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1929 – Ivan Sant Anna

No final do século XIX, a quantidade de imigrantes que chegavam aos Estados Unidos através do porto de Nova York, vindos principalmente da Europa, não fazia outra coisa senão crescer. Depois que os navios entravam na boca do estuário do rio Hudson, uma das primeiras imagens dos homens, mulheres e crianças que tinham atravessado o Atlântico Norte amontoados em beliches da terceira classe era a da Estátua da Liberdade, inaugurada em 1886. Um quilômetro ao norte da estátua havia um centro de triagem, na ilha Ellis, por onde todos os recém-chegados tinham de passar. Grande parte dessas famílias vendera todos os seus bens em suas terras natais para pagar a passagem. A origem dos imigrantes havia mudado. Em vez de irlandeses, ingleses, escoceses, franceses, holandeses, belgas, escandinavos e alemães dos tempos anteriores, a maioria agora vinha do sul da Itália, dos Bálcãs e dos impérios russo e austro-húngaro. Um desses era o pintor de paredes judeu Abraham Sarnoff, que foi inspecionado e aprovado pelos agentes sanitários e de imigração da ilha Ellis em 1896. Ele deixara a família na pequena aldeia de Uzlian, nas proximidades de Minsk, na Bielorrússia, onde haviam nascido. Abraham pretendia trabalhar incansavelmente na América até poder pagar a passagem da mulher e dos filhos, entre estes David, um menino de 5 anos que já revelava uma inteligência incomum. Também judeus, os Baline, originários da Rússia, haviam desembarcado em Nova York em setembro de 1893, a bordo do navio SS Rhynland. Ao contrário dos Sarnoff, a família Baline veio de uma só vez: Moses, o pai; sua mulher, Lena; e seis filhos, entre os quais Israel Baline, de 5 anos, a quem os íntimos chamariam de Izzy e o mundo inteiro iria conhecer como Irving Berlin, nome artístico que Israel adotaria no futuro. Tal como acontecia com boa parte dos imigrantes que optavam por fixar residência em Nova York, no início os Baline foram morar num cortiço do Lower East Side — a família toda espremida em um cômodo de quatro por quatro metros. Dois anos após sua chegada, Izzy, então com 7 anos, ganhava seus primeiros trocados vendendo jornais nas ruas. Frequentava também uma escola pública, onde aprendeu inglês rapidamente. Boa parte das famílias de imigrantes costumava não conviver com a miséria por muito tempo. Os Estados Unidos eram a terra da oportunidade e dos empreendedores. Era só ver o exemplo de alguns europeus que tinham vindo antes. Eles haviam estendido os trilhos das ferrovias e os fios do telégrafo, prospectado o solo, instalado indústrias de base e de transformação, erguido os primeiros arranha-céus do planeta e fundado bancos. Bancos esses que financiavam os empreendimentos mais audaciosos e que, dentro de pouco mais de três décadas, iriam desgraçadamente estimular a maior jogatina da história no mercado de ações. Entre os banqueiros, o de maior prestígio e não menor fortuna era John Pierpont Morgan, nascido em Connecticut em 1837. Raros eram os grandes negócios do país dos quais a Casa Morgan não participava direta ou indiretamente. Ao apagar das luzes do século XIX, Nova York já era um dos mais importantes centros financeiros do mundo, tendo sua Bolsa de Valores completado um século de existência. Um novo prédio para abrigar os escritórios e o pregão estava sendo projetado. O volume de negócios só aumentava, graças ao magnetismo que a especulação exercia sobre a sociedade nouvelle riche americana. Não apenas em Nova York o mercado financeiro era ativo.


