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1973 – O Ano Que Reiventou a MPB – Celio Albuquerque

Nos primeiros anos da década de 70, era muito comum ver um adesivo que tinha a bandeira do Brasil ao lado da frase: “Brasil ame-o ou deixe-o”. Na ocasião meu pai era o Sargento Cunha, da Aeronáutica brasileira. Em grande parte dos lares brasileiros de então, pouco se falava de política. Lá em casa não era diferente. Mas, por outro lado era comum volta e meia um Pasquim circular emcasa, assim como as revistas Realidade e Planeta. No dia em que meu pai chegou com o adesivo em casa, sem alarde, ele pegou uma tesoura e cortou o “deixe-o”. E o tal adesivo ficou apenas “Brasil: ame-o”. Aquilo foi extremamente simpático, mas a ficha só foi cair tempos depois. Na adolescência é que se traçam os gostos. Comigo não foi muito diferente. Aos 12 anos fui apresentado por um primo de segundo grau, Amílcar Floreal, ao Clube da Esquina. Ele e seus amigos dissecavam os dois LPs com um prazer inenarrável. Pouco tempo depois eles surgiram cantando e rebolando, falando de um conjunto que imediatamente ocupou todos os espaços, um tal de Secos & Molhados. Foi lá em seu quarto que, meio desorientado, me deparei com a contundência do primeiro disco de Gonzaguinha. Na mesma época comecei amizade com o então estudante de piano Fernando Merlino. Sua irmã e seu cunhado, Rita e Zé Roberto Machado, e um amigo comum, Carlos Evandro Lordello, ouviam com o mesmo prazer o primeiro disco de João Bosco e os discos do Yes (em especial o Close to the age) e Pink Floyd (The dark side of the moon). A variedade imperava. Eu e Nando (Merlino), da mesma idade, ouvíamos de tudo um pouco, e ainda tinham os clássicos que ele ouvia e mostrava com prazer, além do disco de Paul McCartney com os Wings, que tinha a música do 007. Entre 1972 e 1974 o cenário da música brasileira era uma riqueza só. Grandes discos, verdadeiros clássicos, foram lançados nesse período, tais como o disco do tênis, do Lô Borges; Acabou Chorare, dos Novos Baianos, Expresso 2222, de Gilberto Gil, e Elis & Tom. Mas, foi em 1973 que a música brasileira, sob um recorte temporal, se solta do passado, sem desgrudar-se dele, passeia pelo presente e salta para o futuro. 1973 − O Ano que Reinventou a MPB nasceu, de certa forma, dessa percepção. Estávamos em 2012. Eu havia escrito um texto para o blog de Aimée Louchard sobre o ano 1973. Tempos mais tarde, no início de 2013, conversando com Marcelo Fróes e diante do entusiasmo do produtor musical André Agra, que nasceu em 1973, decidi, junto com a assessoria de Fróes e o apoio da editora Sonora, que estava nascendo, desenvolver o livro sobre esse ano tão singular na música popular do Brasil.


