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18 cronicas e mais algumas – Maria Rita Kehl

O que deve escrever uma (um) psicanalista nas páginas de um jornal? Parece óbvio – pelo menos entre colegas de profissão – que sua primeira missão seja divulgar a psicanálise entre leigos. Se assim for, que seja feito com cuidado. Mesmo quando praticado com honestidade, o proselitismo tem limites. Na melhor das hipóteses, fica chato e previsível. Na pior, transforma-se em propaganda – à qual, invariavelmente, o epíteto “enganosa” assenta melhor que uma luva. Vale acrescentar que o profissional que utilizasse o espaço regular de um veículo de comunicação para divulgar a própria profissão despertaria, com razão, desconfiança nos leitores. Não estaria advogando em causa própria? Caberia, então, ao psicanalista aproveitar o espaço na mídia para explicar ao leitor, com base na teoria freudiana, certos fenômenos e “comportamentos” que intrigam a sociedade? Com frequência, é o que esperam editores e repórteres que nos solicitam entrevistas, na esperança de obter o selo “Freud explica” como recurso prestigioso para a compreensão de todo e qualquer fenômeno social que inquiete os leitores e, pela mesma razão, ajude a vender jornais. Também nesse caso há de se ter cautela. Desde que, em meados do século passado, a psicanálise popularizou-se – pelo menos entre setores intelectualizados das classes médias, na Europa e nas Américas –, muito já se usou e abusou do jargão freudiano para explicar de crimes passionais a tendências de consumo, de corrupções a revoluções. Não há fenômeno da vida social que não se deixe envolver pela embalagem elegante do pacote psi: desde o “trauma” até o sintoma histérico, desde o complexo de Édipo até as perversões. O impacto inquietante que a notícia sobre o inconsciente provocou nas sociedades bem-comportadas do início do século XX deu lugar, cem anos depois, à expectativa de que a psicanálise ofereça explicações confortadoras para o mal-estar na civilização. Mas a psicanálise não tem vocação apaziguadora. A grande potência do dispositivo analítico continua a ser a de desestabilizar – certezas, crenças, ilusões, defesas neuróticas, fortalezas narcísicas. Por outro lado, o interesse leigo pela psicanálise também tem aspectos positivos. Apesar do avanço do prestígio das neurociências, auxiliado pela poderosa máquina de influenciar comportamentos dos laboratórios farmacêuticos, o mundo contemporâneo ainda manifesta grande interesse pelos fenômenos do inconsciente. A restrição que faço ao abuso de explicações psicológicas para tentar esclarecer as raízes dos fenômenos sociais que nos inquietam é que elas costumam naturalizar as razões do sofrimento social e, com isso, produzir conformismo em relação aos possíveis aspectos políticos do problema. “O ser humano é assim mesmo, Freud explica”, diz o conformista ilustrado, buscando acomodar a consciência a situações de caráter avesso à ilustração em nome da qual ele se pronuncia. Ora, o corpus teórico da psicanálise, quando não participa da teoria crítica – única empreitada bemsucedida a aliar a potência investigativa da psicanálise à do materialismo dialético –, não é aplicável fora da clínica. Somente na situação transferencial a teoria tem a função de nortear a escuta e as intervenções do analista na direção de uma cura que passa, necessariamente, pela indagação do sujeito a respeito de seu desejo. Por isso, em psicanálise, o termo “cura” não se confunde com o ideal médico de normalização das funções vitais e/ou sociais, mas sim, ao contrário, aposta no encontro entre o sujeito e a sua mais íntima anormalidade, sua singularidade radical. A psicanálise, a rigor, não é aplicável a situações fora da relação de transferência que a clínica propicia. Há quem diga que o próprio inconsciente seja um fenômeno de laboratório, que só existe em presença do analista, se a transferência se estabelecer. Um purismo de tal monta deixa de levar em consideração os fenômenos coletivos estudados pelo que Freud chamou de “psicologia das massas”. Sim, o inconsciente participa da política. O psicanalista deve levar isso em conta a cada vez que, no dizer de Lacan, pretender abarcar com sua prática o horizonte subjetivo de sua época.


