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1961 – O Golpe do Derrotado – Flavio Tavares

Este livro é uma crônica testemunhal de treze dias inesperados que mudaram a política e a vida do Brasil e dos brasileiros e influíram até na conjuntura mundial. Aqui está o que vivi, vi, observei ou entendi da última insurreição de massas no Brasil do século XX, num tempo em que a política era, ainda, um confronto de ideias e atitudes, não mera exibição publicitária de propaganda, como hoje. A Guerra Fria dividia o planeta naquele agosto de 1961, quando os ministros militares responderam à inesperada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República com um golpe de Estado “para impedir” que o governo caísse “nas mãos ameaçadoras do comunismo”. A audácia de Leonel Brizola desnudou a fantasia tola e perigosa, paralisou o golpe e acabou por derrotá-lo. “Não vão dar um golpe pelo telefone”, dizia o jovem governador gaúcho, ao utilizar o rádio para mobilizar a população. O telefone era para os conluios secretos e as conspirações. O rádio era aberto e reunia, fazia pensar. Os aparelhos portáteis, à pilha, tinham acabado de aparecer, e a Cadeia da Legalidade penetrou no cotidiano das pessoas, espalhando ideias, criando o debate. A voz tornouse arma. Os treze dias, que vão da renúncia de Jânio à posse de Jango Goulart, foram longos, comtantas peripécias, imprevistos e surpresas, que neles se resume a História da última metade do século XX. Aqui estão aqueles dias aflitos, que acompanhei como repórter e editor político da antiga Última Hora. Não fui uma testemunha inerte, porém. Eram tempos de sonhos e utopias (por que não?) e todos nos transformamos em participantes. Naturalmente. O golpe era o delito e ficamos contra o delito. A política e a ética marcavam nossas vidas, ou nossas rebeldias, e, assim, a mobilização enfrentou o poder armado e derrotou o golpe de Estado. Ou, como escrevi na “nota aos leitores” do jornal, em 29 de agosto de 1961, após a integração do III Exército ao Movimento da Legalidade: “Desde o primeiro momento, semvacilações, sem medo diante dos fatos, saímos em defesa da Legalidade, enfrentando todos os riscos. Quando as ameaças rondavam a imprensa livre, não nos afastamos um milímetro dessa linha, decididos a informar corretamente, repelindo qualquer censura, para que o povo, a par dos fatos, livremente tomasse uma decisão”. Bastava conhecer a realidade para participar da rebelião. E assim ocorreu, como adiante vou contar. CAPÍTULOI AJANELAOVAL – 1 – Tenso, olhei para o alto e não vi o céu ou o azul das nuvens, nem me interessei pelo sol. Nada disso me importava naquela tarde fria do inverno de agosto de 1961, em que sentíamos calor a cada passo e em cada gesto. Porto Alegre e todo o sul do Brasil tinham ainda temperaturas baixas, e o nevoeiro úmido, às vezes, só se dissipava a partir do meio-dia. Todos vestíamos roupas de lã e, sob o vento gelado, ao abrir a boca exalávamos vapor, lançando um bafo brincalhão sobre as vidraças. E cada vidraça transformava-se em tela de pintura na qual, com o dedo, os tímidos escreviam o próprio nome e os mais atrevidos desenhavam um coração com o nome da amada.


