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1789 – Pedro Doria

Acasa foi cercada por soldados. Dessa vez, não eram brasileiros. O vice-rei não correria o risco de enviar gente da terra, possíveis simpatizantes. Já havia perdido o rasto do homem uma vez, não o perderia esta segunda. Eram portugueses do Estremoz, uma cidadezinha do Alentejo, quase fronteira da Espanha. Dez de maio, 1789. A porta do pequeno sobrado que cercavam, um prediozinho típico do Rio de então, não estava trancada e seu dono, o velho ourives Domingos Fernandes da Cruz, havia saído. Mas lá em cima, para além do segundo andar, dentro da água-furtada que se fazia de sótão,[1] o alferes Joaquim José da Silva Xavier se escondia atrás das cortinas da cama. Preparado para resistir. Durante os longos minutos em que calculava o que fazer, deve ter imaginado como tudo quase dera certo. “Ah, se eu me apanhasse em Minas”,[2] comentou com um amigo apenas uns dias antes. Quase conseguiu fugir. Por tão pouco. Será que a revolução ainda tinha chance? Às mãos, segurava forte um bacamarte; bem próximo, tinha duas pistolas, seus ouvidos atentos ao ranger das escadas. A curta distância, aquela espingarda de cano curto, boca em forma de trombeta, fazia um estrago. Espalhava tantas balas de chumbo num só tiro que feria pesado um bom número no apertar do gatilho. E Tiradentes a tinha carregada. G Aos 42 anos, Tiradentes era um homem alto e já ficava grisalho. Carregava, segundo alguns historiadores, uma tênue cicatriz no rosto. À moda dos oficiais militares, mantinha um bigode bemaparado que descia até os cantos dos lábios.[3] Cuidava dessa aparência. Mesmo anos depois, quando já haviam confiscado quase todos os seus bens e estava a caminho da forca, ainda lhe restavam na cela os inseparáveis ferrinhos de tirar dentes, um espelho e não uma, mas duas navalhas. Seus últimos pertences. Provavelmente não se reconheceria no rosto barbado pelo qual a história oficial convencionou representá-lo. Não era um homem pobre.


Além de sua casa e da sociedade em uma farmácia, ambas em Vila Rica, era dono de uma pequena fazenda com 50km2 na fronteira do Rio com Minas. Tinha cinco escravos, um deles criança. Gado.[4] Não foi muito longe na escola, mas escrevia fluentemente e encarava, embora com dificuldades, livros em francês. Era um homem curioso, capaz de discutir longamente a filosofia política dos movimentos liberais nascentes, a formação de Estados e a justiça das leis. Sem qualquer diploma, se tornara um engenheiro civil competente na vida prática. Era referência por sua capacidade de “pôr e tirar dentes”[5] e conhecia inúmeras plantas medicinais. Não tinha a sofisticação de alguns de seus contemporâneos que passaram pelas melhores universidades europeias, mas de simples sua família tinha pouco. O pai, fazendeiro, ocupara cargos na alta burocracia de São José del-Rei, atual Tiradentes. Tinha dois irmãos padres, indício de educação formal superior. Seu primo-irmão, o frei José Mariano Velloso, foi o primeiro grande botânico brasileiro, cujos estudos serviram de base para a criação do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Embora conhecido mais por Tiradentes do que qualquer outra coisa, na vida o alferes Joaquim José da Silva Xavier ganhou inúmeros apelidos, como “o República” ou “o Liberdade”.[6] Não à toa: era um empolgado. Falava sobre os planos de sedição com quem pudesse nas estradas, estalagens e tabernas, com os companheiros de quartel. Quando podia, até prometeu cargos futuros. Fez isso após uma boa noite com as Pilatas, duas irmãs morenas de 20 e 21 anos e sua mãe quarentona, uma mulata clara que vivia de costurar e de vender a bom preço os favores sexuais das filhas. Pilatas, ora, porque pilata é a pia de água benta na qual todos passam a mão.[7] “Rústico e atroado,[8] falava muito depressa”, descreveu um colega de tropa. “Feio”, de “olhar espantado”, segundo o poeta José Inácio de Alvarenga Peixoto. Homem de “pouca capacidade”, “maníaco”, “louco”, contaram outros. “Anda feito corta-vento”, afirmou outro poeta, Cláudio Manuel da Costa, sugerindo um perfil inconsequente para Silva Xavier. Em todos os depoimentos do processo que buscou apurar a conspiração dos mineiros, quem pôde tentou se afastar do menos discreto de todos os réus. Talvez fosse feio. Por falar com tantos sobre quantos detalhes pôde, devia ser mesmo do tipo que faz discursos e é tomado pelo ânimo das próprias palavras. Mas nem nas muitas cartas que escreveu, nem nos depoimentos que prestou, nem nos planos de obras públicas que deixou, estão a mera sugestão de um homem pouco inteligente ou mesmo ingênuo.