Conceber esse livro foi acima de tudo um trabalho de arqueologia musical e uma explosão de boas sensações derivadas da constatação de o quanto a música é importante na vida das pessoas. Para este livro decidimos reunir, em capítulos especiais, títulos marcantes lançados em 1973, nos mais diversos segmentos. Mais ou menos como se fosse um disco para cada ano que se passou desde então. A seleção (assim como as de futebol) será questionada, com certeza. Porém como escreveu Tárik de Sousa, mesmo a lista mais famosa do ocidente é questionada (os dez mandamentos), então porque essa não seria? Sabemos disso. Nós mesmos ficamos em dúvida sobre quais títulos teriam prioridade para estar presentes na obra. Mas, precisávamos limitar esse universo. Além da relevância artística dos títulos selecionados estipulamos que cada autor do texto sobre os discos teria que ter intimidade, carinho e lembranças pessoais sobre ele. Pois, sabemos que a música vai muito além das setes notas musicais. Há tambémos silêncios. E tentamos respeitar isso, como o som toca cada uma das pessoas de modo particular. Praticamente todos os discos aqui em destaque tiveram versões em CD, mas alguns apenas no exterior. Além dos álbuns destacados, comentamos diversos títulos que poderiam estar na seleção e que tiveram alguma relevância. Também optamos em incluir um artigo contextualizando o que foi o ano de 1973 política e economicamente, além de compor um texto especial sobre os materiais musicais que foram produzidos e não lançados neste ano. Este ficou a cargo do Fróes, um arqueólogo da MPB. Eu e Marcelo também tivemos uma conversa enriquecedora com André Midani e Roberto Menescal sobre o projeto Phono 73, que de certa forma reforça a tese que sustentamos aqui: variedade e qualidade num ano de ouro em tempos de chumbo. 1973 − O Ano que Reinventou a MPB é um livro feito de encontros. De encontros de gente dos mais diferentes pontos do país, de gostos diversificados, que se identificam com o tema e com os discos. Em cada resenha, os discos abordados possuem o carinho de seus autores. Alguns com histórias extremamente pessoais, de quem conviveu com o artista que está em foco. Outros não conviveram, mas se emocionam como se fossem íntimos. O livro que aqui apresentamos possui outros autores além daqueles que assinam os textos. Há também muitos outros que por diversos motivos acabaram não embarcando nesse tapete mágico. E há também os que embarcaram, mas no meio da viagem tiveram que pedir para saltar no porto seguinte. No entanto, todos podem se considerar coautores.

Numa época na qual os discos como obras fechadas são cada vez mais raros, o livro é umdocumento de um tempo. De um tempo em que convivíamos com agulhas de diamante e abríamos embevecidos capas de discos que íamos nas lojas comprar. De um tempo em que os discos tinham lado A e lado B… Tempo, lá nos arredores dos primeiros anos 70, que em quase todos os discos que comprávamos havia escrito “DISCO É CULTURA”. Mas esse livro foi pensado, não para ficarmos dizendo que naquele tempo as coisas eram melhores… O melhor tempo é hoje. Pois, hoje estamos aqui. Contudo, voltar as luzes para o passado ajuda a entender o presente e pensar no futuro de uma forma mais sensata, mas, nem por isso, menos emotiva. Por outro lado, entrar nesse túnel do tempo e voltar 40 anos é um exercício instigante, que adoramos ter feito. Torcemos para que os leitores tenham sensações semelhantes. Alguns anos chaves já entraram no imaginário como 1964, 1968, 1984, 1808, 1822, 1958, 1967 e até 2001 e sua Odisseia no espaço. Agora é a vez de 1973. Boa audição a todos. Ou melhor, boa leitura! Célio Albuquerque TEMPOS DE MILAGRE, ANOS DE CHUMBO Washington Santos “Afinal, como é que tanta gente boa apareceu assim, ao mesmo tempo?” – pergunta o jornalista Sílvio Essinger no O Globo em 10 de janeiro de 2013 – 40 longos anos depois de 1973, quando foram lançados os LPs de estreia de Raul Seixas, Secos & Molhados, Luiz Melodia, Fagner, Sérgio Sampaio, Walter Franco, João Bosco e Gonzaguinha. E que tempo era aquele! No ano de 1973, vivíamos, no Brasil, sob o governo do presidente Garrastazu Médici, no apogeu do regime militar. O país convivia, simultaneamente, com o Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo. Como diz Elio Gaspari no seu A Ditadura Escancarada, ambos – o milagre e o chumbo – eram reais, coexistiam, mas negavam-se. E até hoje devem gerar polêmica. “Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro”, ironiza o autor. Nada explica melhor aquela época que uma inscrição presente em adesivos distribuídos pelo governo à população: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Ao mesmo tempo em que se alimentava o sonho do Brasil potência, do país do futuro – o que exigia cargas enormes de otimismo, orgulho e patriotismo –, experimentávamos os tempos do exílio, da censura, do simulacro da democracia representativa – com o Legislativo reduzido à condição de órgão homologador das decisões do Executivo –, da tortura e do extermínio de adversários políticos. NINGUÉM SEGURAVA AQUELE PAÍS Do final dos anos 60 até 1973, ocorreu forte crescimento econômico no país, com um processo acelerado de verticalização da indústria e o aumento considerável da produção de bens duráveis (eletrodomésticos, automóveis) e da indústria de bens de produção (máquinas e equipamentos). Nesse período, que ficou conhecido como Milagre Brasileiro em alusão aos “milagres” alemão e japonês das décadas de 1950 e 1960, o PIB cresceu a uma média de 10% ao ano, e a inflação, controlada, oscilou em torno de 20% anuais. O modelo de desenvolvimento adotado permitiu importantes investimentos nas empresas estatais, em especial as de petróleo, produtos petroquímicos, aço, energia e comunicação. “O Brasil tornara-se a décima economia do mundo, oitava do ocidente, primeira do hemisfério sul”, lembra Gaspari. As montadoras do ABC paulista despejavam milhares de carros nas ruas com foco na classe média (do Volkswagen ao Dodge Dart, passando pelo Opala), milhões de aparelhos de televisão invadiam os lares brasileiros. Inaugurava-se a era dos supermercados e dos shopping centers.