Talvez por isso, naquele tempo e naqueles invernos, as janelas exerciam sobre nós um fascínio ingênuo, tão secreto quanto inexplicável. Olhei para o alto e nada vi. Ou vi apenas o vitral da janela em forma de elipse, no alto da parede do Palácio Piratini. Ali fixei a mirada e, como se aquele calor interno instalado dentro de mim me guiasse em pleno frio, gritei incisivo e forte: – Um martelo e uma escada comprida, que chegue ao teto! Mas rápido! O soldado da Brigada Militar do Rio Grande do Sul assentiu com a cabeça, em silêncio, e saiu em correria rumo ao pátio do Palácio, levantando um dos braços ao ar para o fuzil não esbarrar em ninguém. Pronunciei a frase num tom direto e duro, como uma ordem, não por ter condições de dar ordens ou por ostentar algum posto militar ou civil com autoridade de mando. Eu era tão só umjornalista. Simplesmente, soltei a frase vencido pelo cansaço e guiado por uma espécie de torpor onírico que dava às palavras um ímpeto cru, como aqueles bêbados que esbravejam no auge do porre, mas são suaves e quietos na realidade do dia a dia, quando sóbrios. E o soldado obedeceu, talvez porque fosse treinado para cumprir ordens ou porque estivesse exausto também, sem ânimo para raciocinar. Era o início da tarde de domingo, 27 de agosto de 1961. Na sexta-feira, 25 de agosto, emBrasília, Jânio Quadros havia renunciado à Presidência da República, num gesto tão inesperado e intempestivo que, há dois dias, nos provocava uma insônia de atemorizada e constante vigília. Eu havia dormido apenas três horas na madrugada de sexta-feira para sábado e, de pé já às 7h da manhã, desde então nem sequer cochilara nas cadeiras duras ou nos sofás fofos do Palácio, onde passamos a noite ao telefone ou batendo no teclado da máquina de escrever. Aos 27 anos pode-se fazer isso, sem sacrifício e sem contar as horas! Desde o sábado eu tinha me instalado no berço das notícias – o Palácio do governo gaúcho –, ali onde as situações novas podiam nascer a partir do que lá se sabia do que ocorria em Brasília, no Rio, São Paulo e no resto do Brasil. A situação era grave. Afinal, por que Jânio Quadros renunciara, se nem sequer completara sete meses no poder que exercia de forma quase imperial? No dia 28 de agosto, segunda-feira, ele iria instalar a Presidência da República na capital do Rio Grande do Sul, naquela ideia de governo-itinerante, que começara em Recife, meses antes. Tudo estava preparado para recebê-lo com o Ministério inteiro. Durante três dias, o gabinete presidencial funcionaria nas salas do comando do III Exército, na Rua dos Andradas, aquela que todos chamam pelo nome antigo de Rua da Praia, mesmo que agora não exista praia alguma nem a lembrança de quando o rio chegava até ali. Tudo estava preparado para receber a cúpula que comandava o Brasil. Nos municípios distantes, os partidos conservadores (que apoiavam Jânio) armavam comitivas rumo à capital, onde também estariam os generais das guarnições espalhadas pelo interior, para prestar continência ao presidente e seu ministro da Guerra. Por decisão do governador, os alunos das escolas primárias estaduais, com bandeirinhas do Brasil e do Rio Grande, receberiam o presidente ao longo do trajeto do aeroporto ao centro. Porto Alegre dispunha-se a retumbar como capital do Brasil por três dias. Não foi isto, no entanto, que fez com que, nas horas seguintes à renúncia, o governador Leonel Brizola descesse do seu gabinete e, das janelas do piso térreo, num discurso para as trezentas pessoas do povo, que se aglomeravam com improvisadas faixas e cartazes defronte ao Palácio, fizesse um apelo ao renunciante Jânio: – Venha, presidente, venha para a capital gaúcha e instale o governo da República, como previsto. Aqui, o governo estadual e o povo inteiro, civis e militares, garantem a continuidade do seu governo. Aqui não há pressões. Venha, presidente, no Rio Grande do Sul há garantias! A carta-manifesto deixada por Jânio, sem destinatário, mas, de fato, dirigida ao povo, levava a concluir que ele abdicava do poder sob pressão. E, no caso do presidente da República, a pressão equivalia a um golpe de Estado.

Fui vencido pela reação e, assim, deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira emancipação política e econômica era o único que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social a que tem direito o seu generoso povo. Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando e denunciando a corrupção, a mentira e a covardia, que subordinam os interesses gerais às ambições de grupos dirigidos, inclusive, do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis se levantam contra mim e me infamam ou me intrigam até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a consciência e a serenidade indispensáveis ao exercício da nossa autoridade. Creio, mesmo, não manteria nem a própria paz pública. Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do país, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia. Saio com um agradecimento e um apelo. Um agradecimento aos amigos que comigo lutarame me sustentaram dentro e fora do governo, e de forma especial às Forças Armadas, cuja conduta exemplar em todos os instantes e oportunidades não canso de proclamar. Apelo à paz, ao congraçamento, à estima de cada um dos meus patrícios, para todos, por tudo e para cada um. Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Seremos dignos de nossa herança e da predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalhemos todos. Há muitas formas de servir à nossa pátria. Em 25 de agosto de 1961 Jânio Quadros – 2 – Que “forças terríveis” o pressionavam? De onde partiriam as pressões? Em parte, as palavras recordavam as da carta-testamento de Getúlio Vargas, escrita no bojo de uma crise política que o levou ao suicídio sete anos antes, em 1954. Ou, num plágio da História, buscavam criar a emoção desencadeada pela carta de Getúlio, copiando-lhe a ideia mestra. A frase inicial de Jânio – “fui vencido pela reação” – não parecia deixar dúvidas. Na semântica política, o termo reação se aplicava aos que reagiam às reivindicações de reforma social, bandeira das esquerdas. Ou seja, reação se aplicava à direita reacionária e americanófila, exatamente o setor que o havia elegido presidente. No governo, porém, Jânio passara a oscilar como um pêndulo, de umlado a outro.

