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1968, Eles so Queriam Mudar o Mundo – Regina Zappa

Passaram-se 40 anos e 1968 continua desafiando as incontáveis iniciativas para explicá-lo. Para quem procura compreendê-lo, 1968 segue intrigante e provocador. Foram muitas as formas de interpretá-lo ao longo do tempo: ano louco, enigmático, revolucionário, utópico, radical, rebelde, mítico, inesperado, surpreendente, profético, das ilusões perdidas. Adjetivos não faltam. A pergunta que ainda busca resposta no tempo é: qual o vínculo entre tantos e tão espantosos episódios e o curto espaço de 366 dias desse ano, além de tudo, bissexto? Nem mesmo aqueles que estiveram no olho do furacão, no centro dos acontecimentos, sabemresponder com convicção. Uma coisa é certa. Quem lançar um olhar curioso sobre o século passado verá que 1968 se destaca claramente entre todos os outros. Mesmo em relação a anos como 1989, da queda do Muro de Berlim, e 1991, da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A dimensão universal, a repercussão e o extraordinário significado dos eventos que agitaram seus dias colocam 1968 em um patamar único em todo o século XX. Longe de esgotar o assunto, este livro faz um passeio pelos ricos acontecimentos daquele período, na tentativa de ajudar, especialmente as novas gerações, a entender por que 68 foi tão representativo. Que ele sirva de instrumento para analisar os fatos que marcam nossas vidas até hoje. No mosaico desses acontecimentos, é possível, talvez, encontrar a pista. Profeticamente, 1968 foi escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Ano Internacional dos Direitos Humanos. Para o povo de Cuba, ele foi o Ano do Guerrilheiro Heroico. Uma homenagem a Ernesto Che Guevara, assassinado pela CIA, no dia 9 de outubro de 1967, no miserável vilarejo de La Higuera, nos Andes bolivianos. A luta pelos direitos humanos e a guerrilha foram personagens marcantes na história de 68. Ainda em plena ressaca das festas de 31 de dezembro de 1967, o amanhecer de 1º de janeiro de 1968 descortinou um mundo dividido em dois blocos liderados, respectivamente, pela União Soviética e pelos Estados Unidos. Socialismo e capitalismo. Não havia alternativas: era um ou outro. A lógica dominante era a da Guerra Fria. Os dois blocos tinham o poder de destruir várias vezes a Terra – como se fosse possível – com seus gigantescos arsenais nucleares. Por isso, ninguém atacava ninguém, mesmo com a existência de algumas zonas de guerra quente, como o Vietnã, no Sudeste Asiático. Cada um zelava ciumenta e cuidadosamente por sua área de influência. Era essa a decepcionante herança que cabia à humanidade desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os problemas que subsistiam não impediam que os poderosos respirassem, no limiar de 68, a euforia gerada pelo período de maior prosperidade e crescimento de toda a história do mundo industrializado.


Para a maioria dos jovens, no entanto, era um ambiente insatisfatório, autoritário e injusto. Em um planeta iniciando um irreversível e acelerado processo de globalização, com as primeiras transmissões ao vivo pela televisão, via satélite, encurtando extraordinariamente as distâncias entre tempo e espaço, não era nada espantoso que jovens de formação, tradição e história tão diferentes como alemães, italianos, americanos, etíopes, escandinavos, brasileiros, franceses, tchecos, eslovacos, mexicanos, chineses e japoneses se rebelassem e encontrassem em seus protestos – que curiosamente tinham alvos em comum, como o autoritarismo – inspiração para criar novas formas de luta. A onda de rebeldia que percorreu o globo em 68 foi inspirada, de um lado, por reivindicações específicas de cada realidade nacional – no Brasil, a luta contra a ditadura militar, impulsionada por um sentimento libertário contra o opressivo autoritarismo que permeava as relações no interior das famílias, nas escolas e universidades, nas empresas e na vida cotidiana dentro de uma sociedade de consumo e comunicação de massas que sofria a doença de uma deformada prosperidade. Mas não era só isso. Jovens de todo o planeta alimentavam também uma generosa e generalizada revolta contra o mundo bipolar, os valores sociais ultrapassados, o falso moralismo, a repressão sexual, as injustiças sociais e a guerra no Vietnã, onde um poderoso país imperialista exercia uma agressão cruel contra uma pequena e subdesenvolvida nação do Terceiro Mundo. Uma guerra que repercutia e também era travada no território americano, especialmente nas universidades, onde milhares de estudantes protestavam quase diariamente contra o recrutamento obrigatório