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108 contos e parabolas orientais – Monja Coen

As histórias aqui recontadas são verdadeiras. Episódios vivenciados por praticantes e monásticos, preservados em livros e anais da Índia, China e Japão. Alguns deles são chamados de koan, que literalmente significa proclamação pública, como quando um imperador mandava afixar em praça pública seus éditos imperiais. Durante o processo de prática espiritual, os Koans têm sido usados para facilitar o rompimento entre as ideias da realidade e a própria realidade. É preciso vivenciar a vida, e não apenas falar sobre a realidade, filosofar e, muitas vezes, se perder. Há pessoas que se consideram religiosas, mas que destratam pessoas, plantas e animais. Outras se dedicam à meditação e abandonam suas atividades de manutenção e sustentação da vida. A função dos mestres, das mestras, dos orientadores e das orientadoras é perceber quando e onde a pessoa que pratica está presa. O uso de Koans ajuda a libertar o ser das suas próprias amarras. Há uma antiga tradição chinesa, fundada pelo mestre Rinzai (falecido em 867), que sistematizou o uso de Koans para que todos e todas as praticantes passem pelas barreiras do próprio eu e, por meio de séries preestabelecidas e sucessivas de Koans, tornem-se capazes de autenticar seu estado de iluminação perfeita. A minha tradição é outra. Chama-se Soto Zen Budismo e também teve sua origem, com esse nome de escola meditativa, na China antiga. Na Soto Zen, os Koans não são geralmente utilizados de forma sistêmica, mas aleatoriamente, e apreciados por meio das obras de nossos fundadores japoneses – mestre Eihei Dogen (1200-1253) e mestre Keizan Jokin (1264-1325). Ambos deixaram obras nas quais comentavam casos antigos, como o Denkoroku (Anais da Transmissão da Luz), compilado pelo mestre Keizan, um dos principais livros de estudos da Soto Zen. Há também uma antologia das falas do mestre Dogen aos praticantes, feita por seu discípulo sucessor, Koun Ejo. Esse pequeno livro, chamado Shobogenzo Zuimonki (Anais do que Foi Ouvido), era o primeiro livro de leitura e estudos que minha superiora usava para orientar as noviças. Assim, a minha escolha para este livro se baseou em leituras, aulas e palestras sobre o Shobogenzo (Olho Tesouro do Verdadeiro Darma), bem como no Shinji Shobogenzo (Verdadeiros Caracteres do Shobogenzo) – 301 Koans, compilados por mestre Eihei Dogen quando esteve praticando na China nas primeiras décadas de 1200 e que aparecem em outros anais antigos. Há ainda casos de um grande mestre, conhecido como “lábios zen”, pela habilidade em usar livremente a palavra e levar as pessoas ao despertar. Mestre Joshu (778-897) dizia: “Se um menino de 7 anos souber mais do que eu, vou pedir por seus ensinamentos. Se um homem de mais de 100 anos souber menos, vou instruí-lo”. Também selecionei alguns Koans do Hekiganroku (Anais do Penhasco Azul), Shoyoroku (Livro da Equanimidade) e Mumonkan (Portal sem Portas), talvez os três anais de Koans mais conhecidos e usados por praticantes zen do Oriente e do Ocidente, amplamente traduzidos e comentados desde o século XIII. Minha proposta é apresentar um livro de fácil leitura, compreensão e interpretação, deixando de lado os aspectos mais intrincados dos estudos zen. Quero lembrar, porém, que os casos ou Koans são mais do que anedotas de interesse histórico ou filosófico. São anais vivos de gerações de prática iluminada. Aqui apresento apenas alguns casos, sem os poemas, comentários iniciais e frases finais que geralmente os acompanham nos anais citados.