Mas as formações do inconsciente que se manifestam na vida pública não são redutíveis àquelas que determinam a posição do sujeito frente ao seu sintoma e ao Outro. O sintoma, quando social, não se reduz a uma mera amplificação daquele dito individual – embora, por vias diferentes, ambos possamser entendidos como tentativas de responder a uma suposta demanda do Outro. A psicanálise, desde a sua criação, nunca foi uma flor de laboratório confinada ao espaço clínico que propicia a transferência; mas também não se presta ao papel de teoria disponível para explicar todas as bizarrices que o humano, sozinho ou em grupo, é capaz de praticar. Aliás, vale dizer que a psicanálise (assim como seu irmão gêmeo em importância no século XX, o materialismo histórico) não é uma teoria aplicável, à maneira dos modelos teóricos fechados, a situações individuais e/ou econômicas e sociais. A potência da psicanálise freudiana e a do materialismo histórico de raiz marxista se mantêm até os nossos dias porque, em ambos os casos, a teoria é sustentada por pressupostos dinâmicos aliados a métodos investigativos capazes de auxiliar a compreensão das tensões sociais, das crises econômicas, da dominação entre classes, assim como das motivações desconhecidas, ditas inconscientes, das ações individuais e grupais. Em ambos os casos, a teoria precisa renovar-se constantemente para absorver as transformações que seus objetos, dinâmicos em essência, nunca param de sofrer. Tal instabilidade do objeto não impede que psicanalistas e marxistas se instalem na confortável linha de montagem da produção acadêmica. Nunca é demais lembrar a advertência de Lacan de que a psicanálise não é um discurso universitário. Nossa paixão pela segurança, tão humana, que nos leva a querer estar sempre sob a sombra de um mestre ou, o que é pior, de uma instituição, às vezes nos impede de entender que a psicanálise se pratica e se escreve a perigo. Ou será que isso vale para todo verdadeiro ato, seja político, clínico ou de escrita? A função da escrita do psicanalista – se ele escreve a partir de sua prática profissional, não como poeta, romancista, cronista, filósofo amador ou o que mais ele queira – deveria ser, acima de tudo, investigativa. Isso é o oposto do que se chama de psicanálise aplicada, reprodução mecânica do cânone teórico para “explicar” um filme, um livro, um assassinato ou um golpe militar. O melhor que um psicanalista pode fazer na imprensa é quase idêntico ao melhor que pode fazer um jornalista vocacionado: indagar o objeto de seu interesse, para além dos automatismos ideológicos e do conforto da teoria aplicada. A diferença está no instrumental de que cada um dispõe e do objeto a ser investigado. Indagar sobre a história (marxismo), os “fatos” (jornalismo), as motivações e/ou consequências silenciadas de um fato (psicanálise). Pensando bem, “silenciadas” pode ser um eufemismo para o termo exato: “inconscientes”. Se toda psicanálise, como escreveu Freud, é uma “psicologia de grupo”, já que o sujeito é indissociável do campo simbólico a que pertence, daí decorre que alguns conceitos da clínica psicanalítica podem, sim, esclarecer fenômenos da vida social. Palavras, ideias e percepções podem ser recalcadas por uma determinada cultura – silenciadas, proibidas ou simplesmente encobertas pelos automatismos de pensamento, julgamento e ação a que chamamos ideologia. Ora: todas as formações sociais sobre as quais a palavra silencia (pelo menos, em seu alcance público) estão sujeitas a manifestações sintomáticas. O sintoma, essa tentativa de manter o recalque e, ao mesmo tempo, dar vazão ao impulso que se associa à representação recalcada, também pode se manifestar na vida social. A tarefa do psicanalista que escreve para leitores leigos não seria, prioritariamente, a de aplicar conceitos freudianos para explicar todos os acontecimentos que afetam as condições do laço social. Se o psicanalista, por efeito de sua prática clínica, encontra-se em uma posição privilegiada para “vislumbrar no horizonte a subjetividade de sua época”, tal posição deveria torná-lo capaz de trazer para o campo simbólico alguns fragmentos de gozo (a que chamamos o Real) que ameaçam e desorganizam a vida em sociedade. Nisso não estamos sozinhos: os filósofos, os sociólogos, os artistas em geral compartilham dessa mesma empreitada de incluir as manifestações cegas do Real no campo simbólico, de farejar o recalcado e desvendar o sintoma social, sempre que isso estiver ao alcance de seu pensamento crítico ou de sua intuição. Se sua observação for equivocada – porque não existe diagnóstico certeiro, menos ainda fora da clínica –, ao menos terá colocado a bola em campo. A palavra cava um buraco no muro de silêncio, ou de crenças pétreas, que obscurece a visão das raízes do sofrimento social. É óbvio que o psicanalista que escreve na imprensa, assim como o bom jornalista, não é profeta nem adivinho.

