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14 Contos de Kenzaburo Oe – Kenzaburo Oe

Roppongi é o bairro mais ocidentalizado de Tóquio. Como se estivessem emparedados pelo idioma e pelos três alfabetos, ali se concentram embaixadas e condomínios habitados por estrangeiros que trabalham no Japão. Na fronteira com o vizinho bairro de Azabu-Juban, existe a filial classuda de uma livraria que também vende e aluga CDs e DVDs, além de hospedar um café à moda ocidental, cujas mesas podem espraiar-se pelas calçadas também nos meses frios, graças a aquecedores. Na véspera de pegar seu voo de volta, um visitante ocidental vai àquela livraria pela última vez, a fim de comprar lembrancinhas para parentes e amigos. Mangás, cadernetas com capas delicadamente trabalhadas, fitas adesivas com o traçado do metrô de Tóquio. O casal de atendentes no balcão pergunta — em inglês, em japonês, por gestos, difícil dizer — se é necessário embrulhar cada produto para presente. O visitante ocidental pode, então, lançar mão do pouco que julga saber no idioma local e responder, com a reverência que julga adequada: “Lie, arigatô gozaimasu” (“Não, muito obrigado”). Por um breve instante, os vendedores parecem hesitar. E o visitante ocidental supõe captar uma expressão de desgosto, quase ultraje, em seus rostos. O incidente também perturba o visitante ocidental. A caminho do hotel, ele remói possíveis razões para o casal de atendentes ter, ainda que por um átimo, deixado de lado a proverbial impassibilidade nipônica e acusado algum golpe. Teriam ficado surpresos com o fato de um estrangeiro responder em japonês? Pouco provável, aquilo é básico, obrigatório saber. Teria ele cometido algum erro grave de pronúncia? Pouco provável, porque os sons do japonês são bastante semelhantes aos sons do português (Sato é Sato, não Seito, como diria um americano). O visitante ocidental por fimcompreende — com pesar — que usou uma palavra-tabu: “Não”. Desde que chegou ao Japão, pela primeira vez, há quase duas semanas, o visitante ocidental ouviu milhares, dezenas de milhares de “sim” (hai), mas não se lembra de ter ouvido ninguém falar umúnico “não” (lie), fosse para ele, fosse numa conversa entre dois habitantes. Numa sociedade tão precisamente coreografada, algo haveria de significar a virtual ausência dessa palavra na vida cotidiana. A resposta — ou talvez fosse mais correto dizer a confirmação — de sua suposição, o visitante ocidental só encontrou no caminho de volta para casa, numa parada em Paris, no livro de umantropólogo francês, comprado numa livraria da Rive Gauche. E m Tokyo, ville flottante (Tóquio, cidade flutuante, 2010), François Laplantine oferece, ao analisar as diferenças conceituais entre o japonês e o seu próprio idioma, uma explicação para o incidente na livraria de Roppongi. “O não existe. Se diz lie. Mas raramente é utilizado e não é exatamente nem o non francês nem o no inglês. […] À construção francesa ‘eu não posso, eu não quero, eu não irei’, que tem uma ressonância muito arrogante para um ouvido japonês, serão preferidas fórmulas do gênero ‘vou ver o que posso fazer’, ‘vou pensar sobre isso’ ou, mais ainda, ‘as circunstâncias são desfavoráveis’”, escreve o professor Laplantine, que já lecionou também em São Paulo. Ou seja, a negativa explícita é evitada por ser uma forma de descortesia, embora os japoneses sejam capazes de relevar leves infrações à sua etiqueta quando elas partem de um estrangeiro das Américas ou da Europa — e, às vezes, até de se divertir com elas, como quando um gaijin louro entra no elevador de um shopping falando alto. Porém, ao visitante ocidental que de boa-fé recusou o papel para presente na livraria de Roppongi, o uso descuidado da palavra “não” parece ligeiramente além da margem de tolerância. Qualquer sociedade enquadra os seus membros ao estabelecer tanto o que eles devem falar quanto o que devem calar.


