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1943 Roosevelt e Vargas em Natal – Roberto Muylaert

ASSIM COMO SANTIAGO NASAR, personagem fictícia de Gabriel García Márquez, é condenado a morrer desde a primeira página do livro Crônica de uma Morte Anunciada, Getúlio Vargas Filho, personagem real desta história, falece cedo, aos 23 anos de idade, em São Paulo, no dia 2 de fevereiro de 1943, na casa de um amigo, Antonio Carlos Guimarães Junior, à rua Uruguai, 27, conforme detalha o jornal Correio Paulistano: “O jovem químico, que se encontrava enfermo há pouco mais de uma semana, assistido pelos luminares da ciência médica nacional, sucumbiu a uma paralisia respiratória, ocasionada por neurolite (sic) infecciosa, segundo consta do assentamento de óbito lavrado no Cartório de Paz do Jardim América”. Getulinho era uma figura popular em São Paulo, caçula do presidente e diziam que, dos cinco filhos de Getúlio, era o preferido, aquele que não gostava de política, nem morava na corte do Rio de Janeiro. Fez o curso secundário no colégio Aldridge, no Rio, e diplomou-se em química industrial nos Estados Unidos, em quatro anos, na faculdade John Hopkins. Uma carta que escreveu para a irmã Alzira, quando ainda estudava no exterior, revela uma pessoa simples, despojada, que queria ter vida própria, ao pedir que ela interferisse para que pudesse continuar nos Estados Unidos: “Advoga por mim para me deixarem aqui. Estou vivendo como uma pessoa qualquer, aqui não sou filho do Presidente, imagina o que será para a minha educação em química… Cada vez me convenço mais que o curso daqui é muito superior ao do Brasil”. De volta ao país, depois de prestar serviço militar no Forte de Copacabana, vai para São Paulo, onde consegue o emprego que desejava, como engenheiro-químico na Companhia Nitroquímica Paulista. Gostava de ser autossuficiente, sem se aproveitar das benesses que chegam com facilidade para quem tem proximidade com o poder, ainda mais no caso de seu pai, com poderes ditatoriais desde a chamada “polaca”, Constituição do Estado Novo, outorgada em 30 de setembro de 1937, quando se aguardavam as eleições presidenciais marcadas para janeiro de 1938. Não obstante, tinha sido eleito presidente da Federação Paulista de Futebol, apenas quinze dias antes de falecer, conquistando a maioria dos votos dos cartolas dos clubes profissionais filiados à entidade. Uma prova de que o prestígio de filho de presidente chegou até ele, apesar de sua postura distante e reticente da questão. Foi velado no palácio dos Campos Elíseos, então sede do governo de São Paulo. Passaram por lá 50 mil pessoas, para a última homenagem ao caçula do presidente, com filas de populares até as onze da noite, segundo o mesmo jornal. Às sete horas da manhã, Dona Darcy e Getúlio desceram do andar superior do palácio, para assistir à missa de corpo presente celebrada pelo Arcebispo de São Paulo, dom José Gaspar de Afonseca e Silva. O caixão foi conduzido por Getúlio, pelo interventor Fernando Costa e ministros presentes, alémde amigos de Getulinho, na descida das escadarias do Palácio. Dali foram todos para o aeroporto de Congonhas, onde a comitiva e o esquife seguiram para o enterro no Rio de Janeiro, em três aviões. Centenas de desportistas de São Paulo que haviamchegado à Capital Federal na véspera, em trem especial, prestavam as últimas homenagens ao presidente da Federação Paulista de Futebol. Em duas extensas filas estavam as coroas de flores recebidas. Depois dos dois aviões que levavam ministros, autoridades, diplomatas e suas famílias, chegou o aparelho que levava o filho do presidente falecido ainda jovem. Formou-se então um cortejo com centenas de carros conduzindo o presidente, Dona Darcy, os irmãos de Getulinho, ministros, diplomatas, diretores de entidades estatais, até o cemitério São João Batista, em Botafogo, onde, desde antes das nove horas da manhã, uma multidão aguardava o cortejo fúnebre no aeroporto do Rio. Sobre a preferência de Getúlio pelo caçula, existe um depoimento do filho Maneco Vargas que esclarece o assunto: “Eu não tinha ciúmes do meu pai, sentia que o carinho era repartido entre nós. Da minha mãe eu tinha ciúmes, sobretudo com meu irmão mais moço Getulinho. Sentia que ela gostava mais dele que de mim, e sofria com isso”. Quando a doença atacou os pulmões de seu caçula, Getúlio relutou em largar o filho em São Paulo. Mas o presidente não podia sequer pensar em adiar a viagem programada para um encontro de que nem mesmo a primeira-dama Darcy Vargas poderia ser informada. Pouco antes da viagem, Getúlio esclareceu do que se tratava o encontro em Natal a seu filho Lutero, que era médico-ortopedista. O presidente precisava de alguém de confiança que pudesse lhe passar informações seguras sobre o quadro da enfermidade de Getulinho, já que a doença havia pegado a todos de surpresa, e teve evolução muito rápida.