Quando chegou ao Rio de Janeiro, no final de março de 1789, Silva Xavier estava acompanhado de outro alferes, o mineiro Matias Sanches Brandão, de 47 anos.[9] Os dois oficiais, companheiros nos Dragões de Minas, alugaram juntos uma casa na rua Mãe dos Homens, atual Uruguaiana. A eles se juntou, dias depois, o soldado português Francisco Xavier Machado, subordinado a Tiradentes na 6ª Companhia do Regimento Regular de Cavalaria. A revolução que faria de Minas Gerais, depois Rio e talvez São Paulo independentes de Portugal, estava atrasada. Talvez não pudesse mais começar por Minas. E ali, na capital da colônia, Tiradentes conhecia muita gente. Gente com influência e gente com dinheiro. Uma das primeiras portas em que bateu foi a de Simão Pires Sardinha, que conhecia de vista.[10] Mineiro como os dois alferes, mas natural de Serro Frio, terra dos diamantes, era um tipo raro. Nascido escravo, fizera universidade em Portugal. Naturalista, foi um dos primeiros a estudar fósseis no país. Aos 36 anos, era homem de confiança do ex-governador de Minas, Luís da Cunha Meneses, e protegido do vice-rei, Luís de Vasconcelos e Sousa. Mas também frequentava a Sociedade Literária do Rio,[11] o grupo de cientistas e artistas que, logo após o enforcamento de Tiradentes, foi acusado de organizar uma conjuração carioca. Sardinha era um homem rico, dono de muitas terras e, principalmente, filho primogênito de Francisca da Silva de Oliveira, a belíssima escrava liberta que causara escândalo e surpresa no distrito diamantino por ser tratada como sua mulher pelo contratador João Fernandes de Oliveira. Chica da Silva. Sardinha, morando há menos de um ano no Rio, conhecia todo mundo, de todos os lados. Na primeira de três visitas a Sardinha, em 26 de março, Tiradentes levou consigo um exemplar em inglês de História da América Inglesa, escrita pelo pastor e historiador escocês William Robertson. Era um empréstimo. Silva Xavier fazia isso com frequência: apresentava livros estrangeiros e pedia ajuda na tradução. Além de ajudá-lo a conhecer textos em línguas que não dominava, era também uma desculpa, método de sedução para a causa, atalho para encaminhar a conversa. E Sardinha era umpossível aliado importante. Os Estados Unidos se declararam independentes da Inglaterra em 4 de julho de 1776, o que culminou em uma guerra sangrenta de oito anos. A inovadora Constituição do país começara a ter efeito justamente naquele março de 1789 e George Washington estava a semanas de tomar posse como o primeiro presidente de uma república moderna. Os Estados Unidos eram a maior inspiração de vários dos inconfidentes mineiros e dentre eles estava Tiradentes, que devorava o que podia sobre as ideias que moveram a independência norte-americana. Quase um mês depois, o alferes retornou à casa de Sardinha.

Estava mais confiante no contato, mais à vontade na conversa: trazia companhia, o amigo Sanches Brandão. Levava também umsegundo livro, este em francês: o Recueil de loix consituitives des colonies angloises, confédérées sous la dénomination d’États-Unis de l’Amérique Septentrionale.[12] Era um livro miúdo, pouco maior do que um caderno Moleskine atual. Editado na Suíça uma década antes, já circulava clandestinamente na França pré-revolucionária. Não era pequeno à toa: fácil de esconder no bolso. O livreto agregava as constituições de seis das treze colônias norte-americanas, a Declaração de Independência escrita por Thomas Jefferson, o Ato que liberava a navegação dentro dos estados constituídos e uma penca de outros documentos jurídicos. Estava ali a base pela qual os inconfidentes pensavam o novo Brasil. Entre finais de março e quase todo o mês abril, Silva Xavier movimentou-se livremente pelo Rio de Janeiro, fazendo não se sabe quantas visitas a quem. Era um homem com pressa e a revolução estava atrasada. Mas sua vida mudou repentinamente quando o soldado Machado se encontrou comSimão Sardinha na rua — e Sardinha tinha notícias. Tiradentes era seguido, melhor tomar cuidado. Assustado, o soldado perguntou o por quê. Talvez por contrabando, ouviu do filho de Chica da Silva.[13] Eram dois granadeiros. Haviam raspado os bigodes militares como disfarce e, porque só podiamfazê-lo por ordens superiores, a missão era oficial. Vestiam capotes. E Tiradentes já desconfiava. O sangue do “espantado”, do “maníaco”, ferveu. A primeira reação foi intempestiva. Rumaria para uma área mais deserta da cidade para “partir eles com a espada e fazê-los em quartos”.[14] Mas aí esfriou. Estaria seguro em Minas. Precisava voltar e sua licença estava por expirar. Como era soldado, para fazer a viagem precisaria de permissão do vice-rei. E, se não a tivesse, teria de traçar um plano de fuga.