Muitos deles foram apresentados a mim por meus mestres durante aulas, palestras, meditações e encontros pessoais. Nos Estados Unidos, meu mestre de ordenação, o falecido Koun Taizan Hakuyu Daiosho (Maezumi Roshi, fundador do Zen Center de Los Angeles), havia selecionado 100 Koans iniciais, e todos os praticantes do ZCLA passamos por eles. Seus comentários e palestras sobre outros Koans são notórios, pois era um grande apreciador da obra máxima de mestre Eihei Dogen, chamada Shobogenzo, na qual muitos casos são mencionados. Maezumi Roshi também praticou com um mestre da tradição Rinzai (Koryu Roshi) e acreditava que o uso de Koans facilitava o processo do despertar. Quando cheguei ao Mosteiro Feminino de Nagoya, tanto nossa superiora-geral, Aoyama Shundo Docho Roshi, como meu falecido mestre de transmissão dos ensinamentos, Zengetsu Suigan Daiosho (Yogo Roshi), discursaram inúmeras vezes sobre vários dos casos aqui selecionados. Espero que esta compilação singela e despretensiosa provoque em você — leitora e leitor — o anseio pelo encontro profundo e verdadeiro com sua própria natureza. E que, da apreciação, reflexão, estudo e meditação sobre esses contos, você seja capaz de acessar a mente desperta e torná-la cada vez mais sua, mais íntima, mais clara. Que os méritos se estendam a todos os seres e que possamos nos tornar o Caminho Iluminado. Mãos em prece, Monja Coen Agradecimentos Declaro aqui minha dívida de gratidão ilimitada a Xaquiamuni Buda e Mahaprajapati, o fundador histórico do budismo e a primeira monja histórica. Sem eles, nenhum desses casos seria contado e recontado. Agradeço a todos e todas as praticantes da Índia, China e Japão, por onde os ensinamentos passaram e de lá hoje se espalham por todo o mundo. A meus mestres de ordenação, treinamento e transmissão, bem como a todas as pessoas que acreditam no caminho do despertar da mente para a construção de uma cultura de paz, justiça e cura. Agradeço à Editora Planeta, que insistiu para que eu escrevesse este livro, e a todos os que facilitaram minha vida para que eu pudesse me sentar e apreciar mais uma vez as histórias antigas e sábias. Agradeço a toda a vida do céu e da Terra. 1 Mu Um monge perguntou ao mestre Joshu: — O cão tem natureza Buda? O mestre respondeu: — Mu. • Esse é geralmente o primeiro Koan que se dá a um praticante. Foi o primeiro que recebi quando praticava no Zen Center de Los Angeles, depois de haver me estabelecido na prática de meditação sentada. Esse Koan é chamado de primeira barreira. Disse o mestre Mumon: — Se não ultrapassar esta barreira, se não cortar o caminho do pensar, você será como um fantasma se agarrando a arbustos e ervas daninhas. Como ir além do pensar? Como se tornar um ser verdadeiro e não uma sombra de si mesmo, umfantasma que se agarra a coisa frágeis e supérfluas? Mestre Joshu é um dos mais celebrados mestres da China antiga. Viveu de 778 a 897. Aos 17 anos de idade teve sua primeira experiência zen e ensinou até morrer, aos 120 anos de idade. O jovem monge que o procura está realmente decidido a compreender o que é natureza Buda, o que é o sagrado. Vamos lembrar que cães na China antiga não eram os animais que hoje colocamos dentro de casa — alguns até dormem em nossos sofás ou camas. Eram os animais chamados “imundos”.

Comiamfezes, restos humanos. O jovem monge quer saber o que muitos de nós queremos saber: o bandido, o estuprador, o corrupto, o degolador de pessoas, o sádico, a pessoa má, os seres dos infernos, o “imundo” temnatureza divina, sagrada, natureza iluminada, natureza Buda? Não é assim que questionamos? Estariam os céus e os seres benéficos pairando acima dos odores fétidos das nossas perfídias? O mestre, percebendo que o momento de maturidade havia chegado, não perde tempo comexplicações e exclama apenas: — Mu. O que significa esse “mu”? A palavra em si, em caracteres chineses e leitura japonesa, quer dizer “não”. Entretanto, o mestre não está negando que o cão tenha natureza iluminada. Esse “mu” é muito maior que uma negação. Houve outros momentos em que outros monges o questionaram e ele respondeu o oposto: “yu”. Mas a realidade está além do ser e do não ser. Como atravessar essa barreira? Se ficarmos presos às palavras, nos perderemos. Tudo o que existe é a natureza Buda se manifestando. Em toda parte, em tudo e em todos. Onipresente. Onisciente. Minha superiora no Mosteiro Feminino de Nagoia, Aoyama Shundo Docho Roshi, ao receber irmãs beneditinas da Europa em nossa clausura, disse a elas: — Talvez o que vocês chamem de Deus, nós chamamos de natureza Buda. Então, a pergunta do monge vai se esclarecendo. Ele quer saber se Deus está também no sujo, no mal, nas impurezas dos seres. Por que permitiria o sofrimento, a dor, a maldade? O mestre, de compaixão ilimitada, apenas murmura: “Mu”. Certa feita, perguntaram a Buda qual seria a causa primeira, já que em seus ensinamentos tudo o que existe é uma trama de causas, condições e efeitos. Buda silenciou. Ele não negou. Silenciou. Em outra ocasião, respondeu: — A mente humana é limitada para compreender o ilimitado. No budismo não se reza a Deus. Mas os padres e madres do deserto também não o fazem. Certa ocasião, um padre do deserto (ordemcatólica de padres e madres reclusos que fazem voto de silêncio e vivem em solidão, nas suas celas) conseguiu uma licença especial para ficar alguns dias em nosso Zen Center de Los Angeles. Pouco antes de voltar ao seu mosteiro, pedimos que nos falasse um pouco sobre sua prática e ele, entre outras coisas, disse: — Nós sabemos Deus.

