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20 contos de Truman Capote – Truman Capote

Os Estados Unidos nunca foram uma terra de leitores, não, pelo menos, daquilo que é chamado de ficção literária. E no século xx só dois escritores de ficção digna de nota conseguiram tornar-se nomes americanos familiares — Ernest Hemingway e Truman Capote. Cada um deles conquistou essa distinção dúbia por meios que quase não incluíam sua tão freqüentemente celebrada obra. Hemingway — robusto, barbado e sorrindo — chegou à maioria dos lares nas páginas das revistas Look, Life e Esquire com uma vara de pescar ou uma espingarda de caça na mão, ou ao lado de uminfeliz touro espanhol prestes a ser morto. Depois da publicação do relato não ficcional de Capote sobre um assassinato coletivo no Kansas rural, ele (com seu físico minúsculo e sua voz aguda) se tornou o astro instantâneo de numerosos talk shows de televisão — fama que manteve mesmo quando o consumo de bebidas alcoólicas e drogas o transformou numa sombra inchada de seu eu anterior. E mesmo agora — com a morte de Hemingway por um tiro de espingarda auto-infligido em 1961 e a de Capote, em 84, pela autodestruição implacável — suas melhores obras continuam a ser gravemente denegridas por críticos e leitores compreensivelmente insatisfeitos. Mas muitos dos contos e pelo menos três dos romances de Hemingway chegam o mais perto da perfeição que a prosa consegue chegar, e Capote deixou não só uma irresistível narrativa de crime como uma quantidade de ficção inicial (três romances curtos e um punhado de contos) que aguarda a atenção detida e a admiração comedida que ele conquistou há muito. Aqui estão reunidos os contos de Capote; e eles cobrem a maior parte de sua vida criativa até o devastador sucesso de A sangue frio, publicado em 1965, quando ele tinha pouco mais de quarenta anos. Com a abundância de publicidade brilhantemente auto-administrada dessa irresistível história de crime, Capote não só aterrissou em milhões de mesas de centro americanas e em todas as telas de tv; conseguiu também granjear a afeição dos habitantes do café-soçaite e das subnutridas rainhas da moda que buscara com tanta frustração em anos anteriores. Logo ele anunciaria sua intenção de publicar um romance longo que examinaria a sociedade americana de forma tão impiedosa quanto aquela como Marcel Proust retratara a alta sociedade francesa no fim do século xix e início do xx. Mas uma consideração que Capote aparentemente nunca discutiu, e a respeito da qual não o questionaram em público, foi decisiva para o colapso final de sua visão (se é que ele tinha uma). A sociedade de Proust era baseada no sangue, firmemente fundada emposições de eminência social francesa havia séculos erigidas sobre dinheiro, propriedade e poder real sobre a vida de outros seres humanos. A sociedade de Capote apenas oscilava sobre as bases insubstanciais e finalmente inconseqüentes da riqueza financeira; roupas, casas e iates elegantes e beleza física ocasional (as mulheres eram com freqüência belas, os homens, muito raramente). Qualquer estudo ficcional longo de um mundo como esse provavelmente implodiria em razão da trivialidade final de seu tema. Quando Capote emergiu de exaustivas rodadas de atividade social e sexual e começou a publicar excertos de seu romance — menos de duzentas páginas —, viu-se abandonado da noite para o dia por praticamente todos os seus amigos ricos; e refugiou-se num túnel de pesadelo de drogas, bebida e práticas sexuais do tipo psiquicamente mais danoso. Apesar das numerosas tentativas de recuperação, seus vícios só pioraram; e, quando ele morreu, uma alma desgraçada muito aquém da velhice, deixou apenas algumas páginas da alta pilha de manuscritos que afirmava ter escrito de seu grande romance. Se chegou a haver mais, ele destruíra as páginas antes de morrer (e seus amigos mais íntimos discordavam da probabilidade de existir uma quantidade significativa de trabalho). Um arco tão trágico instiga qualquer observador a arriscar um palpite sobre sua causa, e o que sabemos do começo da vida de Capote fornece um gráfico quase perfeito para qualquer estudioso de Freud que presuma ser uma vida adulta desastrosa o resultado inevitável de uma infância infeliz. E a cuidadosa biografia de Capote de autoria de Gerald Clarke mapeia a infância, a adolescência e a idade adulta inicial de Capote como deslocadas, solitárias e privadas de emoção. O jovem Truman foi, em essência, abandonado por uma mãe jovem demais e sexualmente aventureira e um pai vigarista que o deixaram numa cidadezinha do Alabama com um punhado de primos solteiros (primos e vizinhos que pelo menos o recompensaram com um útil suprimento de boas histórias). Quando a mãe enfim casou outra vez e chamou o adolescente Truman para suas casas em Connecticut e Nova York, mudou o sobrenome dele de Persons para o do segundo marido, Joe Capote, um cubano de charme considerável e fidelidade escassa. O garoto fisicamente estranho —cuja voz e cujos modos afeminados, de uma obviedade chocante, angustiavam profundamente a mãe — freqüentou boas escolas do Norte, onde teve um mau desempenho em quase todas as matérias exceto leitura e escrita. Então, determinado a seguir a carreira de escritor, ele decidiu não fazer faculdade, conseguiu um emprego menor no departamento de arte da New Yorker, lançou-se emalguns dos círculos sociais mutuamente exclusivos da escrita e das farras noturnas da cidade grande e começou o trabalho sério na ficção que lhe traria a fama prematura. As primeiras narrativas aqui reunidas refletem claramente a leitura de Capote da ficção de seus contemporâneos, em especial histórias muito recentes de seus amigos sulistas Carson McCullers, da Geórgia, e Eudora Welty, do Mississippi. “Miriam”, com sua lugubridade talvez demasiado fácil, e “O jarro de prata”, com sua afetada espirituosidade provinciana, podem sugerir as primeiras histórias de McCullers.


