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172 Horas na Lua – Johan Harstad

— Senhores, está na hora — disse o dr. XXXXXX , observando os sete homens de terno ao redor da mesa de reuniões. Eram algumas das pessoas mais poderosas do país, juntas na maior sala de reuniões do quartel-general da NASA, em Washington, D.C. Eram quase onze da noite. Em breve, teriam de tomar uma decisão. — Então, o que vai ser? — perguntou o dr. XXXXXX , impaciente. A fumaça de cigarro na sala era densa e impenetrável, tornando a atmosfera ainda mais sombria. Todas as regras que proibiam fumar nos escritórios do governo haviam sido deixadas de lado à medida que o nervosismo se agravara. — Bem — começou um dos sete, mastigando um lápis —, é uma proposta muito arriscada. Você deve saber disso. Vale mesmo a pena? — As pessoas já tinham perdido completamente o interesse em missões lunares antes do último lançamento, em 1972 — disse outro. — Por que você acha que apoiariam essa volta? — Mas pode acontecer — afirmou um terceiro. — Poderíamos dizer às pessoas que há uma boa chance de encontrarmos grandes quantidades de tântalo setenta e três no polo sul da Lua. A sala encheu-se subitamente de conversas, a tensão começando a crescer. — Acredite, você não quer voltar ao polo sul. — É claro que não. — Se for, vai morrer. — Estou ciente disso. — Na minha opinião, seria melhor esquecer aquele lugar. — Cavalheiros — interrompeu o dr. XXXXXX —, têm alguma ideia de como uma descoberta de tântalo setenta e três seria importante? A maior parte da tecnologia atual depende desse elemento. As pessoas jogariam dinheiro em nossas mãos. — Então, vamos lá para cima em busca de recursos naturais? Eu pensei… — disse um dos homens.


O dr. XXXXXX o interrompeu novamente: — Não, não vamos. O presidente do Estado-Maior Conjunto pigarreou. — Deixem-me esclarecer a situação, cavalheiros. Nós não vamos ao polo sul da Lua, e, se há ou não tântalo setenta e três por lá, é completamente irrelevante. A confusão se espalhou pela sala. — Presumo que alguns de vocês estejam familiarizados com o Projeto Horizonte? — continuou ele. O homem que falara primeiro perguntou: — Está se referindo à pesquisa feita no fim dos anos cinquenta? Os planos para construir uma base militar na Lua? Pensei que tivessem sido descartados. O dr. XXXXXX balançou a cabeça, em sinal de negação. — A base não é militar. — Olhou para o presidente do Estado-Maior. — É só um centro de pesquisas. Não é verdade? O presidente não respondeu. Olhou amigavelmente para o homem. — Chama-se DARLAH 2. Foi construída na década de setenta com o nome de Operação DP7. — Mas por que… diabos… por que nenhum de nós ouviu falar dela antes? — Todas as informações a respeito de DARLAH 2 foram consideradas ultrassecretas até recentemente. Por motivos de segurança. — Ele parou por um segundo, avaliando se deveria ou não contar mais. O dr. XXXXXX adiantou-se a ele na explicação: — A DARLAH 2 foi construída entre 1974 e 1976. Mas a base fica no Mar da Tranquilidade, onde, como vocês sabem, Armstrong e Aldrin pousaram originalmente em 1969. Nenhuma das outras alunissagens aconteceu lá. — Por que foi construída? — perguntou um dos homens que estivera quieto até agora.

