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120 dias de Sodoma; ou escola de libertina – Marques de Sade

As guerras consideráveis que Luís XIV travou durante seu reinado, espoliando as finanças do Estado e os recursos do povo, enriqueceram secretamente uma multidão de sanguessugas sempre atenta às calamidades públicas, que provocam e nunca aplacam, para tirar proveito com maiores vantagens. O fim daquele reinado, por sinal tão sublime, talvez tenha sido uma das épocas do império francês em que mais surgiram dessas fortunas obscuras que não resplandecem senão por um luxo e devassidões tão nefastas quanto elas. Pouco antes do fim desse reinado e do Regente tentar forçar essa multidão de vigaristas a restituir tudo que tomara, por meio do famoso tribunal conhecido como Chambre de Justice, 1 quatro dentre eles imaginaram as singulares orgias de devassidão que vamos relatar. Enganar-se-ia quem imaginasse que apenas plebeus se dedicaram a essa extorsão fiscal, 2 pois era encabeçada por senhores muito notáveis. O Duque de Blangis e seu irmão, o Bispo de…, que assim acumularam fortunas imensas, são provas incontestáveis de que a nobreza não desprezava mais do que outros a possibilidade de enriquecer desse modo. Esses dois ilustres personagens, intimamente ligados, tanto pelos prazeres como pelos negócios, ao famoso Durcet e ao Presidente de Curval, foram os primeiros a conceber a devassidão cuja história escrevemos e, tendo informado seus dois amigos, os quatro tornar-se-iam os protagonistas dessas orgias. Havia mais de seis anos que, unidos por uma conformidade de riquezas e gostos, nossos quatro libertinos planejavam estreitar mais ainda seus laços por meio de alianças em que a devassidão desempenharia um papel muito maior do que qualquer outro dos motivos que costumam fundamentar tais vínculos; eis o modo como se arranjaram. O Duque de Blangis, viúvo de três mulheres, uma das quais lhe dera duas filhas, percebera que o Presidente de Curval manifestava uma certa vontade de desposar sua filha mais velha; mesmo sabendo perfeitamente de todas as liberdades que o pai tomara com ela, o Duque, como dizia, imaginou subitamente essa tríplice aliança. “Quereis Julie como esposa”, disse ele a Curval, “consinto sem hesitar, impondo uma única condição: que vós não sintais ciúmes dela, e que, embora sendo vossa esposa, ela possa continuar mantendo comigo as mesmas complacências que sempre teve. Ademais, quero que vós junteis a mim para convencer nosso amigo comum, Durcet, a me conceder sua filha Constance, por quem, confesso, tenho mais ou menos os mesmos sentimentos que alimentais por Julie.” “Todavia”, disse Curval, “decerto não ignorais que Durcet, tão libertino quanto vós…” “Sei tudo quanto se pode saber”, continuou o Duque. “Ora, será que com a nossa idade e o nosso modo de pensar, coisas assim nos podem deter? Pensais que quero uma mulher para torná-la minha amante? Apenas a quero para servir meus caprichos, para velar, encobrir uma infinidade de pequenas devassidões secretas que o manto do Himeneu oculta primorosamente. Em suma: quero-a como quereis minha filha; ou julgais que ignoro tanto vosso intuito como vossos desejos? Nós, libertinos, queremos esposas que sejam nossas escravas; sua qualidade de esposas as torna mais submissas do que amantes, e bem sabeis o quanto vale o despotismo para os prazeres do nosso agrado.” Neste momento entra Durcet. Mal tinham os dois amigos lhe participado sua conversa e o devasso, extasiado por essa deixa que lhe permitia confessar seus sentimentos para com Adélaïde, filha do Presidente, já aceitara o Duque como genro sob condição de tornar-se o mesmo para Curval. Os três casamentos foram logo decididos e tantos os dotes como as cláusulas foram imensos. Tão descomedido quanto seus dois amigos, o Presidente logo confessou, o que em nada desagradou a Durcet, seu pequeno comércio secreto com a própria filha, o que levou esses três pais, cada qual querendo conservar seus direitos e ampliá-los mais ainda, a concordar que as três moças, vinculadas a seus esposos unicamente pelos bens e pelo nome, não deviam pertencer, quanto a seus corpos, a nenhum deles mais do que a outro, mas antes de modo igual a cada um, sob pena das mais severas punições, caso elas tentassem infringir qualquer uma das cláusulas às quais estariam sujeitas. Na véspera dos casamentos, o Bispo de…, já ligado aos dois amigos de seu irmão pelos prazeres, propôs incluir um quarto elemento na aliança, caso quisessem deixá-lo compartilhar dos três outros. Tal elemento, a segunda filha do Duque, ou seja, sua sobrinha, pertencia-lhe bem mais do que se poderia imaginar. Tivera relações com sua cunhada, e ambos os irmãos sabiam sem sombra de dúvida que a existência dessa jovem, chamada Aline, se devia mais certamente ao Bispo do que ao Duque. O Bispo, que se encarregara de cuidar de Aline desde o berço, não a vira, como se pode supor, adquirir encantos sem deles querer gozar. Assim, ele se encontrava em pé de igualdade com seus comparsas e o suplemento que propunha ao comércio tinha o mesmo grau de malefício ou de degradação. Ademais, como os encantos e a terna juventude de Aline excediam em muito os de suas três companheiras, a proposta foi aceita sem pestanejar. O Bispo, assim como os três outros, sem entretanto deles abrir mão, cedia seus direitos, e cada um dos nossos quatro personagens assimligados passou, portanto, a ser marido de quatro mulheres. Desse acordo, o qual convém recapitular para a facilidade do leitor, resultou o seguinte: que o Duque, pai de Julie, tomou Constance, filha de Durcet, por esposa; que Durcet, pai de Constance, tomou Adélaïde, filha do Presidente, por esposa; que o Presidente, pai de Adélaïde, tomou Julie, filha mais velha do Duque, por esposa; e que o Bispo, tio e pai de Aline, tomou as três outras por esposa, e cedeu esta a seus amigos, com ressalva dos direitos que continuava a se reservar sobre ela.