O cerco estava se fechando. O vice-rei do Brasil, Luís de Vasconcelos e Souza, já sabia de tudo. Foi entre os dias 24 e 25 de março[15] que recebeu uma carta do jovem governador de Minas, o visconde de Barbacena, alertando para uma conspiração pela independência. Crime de primeira cabeça. De lesa-majestade. Máxima traição. Pela carta, Barbacena também lhe apresentava o coronel de tropas auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, autor da denúncia. Silvério estava a caminho do Rio. Por último, o visconde recomendava que Tiradentes fosse preso. Sugeria usar como desculpa a suspeita de que fosse contrabandista — isso permitiria que a investigação prosseguisse sem alertar aos demais. Mas Vasconcelos tinha outro plano. Queria saber com quem o alferes conversava no Rio. As fontes de Sardinha dentro do palácio eram boas. Deu a notícia dos espiões a Machado no dia 26 e já tinha ouvido a história de que a acusação seria por contrabando. Naqueles primeiros dias, enquanto convivia com a escolta indesejada, Machado e Sanches Brandão passaram aos contatos do Silva Xavier a notícia de que o alferes era seguido. Por prudência, melhor evitar encontros. No dia 1º de maio, Sanches Brandão foi ao palácio requerer sua licença para voltar a Minas. Conseguiu. No mesmo dia, Tiradentes voltou uma última vez à casa de Sardinha. Desta vez, estava acompanhado do jovem capitão paulista Manuel Joaquim de Sá Pinto do Rego Fortes. Família velha de São Paulo, bem-nascido, e um antigo conhecido das campanhas atrás de bandoleiros no mato mineiro. Saiu de lá com seu exemplar do Recueil. Ele tentaria a licença oficial. Mas já traçava seu plano de fuga. Quando foi ao palácio no dia 2, Tiradentes foi recebido pelo vice-rei em pessoa.

Luís de Vasconcelos estava de bom humor e não tinha qualquer intenção de permitir uma viagem do alferes. Silva Xavier, por sua vez, tentava não confrontá-lo demasiadamente. Não estava certo sobre o quanto o vice-rei sabia. Assim, dançaram. Fizeram uma conversa em círculos. “Vossa mercê ‘gosta da terra’”,[16] disse-lhe Vasconcelos. Era querido por muitos no Rio. Além do quê, o alferes havia proposto algumas obras públicas na capital e o vice-rei prometera que daria despacho brevemente. Sua licença em Minas, no entanto, estava por acabar, ponderou o alferes. Precisava se apresentar no quartel ou corria o risco de que lhe dessem baixa. Queria demonstrar disciplina. Ouviu em resposta que não se preocupasse, que a licença seria renovada. Aí Tiradentes interrompeu. Estava seguido por dois espiões, disse. Se era suspeito de algo, que fosse encaminhado o quanto antes ao Conselho de Guerra.[17] Vasconcelos não acusou o golpe. Desconversou. Não teria permissão para deixar a capital. Sem que soubesse, nunca mais deixaria o Rio de Janeiro. Nunca mais veria a “beleza, fertilidade e riqueza” daquele que um dia chamou de o “país Minas Gerais”. Passava das 19h do dia 6 de maio quando Tiradentes procurou novamente Rego Fortes. Aos 26 anos, capitão do Regimento de Voluntários Reais de São Paulo, chegara ao Rio poucos dias antes. O sobrado em que ele se hospedava, na rua dos Quartéis (hoje Conselheiro Saraiva), ficava a menos de um quilômetro da casa alugada pelo alferes. Muito mais importante e estratégico do que o jovemoficial paulista, porém, era o velho carioca seu anfitrião. O sobrado pertencia a Inácio de Andrade Souto Maior Rendon, um rico dono de terras em Nova Iguaçu.