Boston, por exemplo, era um centro importante de negócios. Foi justamente lá que Jesse Livermore, um jovem de apenas 14 anos, começou em 1891 sua carreira no negócio de ações, anotando cotações no quadro-negro de uma sociedade corretora e recebendo como pagamento um dólar por semana. Jesse não se limitava a anotar os preços para que outros os vissem. Ele os memorizava, analisava e fazia projeções futuras, não raro permanecendo no escritório até altas horas. Nesses serões, não demorou a perceber que a análise de tendências era um dos segredos do sucesso nas bolsas. Saber o preço do momento não tinha a menor importância. Bastava ler a pedra. O que valia mesmo era descobrir para onde o mercado estava indo, calcular a cotação do dia seguinte, e do outro, e ainda do outro. Era essa habilidade, uma mistura de ciência e arte, que diferenciava os vencedores dos fracassados. Em Boston, assim como em Nova York, havia sociedades corretoras informais, sem nenhum vínculo com as bolsas. Eram os bookmakers do mercado, chamados de bucket shops. Essas “empresas” aceitavam ordens de compra e de venda de ações, sem executá-las no pregão. Ou seja, se alguém quisesse apostar na alta da General Electric, por exemplo, bastava entrar em uma bucket shop, dar uma ordem de compra ao preço de mercado e pagá-la. Se a GE subisse, o cliente recebia o lucro. Se caísse, o prejuízo era abatido na hora da liquidação do negócio. Além de cobrar taxas de corretagem obcenas, as bucket shops inventavam cotações. Ou seja, se sabiam que o cliente iria comprar, mostravam-lhe um preço acima do preço real praticado nas bolsas naquele momento. Se o freguês ia vender, a cotação era artificialmente diminuída. Para ganhar dinheiro no mercado de ações através de uma bucket shop, o especulador tinha de superar o mercado, o alto custo de corretagem e o “boneco”, nome que se dá a essa diferença entre o preço real e o preço cobrado. Mas vício é vício, especular é um jogo como outro qualquer, e as bucket shops registravam grande movimento e não menores lucros, principalmente graças aos pequenos investidores que não tinham cadastros bons o bastante para serem aceitos pelas sociedades corretoras filiadas às bolsas. Vencendo todos esses obstáculos e contra todas as probabilidades, o jovem Livermore, ainda com rosto imberbe de criança, graças ao seu excepcional talento como trader e à sua habilidade de fazer prognósticos, conseguia ganhar dinheiro operando nas bucket shops, o que fazia nos intervalos de almoço. Ganhou tanto que foi proibido de frequentá-las. Mas aí já não importava. A conta bancária de Jesse Livermore ficou suficientemente polpuda para que ele pudesse ser aceito como cliente das corretoras. Volta e meia, as bolsas de valores americanas eram acometidas de surtos de pânico.

No século XIX isso acontecera em 1819, 1837, 1857, 1873 e 1893. Durante este último evento, Jesse Livermore já era um especulador ativo e firmara sólida reputação como urso. Ou seja, jogava mais na baixa, exemplar ainda raro no mercado. Certos investidores consideravam os ursos impatrióticos e derrotistas antiamericanos. Ao pânico de 1893 seguiu-se uma severa depressão. Os fazendeiros, além de se defrontarem comsecas, pragas e tempestades de areia, se viram atingidos por uma deflação no preço das commodities agrícolas. Nas regiões urbanas, um em cada quatro trabalhadores não especializados perdeu seu emprego. Milhares deles participaram de uma marcha sobre a capital, Washington. Paralisações no trabalho começaram a pipocar em diversos estados, sendo a mais grave delas em Illinois, para onde tropas federais foram enviadas para enfrentar os grevistas. Tudo isso foi música para os ouvidos de Jesse Livermore. Durante a depressão, que durou quatro anos, ele ganhou uma fortuna vendendo ações a descoberto, ou seja, vendendo os papéis sem tê-los, para recomprá-los mais tarde por preços inferiores. No primeiro semestre de 1898, com quase 21 anos de idade, mas ainda com o rosto inocente de umgaroto, Livermore mudou-se de Boston para Nova York, levando consigo um formidável capital de 2,5 milhões de dólares, ganhos na bolsa. Se impondo uma disciplina rígida, Jesse jamais entrava empânico. Sua fortuna lhe permitiu a realização de sonhos pessoais. Comprou automóveis luxuosos, dezenas de ternos, só fazia camisas sob medida, se banhava com galões de água-de-colônia. Tinha amantes na Flórida e na Europa. Os Estados Unidos cada vez mais emergiam como potência mundial. Em 1898, o governo americano adquiriu o Havaí, no meio do Pacífico, o que lhe permitiu estabelecer uma base naval a meio caminho entre a Califórnia e o Extremo Oriente. Sua armada já era a terceira do mundo. Nessa mesma época, o país se engajou em sua primeira incursão militar no exterior, declarando guerra à Espanha. O objetivo era apoiar os revolucionários cubanos que pretendiam obter a independência da ilha. Além de perder Cuba, a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas aos americanos. Veio então o século XX, no qual os Estados Unidos da América se tornariam a maior potência militar e econômica do planeta, não sem antes passar por terríveis provações, sobre as quais a especulação desenfreada no mercado financeiro exerceu forte influência. 2 GÊNIOS E MAGNATAS Na virada do século XIX para o XX, os Estados Unidos já haviam se recuperado da depressão iniciada em 1893 e viviam tempos de crescimento acelerado. Nenhum outro país do mundo produzia tanta riqueza.