Celebraram essas felizes núpcias numa magnífica propriedade do Duque, no Bourbonnais, e deixo para os leitores imaginarem as orgias que lá ocorreram. A necessidade de retratar outras tantas nos proíbe o prazer que sentiríamos ao descrever estas. Com isso, a parceria dos nossos quatro amigos ficara ainda mais estável, e como importa familiarizar o leitor com eles, uma breve exposição de seus pendores lúbricos bastará, a meu ver, para esclarecer as características dessas devassidões, até que as retomemos, cada uma por sua vez e separadamente, para desenvolvê-las melhor ainda. A sociedade mantinha um fundo comum que cada um deles administrava alternativamente, durante seis meses; os recursos desse fundo, apenas destinados aos prazeres, eram imensos. A fortuna excessiva de cada um lhes permitia coisas muito singulares neste ponto e o leitor não se deve espantar quando souber que, a cada ano, dois milhões eram destinados aos prazeres da boa mesa e da lubricidade. Quatro famosas alcoviteiras cuidavam das mulheres, e igual número de mercúrios 3 ocupavam-se dos homens, sem outros afazeres que os de encontrar-lhes, tanto na capital como nas províncias, tudo aquilo que, num e noutro gênero, melhor conviria para saciar-lhes a sensualidade. Cada semana realizavam regularmente quatro ceias, em quatro casas de campo diferentes, situadas em quatro diferentes pontos de Paris. Destinada exclusivamente aos prazeres da sodomia, a primeira dessas ceias só admitia homens. Compareciam regularmente dezesseis jovens entre vinte e trinta anos, cujas faculdades imensas permitiam aos nossos quatro heróis, na condição de mulheres, desfrutarem os prazeres mais sensuais. Eram escolhidos apenas pelo tamanho do seu membro e era quase imprescindível que esse membro soberbo apresentasse uma tal magnificência que nunca pudesse ter penetrado mulher alguma. Essa era uma cláusula essencial, raramente desobedecida, uma vez que nada poupavam em termos de despesas. Entretanto, para usufruírem simultaneamente de todos os prazeres, juntavam a esses dezesseis maridos um mesmo número de rapazes muito mais jovens que deviam fazer as vezes de mulheres. Suas idades oscilavam entre doze e dezoito anos e, para seremadmitidos, precisavam exibir um vigor, formas, graças, uma feição, uma inocência e uma candura bem superiores a tudo o que nossos pincéis poderiam retratar. Mulher alguma era admitida nessas orgias masculinas nas quais se punha em prática tudo o que Sodoma e Gomorra inventaram de mais licencioso. A segunda ceia era dedicada a moças finas que, obrigadas a renunciar ao orgulho de sua ostentação e à arrogância costumeira de seu porte em virtude das quantias que recebiam, haviam de se entregar aos caprichos mais anômalos e, com certa frequência, aos ultrajes que nossos libertinos se compraziam em lhes infligir. Eram geralmente doze e, como Paris não conseguiria suprir esse gênero com a variedade e a frequência necessárias, essas noitadas alternavam-se com outras, em que apenas se admitia o mesmo número de mulheres respeitáveis, desde a classe dos procuradores até a dos oficiais. Dentre uma ou outra dessas categorias, existem, em Paris, mais de quatro ou cinco mil mulheres que a necessidade ou o luxo obrigam a participar desse tipo de orgias; basta ter ótimos servidores para encontrá-las e nossos libertinos, que sempre se esmeraram nesse ponto, descobrirammaravilhas nessas classes singulares. Embora se tratasse de mulheres honestas, deviam submeter-se a tudo e a libertinagem, que nunca admite limite algum, exalta-se notavelmente por sujeitar a horrores e infâmias aquelas que a natureza e a convenção social pareciam ter posto a salvo de tais provações. Quem aceitasse ir havia de fazer tudo, e como nossos quatro celerados tinham todos os gostos da mais crapulosa e insigne devassidão, esse consentimento essencial a seus desejos não era um mero detalhe. A terceira ceia era reservada às criaturas mais vis e hediondas que se pudessem encontrar. Para os que conhecem os desregramentos da devassidão, tal refinamento parecerá muito natural; nada mais voluptuoso do que chafurdar, por assim dizer, na imundície com criaturas dessa espécie; aí estão o mais completo abandono, a mais monstruosa crápula, o mais pleno aviltamento e esses prazeres, comparados aos saboreados na noite anterior, ou às criaturas distintas que os proporcionaram, apimentavam muito a ambos os excessos. Nessa ceia, como a devassidão era mais completa, nada faltava para torná-la tão variada quanto picante. Cem putas compareciam durante seis horas e as cem raramente saíam inteiras. Mas não precipitemos as coisas; tal refinamento se prende a detalhes aos quais ainda não chegamos. O quarto jantar era reservado às donzelas.