[18] Seu irmão, o conde de Arganil, era reitor da mais importante universidade do Império português, Coimbra. Décadas depois, seu filho, feito marquês de Itanhaen, seria tutor de d. Pedro II. Marechal de campo, o equivalente a coronel, Souto Maior morreu ocupando o cargo máximo de brigadeiro. Rico, influente, nobre, poderoso. Do tipo com quem não se mexe. Souto Maior não estava. No sobrado, onde ficou por aproximadamente uma hora, Silva Xavier encontrou Rego Fortes e o cunhado do marechal de campo, Manuel José de Miranda. Pedia refúgio num dos engenhos do poderoso amigo na Baixada Fluminense e, de lá, um guia que pudesse levá-lo pelo interior, desviando-se escondido das estradas principais, até a divisa com Minas. De cada um recebeu uma carta que o recomendava. “Meu prezadíssimo amigo e senhor do coração”, escreveu o capitão Rego Fortes,[19] “o portador desta, por não gostar de algumas coisas que tem visto nesta cidade e falar com alguma paixão e razão, vê-se vendido e, segundo julgam os prudentes, em termo de alguma perdição, porque lhe têmtomado os postos. Ele é um homem de bem, e por isso eu me condoo do seu incômodo. V. s., como tão honrado, creio que lhe acontecerá o mesmo e, nesta certeza, eu o encaminho para essa ilustre casa, a fim de que v. s. o ponha em salva terra, como espero. Deus guarde a v. s. como deseja o seu amigo do coração”. Rego Fortes não assinou seu bilhete. Miranda, por outro lado, assinou o seu: “O portador desta me pede que v. s. o encaminhe, e ele melhor expressará a sua tenção, pois na ocasião se vê bem vexado. Ele é meu patrício e conhecido a quem desejo que não tenha incômodo por falar verdades quando neste tempo só as lisonjas mentirosas, e vaidosas adulações, é que agradam aos maiores, e por este motivo os homens de bem se veem neste tempo abandonados.

” Aos juízes do inquérito, tanto o capitão quanto o cunhado negaram que tivessem qualquer outro contato com Joaquim José da Silva Xavier desde aquele dia.[20] Disseram nada saber da Inconfidência. Explicaram que pretendiam apenas ajudar a um militar que temia perder o cargo caso voltasse para Minas depois de expirada a licença. Um escravo da casa, porém, disse que o alferes retornou ao sobrado à meia-noite daquele dia. Trazia suas malas. Só saiu de lá às 3h, alta madrugada. Na acareação com o patrão e seu amigo, o criado explicou que dormira cedo e que devia estar enganado. Depois da prisão, os soldados encontraram a bagagem do alferes no Engenho do Mato Grosso, emNova Iguaçu. O marechal de campo Inácio de Andrade Souto Maior Rendon jamais foi interrogado. Na manhã seguinte àquela visita, 7 de maio, Tiradentes desapareceu. Inácia Gertrudes de Almeida era tia do poeta Alvarenga Peixoto. Aos 57 anos, viúva, morava na rua da Alfândega, a poucas quadras de Tiradentes. Naquela manhã, foi em sua casa que ele bateu. Um ano antes, utilizando-se de um unguento natural, o alferes havia curado uma ferida feia, uma “chaga cancerosa”, no pé da filha de dona Inácia. Uma ferida que muito médico diplomado não teria resolvido. Agora ele pedia ajuda: uma casa onde pudesse ficar escondido por uns dias até o momento de seguir para a Baixada. Em finais do século XVIII, porém, a vizinhança reparava se na casa de duas mulheres, uma viúva, a outra jovem e solteira, ficasse hospedado um homem que não fosse da família. Dona Inácia lembrou-se de seu melhor amigo, o compadre Domingos Fernandes da Cruz, umsenhor de 64 anos, ourives, que vivia não longe dali, na rua dos Latoeiros. Atual Gonçalves Dias. Quase na esquina. O padre Inácio de Lima, um rapaz de 27 anos, sobrinho de dona Inácia, intermediou a conversa. Os boatos que circulavam sobre o motivo da fuga de Tiradentes já eram muitos. Fugia de uma dívida. Estava procurado por contrabando de diamantes ou ouro. Talvez estivesse até envolvido num plano de independência.