— Encontramos algo — respondeu o dr. XXX XXX . — Pode ser mais claro? — Não sabemos o que é. O plano era manter os estudos e a equipe na Lua, mas, como já sabem, depois de 1976 nós perdemos a maior parte da verba. E, como sugeri, o programa não foi encerrado apenas por motivos financeiros. A verdade é que… o que encontramos lá não é o tipo de descoberta que alguém pagaria para continuarmos pesquisando. Seríamos convidados a ignorar o assunto. Então, fingimos que nunca existiu… e, de todo modo, o sinal desapareceu. — Até a coisa surgir outra vez no último outono — acrescentou o presidente do Estado-Maior. — O sinal? A coisa? Que diabos é a coisa?! — exclamou um homem, confuso. O dr. XXXXXX encarou-o enquanto falava, depois se inclinou para a frente e tirou algo da maleta. Era uma pasta de papel, que ele colocou sobre a mesa, e dela tirou uma foto tamanho 4 x 6. — Esta foto foi tirada na Lua por James Irwin, da Apollo 15. O astronauta na foto é David R. Scott. — Mas… quem é a outra pessoa ao fundo? — perguntou alguém. — Não sabemos. — Não sabem? Que diabos está havendo aqui? — Existe hora apropriada para tudo, senhores. Toda a informação que estão pedindo estará disponível assim que tivermos unanimidade de votos para prosseguir com o plano, o qual, devo lembrar-lhes, conta com o apoio total do presidente. Agora, podemos então discutir como explicaremos o fato de que temos uma base inativa na Lua há quarenta anos da qual ninguém sabia? — Inativa? Está querendo dizer que ninguém jamais usou a base antes? — perguntou um dos astronautas presentes. — E as pessoas que a construíram? — Nunca estiveram no interior dela. Os módulos foram instalados na superfície por máquinas, não por pessoas. Um dos homens que já concordavam com o plano se levantou e sorriu, confiante, dizendo: — Vamos dizer que passamos quarenta anos testando a base, garantindo que funcionasse perfeitamente. — E funciona? — perguntou alguém.

— Em princípio, sim — respondeu o homem cujo sorriso já não parecia tão confiante. — Em princípio não é bom o bastante, é? — Terá de servir. Temos de voltar dentro de uma década, antes que mais alguém chegue lá. Vários dos homens presentes ainda pareciam incrédulos, se não atordoados. — Mas quem vocês enviarão para lá? E o que essas pessoas farão? — A primeira expedição deverá realizar três tarefas simples. A primeira: testar a base e garantir que esteja funcionando como se presume. A segunda: pesquisar a possibilidade de minerar metais terrestres raros que darão aos Estados Unidos uma enorme vantagem no mercado tecnológico. E a terceira, que é a mais importante de todas, senhores: atrair a atenção da mídia, que como consequência garantirá apoio financeiro suficiente para continuarmos com nossa pesquisa e… nos livrarmos de quaisquer… possíveis problemas. — Que tipo de problemas? — perguntou um dos homens. O dr. XXX XXX ergueu a mão à frente do corpo como se detivesse as palavras. — Como eu disse, já trataremos disso. A ideia é transformar a coisa toda em uma celebração do quinquagésimo aniversário da primeira missão tripulada a pousar na Lua. Vamos construir versões novas e aprimoradas dos foguetes programados clássicos Apollo dos anos sessenta e setenta. Isso com certeza deixará as pessoas nostálgicas. — Mas ninguém com menos de quarenta anos se lembra das missões Apollo. O dr. XXX XXX esperou um longo tempo antes de voltar a falar. Era um homem muito inteligente, e ter de explicar cada detalhe a esses projetos ridículos de figura pública estava lhe dando nos nervos. Felizmente, havia ensaiado mentalmente essa conversa muitas vezes e tinha respostas para tudo o que eles pudessem perguntar, inclusive a ideia perfeita para despertar o interesse do mundo inteiro em uma nova missão. — Senhores, e se mandássemos adolescentes para o espaço? Ninguém respondeu. Ficaram apenas sentados em silêncio, esperando, presumindo que fosse uma piada. Mas não era. — Você quer mandar crianças? — perguntou alguém. — Por que diabos ia querer mandar adolescentes para a Lua? O dr.

