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1947 – O Carniceiro de Paris – J. C. Cali

Noite fria e chuvosa. Antoinette Pigeon, 26 anos, prostituta que trabalha nos arredores do Parque Bois de Bologne, é uma mulher muito magra, quase anoréxica, com cabelos castanhos e lisos, olhos igualmente castanhos. Caminha sozinha por uma viela perto ao bosque à espera de clientes. Ainda não percebeu a aproximação de um furgão da marca Peugeot, fabricado em 1939, de cor verde-oliva, com duas janelas laterais na parte da frente e apenas uma grande porta na traseira. De repente a janela do lado do motorista é aberta: — Boa noite, lhe diz um homem, com forte sotaque, de dentro do carro. Antoinette leva um pequeno susto, pois estava distraída com os próprios pensamentos, vira-se e o vê pela primeira vez. É um homem loiro, muito forte, com um par de olhos de íris amareladas que revelam um olhar semvida, vazio, sem o menor resquício de qualquer tipo de sentimento. Antoinette tem uma sensação de repulsa e medo. Está prestes a se afastar quando a porta do motorista abre-se subitamente e ela é puxada pela manga direita de seu casaco. Recebe um potente soco no rosto. Cai desacordada. A mulher é arrastada e colocada no interior do furgão através da porta traseira do veículo. 14 de março de 1946. 06h33min. Jean Pierre Lefèvre, 18 anos, parisiense, prepara-se para correr como faz diariamente ao redor da lagoa do Parque Bois de Bologne, quando ouve latidos furiosos. Avista próximo às margens, um grande saco preto rodeado por dois cachorros vira-latas, rosnando e preparando-se para atacá-lo. Jean Pierre espanta os animais e aproxima-se do saco. Ao chegar mais perto, entende por que os vira-latas faziam tamanho alvoroço. O saco, confeccionado em tecido rústico, exalava um odor fétido, adocicado e enjoativo. Cheiro de carne apodrecendo. Assustado, o rapaz corre para as casas vizinhas ao parque em busca de um telefone. Toca a campainha de uma delas e um homem vem atender a porta. — Por favor, o senhor tem telefone? Preciso ligar para policia, diz Jean Pierre, encontrei um grande saco preto próximo à margem da lagoa e acho que contém um cadáver! — Infelizmente não tenho telefone, diz o homem, mas minha vizinha aqui ao lado tem. O rapaz corre sem se despedir. Toca a campainha.


Atende uma senhora octogenária: — Por favor, senhora, preciso ligar para polícia! Acho que encontrei um cadáver no parque próximo à lagoa! A velhinha assustada olha para seu vizinho, que lhe balança a cabeça em sinal afirmativo, e deixa o rapaz entrar. Jean Pierre digita os três números da Central de Polícia de Paris: — Alô, Central de Polícia, diz a atendente. — Alô! Acho que encontrei um cadáver, fala o rapaz. — Por favor, identifique-se, senhor, responde a atendente. — Meu nome é Jean Pierre Lefrève. — De onde o senhor está ligando? — Próximo ao Parque Bois de Bologne. — Onde o senhor encontrou o cadáver? — Na margem esquerda da lagoa, onde costumo correr. Na realidade é um grande saco preto que parece conter um corpo dentro dele, o cheiro que exala é podre. — Vou transferi-lo diretamente para a Central de Homicídios, aguarde um instante na linha. — OK! Responde o rapaz. Instantes depois atendem ao telefone: — Alô! Detetive Dousert falando. — Alô! Meu nome é Jean Pierre Lefèvre. Acho que encontrei um cadáver, diz com uma voz agitada e nervosa, e descreve rapidamente o que encontrou no Parque Bois de Bologne. Allan Dousert tenta acalmar o rapaz, procurando entender o relato e obter a localização exata do saco preto descrito. Ao seu lado está seu parceiro, o detetive Phelipe Bourgois, que pergunta o que está havendo: — Só um minuto Bourgois, pede Dousert. Aguarde na entrada principal do Parque senhor Jean Pierre. Logo estaremos aí. — Sim senhor, responde o rapaz, desligando o telefone. — O que houve? Pergunta Bourgois ao ver o semblante carregado de seu parceiro. — Parece que encontraram um corpo dentro de um saco nas margens da lagoa do Parque Bois de Bologne. Intrigados, os dois detetives rapidamente partem para o local descrito. Encontram Jean Pierre que os acompanha até a margem da lagoa. 07h15min. Uma pequena multidão se aglomerava ao redor do saco preto. Dousert e Bourgois afastam os curiosos.

