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1565 – Enquanto o Brasil Nascia – Pedro Doria

Nas próximas páginas, o leitor encontrará um livro de história. Ou de muitas histórias, lugares e personagens que se encontram. É a história do sul do Brasil nos dois primeiros séculos de colonização portuguesa. Da Bahia para cima havia riqueza; para baixo, antes do ouro, a vida foi muito dura. É a história do Rio de Janeiro, mas não apenas do Rio, porque está intimamente entrelaçada com a história de São Paulo. O Rio, o leitor lerá mais de uma vez nas próximas páginas, nasceu para que São Paulo sobrevivesse. E uma história que é tanto do Rio quanto de São Paulo termina por ser, também, uma história de como um pedaço do Brasil nasceu. A história desta relação entre as duas cidades é, mesmo quando discreta, a linha condutora. Salvador era a capital, representante de Lisboa na terra. São Paulo, a cidade bandeirante. Rebelde. O Rio ficou no meio: bandeirante e oficial. Malemolente. Até a descoberta do ouro, o Rio mediou a relação da Coroa com os rebeldes. Esta história é também uma saga familiar. O sul do Brasil – não só o Rio – é invenção da família Sá. Porque esta malemolência, este espírito de fluir entre uma identidade e outra sem nunca se definir por completo é coisa que os descendentes de Mem de Sá aprenderam governando o Rio e gerenciando a relação entre o Império e as peculiaridades deste sul indômito da colônia. Os Sá erambandeirantes de se embrenhar na mata com gibão e pés descalços, falando tupi, comendo farofa e caçando com arco. E eram fidalgos do reino, capazes de discutir a geopolítica do Império em Lisboa e a relação entre as colônias da China, da Índia e da África enquanto vestiam puro linho e casaca de seda. O carioca que, no domingo, discute cheio de gírias o futebol com o barraqueiro da praia enquanto veste apenas sunga, cerveja à mão, e que, na segunda, de terno, janta ao bom vinho e fala inglês destrinchando contrato com multinacional é descendente cultural dos Sá, mesmo que não o saiba. Na língua que falamos na rua, não poderia ser mais simples: até nossa marra de carioca é coisa dos Sá. Eles inventaram isso. Criaram essa identidade. Esse nosso jeito. A história contada neste livro não é, portanto, apenas do Rio.


Nenhuma história é solta do todo. O que estava acontecendo no norte do Brasil, na Europa, na África, e mesmo na Ásia, produziu consequências. Assim, personagens deste livro incluem um sultão descendente na Terra do profeta Maomé, dono de um império ainda mais vasto do que qualquer império europeu do tempo; uma rainha africana tão poderosa que forçava os homens de sua guarda pessoal a se vestirem de mulher para que ninguém tivesse dúvida sobre quem estava no comando; um corsário holandês tão astuto que, de um único golpe, fez quebrar a banca do Império espanhol. (Para, depois, ser derrotado por um Sá recém-saído da adolescência.) Outros personagens aparecerão fatalmente. Os franceses e os calvinistas. Uns tipos curiosos chamados peruleiros. Os portenhos – sim, Buenos Aires, as histórias do nascimento de Rio e São Paulo estão entrelaçadas com a da capital argentina. Quando Adolfo Rodríguez Saá foi eleito indiretamente presidente do país por alguns dias, em dezembro de 2001, lá estava uma discreta memória desse tempo, no século XVII, em que as elites de um canto e do outro eram comuns. Os Sá: Mem, Estácio, Salvador, o velho, Martim e Salvador, o moço – eles à frente e inúmeros irmãos, primos, tios. Quatro gerações, pouco mais de um século. Há muitos jeitos de interpretar essa gente. Uma é vê-los como caudilhos que controlaram o lugar com mão de ferro, ditadores. Como se o Rio fosse uma fazenda sua, e o sul do país, seu quintal. Quando caíram, afinal, por conta de uma revolta popular contra desmandos e arbitrariedades. Outra jeito é olhar como uma família muito hábil politicamente, que garantiu a independência de São Paulo e, assim, pavimentou o caminho que desembocaria na descoberta do ouro. Os Sá no Rio eram a garantia, para Lisboa, de que havia um olhar atento em São Paulo. Esta história é a que dá personalidade às duas cidades, que faz de uma malemolente e da outra, indômita. Nos séculos XVI e XVII, nada garantia que o ouro seria descoberto pelos bandeirantes em Minas. No tempo em que o dinheiro estava no litoral norte, a cultura e a personalidade das duas cidades foram desenvolvidas. Quando o centro de gravidade econômica se deslocou, na primeira metade do século XVIII, foram as elites do Rio e de São Paulo, não as de Salvador e Pernambuco, que definiram que país o Brasil viria a ser. A saga dessa família é extraordinária, ímpar na história colonial portuguesa. Durante quatro gerações, ascenderam social e politicamente. Fizeram do Rio uma colônia que tinha colônia noutro continente. Mais que isso: chegaram perto, muito perto de estar no comando do governo em Lisboa.