Recebiam apenas as que tinham entre sete e quinze anos. Sua condição era irrelevante, só a aparência contava: tinhamde ser encantadoras e havia de se ter certeza de sua castidade: era preciso que fossem autênticas. Incrível refinamento da libertinagem. Não se tratava, seguramente, de colher todas essas rosas, pois não conseguiriam, uma vez que vinte eram sempre oferecidas e que apenas dois, entre nossos quatro libertinos, tinham condição de praticar esse ato; quanto aos restantes, o financista era absolutamente incapaz de chegar a uma ereção, e o Bispo, embora pudesse desonrar uma virgem, só conseguia gozar de um modo que a deixava sempre intacta. Seja como for, a presença dessas vinte donzelas era necessária, e as que eles não danificavam pessoalmente tornavam-se, diante deles, a presa de alguns criados tão devassos quanto eles, os quais sempre tinham a seu serviço por vários motivos. Além dessas quatro ceias, havia outra, secreta e particular, todas as sextas-feiras, com bem menos participantes do que nas quatro acima, embora, talvez, fosse infinitamente mais cara. Nesta só eramadmitidas quatro moças de boa estirpe, arrancadas da casa dos pais à força de artimanhas e dinheiro. As mulheres de nossos libertinos participavam com frequência dessa libertinagem, que sua extrema submissão, seus cuidados, seus serviços, tornavam sempre mais ardente. Quanto à mesa desses jantares, inútil dizer que a profusão e a delicadeza reinavam juntas; cada uma dessas refeições não custava menos de dez mil francos e reunia tudo o que a França e as nações estrangeiras pudessemoferecer de mais raro e requintado. Os vinhos e os licores tinham o mesmo primor e a mesma abundância e havia frutas de todas as estações, inclusive em pleno inverno; em suma: podemos garantir que a mesa do maior monarca da terra certamente não era servida com tanto luxo e magnificência. Voltemos um pouco atrás e retratemos ao leitor, da melhor forma possível, cada um desses quatro personagens em particular, sem embelezá-los nem tentar seduzir ou cativar, mas com os próprios pincéis da natureza, a qual, apesar de toda sua desordem, costuma ser sublime, mesmo quando mais se corrompe. Pois, diga-se de passagem, embora o crime não possua o tipo de delicadeza encontrado na virtude, não é ele sempre mais sublime? Não tem um caráter constante de grandeza e sublimidade que prevalece e sempre prevalecerá sobre os encantos monótonos e efeminados da virtude? Quereis falar-nos da utilidade de um ou de outra? Será que nos cabe sondar as leis da natureza, ou decidir se, sendo-lhe o vício tão necessário como a virtude, ela talvez nos inspire de modo igual um pendor para um ou para a outra, em razão de suas necessidades próprias? Mas continuemos. O DUQUE DEBLANGIS, que aos dezoito anos já era dono de uma fortuna imensa, a qual só fez aumentar emrazão de suas extorsões fiscais, foi acometido por todos os incômodos que surgem aos milhares emtorno de um homem jovem, rico e influente, que tudo pode permitir-se: com frequência, em tais casos, os vícios são a medida das forças e quanto mais facilmente se consegue tudo, menos freios haverá para aqueles. Houvesse o Duque recebido da natureza algumas qualidades primitivas, talvez tivessem compensado os perigos de sua posição. Entretanto, essa mãe extravagante parece por vezes compactuar com a fortuna para que esta favoreça todos os vícios, os quais concede a certos seres de quem espera zelos muito diferentes do que aqueles que a virtude supõe, pela simples razão de que necessita tanto destes como dos outros; a natureza, digo, para que Blangis pudesse abusar da riqueza imensa que lhe reservara, havia precisamente lhe insuflado todos os movimentos e inspirações necessários. Além de um espírito muito nefasto e malvado, dera-lhe a alma mais celerada e inflexível e uma desordem de gostos e caprichos donde nascia a pavorosa libertinagem para a qual o Duque tinha tanta inclinação. Nascera falso, implacável, imperioso, bárbaro, egoísta, tão pródigo para seus prazeres quanto avarento quando havia de ser útil, mentiroso, guloso, beberrão, covarde, sodomita, incestuoso, assassino, incendiário, ladrão, sem que virtude alguma compensasse tantos vícios. E digo mais: não apenas não venerava nenhuma delas, como abominava todas; era comum ouvi-lo dizer que, para ser verdadeiramente feliz nesse mundo, um homem somente havia de se entregar a todos os vícios, sem nunca se permitir virtude alguma, pois não se tratava apenas de sempre fazer o mal, como também de nunca fazer o bem. “Muita gente”, dizia o Duque, “só se volta para o mal quando suas paixões as levam a isso; passado o desvario, sua alma tranquila retoma serenamente o caminho da virtude e, ao passarem assim sua vida de combates em erros e de erros em arrependimentos, acabamsem que seja possível dizer exatamente que papel desempenharam na terra”. “Tais seres”, continuava, “hão de ser infelizes, sempre oscilantes, sempre indecisos; sua vida inteira consiste emdetestar de manhã o que fizeram à noite. Certos de se arrependerem dos prazeres que provam, estremecem ao permiti-los, de modo que se tornam ao mesmo tempo virtuosos no crime e criminosos na virtude.” “Meu caráter mais sólido”, acrescentava nosso herói, “nunca se desmentiria desse modo. Nunca hesito em minhas escolhas, e sempre certo de encontrar prazer nas que faço, nenhumarrependimento jamais vem embotar seus encantos. Firme nos princípios que tomei como certos, desde a mais tenra idade, ajo sempre em coerência com eles. Deram-me a conhecer o vazio e o nada da virtude: odeio-a e ninguém nunca me verá voltar a ela.