para o serviço militar, apoiados por uma opinião pública crescentemente contrária à guerra e revoltada com o número de mortos e feridos americanos. Aos 18 anos, os jovens eram convocados para lutar e morrer no Vietnã. No entanto, eles sequer tinham o direito de votar. Teriam ainda que esperar mais três anos para completar 21 e poder escolher um presidente. Na Europa, a existência de uma “cortina de ferro” separando realidades diferentes não evitava que a juventude protestasse dos dois lados contra regimes igualmente incapazes de corresponder a seus sonhos, exigências e esperanças. Do lado oriental, especialmente na Polônia, na Romênia e na então Tchecoslováquia, as duras condições de vida e a implacável repressão da polícia política não impediam as manifestações dos jovens contra a censura, o frustrante “socialismo real” e o burocrático e repressivo marxismo oficial vigente no Leste Europeu. Protestos vistos com crescente mau humor pela poderosa União Soviética, ciosa guardiã da disciplina, da ordem e da paz dos cemitérios em suas repúblicas. Ano de muitas audácias. Em que o sonho não era apenas fazer uma reforma ou uma recauchutagemnas opressivas estruturas existentes. O poder da imaginação tinha sido liberado. Os estudantes, que ergueram barricadas no Centro de Paris e nas aleias das bem-cuidadas universidades americanas e tomaram as ruas na bela e secular Praga e em muitas outras cidades, queriam uma nova vida. Seus cantos, suas palavras de ordem, suas bandeiras e cartazes não vinham do passado. Representavam o futuro. Contra o centralismo, queriam autogestão. Contra o autoritarismo, propunham assembleiasgerais. Rebelião e revolução nunca estiveram tão próximas. Em Praga, o premonitório sonho libertário duraria apenas o fugaz tempo de uma primavera, até que os tanques esmagassem a florescente liberdade que, entretanto, voltaria inexoravelmente alguns anos depois com força irresistível para derrubar muros, cortinas e tiranos. 1968 foi, para os americanos, de tirar o fôlego. Pouco depois da passagem do ano, o barulho do espocar das garrafas de champanhe se confundiu com os disparos dos vietcongues, dedicados camponeses durante o dia, imbatíveis guerrilheiros à noite, que, calçados com suas humildes sandálias de sola de borracha, desceram das montanhas do Vietnã do Norte para colocar em xeque o mais poderoso Exército do mundo na ofensiva do Têt (Ano Novo chinês), um dos acontecimentos capitais do ano. A guerra foi levada ao coração de Saigon e a embaixada americana – um dos lugares mais protegidos do mundo – chegou a ser tomada pelos guerrilheiros.

Se os vietcongues não conseguiramatingir no terreno militar todos os seus objetivos, a ofensiva do Têt teve um efeito devastador na opinião pública e colocou definitivamente a maioria dos americanos contra a guerra, fez Lyndon Johnson desistir de disputar a reeleição, expulsou os democratas da Casa Branca, elegeu Richard Nixon presidente e forçou o início da conferência de paz em Paris. Nos Estados Unidos, líderes continuaram servindo de alvos preferenciais para tiros de radicais e/ou desequilibrados. Robert Kennedy e Martin Luther King foram abatidos. Tribos de todas as cores, tendências e bandeiras soltaram a voz nas ruas e estradas da América: pacifistas, hippies, yippies, Panteras Negras, feministas, homossexuais, militaristas, libertários, militantes dos direitos civis, republicanos e democratas. O debate ideológico foi intenso, temperado muitas vezes pelos cassetetes, bombas de gás e até mesmo tiros da polícia. Com a morte de Luther King, muitos negros consideraram bloqueado o caminho pacífico para conquistar os direitos civis e optaram pela luta armada. Foi um ano de muitos e sangrentos conflitos raciais. Na enigmática China, a chamada Grande Revolução Cultural e Proletária mobilizava em 1968 mais de 20 milhões de jovens chineses. Armados do Livro vermelho com os pensamentos do camarada Mao, eles sacudiram as tradicionais estruturas de seu milenar país, como se a história estivesse começando do zero, naquele instante. O passado era revisto e refeito. Os guardas vermelhos, como se autointitulava a versão chinesa da geração 68, se lançaram numa incontrolável onda de perseguições políticas que fugiu ao controle de seu comandante, Mao, a quem cultuavamcomo um deus. Líderes e intelectuais foram perseguidos, humilhados e assassinados. Nem o extraordinário patrimônio cultural escapou da fúria purificadora. Templos, esculturas, manuscritos e livros foram destruídos por falta de conteúdo revolucionário. No final de 68, com a economia e a vida no país mergulhadas no caos, Mao, o Grande Timoneiro, tentou