Na casa do amigo onde veio a falecer, ele tivera todas as atenções e cuidados possíveis, atendido por alguns dos mais prestigiosos médicos de São Paulo. Dona Darcy, com a intuição de mãe, pressentiu alguma coisa, e fez um convite a Lutero: “Você é médico, vamos juntos a São Paulo para ver teu irmão”. O depoimento é de Lutero: “Chegamos lá, Getulinho já não mexia as pernas e os braços, falava mal e estava sendo tratado com o diagnóstico de polineurite. Então, eu digo: ‘Isso não é polineurite, é poliomielite’. Pedi a presença do grande ortopedista doutor Godoy Moreira, da Faculdade de Medicina da USP, que veio e confirmou meu diagnóstico, eu que tinha chegado dos Estados Unidos e tinha acompanhado o método de tratamento dos espasmos dolorosos da paralisia infantil, que começava com a aplicação de compressas quentes. Fiz esse tratamento em meu irmão, e ele teve uma boa melhora. Ficou animado: ‘Meu irmão, isto vai me curar. Você está me tratando com o método de São Borja’”. “Acompanhei o desenvolvimento da doença dele, que o levou rapidamente. Após esse episódio triste, fui aos Estados Unidos estudar a paralisia infantil. Estive com o Dr. Jonas Salk, que na ocasião estava desenvolvendo vacina contra a doença, e levei os exames do meu irmão, tudo o que tinha sido feito por ele, e perguntei se tínhamos agido bem, se teria havido possibilidade de ele ser salvo, caso estivesse nos Estados Unidos”. “Não”, respondeu Salk, “ele estava condenado desde o início, pelas características da moléstia que o atacou. Nem aqui nos Estados Unidos, seu irmão se salvaria.” “Uma verdade importante que precisava ser esclarecida”, continua Lutero, “já que houve comentários sobre a frieza de Getúlio nesse episódio, ao viajar sabendo que Getulinho estava perdido.” Ele morreu nos braços da mãe, dona Darcy Vargas, sendo que o presidente só chegou a tempo de estar ao pé do leito do filho enquanto ele agonizava. Quando a mãe fechou os olhos do filho, ficou muito tempo a fitá-lo, esgotada, num aniquilamento mudo, terrível, que ela nunca pode superar. Mas quis acompanhar o corpo até o cemitério, como fez anos mais tarde, com o traslado do corpo de Getúlio Vargas para o Rio Grande do Sul, após o suicídio, em 1954. A paralisia infantil ataca os membros inferiores, impedindo a pessoa de andar, ou pode subir, tornando inertes os pulmões, o que é fatal, como foi o caso de Getulinho. Nessa situação, só havia uma maneira de prolongar a vida do doente: o recurso ao pulmão de aço, um cilindro pesado dentro do qual o paciente é colocado deitado, apenas com a cabeça de fora, enquanto o rústico aparelho mecânico força os pulmões a funcionar, por pressão direta. Os hospitais americanos da época tinham as enfermarias cheias dessas máquinas, alinhadas lado a lado, como último recurso para manter vivos os doentes impedidos de respirar, a maioria crianças. Diante do ataque repentino e da progressão rápida com que atingiu Getulinho, um desses aparelhos foi importado, o primeiro que chegou ao país, mas que não foi utilizado, pela complexidade de sua instalação e operação, além da rapidez do desfecho do caso clínico. Com o sucesso das campanhas de vacinação contra a pólio, a partir de 1955, com a vacina Salk, e depois, em 1963, com a Sabin, a doença pôde ser erradicada. Apesar da gravidade da saúde do filho quando o presidente deixou o Rio de Janeiro, a viagem de três dias não poderia mesmo ter sido adiada, pela importância da personagem que o aguardava. O segredo de Estado e de segurança nacional, que só Lutero Vargas sabia, é que ele iria se encontrar com uma liderança mundial, em plena Segunda Guerra Mundial, pessoa que ninguémpoderia supor que estivesse em Natal/RN, em janeiro de 1943, vindo de Casablanca, Marrocos, correndo os riscos de uma viagem tão longa sobre um oceano onde operavam submarinos nazistas, o terror dos aliados.