Convenceram-me de que apenas o vício podia inspirar no homem essa vibração moral e física, fonte das mais deliciosas volúpias; a ele me entrego. Plenamente convencido de que a existência do criador é um absurdo revoltante no qual nemmesmo as crianças acreditam mais, desde cedo me coloquei acima das quimeras da religião. Não sinto a menor necessidade de restringir minhas inclinações no intuito de agradá-lo. Recebi essas inclinações da natureza e irritá-la-ia se a elas resistisse; se ela as fez malévolas, é porque se tornaram necessárias a seus desígnios. Sou apenas uma máquina em suas mãos, que ela move a seu bel-prazer e não há crime meu que não lhe sirva; quanto mais os inspira em mim, mais ela precisa deles: eu seria um tolo, caso lhe resistisse. Portanto, nada há contra mim, a não ser leis que desafio; meu ouro e meu crédito me colocam acima desses flagelos vulgares que devem apenas afligir o povo.” Se alguém levantasse a objeção de não obstante existirem, em todos os homens, ideias do justo e do injusto que somente poderiam ser fruto da natureza, uma vez que se encontram igualmente entre todos os povos, mesmo entre os não civilizados, o Duque responderia afirmativamente que essas ideias nunca eram senão relativas, que o mais forte sempre achava muito justo o que o mais fraco via como injusto e que bastava mudar suas posições respectivas para que, ao mesmo tempo, ambos mudassem também seu modo de pensar; donde concluía que nada havia de realmente justo, a não ser o que gerava prazer, e de injusto, senão o que trazia penas; que no momento em que tomava cem luíses do bolso de um homem, fazia uma coisa muito justa para si mesmo, muito embora o homem roubado devesse ver isso com outros olhos; não sendo, então, todas essas ideias senão arbitrárias, haveria de ser louco quem se deixasse acorrentar por elas. Com raciocínios desse tipo, o Duque legitimava todos os desregramentos e, como não lhe faltava espírito, seus argumentos pareciam decisivos. Moldando, portanto, sua conduta na sua filosofia, o Duque, desde a mais tenra idade, entregara-se irrestritamente aos desvarios mais vergonhosos e extraordinários. Como já disse, seu pai morrera jovem, deixando-o dono de uma fortuna imensa; entretanto, ele havia estipulado uma cláusula para que o moço deixasse sua mãe fruir, enquanto vivesse, de grande parte dessa fortuna. Essa condição logo desagradou a Blangis e o celerado, só encontrando no veneno um meio de impedi-la, deu cabo imediatamente à tarefa. Contudo, o velhaco, que assim debutava na carreira do vício, não ousou agir pessoalmente: exortou uma de suas irmãs, com a qual vivia em intriga criminosa, a encarregar-se da execução, convencendo-a de que, caso fosse bem-sucedida, poderia fruir de parte da fortuna que a ele caberia com essa morte. Ora, a moça abominou essa ação e o Duque, vendo que seu segredo malconfidenciado poderia ser traído, decidiu na hora juntar à sua vítima aquela que quisera ter por cúmplice. Levou a ambas para uma de suas terras de onde as infelizes jamais voltaram. Nada é mais estimulante do que um primeiro crime impune. Após essa provação, o Duque soltou todos seus freios. Bastava um ser qualquer opor o mais leve entrave a seus desejos para ele logo recorrer ao veneno. Dos assassinatos necessários, logo passaria aos assassinatos por volúpia: concebeu esse infeliz desregramento que faz com que se encontremprazeres nos males de outrem; sentiu que uma violenta comoção aplicada em um adversário qualquer trazia à massa dos nervos uma vibração cujo efeito, ao irritar os espíritos animais que correm na concavidade desses nervos, obriga-os a pressionar os nervos eretores e a produzir, a partir desse abalo, o que se chama de sensação lúbrica. Em consequência, passou a cometer roubos e assassinatos, unicamente por princípio de devassidão e libertinagem, assim como um outro se contenta em procurar mulheres para inflamar as mesmas paixões. Aos vinte e três anos, mancomunado com três companheiros de vício nos quais infundira sua filosofia, pararam uma diligência numa estrada principal, estupraram tanto os homens quanto as mulheres, e assassinaramtodos em seguida; apoderaram-se do seu dinheiro, do qual, certamente, estes não precisariam mais, e se encontraram, na mesma noite, no baile da Ópera, de modo a terem um álibi. Esse crime ocorreu com requintes: duas moças encantadoras foram estupradas e massacradas nos braços de suas mães; acrescentaram a isso uma infinidade de outros horrores e ninguém ousou suspeitá-lo. Farto de uma esposa encantadora que seu pai lhe destinara pouco antes de morrer, o jovem Blangis logo a despachou para junto das almas de sua mãe, de sua irmã e de todas suas outras vítimas, para desposar outra bastante rica, mas publicamente desonrada e que ele sabia muito bem ser amante de seu irmão. Era a mãe de Aline, mencionada acima, um dos personagens de nosso romance. Como a primeira, essa segunda esposa foi logo sacrificada e substituída por uma terceira, logo imolada como a segunda. Dizia-se, na sociedade, que era a enormidade de sua constituição que matava assim todas suas mulheres e, como ele tinha mesmo essa aparência gigantesca, o Duque deixou essa opinião se difundir ocultando a verdade.