Do governo do Império. Chegaram tão longe num processo de ambição desenfreada que puseram tudo em risco, e, no jogo de dados das intrigas palacianas, perderam a aposta maior. Ao perder, perderam tudo. Na tensão entre o provinciano e o cosmopolita, há outra herança dos Sá. Para eles, o Rio era a ponta de lança para o mundo. Sua ambição era tanta que, muitas vezes, a cidade ficava largada para segundo plano. Nós, cariocas, somos, também, desleixados com a cidade. A região do Castelo, no Centro, leva o nome do morro onde a cidade se fez, mas, para nós, é só o Castelo. Não há um marco imponente para dizer quantos viveram, quantos morreram, por que demoliram. Não há sequer placa para dizer que ali houve um morro posto abaixo. No morro da Glória, lá está a igreja do Outeiro, simpática, mas não há lembrança de Estácio, Aimberê ou da aldeia Uruçumirim. Ali foi o cenário de uma batalha sangrenta que definiu a fundação da cidade. Se os portugueses tivessem perdido aquela batalha, como perderam tantas outras, não haveria Rio. Semplaca ou memória. No Flamengo, na pacata esquina das ruas Princesa Januária e Senador Eusébio, não existe placa informando “Aqui esteve a Casa de Pedra, a mesma que um dia os índios acharam tão peculiar que decidiram batizá-la Carioca, Casa de Branco”. Há uns prédios de classe média com apartamentos amplos e de pé-direito alto, umas gaiolas de passarinho, os porteiros conversando, vassoura de piaçaba à mão, e todos agindo como se uns cinco ou seis metros abaixo da terra ainda não estivessem, lá, sólidas, as fundações da primeira construção europeia no Rio de Janeiro: a casa que nos batizou cariocas. De quadra em quadra: por que é São Clemente aquela rua? Quem foi João Pereira de Sousa Botafogo? Que belga, ou flamengo, morou naquela praia? Este sujeito que morou ali batizou o bairro e, não fosse ele, o clube de futebol que nasceu ali poderia ter tido outro nome. Zico jogaria comoutras cores. Se João Pereira de Sousa fosse marceneiro e não especialista em artilharia, Garrincha também jogaria com outra marca. Por que tanta gente conta a história de um naufrágio que trouxe a imagem de Nossa Senhora de Copacabana do mar, quando a história real é tão mais fascinante, tão mais importante e revela tanto mais sobre como o Rio se formou? Que até hoje se pague promessa subindo as escadarias da Igreja da Penha tem motivo. Que ainda se cante um samba sugerindo que no Rio “de dia falta água” também tem razão – e uma razão dramática que pontuou o cotidiano carioca por quatro séculos. A história do Rio foi apagada. Apagada coletivamente por nós todos. Nós, cariocas, não sabemos de onde viemos e, assim, não compreendemos de fato que cidade é essa. Como surgiram seus problemas, de onde vieram seus (maus) hábitos políticos.

A cada quatro anos, o Rio ganha um novo prefeito que promete revitalizar o Centro ou o porto ou uma região qualquer que nos pareça histórica. Mas nada acontece. Meu pai nasceu no Distrito Federal. Nasci na Guanabara. Meus dois filhos, cariocas, no Rio de Janeiro. Três gerações, três estados, a mesma cidade. Em algum momento ali, entre a perda da capital e a fusão, nossa identidade se perdeu. Ficou a exuberância das pedras, lagoas e mato, a opressão da pobreza presente. A opressão do presente como se o passado mais remoto que pudéssemos imaginar fosse aquele da Bossa Nova. Até as primeiras décadas do século XX havia muitos jornalistas e cronistas que se dedicaram a recontar para os cariocas sua história nas páginas de jornais e livros. Vieira Fazenda, Gastão Cruls, Vivaldo Coaracy, Luiz Edmundo. Gente que escrevia muito bem, que tinha um olhar curioso e um fascínio pelas pessoas que construíram a cidade. Morei por cinco anos em São Paulo. É uma cidade que não vai às ruas quando o Flamengo se sagra hexacampeão brasileiro. Como se não estivéssemos no Brasil. Mas é também cenário de umbocado da história do Rio. Os homens que caíram mortos ao lado de Estácio, naquela batalha inicial, eram quase todos paulistas que tinham um inimigo comum: os tupinambás que atacavam suas fazendas e cidades. O Rio foi uma cidade bandeirante como São Paulo. Foi uma cidade de índios mais que de brancos, como São Paulo. As brigas dos cidadãos com os jesuítas que culminaram mais de uma vez na expulsão dos padres de ambas as cidades eram coisa de Rio, de São Paulo e de nenhum outro canto no Brasil. São cidades irmãs e, talvez por isso mesmo, desde os mil e quinhentos uma encara a outra comdesconfiança. Na redação de O Estado de S. Paulo, às margens do rio Tietê, às vezes me flagrei com inveja dos paulistanos. Seu colégio dos Jesuítas não foi posto abaixo: é museu. Há estátuas de bandeirantes por toda parte.