XXX XXX sorriu de forma condescendente e respondeu: — Se selecionarmos três jovens, adolescentes, para acompanhar os astronautas, teremos toda uma nova geração entusiasmada com a ideia de explorar o espaço. Não será nada menos que uma sensação mundial. — Mas… há apenas um minuto vocês diziam que há algo… desconhecido na Lua. E nenhum dos dois parece capaz de explicar o que essa coisa realmente é e quais são as possíveis consequências. E querem mandar para lá adolescentes inocentes, sem nenhum treinamento, como se fossem cobaias? — Os benefícios superam os riscos — afirmou o dr. XXX XXX . — A probabilidade de algo acontecer é pequena na área específica das operações, e os astronautas terão a oportunidade de instalar equipamentos importantes e realizar os estudos necessários. Em nome da simplicidade, acho que é melhor encarar essa proposta como duas missões em uma. A primeira, o nosso papel, é pesquisar o potencial para mineração de tântalo setenta e três… — Pensei que você tivesse dito que na verdade não procuraríamos tântalo nenhum. — Não vamos. — Ele prosseguiu: — A segunda parte será a missão dos adolescentes, que não será um grande esforço para eles. A atenção da mídia será automática. Isso será retratado como uma versão espacial glamorosa de uma viagem à Disneylândia. E, o melhor de tudo, minhas pesquisas preliminares indicam que o patrocínio de certas grandes corporações está quase garantido, o que provavelmente fornecerá o dinheiro de que precisamos para uma segunda missão. — Vai haver também uma segunda missão? — Receio que sim. — Você quer que haja adolescentes na segunda também? — Não. O dr. XXX XXX ergueu dois grossos envelopes assinalados como ULTRASSECRETOS. — Adolescentes na Lua, senhores, são a solução que estivemos procurando. Uma porta que se abre. — Mas como vai decidir quem pode ir? Ele sorriu novamente, de forma ainda mais dissimulada, e respondeu: — Vamos sortear. 1 A TERRA OPORTUNIDADE — 2018 — É a coisa mais idiota que eu já ouvi — disse Mia Nomeland, olhando desanimada para os pais. —Sem chance. — Mas, Mia, querida, é uma excelente oportunidade, não acha? Os pais estavam sentados lado a lado no sofá, como se estivessem colados um ao outro, com o anúncio que haviam recortado do jornal na mesa de centro diante deles. Cada canto do mundo já tivera a chance de ver uma versão dele.

A campanha fora lançada havia semanas na TV, no rádio, na internet e nos jornais, e o nome NASA estava prestes a se tornar tão conhecido pelo planeta quanto o da Coca-Cola ou o do McDonald’s. — Oportunidade de quê? De pagar o maior mico? — Não quer pelo menos pensar no assunto? — perguntou a mãe. — O prazo é de menos de ummês, sabe. — Não! Não quero pensar nisso. Não tem nada que me interesse na Lua. Tem algo que me interesse em qualquer lugar, menos na Lua. — Se fosse eu, teria me candidatado na mesma hora — argumentou a mãe. — Bom, tenho certeza de que meus amigos e eu estamos muito felizes porque você não sou eu. — Mia! — Tá bom, desculpa. É só que… eu não ligo. É tão difícil assim entender? Vocês estão sempre me dizendo que o mundo é cheio de oportunidades e que a gente tem de escolher algumas e deixar outras passarem. E que há oportunidades suficientes para uma vida inteira e mais um pouco. Certo, pai? O pai resmungou uma resposta qualquer e desviou o olhar. A mãe suspirou. — Vou deixar o anúncio em cima do piano por um tempo, caso você mude de ideia. É sempre assim, pensou Mia, deixando a sala de estar. Eles não escutam. Simplesmente esperam que eu pare de falar. A garota subiu para o quarto no sótão e começou a praticar guitarra. Quando se tratava de música, ela nunca perdia tempo. Já tocava havia dois anos, e fazia um ano e meio que era a vocalista da banda Rogue Squadron, um nome com um toque dos anos setenta, apropriado para uma banda punk que soava como algo de outra época, talvez 1982. Ou 1984. Mesmo que nem sempre tivesse paciência para fazer todo o dever de casa, ela conhecia a história da música melhor que ninguém. Sua última descoberta era os Talking Heads, uma banda pela qual ela se apaixonara lenta mas perdidamente. Ou melhor, pela qual estava tentando mesmo se apaixonar, pois percebia que era boa.