Logo, grandes corporações seriam fundadas, entre elas a United States Steel Corporation, a International Harvester e a International Nickel. Nesse cenário de prosperidade, o número de bilionários americanos era cada vez maior. Entre eles se destacavam o magnata do petróleo John D. Rockefeller e o banqueiro John Pierpont Morgan, mais conhecido como J. P. Morgan. Os sócios e executivos graduados da Casa Morgan participavam da direção e do Conselho de outras 112 grandes empresas, entre elas concessionárias de serviços públicos, seguradoras, companhias industriais e comerciais, ferrovias e até mesmo outros bancos. Para desgosto de J. P. Morgan e de outros grandes empresários, em 14 de setembro de 1901, com o assassinato do presidente William McKinley, seu vice, Theodore Roosevelt, assumiu a Casa Branca. Roosevelt era reformista e se dispunha a defender mais os trabalhadores do que os patrões. Usou a lei antitruste Sherman contra a Northern Securities Co., uma das empresas que Morgan controlava de modo disfarçado. Em julho de 1901, quando Irving Berlin tinha 12 anos, seu pai, Moses, morreu de bronquite, deixando viúva e quatro filhos órfãos além de Irving. A sexta criança havia morrido antes. Um ano após a morte do pai, Irving abandonou colégio e família. Chegara à conclusão de que levava menos dinheiro para casa do que dava de despesas. Izzy foi morar nas ruas e em albergues públicos do Bowery, uma das áreas mais pobres da ilha de Manhattan. Como tinha uma voz passável, Irving Berlin começou a cantar em bares frequentados por marinheiros e prostitutas em troca de gorjetas. Então as coisas melhoraram um pouco e ele conseguiu um lugar no coro do musical The Show Girl. Fazia também diversos tipos de biscates, entre eles o de participar de claques em espeluncas de Chinatown. Finalmente arrumou um trabalho de tempo integral como cantor-garçom no café de Mike Salter, também no bairro chinês. Na noite de sábado de 18 de novembro de 1905, o príncipe Louis de Battenberg, da família real britânica, que percorria casas de ópio de Chinatown, foi até o bar onde Izzy Berlin cantava e servia os fregueses e gostou muito da sua apresentação, em que interpretava paródias cômico-eróticas comletras de duplo sentido. A satisfação do príncipe virou notícia em diversos jornais. Em Londres, Charlie Chaplin, um garoto semianalfabeto da mesma idade de Irving Berlin, cuja infância fora igualmente miserável, também conseguira seu primeiro emprego no showbiz.