Esse colosso pavoroso fazia realmente pensar em Hércules ou numcentauro: o Duque media cinco pés e onze polegadas, 4 membros de grande força e energia; muito vigor nas articulações e muita elasticidade nos nervos… Acrescentai a isso um semblante másculo e altivo, enormes olhos negros, lindas sobrancelhas castanho-escuras, um nariz aquilino, belos dentes, uma aparência de saúde e frescor, ombros largos, uma compleição robusta e ao mesmo tempo perfeitamente delineada, lindos quadris, nádegas esplêndidas, as pernas mais bonitas do mundo, uma índole vigorosa, a força de um cavalo e o membro de um autêntico jumento, surpreendentemente peludo, dotado da faculdade de perder esperma tantas vezes quanto quisesse por dia, mesmo aos cinquenta anos, sua idade à época, quase sempre em ereção, com oito polegadas exatas de circunferência por doze de comprimento e tereis o retrato do Duque de Blangis como se o tivésseis desenhado pessoalmente. Se essa obra-prima da natureza já era violenta em seus desejos, o que dizer dele, meu deus do céu! quando arrebatado pela embriaguez da volúpia. Não era mais um homem, era um tigre enfurecido. Ai de quem servia a suas paixões nessas horas: gritos medonhos, blasfêmias atrozes irrompiam de seu peito inchado; parecia, então, lançar chamas pelos olhos, espumando, relinchando, podendo ser tomado pelo próprio deus da lubricidade. Nesses momentos, independentemente do que o fazia gozar, suas mãos sempre perdiam o controle, e há quem já o viu, em mais de uma oportunidade, estrangular mulheres na hora de seu pérfido esporro. Tendo-se restabelecido, seu desvario logo era substituído pelo mais completo descaso a respeito das infâmias que acabava de se permitir, e dessa indiferença, dessa espécie de apatia, nasciam quase imediatamente novas centelhas de volúpia. Em sua juventude, o Duque chegou a esporrar dezoito vezes num único dia sem parecer mais esgotado na última perda do que na primeira. Sete ou oito vezes, em vinte quatro horas, sequer o assustavam, apesar de seu meio século de vida. Havia quase vinte e cinco anos que se afeiçoara à sodomia passiva, cujas investidas suportava com o mesmo vigor com que ele mesmo as infligia ativamente, logo a seguir, quando lhe agradava mudar de papel. Aguentara um desafio de até cinquenta e cinco investidas num dia. Dotado, como mencionamos, de uma força portentosa, uma única mão lhe bastava para estuprar uma moça, como já comprovara várias vezes. Um dia, apostou que conseguiria sufocar um cavalo entre suas pernas e o animal espichou no exato momento que indicara. Seus descomedimentos à mesa excediam os da cama, se isto é possível. Ninguém conseguia imaginar para onde ia a imensidade de alimentos que engolia. Costumava fazer três refeições, todas muito demoradas e fartas, que só tinham em comum dez garrafas de vinho de Borgonha; já chegara a beber trinta delas e estava louco para encontrar alguémque apostasse que ele não seria capaz de chegar a cinquenta. Ora, sua embriaguez adquiria as cores de suas paixões e bastava os licores ou os vinhos aquecerem sua alma para que se enfurecesse; então era preciso amarrá-lo. Uma prova de que a alma raramente reflete as disposições corporais, apesar disso tudo — quem diria? —, uma criança decidida apavoraria esse colosso. Caso não pudesse lançar mão de seus ardis ou de traições para se livrar de seu inimigo, tornava-se tímido e covarde e, a simples ideia do mais inofensivo combate em igualdade de forças, o teria feito fugir até o fim do mundo. Havia, entretanto, segundo o uso, participado de uma ou duas campanhas, mas se desonrara a tal ponto que abandonara imediatamente o serviço. Sustentando sua torpeza com tanto espírito quanto impudência, asseverava, altivo, ser perfeitamente impossível pessoas sensatas censurarem sua covardia como um defeito, pois não passava de um desejo de conservação. Mantendo absolutamente os mesmos traços morais e adaptando-os a uma existência física infinitamente inferior àquela que acabamos de delinear, obtém-se o retrato do BISPO DE…, seu irmão. A negrura na alma era a mesma, assim como o pendor para o crime, o desprezo pela religião, o ateísmo, a velhacaria, mas tinha o espírito mais flexível e mais destro, mais criatividade para causar a morte de suas vítimas, uma cintura fina e leve, um corpo pequeno e franzino, uma saúde cambaleante, nervos muito delicados, maior refinamento nos prazeres, faculdades medíocres, ummembro muito comum, até pequeno; contudo, ele se poupava com tal arte e ejaculava tão pouco que sua imaginação constantemente inflamada o tornava suscetível de sentir prazer tão frequentemente quanto seu irmão; de resto, sensações tão refinadas, uma excitação tão prodigiosa, no sistema nervoso, que costumava desmaiar ao esporrar e quase sempre perdia os sentidos ao fazê- -lo. Aos quarenta e cinco anos, tinha uma fisionomia muito fina, olhos bastante bonitos, mas uma boca e dentes feios, o corpo branco, sem pelos, a bunda pequena, mas bem torneada, e um pau comcinco polegadas de circunferência por seis de comprimento. Idólatra da sodomia ativa e passiva, com uma clara preferência por esta última, passava a vida sendo enrabado e esse prazer, que nunca requer um grande desgaste de forças, combinava perfeitamente com seus recursos limitados. Mais adiante comentaremos seus outros gostos.