Na campanha eleitoral de 1960 para a Presidência, Brizola (que governava o Rio Grande desde 31 de janeiro de 1959) tinha apoiado o marechal Henrique Teixeira Lott, candidato da governista coligação PSD-PTB, com João Goulart na vice-presidência. Votava-se separadamente para cada uma das funções e Lott perdeu, mas Jango Goulart outra vez elegeu-se vice-presidente, tal qual ocorrera quatro anos antes, em 1956, então junto com Juscelino Kubitschek.[1] Tão pronto assumiu o poder em Brasília a 31 de janeiro de 1961, o todo-poderoso Jânio tomou a iniciativa de aproximar-se de Brizola, já então visto pela direita conservadora como umenfant terrible: num dos primeiros atos como governador, havia estatizado os serviços e instalações da American Foreign and Power, o intocável polvo mundial de eletricidade, e isto o tornara um herói e um vilão, ao mesmo tempo. Um herói que, com visão de independência e soberania nacional, enfrentava o poder imperial da Nova Roma do século XX. Um vilão e aventureiro que desafiava o poder do Novo Império e rompia a ordem estabelecida. No início de março, Jânio viajou ao Rio Grande do Sul para a inauguração da Festa da Uva, em Caxias do Sul, e ali, num gesto aparentemente frugal, selou publicamente a aproximação. No palanque oficial, de pé (enquanto viam o desfile dos carros alegóricos e “rainhas da festa”), quando Brizola pôs na boca um cigarro, Jânio inclinou-se sobre ele e lhe deu fogo. Ambos cigarros se tocaram, o de Jânio acendendo o de Brizola. Para fumantes inveterados como eles, aquele gesto equivalia a um beijo num pré-namoro de adolescentes. Apenas uma beijoca de fraterna amizade, mas que abria um canal de intimidade política entre dois homens em nada afeitos a admitir íntimos nemintimidades. Quando, minutos depois, o presidente colocou um cigarro à boca, Brizola retribuiu o gesto e o acendeu, como se esperasse a oportunidade de mostrar que aceitava o namoro. Fotografada, a cena apareceu no dia seguinte na primeira página dos vespertinos Folha da Tarde e Última Hora, de Porto Alegre. (Hoje, passado meio século, após ter conhecido a visão teatral de Jânio e sua fantasia mágica do poder, percebo que o gesto foi preparado. Ou, tão acostumado estava ele com essas teatralidades, que tudo lhe saiu sem que o previsse, mas numa inconsciente premeditação, porque era parte do seu cotidiano. Nas andanças pelo interior de São Paulo ou por outros pontos do país, a quantos adversários ou rivais Jânio Quadros terá “dado fogo”, com o cigarro aceso ou riscando um fósforo, como tentativa de se aproximar? Jânio era exímio na arte de representar, algo inerente aos políticos, mas que, nele, tinha uma dimensão profunda e total. Representava não só para os outros, mas para si próprio. A renúncia à Presidência se enquadra nessa simulação da realidade que ele inventava e que, para si mesmo, fantasiava como real.) – 3 – Dali em diante, ou a partir do cigarro, cada qual aproximou-se do outro. Brizola apoiava a política externa de Jânio (tachada de pró-esquerdista e atacada por boa parte dos políticos conservadores que haviam apoiado sua candidatura presidencial), mas criticava duramente a política econômica interna. Até o tom crítico do jovem governador arrefeceu, porém, ou suas palavras tornaram-se menos contundentes, à medida que Jânio lhe dispensava, pouco a pouco, uma atenção que não demonstrava sequer com Carlos Lacerda, governador da Guanabara e um dos arautos da sua vitória eleitoral. Nesse agosto de 1961, a teatralidade de Jânio Quadros transformara todas as aparências da política e parecia ameaçar o próprio quadro político. Rodeado de políticos e militares conservadores, nem os seus ímpetos (como a condecoração