Contudo, no Japão, tem-se a impressão de que a cota de silêncios significativos é sempre maior. Há um acordo tácito de que certas coisas não precisam ser ditas para serem compreendidas. Essa estratégia do falar, do calar e do pensar japonês pode exasperar um observador do Ocidente, mas mesmo este jamais poderá dizer que ela não está funcionando (há séculos). Não seria, portanto, um vazamento de material radioativo que mudaria isso. Quando reatores da usina nuclear de Fukushima apresentaram índices de radiação muito acima dos normais, como sequela do terremoto e do tsunami que atingiram o Japão em março de 2011, a reação dos executivos e das autoridades japonesas gerou uma espécie de revolta na mídia ocidental. Nela, os responsáveis pelas operações de salvamento eram acusados de enrolar a população, mentir ou, expressão mais apropriada, “faltar com a verdade”. Ninguém no Japão — nem os habitantes nem os correspondentes internacionais já lá estabelecidos antes da tripla catástrofe — parecia muito incomodado com isso. Eles se informavam nas entrelinhas do discurso oficial. A mídia ocidental, porém, cobrava tanto a apresentação de uma verdade nua e crua quanto uma reação compreensível à desgraça. Era notável o tom de frustração ante o fato de os habitantes das áreas afetadas não se impacientarem, desesperarem ou saquearem lojas. Frustração porque os japoneses simplesmente não se portaram como ocidentais. Com o passar dos dias, a mensagem foi apreendida, e o Ocidente se admirou com o Japão. O equivalente, no campo da linguagem, desse sentimento inato de ordem — ou da ausência dela —é a arraigada habilidade dos japoneses com os eufemismos, as elipses e os subentendidos, habilidade que se mantém firme até entre quem deixou o país muito jovem. Veja-se o caso de Kazuo Ishiguro, escritor nascido em Nagasaki em 1954. Sua família mudou-se para a Inglaterra em 1960. Ele se formou em Inglês e Filosofia pela Universidade de Kent. Foi no Ocidente que se tornou quemdesejava ser, um escritor inglês — que, por acaso, nasceu no Japão, país ao qual só voltaria aos 35 anos, como bolsista. Certas coisas, entretanto, são mais fortes até que nossos desejos. Ao publicar o seu terceiro romance, Os vestígios do dia, em 1989, Ishiguro julgou reafirmar-se inglês. Se os protagonistas dos dois livros anteriores ainda eram japoneses, o do novo trabalho era a quintessência do britânico: um mordomo. Pois houve crítico inglês que enxergasse em Stevens uma gueixa disfarçada. “Eu nunca encontrei uma gueixa em toda a minha vida!”, divertiu-se Ishiguro na ocasião. Mais importante em Os vestígios do dia era a elipse que omitia a Segunda Guerra da vida dos protagonistas. O leal mordomo servira a um nobre britânico simpatizante dos nazistas. Todavia, o conflito mundial, essencial à trama, era apenas pressentido em suas causas e consequências.

Era um“centro vazio”, para adaptar uma expressão usada por Laplantine em Tokyo, ville flottante. Ishiguro já tinha feito o mesmo em seu vagamente autobiográfico romance de estreia, Uma pálida visão dos montes (1982). Nele, uma viúva deixa Nagasaki com uma filha, em direção à Inglaterra, para tentar esquecer o suicídio da outra filha. (Ishiguro tem duas irmãs.) Apesar de a bomba atômica lançada sobre a cidade natal do escritor em 9 de agosto de 1945 ser o detonador da história daquela família, a explosão não é abordada diretamente. É como se Ishiguro e seus compatriotas fossem todos discípulos — ou mestres, caso se tenha emmente a perspectiva histórica — do filósofo austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Em sua crítica à metafísica, central ao pensamento ocidental desde os gregos, ele encerrou seu único livro publicado em vida, o Tractatus logico-philosophicus (1921), com a célebre, perturbadora e brevíssima seção número 7: “Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen” (“Sobre o que não podemos falar, devemos silenciar”). Curiosamente, poucas frases soam mais japonesas. Prêmio Nobel de literatura de 1994, Kenzaburo Oe nunca silenciou diante dos temas que julgou ser seu dever abordar, fosse o descaso com as vítimas das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, fosse a permanência de bases militares americanas no Japão do pós-guerra. Todavia, sua literatura é formada tanto pelas palavras por ele escritas quanto