Quanto à mesa, levava os excessos quase tão longe quanto seu irmão mais velho, embora os enfeitasse com um pouco mais de sensualidade. Tão celerado quanto este, Monsenhor possuía traços que, sem dúvida, o igualavam às ações incomuns do herói que acabamos de retratar. Contentar-nos-emos em citar um; bastará para instruir o leitor naquilo que um homem desses, tendo feito o que se lerá a seguir, sabe, pode e é capaz de fazer. Um de seus amigos, poderosamente rico, tivera, no passado, um caso com uma moça da alta sociedade que lhe dera dois filhos, uma menina e um menino. Entretanto, nunca pudera desposá-la e ela se tornara mulher de outro. Embora dono de uma imensa fortuna, o amante dessa infeliz morreu jovem; não tendo parentes realmente próximos, ocorreu-lhe deixar todos seus bens aos dois infelizes frutos do seu caso. Na hora da morte, confiou seu projeto ao Bispo e o encarregou desses dois dotes imensos, repartidos em duas carteiras iguais que entregou ao Bispo, confiando-lhe a educação dos dois órfãos, até atingirem a idade prescrita pelas leis para que pudessem receber o que cabia a cada um. Também pediu ao prelado que, até esse momento chegar, fizesse valorizar os fundos de seus pupilos, de modo a dobrar sua fortuna. Afirmou ainda seu desejo de que a mãe ignorasse eternamente o que fazia para seus filhos e exigiu terminantemente que ela nunca ficasse sabendo. Tomadas essas disposições, o moribundo fechou os olhos e Monsenhor se viu dono de quase um milhão em notas bancárias e de duas crianças. O celerado não hesitou muito: o moribundo não falara senão com ele, a mãe havia de ignorar tudo e os filhos tinham apenas quatro ou cinco anos de idade. Tornou público que seu amigo, ao morrer, deixara seus bens aos pobres e, no mesmo dia, o gatuno deles se apoderou. Entretanto, não lhe bastava arruinar essas duas infortunadas crianças; de posse da autorização de seu amigo, o Bispo, que nunca cometia um crime sem já conceber outro na hora, foi retirar essas crianças do pensionato obscuro onde eram criadas e as colocou em casa de gente sua, decidindo desde já que logo serviriam a suas pérfidas volúpias. Esperou completarem treze anos. O moço chegou a essa idade primeiro; dele se serviu, adestrou-o para todas suas devassidões e, como era extremamente bonito, divertiu-se com ele por quase oito dias. A moça, contudo, não teve tanta sorte: era muito feia quando completou a idade prescrita, o que, entretanto, não reteve o furor lúbrico do nosso celerado. Satisfeitos seus desejos, temia que, se os deixasse vivos, os dois conseguissem descobrir algo do segredo que lhes dizia respeito. Conduziu-os para uma propriedade de seu irmão e, certo de reencontrar num novo crime as centelhas de lubricidade que o gozo acabara de lhe fazer perder, imolou ambas às suas ferozes paixões e sua morte deu-se em meio a episódios tão picantes e cruéis que sua volúpia renasceu dos tormentos que lhes infligiu. Agora, esse segredo está infelizmente bem guardado demais, mas nenhum libertino minimamente ancorado no vício ignora o império do assassinato sobre os sentidos e o quanto este determina voluptuosamente um esporro. Eis uma verdade que o leitor haverá de guardar em mente antes de empreender a leitura de uma obra que busca tanto desenvolver esse sistema. Uma vez tranquilo quanto a todos esses acontecimentos, Monsenhor voltou a gozar em Paris do fruto de seus crimes audaciosos, e sem o menor arrependimento por ter burlado as intenções de um homem cuja situação impedia de sentir qualquer pena ou prazer. OPRESIDENTE DECURVAL era o decano da sociedade. Com quase sessenta anos e singularmente gasto pela devassidão, mais parecia um esqueleto. Era alto, seco e magro, com olhos fundos e baços, uma boca lívida e malsã, o queixo elevado, o nariz comprido. Coberto de pelos como um sátiro, suas costas mais lembravam uma tábua e suas nádegas moles e caídas, cuja pele murcha por tantas chicotadas podia ser torcida com os dedos sem que ele nada sentisse, pareciam dois esfregões sujos flutuando no alto de suas coxas.