Por mais ousada que seja sua palavra, ao entrar em circulação no espaço público ela estará sujeita a críticas, elogios e contestações. Na pior das hipóteses, será irrelevante. Na melhor delas, terá contribuído com a discussão de um fato, uma crença, um automatismo ideológico que, sem isso, passariam despercebidos ou despertariam apenas o conformismo indignado e silencioso dos leitores. Se for bem-sucedido, o autor talvez encontre quem lhe diga que ele escreveu o que muita gente pensa. “Você escreveu o que eu queria ter escrito” é uma das frases que atesta a pontaria do escritor. A outra possibilidade, de que um leitor se diga indignado com as “bobagens” escritas por ele, pode indicar que o autor errou a pontaria. Ou não: quem sabe a crítica revele que o texto cumpriu seu destino e, por isso mesmo, incomodou muita gente – como acontece com frequência entre jornalistas com direito a expressar sua opinião e assinar embaixo. Só agora, seis meses depois de ter perdido minha coluna quinzenal em um grande jornal paulista, sob alegação de não ter ocupado o espaço de que dispunha para escrever como psicanalista, sinto-me capaz de formular com clareza isto que, desde sempre, foi para mim uma convicção. Todo texto autoral publicado na imprensa não especializada tem por vocação ser opinativo e analítico, no sentido amplo do termo. Penso que, ao ocupar esse lugar público, o psicanalista não deve se imbuir do papel daquele que explica o mal-estar. O psicanalista é o mais perplexo de todos os cidadãos, que, por deformação profissional ou pela estrutura psíquica que determinou sua escolha, não consegue deixar de ser afetado, atravessado, pelas formações do inconsciente da sociedade em que vive. Por isso, a escrita do psicanalista é sempre clínica – mas não sua aplicação. O que distingue o lugar do psicanalista na imprensa não é o número de vezes que ele se refere a Freud, a Lacan ou ao complexo de Édipo, nem é a escolha de pautas relacionadas à vida íntima e aos problemas amorosos ou familiares. O que poderia diferenciar o psicanalista que escreve em jornais, e que, acima de tudo – que isto não seja esquecido –, é também um cidadão, é o modo como sua experiência clínica pode ajudá-lo não a explicar, mas a escutar o sintoma social. É a abertura para as manifestações do inconsciente, não a explicação teórica, que faz com que um texto seja psicanalítico – não “ao invés de” jornalístico, e sim “além de”. Isso vale também para a escrita teórica de grande porte. A escrita psicanalítica não é a palavra do explicador professoral nem do especialista. Em uma carta dirigida a mim, pouco antes de sua morte, Hélio Pellegrino afirmou que, no seu entender, o psicanalista deveria ser o contrário de um especialista, uma vez que sua prática profissional exige que ele se deixe afetar pela palavra do outro. Transformar-se em uma “caixa de percussão”, foi como Hélio Pellegrino definiu a posição subjetiva desse profissional. Também sua escrita deveria esgalhar-se em todas as direções de onde se manifeste o enigma do retorno do recalcado. Enigma diante do qual o psicanalista não se coloca como aquele que sabe e sim como o clown que não se constrange em manifestar sua perplexidade a fim de desnaturalizar tudo aquilo – a violência, a corrupção, a injustiça, a burrice que se conforma, a desigualdade, os abusos de poder – que somos levados a aceitar como se fossem fatalidades da vida social. Fui jornalista antes de ser psicanalista. Comecei a escrever no extinto Jornal do Bairro, dirigido pelo escritor Raduan Nassar e editado pelo generoso José Carlos Abbate, que me ensinou a formatação jornalística do texto. Isso se deu um ano depois de entrar em vigor a lei que impedia a contratação, pelos veículos da imprensa, de profissionais não formados em jornalismo – o que me condenou ao eterno lugar de escritora freelancer, a partir do qual acabei por colher as desvantagens e as vantagens da não especialização. Vivi exclusivamente dos ganhos com artigos jornalísticos durante os sete anos seguintes, sob a forma dos contratos mais irregulares, tanto na grande imprensa como na chamada imprensa nanica, que, na década de 1970, fazia oposição à ditadura militar.