a Ernesto Che Guevara, com que, pessoalmente, homenageou o comandante guerrilheiro) o fizeram perder apoio da sua área civil ou fardada. A renúncia à Presidência, porém, consumada horas após prestar continência à bandeira no Dia do Soldado, em Brasília, criou uma reviravolta. Naquele exato dia 25 de agosto, o vicepresidente João Goulart (após ter estado na União Soviética) concluía uma visita oficial à China comunista e, iniciando a viagem de volta, saíra de Xangai com destino a Cingapura. Naqueles preconceituosos tempos da Guerra Fria, a China fora condenada ao isolamento pelos Estados Unidos – não fazia parte da ONU e tinha relações apenas com os países comunistas da Europa, mais a Inglaterra, cuja colônia de Hong Kong estava encravada em território chinês.

Visitá-la significava entrar na “lista negra” internacional do horror alimentado pela CIA e pelo Pentágono. – 4 – Se Jango Goulart estivesse em Brasília no momento da renúncia, talvez os dias seguintes não viessem a ser tão dramáticos. O gesto do presidente fora tão surpreendente e inusitado que nem os velhos inimigos de Jango nas Forças Armadas (como os três ministros militares) teriam tempo ou oportunidade para impedir o rito normal da substituição. O vice-presidente, porém, estava a dezenas de milhares de quilômetros de distância, e fora enviado à União Soviética e à China por decisão de Jânio. A substituição do presidente da República seguiu, assim, o rito normal: o paulista Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, tomou posse interinamente, na mesma tarde, após o Congresso tomar conhecimento do “gesto unilateral da renúncia” e declarar vaga a chefia do governo. Quando o ministro da Guerra chegou ao Palácio, os jornalistas o indagaram sobre o que pensava da posse de João Goulart. Denys desconversou: “Estou aqui para outra posse!”. Ao desconversar, deu o primeiro indício do que preparava junto com os chefes da Marinha e da Aeronáutica. No único e breve discurso da cerimônia, porém, o interino Mazzilli lembrou que “por força de dispositivo da Constituição Federal” cumpria ao presidente da Câmara dos Deputados, “na ausência de Sua Excelência, o vice-presidente João Goulart, assumir nessa eventualidade histórica a presidência da República”. E concluiu: “A nação está assistindo a um ato histórico, é certo, mas de rotina na construção do nosso direito constitucional”. Ao lado de Mazzilli no gabinete presidencial do Planalto, os três ministros militares entreolharam-se espantados. O almirante Sílvio Heck, da Marinha, mordiscou os lábios e apertou a boca. O brigadeiro Grün Moss, da Aeronáutica, respirou fundo, a pleno pulmão, e o som ressoou pela sala. O marechal Odilio Denys empertigou a cabeça e fez-se ainda mais alto, movendo o corpanzil como se tentasse refazer-se do susto. Mais por formalidade do que por convicção constitucionalista, o interino Mazzilli lhes recordava o que pareciam ter esquecido: o substituto definitivo de Jânio Quadros era o vicepresidente. Desde o anoitecer da sexta-feira da renúncia, mais do que ninguém, Leonel Brizola tambémrecordava esse detalhe. Ao final da tarde, conseguira falar ao telefone com um dos assessores de Jânio, na Base Aérea de Cumbicas, em São Paulo, para onde o renunciante voara no avião presidencial. “A renúncia é um ato pessoal de vontade do presidente. Ninguém o pressionou. Os ministros militares insistiam, até, em que permanecesse. A ideia foi dele e só dele”, disse-lhe Carlos Castello Branco, secretário de Imprensa da Presidência, sem entrar em minúcias, até mesmo porque ninguém do entorno presidencial sabia das minúcias que habitavam o ego de Jânio.

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