No meio dessas, sem que fosse preciso apartá-las, oferecia-se um imenso orifício cujo diâmetro enorme, cheiro e cor, lembravam mais uma cloaca do que um olho do cu; e, para coroar tais atrativos, constava dos hábitos pessoais desse porco de Sodoma deixar sempre essa parte num tal estado de imundice que se podia ver a todo instante uma crosta de duas polegadas de espessura em volta. Debaixo de uma barriga tão enrugada quanto lívida e flácida, vislumbrava-se, numa floresta de pelos, uma ferramenta que podia ter aproximadamente oito polegadas de comprimento por sete de circunferência em estado de ereção, mas para atingi-la, o que era raro, dependia de uma furiosa sequência de coisas. Contudo, ainda acontecia ao menos duas ou três vezes por semana, e então o Presidente penetrava indistintamente qualquer buraco, muito embora o do traseiro de um menino lhe fosse infinitamente mais precioso. O Presidente era circuncidado, de modo que a cabeça de seu pau nunca estava coberta, disposição que facilita muito o gozo e à qual todas as pessoas voluptuosas deveriam submeter-se. Mas se tal procedimento sói manter essa parte mais limpa, este não era o caso de Curval, uma vez que, tão sujo nessa parte como na outra, essa cabeça descoberta, já naturalmente muito grossa, ganhava, desse modo, pelo menos uma polegada de circunferência. Igualmente sórdido em toda sua pessoa, o Presidente, que a isso acrescia gostos no mínimo tão porcos quanto sua pessoa, tornava-se um personagem cuja presença tão fedorenta podia não agradar a todos: mas seus compadres, que não se escandalizavam por tão pouco, nem tocavamnesse assunto. Poucos homens foram tão ágeis e devassos quanto o Presidente; no entanto, completamente apático e absolutamente embrutecido, restava-lhe apenas a depravação e a crápula da libertinagem. Eram necessárias mais de três horas de excesso, e dos mais infames, para lograr sentir uma cócega voluptuosa. Quanto ao esporro, embora ocorresse quase todos os dias, com mais frequência até que a ereção, era muito difícil de se conseguir; ou antes, apenas lhe ocorria quando realizava coisas tão singulares, e geralmente tão cruéis ou sórdidas, que os agentes de seus prazeres costumavam desistir, o que provocava nele uma espécie de cólera lúbrica que, às vezes, por seus efeitos, alcançava melhor êxito do que todos seus esforços. Curval estava tão profundamente mergulhado no lamaçal do vício e da libertinagem que lhe era praticamente impossível falar em outra coisa, e suas expressões mais sujas estavam sempre em sua boca e em seu coração. Entremeava-as com as mais vigorosas blasfêmias e imprecações, insufladas pelo verdadeiro horror que sentia, assim como seus compadres, por tudo que lembrasse a religião. Exacerbada pela embriaguez quase contínua em que se comprazia, essa desordem de espírito conferia-lhe, havia alguns anos, uma aparência de imbecilidade e de embrutecimento, fonte, segundo dizia, de suas mais caras delícias. Nascido tão guloso quanto beberrão, apenas ele conseguia acompanhar o Duque e, como veremos no decorrer desta história, realizava proezas nesse quesito que, sem dúvida, deixarão nossos mais ilustres glutões abismados. Havia dez anos que Curval não exercia mais seu cargo, não apenas porque não tinha mais condições como também, acredito, porque, mesmo se as tivesse, o teriamintimado a se afastar pelo resto de sua vida. Curval levara uma vida muito libertina, todos os tipos de desregramentos eram-lhe familiares e seus próximos desconfiavam muito que sua imensa fortuna se devia a dois ou três assassinatos execráveis. Seja como for, a história que se segue mostra o quanto esse tipo de excesso tinha o dom de comovê-lo poderosamente. Essa aventura que, infelizmente, tivera um certo alarde, foi justamente a que lhe valeu sua exclusão da Corte. Seu relato dará ao leitor uma ideia do caráter desse homem. Na vizinhança de seu palacete morava um infeliz carregador de rua que, pai de uma mocinha encantadora, era tão ridículo a ponto de ter sentimentos. Por mais de vinte vezes, todo tipo de mensagens, com propostas relativas à sua filha e visando a corromper esse infeliz e sua mulher, não lograram sensibilizá-los; Curval, responsável por essas incumbências, a quem a multiplicação das recusas só fazia irritar, já não sabia mais o que fazer para gozar da mocinha e submetê-la a seus caprichos libidinosos, quando, simplesmente, imaginou mandar rodar 55 o pai e levar sua filha para a cama. O plano, do qual participaram dois ou três pilantras contratados pelo Presidente, foi tão bemconcebido quanto executado. Antes do fim do mês o infeliz carregador foi envolvido num crime imaginário, aparentemente cometido diante de sua porta, que o levou direto para os cárceres da Conciergerie. 6 O Presidente, como bem imaginam, logo cuidou do caso e, como não queria demora, graças a suas tramoias e a seu dinheiro, o infeliz carregador foi condenado, três dias depois, a ser rodado vivo, sem nunca ter cometido outro crime senão querer resguardar sua honra e conservar a de sua filha. Entretanto, as solicitações recomeçaram. Procuraram a mãe para explicar-lhe que só dela dependia salvar o marido: bastava satisfazer o Presidente para arrancar seu marido da sorte horrível que o aguardava.