Dá para imaginar a importância de um encontro ultras-secreto como este, em solo brasileiro, de um americano que enfrentava uma guerra contra Alemanha e Japão, ao mesmo tempo, cujo desfecho ainda não estava claro, mas que desejara falar pessoalmente com Getúlio, em seu próprio país. A ironia da situação é que o visitante era também uma vítima da paralisia infantil. Por isso mesmo pôde compreender como ninguém o sofrimento de Getúlio, ao deixar seu filho em São Paulo naquela situação. “Muita gente pensa que paralisia infantil só dá em criança, mas Roosevelt, 32 o presidente dos Estados Unidos, com quem meu pai foi se encontrar em Natal, teve a moléstia com 35 anos, e meu irmão com 25”, completa Lutero. Franklin Delano Roosevelt movimentava-se numa cadeira de rodas, quando ninguém o observava, sendo carregado pelos seguranças para dentro do carro, em seus deslocamentos. Todos os cuidados eram tomados para que o presidente não fosse visto em público como deficiente físico. O que aparecia em seus comícios era um homem que se deslocava no palco, a pequenas distâncias, apoiado numa bengala, o que lhe exigia grandes sacrifícios, jamais em cadeira de rodas. Com todas essas dificuldades, conquistou quatro mandatos consecutivos como presidente americano, o que fez comque a lei eleitoral fosse mudada para apenas uma reeleição, sem possível participação em eleição futura. No final da guerra, Roosevelt faleceu, cabendo a seu vice-presidente Harry Truman sucedê-lo, até o término da Segunda Guerra Mundial. Foi ele quem autorizou o lançamento das duas bombas atômicas sobre o Japão, em 1945. A presença de Roosevelt em Natal mostra a importância estratégica da cidade na Segunda Guerra. É o ponto mais próximo do continente africano na América do Sul, alvo da cobiça dos nazistas, que tinham planos para tomar a cidade, a partir de Dacar. Assim iria começar a invasão do Nordeste brasileiro, tão logo a vitória fosse assegurada pelo general Erwin Rommel, na batalha de tanques do Norte da África, contra o general britânico Bernard Montgomery, previsão que não se confirmou. Os alemães tinham até uma nova organização política para a América do Sul pronta para quando chegasse a ocasião. Para Getúlio, muito acima das preocupações políticas estava a doença do filho caçula. Na velocidade com que a doença o atacou, nada pode ser feito para reverter o quadro que o levou à morte. No Brasil havia pouca incidência da doença. Tudo leva a crer que Getulinho tenha pegado o vírus da paralisia infantil quando morava nos Estados Unidos, cujo presidente, vítima do mesmo vírus, visitava o Brasil no momento em que ele perdia o seu derradeiro combate contra a doença. A doença de Roosevelt OPRESIDENTE Franklin Delano Roosevelt tinha uma relação de inconformidade com a doença infecciosa que o deixou paralítico, ao atingir seu cérebro e coluna vertebral. O vírus entra no corpo pelo nariz ou pela boca, e chega ao intestino, onde incuba, e nessa fase ocorre o contágio da doença. Roosevelt, o vigoroso esportista, ficou enfermo quando passava férias de verão na Ilha Campobello, no Canadá. Primeiro sentiu dores, fraqueza nas pernas, e uma febre de 39ºC. O médico local identificou o mal-estar como uma gripe forte, e foi só duas semanas depois que o americano Robert Lovett, o maior especialista da época no assunto, foi ao Canadá, diagnosticando poliomielite. Embora o New York Times tenha noticiado sua crise de poliomielite na primeira página, ele conseguiu esconder tão bem a deficiência que milhões de americanos nunca souberam que seu presidente era um paraplégico em cadeira de rodas, ou que usava tiras de aço nas pernas para dar firmeza ao pouco que conseguia andar. Ele mesmo falou das suas limitações num programa de rádio: “Como todos sabem, eu ando com uma bengala, segurando no braço de alguém, e para um deficiente poder voltar a ser útil à sociedade, é preciso de recursos, e bastante tempo, às vezes anos”.

