de idade, achava o máximo morar nos ESTADOS UNIDOS do Brasil (era assim que se chamava até 1967), como se isso me colocasse mais perto do Olimpo. Graças a Deus fui resgatada pelos livros, pelo cinema, pela cultura em geral e pelas inúmeras pessoas com que cruzei na minha vida, dentre elas, a mais importante, o meu professor de francês, Danilo, que me mostrou Rimbaud, Verlaine e me ensinou os primeiros rudimentos da língua que me emociona até hoje por sua beleza. Eu era completamente apaixonada por ele aos 11 anos de idade. Paris, quem sabe, seria a cidade que nos uniria para sempre. Meu príncipe amazonense (ele tinha cabelos longos, lisos e negros) pediria minha mão às margens do Rio Sena; nos casaríamos na Notre Dame e teríamos filhinhos que se chamariam Gilles, Luc, Marc, Isabelle, Martine. Um dia ele foi embora para a Cidade-Luz. Sem mim. Chorei desesperadamente no banheiro. Recomposta, disse aos meus pais, que era tristeza por causa da morte da mãe do Bambi, filme que acabara de assistir — e, pior, eles acreditaram. Passei anos sonhando dormindo e acordada com Paris. Em 1973, trabalhava na revista Manchete e tive a oportunidade de fazer uma grande reportagem na Amazônia, que me rendeu o primeiro e único prêmio da minha carreira de jornalista, o Rondon — além do troféu, 1.500 dólares. Eu já planejara tudo: sabia que ia ganhar o prêmio, porque Manchete era a revista mais importante do Brasil, e já decidira meses antes: destino Paris. Tinha acabado de me inscrever no prêmio e quase arrumava as malas, para surpresa de todos. Ganhei e lá fui eu, meses depois, sozinha e com o dinheiro no bolso. O momento em que meus olhos viram Paris foi uma sensação mágica.

Tudo era maior, mais bonito e mais dourado do que imaginava. O sonho se tornou realidade e sem príncipe encantado, que nesta hora nem mais importava. Acho que esta é função dos príncipes: somente nos fazer sonhar. Viajei no dia 1º de janeiro de 1975 e meus amigos, de ressaca, foram ao aeroporto dar tchauzinho, bem umas dez pessoas. Naquela época, era comum os amigos irem ao aeroporto. Não era tão comum assim, porém, viajar para a Europa, merecia uma comemoração. Todos me alertaram: em Paris fazia um frio que jamais haveria sentido ou imaginado. E debaixo do calorão de 40 graus no Rio lá fui eu de casacão emprestado de pele falsa, saia longa de lã, botas também doadas pela amiga abnegada, ML, que tinha sido comissária de bordo. Imagine o calor que senti no avião. Vou poupá-lo dos detalhes desta viagem, das outras cidades que visitei. Só falta agora eu querer mostrar slides… E quem sabe o que são slides hoje em dia? Vou me concentrar no deslumbramento que foi ver Paris. Fiquei em um hotel bem pequeno na Rue des Ècoles, em um quarto sem banheiro, no último andar, com o teto tão tortinho que todas as vezes que levantava do meu leito mínimo, batia com a cabeça. Mas achei lindo! Romântico! Criativo! Na rua seguinte ao hotel (como se chamava?) morava minha amiga RFA, companheira da Manchete, que largara tudo para ir morar em Paris. Minha ídola, claro. Com ela comi sole (o linguado nosso) e reclamei da falta de sauce (quem não sabe pedir, come mal, claro, e sem molho); tomei golinhos de vinho em seu apartamento — daqueles bem pequenininhos e também cheios de charme que só Paris tem. Minha grande aventura, porém, junto com RFA foi comprar um sofá. Até aí tudo bem, ela escolheu, pagou e voilà, tinha um lugar para dormir. E como levar para casa? Bom, foi aí que começou a odisseia: amarramos o sofá no teto do seu carro e circulamos por meia Paris comum medo danado de aquele sofá sair voando. Eu, preocupadíssima, porque haveria alguém para fazer um muxoxo e dizer: oui, ce sont des bresiliènnes, seguido de pelo menos dez bufadas. Vencemos a batalha, mas a guerra não estava ganha. Como levar o sofá para o quarto andar por uma escada onde seguramente Robespierre tinha subido, e de lado? Demoramos horas, empurra daqui, chuta de lá, xinga de acolá, mas conseguimos. E esta minha primeira vez em Paris, que me deslumbrou, se confunde também com a primeira vez que ri sem parar por horas, senti as agruras e a alegria de quemmorava por lá e fui feliz como nunca. La vie en rose! Culpa de Paris, da Rosa e do sofá. A partir daí Paris esteve sempre na minha vida. E sempre me fez feliz.

Como trabalho até hoje com um único fim, que é viajar, perdi a conta do número de vezes que voltei lá e andei na beira do Sena. Mas alguma coisa faltava. — Você vai para Paris? — Vou, é minha primeira vez. — Que inveja que tenho de você, queria poder ver Paris pela primeira vez outra vez. Este diálogo aconteceu muitas vezes, não é de todo imaginário. Verdade, eu sentia saudades da emoção da primeira vez. Um dia, andando pelas ruas de Roma, quando o hotel me expulsou às 12h e o avião só sairia às 23h, pensei: “não quero mais isso, quero viver em uma cidade, ter um cotidiano, uma casa para voltar”. Para onde eu iria? Paris é claro. Esta seria a oportunidade de ver Paris comoutros olhos, não mais como a turista que em apenas um dia quer ir ao Louvre, fazer compras, comer croissant, tarte tatin, île flotante e tomar chá no Marriage Frères. E voltar a todos os outros lugares que ama. Paris tem isso e é engraçado, cada vez que alguém vai, quer percorrer caminhos dantes percorridos, como a perpetuar mais ainda as emoções. Eu queria, porém, descobrir novas trajetórias muito além das conhecidas. Assim surgiu 100 dias em Paris, projeto de vida que demorou três anos do primeiro lampejo à chegada em Paris. Era preciso juntar dinheiro, alugar apartamento, organizar a vida profissional para poder ficar fora tanto tempo e, ainda, por mais bizarro que pareça, ter a coragem suficiente para viver um tempo sozinha em uma cidade, mesmo que conhecida por um lado, completamente estranha pelo outro e com aquela gente que bufa, come linguiça de intestino de porco, caracol e fala uma língua estranha. Na mente e no coração havia outra promessa: comemorar meus 60 anos em grande estilo. Afinal, o que não havia feito na adolescência, podia realizar agora, com situação financeira e profissional estáveis, filha criada e casada, nenhum marido para impedir. Pois bem, 38 anos depois virei vizinha de novo de RFA, que sempre está em Paris quando no Rio faz 40 graus. Eu aluguei um apartamento na Rue Gracieuse, no coração do 5 ème e ela mora algumas ruas depois. Combinamos de fazer a feira na Place Monge, bem na minha esquina (“a de domingo é a melhor” — me alertou), comer sole com molho, sermos amigas do quartier, mas espero e torço que ela não tenha decidido comprar novo sofá. Bonjour, Paris!

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