Não havia mais como hesitar. A mulher buscou informar-se: sabia-se perfeitamente bem a quem se dirigiria e os conselheiros foram comprados para responder, sem tergiversar, que ela não deveria hesitar um segundo sequer. A infortunada levou em prantos a própria filha aos pés do juiz; este prometeu tudo o que ela queria, mas sem o menor desejo de cumprir sua palavra. Caso a cumprisse, o celerado temia que o marido, posto em liberdade, fizesse um escândalo ao ver o preço que sua vida custara, mas, principalmente, deliciava-se de um modo bem mais picante ao receber o que queria sem nada ter de cumprir. Isto oferecia a seu espírito episódios de perversidade que ampliavam sua pérfida lubricidade; e eis como fez para tornar a cena mais infame e picante possível. Seu palacete parisiense ficava em frente a um lugar onde, por vezes, executavam criminosos. Como o delito fora cometido em seu bairro, conseguiu que a execução se desse no referido local. Na hora indicada, mandou levar para a sua casa a mulher e a filha daquele infeliz. Todas as janelas que davam para a praça estavam fechadas, de maneira que não se via, das dependências onde ele recebia suas vítimas, nada do que lá pudesse ocorrer. O celerado, sabendo a hora exata da execução, escolheu esse momento para deflorar a menina nos braços de sua mãe, e tudo foi arranjado com tanta destreza e precisão que o celerado esporrou no cu da filha precisamente no momento em que o pai expirava. Assim que executou o serviço, exclamou: “Vinde ver”, disse a suas duas princesas, abrindo uma janela que dava para a praça, “vinde ver como mantive a palavra.” E as infelizes viram, uma o pai, a outra o marido, expirando nas mãos do carrasco. Ambas caíram desmaiadas, mas Curval pensara em tudo: o desmaio fora a sua agonia, pois ambas haviam sido envenenadas e jamais reabriram os olhos. Apesar das muitas precauções que tomara para envolver todo esse caso nas trevas do mais profundo mistério, algo acabou resvalando; a morte das mulheres foi ignorada, mas ele foi considerado suspeito de prevaricação no caso do marido. O motivo quase veio à tona e tudo resultou na sua aposentadoria. Desse momento em diante, sem mais decoro a respeitar, Curval se lançou num novo mar de erros e crimes. Mandou buscar vítimas em todos os cantos para imolá-las à perversidade de seus gostos. Por um refinamento de atroz crueldade, embora fácil de compreender, a classe dos desafortunados era a que ele mais gostava de castigar com sua raiva pérfida. Dia e noite, várias mulheres procuravam para ele, nos sótãos e cortiços, tudo o que a miséria podia oferecer de mais abandonado e, sob pretexto de prestar socorro, quer os envenenava, um de seus passatempos prediletos, quer os atraía para sua casa e os imolava à perversidade de seus gostos. Homens, mulheres, crianças, tudo alimentava sua cólera e, nesse particular, cometeu excessos que lhe valeriam mil vezes perder a cabeça num cadafalso, se seu crédito e seu ouro não o tivessem salvo por mil vezes. Pode-se bem imaginar que um tal ser não tinha mais religião do que seus dois confrades; sem dúvida, abominava-a tão soberanamente quanto eles, embora tenha feito mais, no passado, para extirpá-la dos corações, pois, desfrutando de seu espírito contrário a ela, era o autor de várias obras de efeitos prodigiosos, e esse sucesso, que não lhe saía da memória, ainda constituía uma de suas mais caras volúpias. Quanto mais multiplicamos os objetos de nossos gozos… Colocar aqui o retrato de Durcet, como aparece no caderno 18, encadernado em cor-de-rosa e, após terminar esse retrato com essas palavras do caderno:… os débeis anos da infância, recomeçar assim: DURCET tem cinquenta e três anos; é pequeno, baixo, largo e corpulento; o rosto agradável e jovial, a pele muito clara. Todo o seu corpo, principalmente os quadris e as nádegas, assemelha-se totalmente ao de uma mulher; sua bunda é fresca, gorda, firme e rechonchuda, embora o cu seja excessivamente largo em razão do hábito da sodomia; seu pau é extraordinariamente pequeno: não excede duas polegadas de circunferência por quatro de comprimento e nunca fica duro; seus esporros são raros e muito custosos, pouco abundantes e sempre precedidos por espasmos que o lançam numa espécie de fúria, a qual o impele ao crime; tem peito de mulher, uma voz suave e agradável, e, quando em sociedade, se comporta muito bem, embora sua cabeça seja no mínimo tão depravada quanto a de seus confrades; foi colega de escola do Duque, e ainda brincam juntos todos os dias. Um de seus maiores prazeres é sentir o membro enorme do Duque roçando seu ânus.

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