Ainda precisava se esforçar para ouvi-la por muito tempo. E não tinha certeza se o gênero era póspunk ou rock ou só pop, e isso tornava tudo ainda mais complicado. Mas tinha um som eletrônico tão frio e oitentista que seria perfeito para ela, se pudesse ao menos entrar no clima da música. Passou uma hora praticando com a guitarra e escreveu o esboço de uma nova canção, resultando em um rif roubado de músicas que ela tinha certeza absoluta que ninguém jamais ouvira. Não teria problema levá-lo para o ensaio da banda amanhã. Depois de tocá-lo cinco vezes e não ter a menor dúvida de que lembraria os acordes, deixou a guitarra de lado, ligou os fones de ouvido ao aparelho de som e apertou o play. A música da banda da qual ela decidira começar a gostar encheu-lhe os ouvidos. Ela se deitou na cama e fechou os olhos. — O que está ouvindo, Mia? — perguntou o pai, erguendo um dos lados do fone. Ele estava tentando suavizar o clima negativo gerado no começo do dia. — Talking Heads — respondeu ela. — Eles eram bem famosos quando eu era jovem. A garota olhou para ele, mas não respondeu. — Sabe, é uma oportunidade maravilhosa, Mia, essa coisa da Lua. Eu… nós… só queremos o que é melhor para você. Sabe disso. Ela grunhiu, mas tentou sorrir para ele mesmo assim. Clique aqui ou na imagem para ampliar. — Pai, por favor. Esquece isso, tá? — E para a sua banda. Já pensou nisso? Vocês não querem ser famosas? Acho que não seria nada mau para o Rock Squadron em termos de publicidade se a vocalista fosse uma astronauta mundialmente famosa. — Rogue Squadron — corrigiu ela. — De todo jeito — respondeu ele —, você entendeu. — Então saiu, fechando a porta do quarto cuidadosamente. Mia deitou-se de novo.

Será que ele tinha razão? Não, não tinha. Ela era uma musicista, afinal. Não uma aspirante a astronauta. Ligou a música outra vez e o vocalista David Byrne cantou: I don’t know what you expect staring into the TV set. Fighting fire with fire. [1] Era quase maio, mas o ar ainda estava frio na Noruega. As árvores ao longo da avenida estavam nuas e sem vida, exceto por umas poucas folhas aqui e acolá que haviam nascido cedo demais. Duas semanas haviam se passado desde que os pais de Mia sugeriram aquela ideia boba. Agora, ela estava parada diante da escola, raspando as botas para a frente e para trás no chão enquanto esperava que Silje voltasse do banheiro. O intervalo para o almoço logo acabaria, e ao redor dela outros alunos se apressavam para entrar no prédio por medo de se atrasarem. Mas Mia não estava com pressa. Os professores sempre chegavam alguns minutos mais tarde mesmo. Ficavamsentados na sala dos professores, comendo biscoitos e bebendo café amargo enquanto falavam mal dos alunos. Mia achava que sua escola era o tipo de lugar onde os professores, com poucas e boas exceções, deveriam ter escolhido praticamente qualquer outra profissão menos essa. A de zelador, por exemplo. Ou coveiro. Uma função na qual não precisassem interagir com gente viva. A maioria quase nem conseguira passar pela própria formação acadêmica uns cem anos atrás. Tinham poder quase infinito aqui e sempre que podiam faziam o melhor para não deixar que os alunos esquecessem disso — pois todos sabiam que essa autoridade evaporava feito orvalho à luz do sol no momento em que saíam da escola e partiam para o mundo real, onde eram forçados a interagir com pessoas da sua idade. Silje saiu do banheiro. Ela e Mia eram as únicas que ainda não haviam entrado. — Botas legais — disse Silje. — Estou com elas o dia todo — respondeu Mia secamente. — Você não notou? — Até agora, não. Onde comprou? Mia baixou o olhar para as botas gastas de couro preto que iam até os tornozelos.

— Na internet. São coturnos italianos de paraquedista. — Sensacional. Bom, vamos entrar? — Que aula você tem agora? — Matemática — respondeu Silje. — Eu tenho Deutsch. Com “a Cabelo” — retrucou Mia, suspirando. Voltaram para dentro e subiram as escadas até o segundo andar. — Vamos ensaiar hoje à noite? — perguntou Silje pouco antes de as duas se separarem. — Acho que sim. A Leonora vai me ligar assim que souber se pode ir. — Me avisa, tá? Eu posso chegar às sete. Antes disso não dá. — Às sete tá bom. Ei, escrevi uma música ontem. — Ah, é? Qual é o nome? — “Bombardeiem Hiroshima Outra Vez”, acho. Ainda não defini. — Legal! — Silje riu. — Te vejo depois. Mia continuou até o terceiro andar e entrou na sala de aula. A professora ainda não havia chegado, então ela folheou o livro de alemão para descobrir que diabos deveria ter lido na noite anterior. A Cabelo entrou na sala com uma bola de praia inflável transformada em miniatura da Lua nas mãos. Mia revirou os olhos. Ai, meu Deus, ela também?

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