pelas palavras que nunca são ditas por seus personagens. Uma literatura visceralmente japonesa. O próprio Oe já afirmou que seu leitor prioritário é o seu compatriota, por mais que suas obras sejam universais ou reconhecidas no exterior. Logo, os trabalhos coletados em 14 contos de Kenzaburo Oe — produzidos entre 1957 e 1990 —não poderiam deixar de ser exemplares também em seus silêncios significativos. O amante não consegue dizer à amante que nada mais quer com ela (“Em outro lugar”). O marido não diz à sua segunda mulher que é homossexual e que sua primeira mulher se suicidou por causa disso (“O homemsexual”). Os estudantes contratados pelo ancião moribundo para lhe trazer notícias do mundo não podem dizer como as coisas vão mal (“A semana do idoso”). Os habitantes de uma aldeia perdida no meio das florestas de Shikoku não querem dizer por que a abandonaram (“Em português brasileiro”). Há algo muito importante, mas nunca dito, em cada uma das histórias. Quando esse algo muito importante vem à tona é ainda pior. Ou, como diz Maa-chan, narradora de “Viver em paz” (e do conto seguinte, “A dor de uma história”): “Na conversa do dia anterior, fiquei decepcionada comigo mesma. Acho que foi pior que não ter dito nada”. Sobre o que não podemos falar, devemos silenciar, certo? Outros personagens, naturalmente, enlouquecem. Um acredita estar coberto e protegido por pequenos amigos alados (“Os pássaros”). Outro crê dividir o quarto comquatro macacos (“A convivência”). Um terceiro conversa com um bebê gigante que volta e meia desce do céu especialmente com esse propósito (“Aghwii, o monstro celeste”).

Todos têm de ser vigiados, tratados e enquadrados pela sociedade — ou isso ou perecer. Talvez ajude na compreensão desses silêncios saber que a psicanálise nunca foi popular no Japão. A prática de ir ao consultório de um estranho e, durante o encontro agendado e cronometrado, falar de seus problemas ainda é vista com extrema reserva, se não como um tabu, como manifestação de uma doença mental. O que para os ocidentais tornou-se algo relativamente natural, desde a popularização das ideias de Freud, para os japoneses demanda um esforço sobre-humano. Revogar a discrição que regula a vida social, suspender o altruísmo em prol do egocentrismo, externar sentimentos… Nada disso entra na cabeça do japonês médio. Os grupos que ofereceram ajuda psicológica aos sobreviventes do terremoto de 2011 tiveram extrema dificuldade de fazer falar (quando fizeram falar) quem perdeu parentes, casas, tudo. Há nisso certa polidez, certa timidez. Falar de si próprio é atribuir-se uma importância excessiva, ainda que apenas no período da consulta. (Mesmo não sendo japonês, Luis Fernando Verissimo explica assim o fato de ter lido muito sobre o tema e até escrito O analista de Bagé, mas jamais ter feito psicanálise.) Falar de si próprio é indelicado. No discurso de aceitação do prêmio Nobel, Kenzaburo Oe pediu desculpas aos ouvintes suecos: “Falar assim como me vejo talvez seja inapropriado neste lugar e nesta ocasião. […] Espero que vocês me perdoem por falar um pouco mais de meus problemas pessoais”. É fácil adivinhar que o escritor não estava a evadir sua privacidade. Oe estava tão somente explicando como sua arte se ligava à sua vida. “Eu sobrevivi apresentando esses meus sofrimentos na forma de um romance”, disse. Há dois sofrimentos cruciais nessa brilhante trajetória literária. O primeiro é histórico. Oe nasceu numa aldeia da ilha de Shikoku, em 31 de janeiro de 1935. Tinha nove anos de idade quando seu pai morreu em combate, dez quando o Japão perdeu a guerra. As bombas de Hiroshima e Nagasaki e a rendição incondicional aos Aliados marcaram o garoto Oe. Quando o imperador Hiroíto foi ao rádio anunciar a derrota, fê-lo em termos tão ambíguos que, como narra John Hersey no livro-reportagemHiroshima, muitos de seus súditos acreditaram piamente que aquele era o discurso da vitória. Talvez estivessem extasiados demais — era a primeira vez que ouviam a voz do imperador, tido como um deus — para prestar atenção na mensagem. O segundo sofrimento crucial na vida de Kenzaburo Oe é de cunho pessoal. Seu primeiro filho com Yukari Itami, batizado Hikari (algo como “raio de luz”, em japonês), nasceu em 1963 com uma hérnia cerebral. Teve de ser imediatamente submetido a uma operação arriscada.