Foi a maneira direta que encontrou para se referir a si mesmo, e à necessidade da campanha de arrecadação de fundos. Era uma época em que a privacidade da mais alta autoridade norte-americana era preservada, e ainda não existiam os “paparazzi”. Ao mesmo tempo, ao ficar enfermo, em 1921, muito velho para os padrões da pólio, Roosevelt não podia aceitar que as limitações trazidas pela doença prejudicassem sua carreira política. E ela prosseguiu, cheia de sucessos: foi eleito governador de Nova York, sete anos após ficar ter sido vítima da pólio, e presidente dos Estados Unidos, quatro vezes, em 1932, 1936, 1940, e 1944. Em todos esses anos o presidente americano usou o poder do seu cargo para transformar a luta contra a doença numa cruzada nacional. Com seus discursos, exemplos e ações, teve um papel preponderante na solução da epidemia de pólio em seu país, que no ano de 1952 chegou ao maior número de casos registrados, 58 mil, para uma população de 157 milhões. Foi Roosevelt quem criou o movimento “March of Dimes”, para que a população mandasse moedas de dez centavos à Casa Branca, sendo que até hoje os “dimes” levam a sua efígie. Os recursos ajudaram as pessoas vitimadas pela doença, e acabaram por financiar as pesquisas que levaram à primeira vacina contra a pólio, em 1955, quando o movimento criado por ele arrecadou U$25,5 milhões, uma fortuna para a época. Mas o presidente não viveu o suficiente para ver a erradicação da doença pela vacina que ajudou a viabilizar. O espírito de luta, de não se entregar à doença, ajudou a moldar o mito de Roosevelt, como uma pessoa capaz de vencer quaisquer obstáculos, como de fato o fez, recuperando os Estados Unidos da crise econômica de 1929, e colocando o país no esforço de guerra, como o grande fornecedor de equipamentos bélicos para os países aliados, sem os quais a vitória não teria sido conquistada. Enquanto as vítimas da paralisia infantil ficavam em repouso por indicação médica, Roosevelt foi pioneiro em seu comportamento proativo frente à doença: passou a frequentar um resort em Warm Springs, Georgia, para praticar natação e outros esportes que fortalecessem seus músculos. Constatando os progressos que conseguia, utilizou boa parte de seus recursos pessoais, cerca de US$ 200 mil, para criar, em 1927, a Georgia Warm Springs Foundation, um avançado centro de hidroterapia para vítimas da pólio, que revolucionou a forma de enfrentar a doença. Para mostrar que podia ter mobilidade, adaptou um carro com os pedais nas mãos, que ele pilotava orgulhoso pelas estradas de Warm Springs, para alegria dos colegas internados. Em compensação, Roosevelt sofria muito com essas façanhas. Tanto que o trem presidencial em que ele viajava tinha velocidade limitada a 60 quilômetros por hora, talvez porque seus músculos, de tão desgastados, já não conseguissem amortecer as vibrações do comboio. Em 1945, Roosevelt expressou com crueza o sentimento de uma pessoa que luta a vida toda para minorar os efeitos da paralisia infantil no organismo, como era o seu caso: “Quando você leva dois anos para conseguir mover um dedão do pé, todo o resto segue na mesma proporção”, disse, sabendo de que falava.

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