mudar o rumo do barco para evitar o naufrágio, como já tinha feito antes por ocasião do Grande Salto para a Frente, outra campanha fracassada. Ano de muitos protestos. De vitórias e derrotas para os movimentos populares. No México, estudantes que manifestavam contra a disfarçada ditadura mexicana foram massacrados na tristemente famosa praça de Tlatelolco, na Cidade do México. Nunca se soube o número de mortos, feridos e desaparecidos. Os Jogos Olímpicos, realizados também no México, foram marcados – pela primeira vez na história olímpica – por manifestações de atletas americanos negros contra o racismo existente nos Estados Unidos. No Japão, estudantes enfrentaram a polícia em intermináveis batalhas, protestando contra o uso de seu país como base de reabastecimento das forças americanas que combatiam no Vietnã. Em todo o mundo, protestos mobilizaram jovens quase cotidianamente ao longo de 1968, mas emnenhum deles as manifestações tiveram a dimensão das que ocorreram em maio, na França. O que havia começado como uma banal reivindicação em uma universidade no subúrbio de Paris, Nanterre, sobre o direito de moças e rapazes partilharem os mesmos alojamentos estudantis, se transformou ao longo do mês numa quase revolução, com 10 milhões de operários em greve, a cidade sitiada, barricadas no Quartier Latin e o poder em xeque. Mas foi provavelmente no comportamento, cultura e contracultura, que a geração 68 deixou mais fortemente sua assinatura, sua marca, sua herança. Foi um ano extraordinário, em que a comunicação instantânea acertou suas fronteiras com o tamanho exato do mundo.

A música, principalmente o rock, tornou-se um dos meios fundamentais para os jovens expressarem suas alegrias e tristezas, angústias e revolta, protesto e esperança no futuro. Janis Joplin, Jimi Hendrix, Beatles, Jim Morrison, Bob Dylan… As convenções existiam para serem quebradas. Muitos jovens deixaram o cabelo crescer, passaram a usar roupas coloridas e a se enfeitar com flores. Pregaram o amor livre e a não violência. Novas formas de organização familiar foram propostas. Uma talentosa geração de músicos brasileiros chegou aos palcos em 68, revolucionando a MPB. Festivais da canção revelaram autores. Caetano e Gil burilaram o Tropicalismo, “um movimento para acabar com todos os outros movimentos”, buscando uma estimulante interação entre diferentes manifestações artísticas. No teatro e no cinema, José Celso Martinez Corrêa e Glauber Rocha causaram espanto e admiração e abriram novos espaços para a arte. Tudo isso incomodava os militares no poder. O teatro, em peças como Roda viva, foi alvo de brutais ataques terroristas. Na música, os autores eram obrigados a inventar subterfúgios para enganar a implacável e quase sempre estúpida censura. Os estudantes brasileiros estiveram nas ruas durante quase todo o ano, enfrentando a feroz repressão do governo militar. Lutavam por suas reivindicações, por liberdade e pelo fim da ditadura. No fim do ano, com a promulgação do Ato Institucional n.5 (AI-5), os militares, depois de quatro anos no poder, finalmente tiraram o disfarce e assumiram plenamente as feições do regime que impunham. Uma ditadura cruel e despótica. Tão cruel que, além do uso indiscriminado da tortura contra presos políticos, foi capaz de alimentar planos insanos de utilizar o Para-Sar, uma unidade de elite da Força Aérea especializada em salvar vidas humanas, na eliminação física dos oponentes da ditadura. Atos terroristas contra a população civil – entre eles a explosão do gasômetro no Centro do Rio de Janeiro e o envenenamento das fontes de abastecimento de água da cidade – faziam parte dos planos dos militares “linha-dura”. Planos sinistros que foram neutralizados pelas denúncias de ummilitar democrata. A herança de 1968 é polêmica, rica e se faz sentir até hoje. Foi o ano deflagrador de uma série de reivindicações sociais, políticas e culturais que continuam sem solução. Indicou a necessidade da criação de uma nova ordem mundial voltada fundamentalmente para o homem, com a implantação da igualdade entre os sexos, do respeito à vida e ao meio ambiente, do planejamento ecológico e da defesa dos direitos das minorias. E o mais importante: ensinou que uma sociedade não é feita apenas para reproduzir a si mesma num círculo vicioso, mas também estar em permanente transformação, visando atender às necessidades e aspirações de sua população. De onde surgiram inspiração e fôlego para tanta movimentação reunida num só ano? O fato é que, em um determinado momento, alguém não se conformou e escreveu com letras firmes num muro de Paris: “Seja realista, peça o impossível.