O museu do Ipiranga é dedicado inteiro aos três primeiros séculos da história da cidade. São Paulo não abandonou sua história. Pode ter tentado engrandecê-la mais do que era, mas não a abandonou. Cidades não abandonam sua história. No centro de Boston, as marcas do passado estão registradas em cada esquina, tingidas de vermelho na calçada. Em Nova York, há inúmeros museus históricos, e os novaiorquinos – natos ou adotivos – conhecem de cabeça por que um bairro veio a se chamar Meatpacking District, ou como aquela rua terminou com o nome Wall Street. É-lhes natural. São Francisco celebra de seu passado distante mineiro, quando inventaram a calça jeans, ao passado recente, hippie. Barcelona, cuja recuperação após as Olimpíadas é sempre relembrada, é um museu a céu aberto que data dos tempos de Roma. Todo catalão conhece o passado que lhe fez catalão: é sua identidade, é o que o difere. Em Londres, cada capítulo da história da luta contra o poder absoluto do rei, tema principal de sua existência, é contado em todo prédio, em toda esquina. Não existe pub no qual se entre em que uma placa não comunique ao distinto cliente que a casa opera desde mil seiscentos e algo. Salvador celebra sua história. Até Brasília, a cidade escultura que afastou os políticos do povo, com seus parcos cinquenta e poucos anos de vida, tem lá seu mito de criação, que busca cultivar na esperança de que vire tradição. Na verdade, verdade mesmo, não acredito que tenha sido intencional o abandono da nossa história. Foi erro de percurso, consequência de trauma sofrido. O Rio foi capital por tanto tempo que esqueceu como era ser só Rio. O Rio foi tantas coisas diferentes no último meio século – Distrito Federal, Estado da Guanabara, capital de estado –, teve tantas mudanças a ele impostas sem que jamais fôssemos consultados, os cariocas. Fomos cenário da história do Brasil tantas vezes que deixamos de reparar naquilo que nos fazia únicos. Depois que tudo mudou, que a mudança da capital passou, que a ditadura nos maltratou com sua mão grande, rude, levantamos desajeitados para compreender em que havíamos nos transformado. Um novo estado que jamais havia existido unindo a cidade ao interior, um processo de favelização já intenso, uma política que perdera seus grandes nomes e o fisiologismo eleitoral, que sempre fora latente, consolidado. Tínhamos que recriar uma identidade, e esta veio meio improvisada, nesta celebração da paisagem natural e do passado imediatamente anterior à ditadura. O Rio é muito mais do que imaginamos. Há um novo momento econômico, uma política que, se ainda viciada, começa a dar sinais de que uma coisa ou outra começa a se ajeitar. Para mudar, precisamos antes entender como nos formamos.

A intenção deste livro é contribuir nesse processo. Em março de 2011 me mudei de volta ao Rio após cinco anos longe. Na redação de O Globo me reencontrei com este antigo encanto, acompanhando o dia a dia da cidade. Uma cidade tão melhor do que esteve por tanto tempo, uma cidade novamente esperançosa. À rotina, incorporei um passeio matutino com meus filhos caçulas, Tomás e Felipe, pelas redondezas do apartamento em que vivíamos, no Jardim Botânico. Não raro, incluía no trajeto o pequeno muro com arcos ao fundo da rua Itaipava, no alto da rua Faro. Foi erguido por ordem de Martim de Sá entre finais do século XVI e início do XVII. Discreto e ainda sólido, talvez ignorado por muitos de seus vizinhos. Cá comigo, não sei passar por ali sem um sorriso ligeiro de quem o reconhece. É, como digo para os meninos, “o muro do Martim”. Quando publicou sua História de Roma, o jornalista italiano Indro Montanelli logo alertou seus leitores: escrevi para aprender. Este livro nasce com o mesmo espírito. Escrevi para aprender esta história. Não é livro de historiador. Não há pesquisa inédita nos arquivos. Não há conclusões ou interpretações inovadoras. O que há é uma sincera tentativa de contar uma história bem-contada e recuperar essa tradição que já existiu: uma crônica sobre o que a cidade foi e como veio a ser o que é. É livro de jornalista: quer dizer, atenho-me aos fatos. Se o leitor encontrar diálogos entre aspas, é porque eles foram registrados em carta por testemunhas. Quando se deparar com a descrição do tempo – como estava o sol, a lua, como foram as chuvas –, é porque também disso houve registro. Este livro conta a história do Rio no tempo dos Sá: os mil e quinhentos e seiscentos. É o Rio antigo mais antigo que há. Mas o leitor atento logo perceberá pelo menos dois traços que os cariocas têm em comum com quem viveu aquele período. Um tem um quê de triste. É a tensão entre o cosmopolita e o provinciano.