Revelava-se a descoberta de jazidas de urânio no Nordeste e anunciava-se a compra de uma usina atômica, a ser montada emAngra dos Reis. Médici determinava a construção da rodovia Transamazônica, em nome da integração nacional e da expansão da fronteira agrícola, e estendia-se a duzentas milhas da costa o limite das águas territoriais brasileiras. Aceleravam-se as obras para a abertura dos metrôs do Rio de Janeiro e de São Paulo e anunciava-se a construção da ponte Rio-Niterói. Beneficiadas por uma sucessão de estímulos fiscais e tributários, as bolsas de valores pareciam minas de dinheiro. Emsetembro de 1970, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro bateu o recorde de volume de transações de sua história, negociando 24 milhões de cruzeiros num só dia, fato que se repetiria no ano seguinte, quando novos recordes seriam estabelecidos em diversos setores. Nos idos de 1973, era criada a empresa binacional incumbida de construir, no rio Paraná, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo. 1973 terminaria com um crescimento do PIB de 14% (!) – o maior do Milagre, apesar das previsões sombrias que já rondavam a economia brasileira desde o ano anterior. O governo oferecia ditadura e progresso, para a felicidade de militares, tecnocratas, firmas internacionais e burguesia associada (banqueiros, industriais e exportadores) e uma nova classe média ascendente, destaca o livro A História da Sociedade Brasileira, que tem como um dos autores o hoje deputado federal Chico Alencar. Mas o ano não terminaria bem para o mundo e para o Brasil. Em apenas três meses, os países produtores de petróleo diminuíram a produção, elevando o preço do barril de US$ 2,90, em outubro de 1973, para US$ 11,65, em janeiro de 1974. Vivia-se o primeiro choque do petróleo. O princípio do fim. Quando o Milagre definhou, estávamos, de maneira perversa, diante da ampliação da concentração de renda no Brasil e do aumento da miséria. Até então o ministro Delfim Netto dizia que primeiro era preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo. A crise do petróleo provocou uma aceleração da taxa de inflação no mundo todo e no Brasil, onde passou de 15,5% em 1973 para 34,6% em 1974, segundo o IGP/FGV. No final dessa década, a taxa chegou a 77,2% ao ano; em 1980 já era mais de 110%, e em 1983 – a dois anos do fim do regime militar – alcançou o patamar de 200% (!). O resto é historia.

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