Era improvável que sobrevivesse. Sobreviveu. Mas só começou a falar aos seis anos, a propósito de passarinhos que cantavam perto da casa de campo da família. Contudo, desde então a música tornou-se a sua vida. Hoje Hikari faz trabalho voluntário para outros deficientes e compõe. Oe transformou a experiência naquele que é o seu romance mais famoso, Uma questão pessoal (1964), no qual o protagonista cogita tirar a vida do filho nascido com problemas cerebrais antes de conseguir aceitá-lo e amá-lo plenamente. No caso de Oe, depois nasceram sem problemas de saúde a filha Natsumiko e o caçula Sakurao. A família está representada nos contos mais recentes desta coletânea, os graciosos “Viver em paz” e “A dor de uma história”, narrados pela filha. Entre a derrota na Segunda Guerra e o nascimento de Hikari, o jovem Oe já havia se tornado umdos mais respeitados autores do Japão. Seu mentor na graduação em literatura francesa —característica estendida a alguns de seus muitos personagens estudantes — na Universidade de Tóquio foi Kazuo Watanabe, especialista em Rabelais que vivera na França antes do conflito mundial. Oe foi profundamente influenciado por outro autor francês, Jean-Paul Sartre, a quem chegou a conhecer (frustrando-se) numa viagem à França, em 1961. Seus primeiros trabalhos, aqui representados por “Salte sem olhar” e “Exultação” em particular, são encarados como um existencialismo à japonesa, embora outros ocidentais façam parte do seu panteão. Twain, Blake, Yeats, Dante… Além da percepção da náusea difusa que é estar no mundo, Oe também compartilhava com Sartre a militância de esquerda. Obra-prima publicada no mesmo ano do encontro com o existencialista francês, “Seventeen” causou furor no Japão ao escolher como narrador um onanista com vaga simpatia pela esquerda — mais para chatear a irmã que trabalha num hospital das Forças de Autodefesa do Japão do que por qualquer outra coisa — que se transforma em membro da sanguissedenta tropa de choque da extrema-direita. Oe escreveu o conto inspirado no esfaqueamento, em 1960, do presidente do Partido Socialista, Inejiro Asanuma, que protestava contra a permanência de bases militares americanas em solo nipônico, por um adolescente ultranacionalista, Otoya Yamaguchi. Enquanto estava preso pelo assassinato, o seventeen se suicidou. Numa entrevista para a revista literária americana Paris Review, em 1997, Oe assim definiu seu credo político: “Sou um anarquista que ama a democracia”. Em março de 2011, enquanto se desenrolava a crise nuclear no Japão, a New Yorker publicou o seu texto “A história se repete”. Nele, o escritor lembrava que o Japão do pós-guerra tinha entre suas metas constitucionais ser uma nação pacifista e livre da energia atômica. No entanto, com o tempo, elas foram ignoradas, seja pela reorganização de suas Forças Armadas, seja pela hospedagem de artefatos nucleares americanos. “Como terremotos, tsunamis e outras calamidades culturais, a experiência de Hiroshima deveria estar gravada na memória humana: foi uma catástrofe ainda mais dramática porque foi produzida pelo homem”, escreveu Oe. “Repetir o erro ao exibir, pela construção de reatores nucleares, o mesmo desrespeito pela vida humana é a pior traição possível à memória das vítimas de Hiroshima.” Como o próprio Kenzaburo Oe já proclamou, sua obra trata da dignidade de seres humanos. Obra nascida da sua própria dignidade.

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