Como podemos pedir qualquer coisa? Como podemos reclamar e querer fazer trocas com o Criador? Nossas preces são apenas para bendizer o céu, o sol, a lua, a vida. Diferentemente de mestre Joshu, estou colocando mais palavras na sua cabeça. Apenas penetre e se torne a própria natureza Buda, pratique “Mu”. Esclareça o pensar, o não pensar e vá além do pensar e do não pensar. “Ficar arruinado e sem-teto”, expressão de mestre Joshu ao despertar, é perder a identidade criada pelos condicionamentos, é abandonar ideias e conceitos sobre o bem e sobre o mal. Ao adentrar a mente una, saboreie o manjar celestial em cada gota d’água, em cada grão de arroz. Aprecie “Mu”. Aprecie a “natureza Buda”. Aprecie “mestre Joshu”. Aprecie o monge. Aprecie a sua vida! 2 Joshu e o Grande Caminho Certa vez, um homem encontrou Joshu, que estava ocupado varrendo o pátio do mosteiro. Feliz com a oportunidade de falar com um grande mestre, o homem, imaginando conseguir de Joshu respostas para a questão metafísica que o atormentava, perguntou: — Oh, mestre! Onde está o Caminho? Joshu, sem parar de varrer, respondeu: — O caminho passa ali fora, depois da cerca. — Mas — replicou o homem, meio confuso — eu não me refiro a esse caminho. Parando seu trabalho, o mestre olhou para ele e disse: — Então, de que caminho se trata? O outro falou, em tom místico: — Falo, mestre, do Grande Caminho! — Ahhh, esse! — sorriu Joshu. — O Grande Caminho segue por ali até a capital. — E continuou a varrer. • Mestre Joshu (778-897) era discípulo de outro grande mestre zen, Nansen Fugan (748-835). Teve sua experiência mística antes dos 20 anos de idade e morreu com quase 120 anos. Era conhecido pelas palavras diretas e simples. Comentavam que o Zen brilhava em seus lábios. Jamais se perdia em explicações metafísicas. A realidade precisa ser experimentada. O Grande Caminho está manifesto nas atividades simples da vida diária — varrer o jardim, por exemplo. O homem que o procurava queria ter uma conversa filosófica e profunda com o mestre, mas Joshu não era um mestre de discursos e muitas palavras. Sempre foi um monge ativo, honrando a linhagem a que pertencia.

Essa linhagem era conhecida como a da iluminação súbita, baseada nos ensinamentos do Sexto Ancestral, o famoso Daikan Eno — que de simples lenhador se tornou o responsável pela Escola Soto Zen. Duas gerações depois dele surgiram outros dois grandes mestres: Baso Doitsu (709-788) e Sekito Kisen (700-790). No período de 750 a 900, a maioria dos professores budistas reverenciava a Escola Zen, na China. O professor de Joshu, Nansen, era discípulo de Baso, conhecido por seus ensinamentos severos e diretos, como no caso de Hyakujo e dos patos. Estamos comentando eventos dentro de uma mesma família.

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