” Janeiro Prenúncio de primavera, conflitos antigos e corações novos O ano de 1967 terminara sem grandes sobressaltos, mas ventos revolucionários traziam eletricidade ao novo ano que se anunciava. No início de janeiro, em Havana, Fidel Castro decretava, sintomaticamente, que 1968 seria o Ano do Guerrilheiro Heroico. Tratava-se de uma homenagem a Che Guevara, que travara seu último combate na América Latina no vale do rio Yuro, na Bolívia, em 8 de outubro de 1967, e fora executado no dia seguinte. O espírito de Che, portanto, já reinava por decreto sobre 1968. Seu martírio pela causa revolucionária serviria para que, durante muito tempo, inúmeros jovens se inspirassem em seu exemplo. Em Paris, a polícia tenta conter a marcha dos estudantes A alegria de um casamento hippie numa praça de Nova York O ano começava entre balanços de túnicas indianas e calças boca de sino e rodopios de saias longas com rendas e paetês. Pierre Cardin lançara roupas geométricas e as garotas se vestiam com as minissaias criadas por Mary Quant ou, se fossem mais “caretas”, com vestidos evasê e meias arrastão. Havia, porém, sinais reveladores em todo o mundo, desde o início da década, de que, logo à frente, a energia que pairava no ar se transformaria em turbulência. Na Europa Oriental, sob o domínio vigilante da hoje extinta União Soviética, algumas mudanças despontavam. Com a pretensão de ampliar a liberdade de expressão e reabilitar as vítimas do stalinismo, o bem-intencionado reformista e democrata Alexander Dubcek acabava de ascender, no dia 5 de janeiro, ao cargo de primeiro-secretário do Partido Comunista da então Tchecoslováquia, ainda parcialmente encoberta pela chamada Cortina de Ferro. Começava a ganhar força o movimento que se tornaria conhecido como Primavera de Praga e que apontava na direção de uma lenta distensão. Dubcek defendia o “socialismo de rosto humano”. Junto com ele, um grupo de jovens intelectuais conquistava espaço no Partido Comunista tcheco. Dubcek decidira fazer uma reforma profunda na estrutura política do país, com a intenção de remover todos os vestígios do autoritarismo que ele considerava uma aberração no sistema socialista. No Oriente Médio, os conflitos de 1967 ainda ecoavam. Na fronteira de Israel com a Jordânia, houve troca de tiros e ataques com mísseis no primeiro dia de 1968. A região tinha sido palco de choques recentes entre árabes e judeus meses antes, entre 5 e 10 de junho, durante a Guerra dos Seis Dias, com fulminantes ataques de Israel a bases aéreas egípcias e bombardeios da Jordânia emJerusalém. No confronto, o Exército de Israel derrotara as forças do Egito, da Jordânia e da Síria, passando a ocupar grandes extensões de Jerusalém Oriental, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, alémdo deserto egípcio do Sinai e das colinas sírias de Golã, ampliando sua área três vezes. Acreditavase, então, que os territórios ocupados poderiam servir como “moedas de troca” em negociações de paz com os países árabes, mas a permanência das hostilidades mostrava, no início de 1968, que uma solução pacífica estava cada vez mais difícil na região.

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