Desde o início, o Rio teve a oportunidade de ocupar papéis importantes na geopolítica do Brasil e do mundo. E, desde cedo, políticos muito menores que a cidade, cegos em suas preocupações comezinhas, paroquiais, impuseram uma âncora pesada à “mui leal e heroica”cidade de São Sebastião. O segundo ponto é algo que só cariocas, nascidos e adotados, logo entendem: são os morros, o sol, as águas e o vento sudoeste. Foi uma amiga paulistana que um dia me observou: “Vocês, cariocas, seguem o tempo; quando chove, amarram a cara e, quando é dia de sol, se fazem felizes.” A sensação daquele primeiro sol e céu azul lá por 10 de novembro sempre me desperta uma vontade de chope, de sentar vendo as meninas passando, de celebrar o viver carioca. Sou um carioca que gosta (muito) de São Paulo. Ainda assim, no período em que vivi lá, era quando pousava no Santos Dumont em dia de sol, após o piloto fazer a curva pelo Pão de Açúcar, que mais doía a distância de casa. Que paisagem linda. E mesmo a melancolia dos dias de chuva e o cheiro de terra molhada do Jardim Botânico parece que fazem parte do equilíbrio necessário para que não nos afoguemos na exuberância tropical. Sol e chuva, cuja presença é decidida pelo sudoeste, ditam nosso ritmo interno como o inspirar e o expirar, a sístole e a diástole. Mesmo quando não percebemos, nossa vida no Rio é ditada pelo sol e pela chuva. E assim foi desde os primeiros dias. Aqueles primeiros cariocas eram muito mais católicos do que somos hoje. Muito mais brutalizados, mais violentos. Falavam tupi mais do que português. Viviam num ambiente de mata aberta, ameaçadora. Viviam para se defender de guerras, pois, ora era um navio francês, ora um holandês, sempre havia alguém prestes a atacar a cidadela. Tinham medo de doenças. Viviam do tráfico de escravos. Não tinham favelas, mas, em compensação, eram quase todos pobres e, é possível arriscar dizer, viviam em sua maioria pior do que se vive nas favelas de hoje. Ainda assim, quando tinham oportunidade, registravam o tempo. Registravam quando chovia, quando fazia sol. Falavam de dias bonitos como nunca haviam visto antes nos cantos de onde vinham. Descrevem um Rio que reconheceríamos de presto. Uma cidade bonita assim não serve para esquecer.

Um exercício de imaginação O Brasil já tinha vivido duas vidas quando a família real portuguesa rompeu a barra da Guanabara, em 8 de março de 1808. A escolha do Rio não foi à toa. A capital da colônia brasileira era a cidade mais rica do futuro país e, embora não tivesse ainda a alma cosmopolita de Lisboa, não havia outra cidade que pudesse se aproximar duma capital de império na América do Sul. Uma cidade de porte razoável e alguma infraestrutura, tudo erguido na segunda vida da colônia, que começou com a descoberta de ouro nas Minas Geraes. Aquela chegada determinou o futuro do Rio, deixou a marca do sotaque chiado e o sentir-se parte relevante do mundo. Nos primeiros dois séculos de Brasil, porém, a história foi outra. A capital era Salvador e o centro financeiro instalou-se nos fartos engenhos de açúcar do Nordeste. Antes ainda, no início, bem em seu início, a história do Brasil foi fruto de um Portugal confuso, numa Europa perdida, nummundo turbulento. Em 1500, a máquina de produzir livros inventada por Johannes zum Gutenberg, que educou a primeira geração de não nobres, tinha 51 anos de idade, mas só se popularizara uma década antes. Leonardo da Vinci pintara sua Última ceia fazia dois anos e a Mona Lisa ainda não era esboço. Faltavam ainda oito anos para Michelangelo Buonarroti iniciar seu trabalho na capela Sistina. No Vaticano, o papa era o espanhol Alexandre VI: Rodrigo de Borja, o pai de Lucrécia e cujo nome, vertido para o italiano, entraria para a história como Borgia.

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