Ourives, seu Domingos talvez tenha crescido o olho na possibilidade de hospedar um contrabandista. Tiradentes chegou à sua casa às 22h daquele dia. Não trazia muito. Do alferes Sanches Brandão, seu amigo, levava emprestado um bacamarte. Com o soldado Francisco Xavier Machado, seu subordinado, pegou duas pistolas. Na véspera, fizera às pressas um contrato de venda, repassando um escravo para o sargento-mor Manuel Caetano de Oliveira Lopes, primo de um dos inconfidentes mineiros. Se terminasse preso, pelo menos o rapaz Camundongo, sua propriedade, não terminaria no auto de sequestro dos bens. Outros três de seus escravos haviam sido levados por Sanches Brandão. Eles o esperariam na margem do rio Paraibuna, entre Rio e Minas, com a missão de preparar uma canoa para que o alferes o cruzasse em fuga. Aqueles foram dias de aflição. E, aflito, Silva Xavier tomou a decisão que lhe custou a vida. Tiradentes é, oficialmente, patrono cívico do Brasil. O Duque de Caxias, herói da Guerra do Paraguai, é patrono do Exército. E é no mínimo curioso que o judas eleito pela história brasileira, o coronel Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes, delator da Inconfidência, fosse tio de Caxias. Sua mulher, Bernardina Quitéria de Oliveira Belo, era irmã de Maria Cândida, mãe do duque. Silvério tinha 33 anos. Era um dos homens mais ricos de Minas e também dono de uma das maiores dívidas com o governo. Num momento de desespero, acreditando que a revolução caminhava para o fracasso, decidiu que se delatasse todos poderia obter de prêmio o perdão da dívida. Chegara ao Rio no dia 1º de maio e Tiradentes fora informado disso. O que ele não sabia era que seu bom amigo era também seu algoz. Escondido no sótão da rua dos Latoeiros, o alferes pediu a Domingos, seu anfitrião, que procurasse por Manuel José de Miranda. O cunhado do marechal de campo. Queria confirmar a ida para a Baixada. E ao padre Inácio, Tiradentes pediu que procurasse Silvério dos Reis. Silvério era “amigo”, disse.

Pode confiar. Desejava saber “em que termos vão as coisas”, mas não entrou em detalhes. Ao retornar para sua casa na noite do dia 8, o coronel teve a notícia de que um jovem padre já o havia procurado por duas vezes. Na manhã do dia seguinte, ele retornou. “As coisas estão em muito má figura”, respondeu Silvério, intrigado. Aí perguntou onde estava o alferes. “Não é da sua conta”, ouviu como resposta.[21] Padre Inácio tinha a recomendação de confiar, mas desconfiava. “Ora, senhor padre, vossa mercê não é mais amigo do alferes do que eu”, disse Silvério. “Diga-me onde está que preciso comunicar-me com ele para seu benefício.” No dia 9, o coronel procurou o vice-rei. Sabia quem conhecia o paradeiro de Tiradentes. Desde que ele desaparecera alguns dias antes, a cidade estava cercada. Ninguém saía ou entrava sem ser vistoriado. Cartas não passavam sem ser interceptadas e lidas. Na manhã do dia 10, o padre foi apresentado no Palácio. Negou que conhecesse Silvério ou que soubesse do alferes. Naquele dia, de bem-humorado o vice-rei não tinha nada. Se o padre não entregasse o paradeiro, que ficasse claro, Luís de Vasconcelos “o havia de consumir”. Tiradentes está na rua dos Latoeiros. Na casa de Domingos Fernandes da Cruz. O bacamarte estava carregado, mas quando os soldados entraram no pequeno quarto, o alferes preferiu não resistir. Entregou-se. Talvez ainda houvesse chance para a revolução, mesmo sem ele. Joaquim José da Silva Xavier foi o primeiro dos presos pela Inconfidência Mineira.