Mesmo depois que comecei a exercer a função de psicanalista clínica, nunca deixei de escrever para revistas e jornais de maior ou menor circulação – às vezes, sob encomenda de algum editor. Com maior frequência, publiquei textos de “opinião”, por iniciativa minha. A escrita jornalística me fez conhecer, mais do que os livros publicados ou os textos editados em revistas de psicanálise, a alegria incomparável de constituir uma voz que se faz reconhecer e escutar de imediato, no espaço público. Assim como o psicanalista, o autor de artigos assinados na grande imprensa só se autoriza por si mesmo. Se o texto for ruim, irrelevante ou longo demais, pode ser recusado pelo editor. Mas raramente um bom editor recusa o texto polêmico, ainda quando discorde dele. A polêmica é a faísca que intensifica a ligação do leitor com o jornal. Minha experiência é de que quanto mais provocativo for o texto, mais chances terá de conseguir espaço em uma página de jornal. Por conta disso, existem os provocadores profissionais, que garantem seu espaço incomodando os leitores, desafiando o senso comum, tenham ou não alguma coisa interessante a dizer. Tenho dúvidas quanto à lisura desse expediente: a provocação vazia pode mobilizar paixões tristes entre os leitores, mas raramente mobiliza pensamento. Em 1988, publiquei na Folha de S.Paulo um texto muito curto de crítica ao estilo de Paulo Francis, então colunista daquele jornal. Afirmava que a máquina de provocar, acionada por Francis com grande maestria e forte dose de dogmatismo, tinha a função de impactar e intimidar o leitor, de modo a impedi-lo de pensar. O leitor de Paulo Francis aderia ao seu ponto de vista por efeito de fascinação ou por medo de humilhação, nunca por ter sido convocado a refletir junto com o autor. O jornal não protege o freelancer das bobagens que ele escreve em nome próprio, embora – como fui perceber, em 2010, com o episódio do cancelamento da minha coluna no Estado de S. Paulo – nem tudo o que leve a assinatura do autor seja aceito pela diretoria ou pelo corpo de acionistas, ainda quando o tema seja atual e o texto encontre um bom número de leitores. Os verdadeiros provocadores profissionais, em geral, não se arriscam nesse terreno: cutucam o leitor, nunca o patrão. Eu também não quis arriscar-me, pelo menos não pelo puro gosto do risco. Mas é preciso que eu diga, com a máxima honestidade: mesmo nos casos em que não ignorava o perigo que minha escolha representava para a continuidade da coluna, quando uma pauta se impunha ao meu pensamento e ao meu desejo não me sentia capaz de escolher outro tema, menos comprometedor. O ego não escolhe nada. Quem escolhe é o desejo (inconsciente), ou o sintoma. No meu caso, ao se aproximar a data da escrita da coluna, um acontecimento daquela semana me escolhia. Então, já não podia mais livrar-me dele – a não ser por escrito. A elaboração do texto é uma espécie de cura para o impacto (traumático?) do acontecimento. Foi assim com o deslizamento do morro do Bumba, em Niterói, em abril de 2010, quando passei um mês como escritora convidada em Berkeley (Califórnia, EUA) e pensava que, estando longe do Brasil, seria melhor escolher uma pauta fria ou um tema mais atemporal, mais pessoal, quem sabe mais “literário”.

Quando vi na internet a notícia da tragédia em Niterói e a foto do cachorrinho encolhido, friorento, encharcado e cheio de medo, a coluna começou a se escrever sozinha em meu pensamento. Foi assim também com a discussão sobre o aborto, lançada de maneira pouco leal pelos articuladores da campanha presidencial de José Serra. Foi assim com o texto “Dois pesos…”, que provocou o cancelamento da coluna no Estado. Os melhores textos, do ponto de vista do prazer da escrita, são esses que se impõem, que se escrevem no pensamento muito antes de se ter tempo de encarar o teclado do computador. São as pautas necessárias – se não para o leitor, ao menos para o autor. Daí a carga de verdade que contêm. Verdade subjetiva daquele que escreve, que nem assim tem poder de preservar o escritor do erro. Talvez por conta disso, o leitor há de notar a predominância de temas dolorosos entre os escolhidos para este livro. O Brasil dói. O Brasil traumatiza. Aqui, a irresponsabilidade generalizada do poder público obriga cada cidadão a encarregar-se, sozinho e com parcos recursos privados, de remendar em sua vida particular os buracos que o Estado e seus representantes de todos os escalões não deveriam ter deixado que se abrissem. Dói a violência inscrita na ordem social brasileira. Dói o jogo cínico da política. A seguir, mas não nessa ordem rigorosa, estão a dor e a vergonha de constatar a persistência da desigualdade brasileira no campo dos direitos do cidadão e dos deveres do Estado. Impotente diante dos fatos, sinto necessidade de escrever: o texto parece que pode – pode o quê? Quase nada. No melhor dos casos, ele dispara o relé que acende uma pequena faísca que talvez se propague durante algumas horas. Poucas horas.

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