A peça Jim, the Romance of a Cockney foi um fracasso de crítica. Mas a atuação do menino, que interpretou a parte cômica do espetáculo no papel de um pequeno jornaleiro, mereceu fartos elogios. O pai de Charlie, Charles Spencer Chaplin, morrera de tanto beber. A mãe do jovem comediante, Hannah, uma atriz fracassada, alternava períodos morando com os filhos com temporadas emsanatórios para doentes mentais. Separados por 5,6 mil quilômetros, os garotos Izzy e Charlie tinham duas coisas em comum: enorme talento e necessidade de trabalhar para comer. Em outubro de 1904, aos 34 anos, Amadeo Peter Giannini fundou, no distrito italiano de North Beach, em São Francisco, o Bank of Italy, voltado para uma clientela de pessoas de baixa e média renda. Segundo os especialistas do ramo, as chances de sucesso de Giannini eram mínimas. Comerciante de formação, ele não tinha experiência bancária e não conhecia ninguém nos altos círculos das finanças. Incluindo o próprio Amadeo Giannini, nenhum sócio do banco tinha mais do que cem ações. Estas estavam nas mãos de 1.620 acionistas: padeiros, farmacêuticos, peixeiros, pequenos comerciantes de um modo geral, alguns com não mais do que duas ou três cotas. Tratava-se de um banco de gente miúda para atender a uma clientela miúda, atraída pelas taxas de juros de 3,5% ao ano que o Bank of Italy oferecia aos pequenos poupadores, cuja alternativa seria deixar suas economias debaixo do colchão. Às 5h12 da manhã de quarta-feira, 18 de abril de 1906, a cidade de São Francisco foi abalada por um terremoto de 7,9 graus na escala Richter, seguido por um incêndio não menos devastador. Mais de 3 mil pessoas morreram e 70% das construções foram destruídas. Do total de 410 mil habitantes da cidade, 270 mil ficaram desabrigados. Nessa ocasião, o magistral urso especulador Jesse Livermore provou ser um homem de muita sorte. Dois dias antes da tragédia, Jesse, que tirava férias com uma namorada em Atlantic City, na Costa Leste, entrou numa sociedade corretora do balneário e vendeu a descoberto 3 mil ações da Union Pacific Railroad, que servia São Francisco. No dia seguinte, 17 de abril, como a Union Pacific continuava subindo, Livermore vendeu mais 2 mil ações, antes de regressar a Nova York. No dia do terremoto, Jesse Livermore foi acordado por seu criado de quarto, que lhe deu a notícia. Como não podia deixar de ser, os papéis da ferrovia do Pacífico despencaram, pois um longo trecho do leito da estrada de ferro se esfarinhara, com os trilhos arrancados de seus dormentes. Ao final da tarde, o urso de Boston deixara de ser um milionário para se tornar um multimilionário. Embora Jesse Livermore tenha dado sua grande tacada de forma fortuita, os demais traders não deram a menor importância ao detalhe. Ganhou, é bom. Perdeu, é ruim. Sempre foi e sempre será assim no jogo das bolsas.

O que vale é vencer. Foi o que aconteceu com Livermore. Criou-se ao redor dele uma aura de premonição, da qual Jesse se aproveitou para alavancar sua fortuna nos anos seguintes. Ao contrário de Livermore, Amadeo Peter Giannini tinha tudo para perder dinheiro com o terremoto. São Francisco era o seu território, a sede de seu banco e o local onde boa parte de seus clientes morava e ganhava a vida. Só que Giannini, antes mesmo de a fumaça dos incêndios que haviam devastado a cidade se extinguir, começou a oferecer, através do Bank of Italy, empréstimos a taxas de juros moderadas àqueles que haviam perdido suas casas e seus negócios, para que eles pudessem reconstruí-los. O banco tinha em caixa 80 mil dólares para cobrir depósitos de 846 mil. Mesmo assim, Amadeo não vacilou. Saiu emprestando. Os demais banqueiros locais, que procuravam se espelhar no conservadorismo e na prudência dos Rothschilds, da Europa, e de John Pierpont Morgan, de Nova York, imediatamente fecharam suas carteiras de crédito após o terremoto. E comentaram com desdém a atitude de Giannini: “Não se poderia esperar outra coisa de um carcamano que cresceu vendendo verduras. Banco não é casa de caridade. O italiano vai dar com os burros n’água.” O mau agouro falhou e o Bank of Italy cresceu com a crise. Impressionados com a atitude de Giannini durante o momento trágico, novos depositantes surgiram. Em Nova York, Irving Berlin agora cantava no Nigger Mike’s, também em Chinatown. E começou a compor. Sua primeira canção foi Marie from Sunny Italy, cujos direitos vendeu por apenas 37 centavos. Izzy completara 19 anos e continuava se sustentando, embora mal e porcamente, com seu trabalho de cantor-garçom. Não sabia ler nem escrever partituras e precisava que alguém passasse suas músicas para o papel. Na Bolsa de Nova York, Jesse Livermore continuava com suas jogadas especulativas, quase sempre vendendo a descoberto. E voltou a dar uma enorme tacada quando o mercado sofreu um novo pânico, no outono de 1907. Só na quinta-feira, 24 de outubro, o urso de Boston, agora com 30 anos, ganhou 250 mil dólares. Ao todo, Jesse lucrou um milhão de dólares no crash — o equivalmente, nos dias de hoje, a 25 milhões de dólares.

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