Neste momento, chegam várias radiopatrulhas com guardas fardados. Dousert ordena que os policiais isolem a área do crime com fita amarela, para evitar que o local continue a ser contaminado. Os investigadores abrem o saco e encontram o corpo de uma mulher. Jean Pierre afasta-se horrorizado, tentando controlar, inutilmente, sua ânsia de vômito. Era realmente um caso de assassinato. A mulher tinha sido torturada, violentada, sodomizada e degolada. Seu rosto era uma massa disforme e sanguinolenta. O dedo médio de sua mão direita havia sido cortado e desaparecera. Junto ao corpo, dentro do saco, encontravam-se as roupas que a moça usava quando foi sequestrada: um vestido preto curto e decotado, meias de nylon, calcinha e sutiãs pretos, um casaco longo de lã branca, um par de sapatos vermelhos com saltos finos de quinze centímetros de altura, e uma bolsa com os documentos de identidade. Era Antoinette Pigeon. Mas não havia nenhuma pista de seu assassino. Capítulo 1 15 de abril de 1947. 22h15min. Era uma noite fria de primavera em Paris quando a vi pela primeira vez. Eu estava sozinho e deprimido, após várias horas ininterruptas de trabalho como médico residente em pediatria no hospital infantil Necker-Enfant Malade. Sentei em um bistrô à margem do Sena e pedi uma taça de vinho branco. Pela manhã Cécile, minha paciente predileta, apresentara um quadro febril resistente ao uso de antitérmicos e antibióticos. Estado clínico que persistia há vários dias. Dirigi-me ao colega orientador dos casos sob minha responsabilidade e perguntei: — Doutor, já saíram os resultados dos últimos exames da paciente do leito 23 da ala de desmembrados? — Sim, acabei de receber, Ricardo. Ela está com uma infecção aguda por salmonelas, respondeu. — Qual é o prognóstico? — Ela está recebendo uma grande dosagem de antibióticos, mas é necessário que seu organismo reaja, e nós sabemos do estado precário de seu sistema imunológico. Temos que aguardar. Não saí da cabeceira de sua cama desde as primeiras horas do dia. A intuição me angustiava. Cécile estava abatida e não se alimentava desde o dia anterior, alegando sentir enjoo.

Sua febre começou a subir, chegando a 40º C. Minha pequena paciente, sempre animada, agora só queria dormir. Apesar do treinamento médico, comecei a ficar desesperado. Solicitei que todos os meus demais pacientes fossem atendidos por colegas residentes. Voltei a falar com meu orientador e disse: — Doutor, Cécile está piorando. Acho que devemos transferi-la para o Centro de Terapia Intensiva. — Concordo. Vá até a secretaria do hospital e providencie, ele respondeu. Saí da ala dos desmembrados, onde Cécile estava internada, e corri até a secretaria do hospital onde solicitei a transferência urgente de Cécile para o Centro de Terapia Intensiva. Retornei para buscá-la e, na pressa, esbarrei de maneira brusca em um colega loiro que vestia umjaleco branco e saia da ala das crianças desmembradas. Virei minha cabeça em sua direção e disse: — Perdoe-me doutor! — Não tem importância! Sorri constrangido, e saí. Transportei Cécile para o Centro de Terapia Intensiva. Seu quadro evoluiu para septicemia. Seu estado era gravíssimo. Não comi nada o dia inteiro e não tenho fome. São 21h42min, necessito de algum tempo para me recompor e continuar a luta. Saio do hospital e caminho pelas ruas de Paris em direção ao Sena. Paro em um bistrô às suas margens e peço uma taça de vinho branco. — Um chardonnay, por favor, complemento o pedido para o garçom. E ao olhar para as margens do rio eu a vi.

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