Silvério dos Reis, o delator, foi o segundo. Quando o contato entre Tiradentes e Simão Pires Sardinha, o bemrelacionado filho de Chica da Silva, se fez evidente, o vice-rei do Brasil rapidamente o liberou para que viajasse a Lisboa. Que fosse para longe do risco. Na capital portuguesa, foi interrogado uma vez por procuração, de forma burocrática, por alguém que tinha pouca intimidade com o processo. A conversa jamais prosperou. O padre Inácio, dona Inácia Gertrudes e seu Domingos foram presos por meses, interrogados, e liberados. O capitão Rego Fortes e o cunhado do marechal de campo, Manuel José de Miranda, foram igualmente interrogados. Rego Fortes morreu na prisão. O marechal de campo em cuja fazenda foram encontradas as malas do alferes sequer foi procurado. Nos mais de três anos do inquérito, houve pouco esforço para investigar além das fronteiras mineiras. Que se abafe o caso. Se vasculhassem demais, poderiam descobrir que não era só toda a elite mineira que simpatizava com a ideia de independência. Que também ao menos um naco da elite carioca explorava a possibilidade. Quem sabe até a elite paulista. Talvez os três grupos — mineiros, cariocas, paulistas — dedicassem horas a fio, madrugadas adentro, conversando juntos, nos sobrados, sobre liberdade. Se fossem ainda mais fundo na investigação, talvez tivessem de encarar o fato de que a culpa pertencia à política portuguesa. Talvez tivessem apertado demais, dado autonomia de menos, sufocado ao ponto de quase estourar. Apenas alguns meses após a prisão do alferes, a Bastilha caiu, em 14 de julho de 1789. Ainda antes da forca ser erguida no centro do Rio, Luís XVI se viu obrigado a assinar uma Constituição na qual abria mão de seus poderes absolutos. Quando a guilhotina desceu pela primeira vez em Paris, Tiradentes ainda respirava. Num arco de apenas três anos, havia mudança radical na Europa. O Antigo Regime começava a se esvair. E com um olho na França, outro em Minas, o alto comando português não pôde negar a similaridade dos discursos.[22] A mesma conversa de república, liberdade, limites aos poderes absolutos. Entre a prisão de Tiradentes, naquele 10 de maio, em 1789, e o enforcamento, em 21 de abril de 1792, algo mudou na percepção dos portugueses.

Prenderam um grupo que, avaliaram no primeiro momento, era formado por contrabandistas de ouro e pedras que traíram para sonegar impostos. Mas seria só isso mesmo? E se o movimento tivesse simpatias além de Minas? E se a motivação não fosse apenas o dinheiro, as dívidas, mas também ideias? República e Liberdade, apelidos de Tiradentes. Ideias perigosas e, aparentemente, prenúncio de um tempo por vir. Os Estados Unidos, que moveram o sonho de tantos inconfidentes, já não eram mais exemplo isolado. No fim, talvez fosse melhor não conhecer a real dimensão daquele movimento. Se aprofundassemdemais a investigação, começassem a colocar todos que conversavam sobre os mesmos assuntos inconfidentes na cadeia, os portugueses poderiam forçar demais o que parecia ser o tênue equilíbrio que ainda mantinham com o Brasil. Mas não investigaram. Limitaram o foco ao grupo de Minas, evitaram certas perguntas. Porque não foram a fundo, a não ser que surja algum documento novo, jamais saberemos de tudo. Mas, ao que parece, a revolução poderia ter acontecido. Tiradentes foi o único levado à forca, mas não o único morto pela punição. Dois dos três grandes poetas árcades mineiros morreram pelas agruras da cadeia. Outros dois morreram antes de ouvir a pena. Tiradentes não era o mais pobre, não era o menos educado. Muito menos era, como leram alguns, um dos menos capazes de exercer influência. Seus últimos dias de liberdade no Rio mostramum dos traços mais notáveis de sua personalidade: a capacidade de envolver gente de todas as classes, de seduzir, de cultivar alianças. Assim como mostram sua inconsequência, seu agir sem pensar pela ansiedade, sua exposição demasiada. No período de prisão apenas um detalhe o distinguiu dos outros: após inúmeros interrogatórios, foi o único réu confesso. A Inconfidência Mineira não foi o único movimento pela independência brasileira nas décadas anteriores a 1822. Talvez sequer tenha sido o mais bem-organizado. Mas possivelmente foi o movimento pela independência que envolveu mais gente em mais estados. Nenhum outro grupo contou com tantas mentes brilhantes, tantas personalidades carismáticas ou terminou de forma tão simbólica, na forca, com um mártir esquartejado. E dificilmente outro movimento ensinou tanto a Portugal sobre os limites de seu poder. Mas esta é uma história que só pode ser compreendida se começarmos sete anos antes, quando chegou a Vila Rica, capital da província mineira, o desembargador português Tomás Antônio Gonzaga.

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