E “A forma das coisas”, “Meu lado da questão” e “Crianças em seus aniversários” podem ser vistas de imediato como narrativas não-exatamente-acabadas de Welty, em particular “Meu lado da questão”, com sua extrema semelhança com a famosa “Why I live at the P. O.” [Por que eu moro no correio], de Welty. Mas a infância de Capote, passada num mundo de classe média branca tão próximo do de Welty e McCullers — e num lar estranhamente parecido com aquele descrito nos monólogos cômicos de Welty —, pode muito bem ter extraído tais histórias de um jovem escritor de talento, ainda que ele nunca tenha se deparado com uma narrativa de Welty ou McCullers (Welty me contou que, quando foi entrevistada para a Paris Review em 1972, George Plimpton sugeriu que o entrevistador levantasse a questão de sua influência na obra inicial de Capote; e ela se recusou a discutir o assunto, pois não desejava alimentar nenhuma reivindicação da dependência de outro escritor em relação a ela). Em geral, todavia, no fim dos anos 40, a voz ficcional de Capote era claramente a dele próprio. Seu estranhamente potente primeiro romance — Other voices, other rooms [Outras vozes, outros lugares], de 1948 —, erigido como é sobre as bases convencionais do gótico moderno do Sul, termina como uma estrutura inquestionavelmente original que, mesmo agora, é uma afirmação poderosa da dor da solidão inicial de Capote e do seu desnorteamento em face dos mistérios sexuais e familiares que tinham começado a violar a confiança dele e acabariam contribuindo muito para seu colapso final numa vergonha agoniada, mesmo em meio a tanto sucesso posterior, artístico, social e financeiro. Os mesmos dilemas aparecem em parte em contos como “O falcão sem cabeça”, “Fechar a última porta” e “Uma árvore da noite”. Mas, dado que a homossexualidade era então uma realidade cotidiana problemática para Capote e que as revistas americanas ainda eram avessas a publicar retratos sinceros do problema, talvez possamos compreender agora por que falta a essas primeiras histórias um centro emocional claro. Tivesse ele escrito contos tão sinceros em suas visões da homossexualidade quanto seu primeiro romance conseguiu ser, eles quase certamente não teriam sido publicados, por certo não nas revistas femininas amplamente lidas que eram os centros de boa parte da melhor ficção em forma de conto da época. Foi em seu segundo romance — The grass harp [A harpa de ervas], de 1951 — que ele descobriu um meio maduro de empregar áreas importantes de seu passado para dar força a uma ficção que soaria com verdade pessoal convincente. Essas áreas estavam centradas não na sexualidade, mas na dedicação profundamente encorajadora que ele recebia de uma determinada prima na infância e de lugares que ele e essa amiga freqüentavam em suas brincadeiras e preces. A prima era a srta. Sook Faulk, uma mulher de preocupações tão leves e de tão poucos afetos que muitos a julgavam simplória, embora ela fosse apenas (e admiravelmente) simples; e, nos anos emque ela e o jovem Truman viveram na mesma casa, ela lhe deu o enorme presente de um amor digno — um presente que ele não recebera de nenhum parente mais próximo. Entre essas narrativas, essa profundidade de sentimento e sua externação magistral na prosa memoravelmente clara que marcaria o restante da obra de Capote são visíveis acima de tudo em sua famosa história “Memória de Natal”, na menos conhecida “O convidado do Dia de Ação de Graças” e em “Um Natal”, e este último talvez seja um pouco doce para gostos contemporâneos, mas, sendo tão verdadeiro, é quase igualmente comovente em suas revelações de mais uma ferida inicial — esta ministrada por um pai irresponsável e distante. É provável que mais americanos conheçam “Memória de Natal” por meio de um excelente filme para televisão, com um desempenho extraordinário de Geraldine Page; mas quem ler o conto terá encontrado um fato mais raro do que qualquer desempenho na tela. Pela simples clareza de sua prosa e por uma brilhante economia de ritmo narrativo permanente, Capote limpa de toda possível sentimentalidade um pequeno rol de personagens, ações e emoções que poderiam ter se tornado abominavelmente doces em mãos menos observadoras e habilidosas. Só é possível pensar em Tchékhov como suficientemente talentoso no tratamento de assunto semelhante. Mas, uma vez de posse das habilidades para expressar a amplitude de emoções que desejava, Capote não se limitava a contar lembranças de infância, mais ou menos reais ou inteiramente inventadas. Como muitos escritores de ficção, com o passar do tempo ele escreveu cada vez menos contos — a vida freqüentemente se torna mais intrincada do que aquilo que as formas breves podemconter com facilidade. Mas uma história, “Mojave”, de 1975, encarna de modo brilhante e terrível os insights adquiridos por Capote nos primeiros anos que passou entre os ricos. Se ele tivesse vivido para escrever mais desses rápidos vislumbres angulados do mundo odioso dos ricos, nunca teria nos deixado com a sensação de incompletude provocada pelos rumores de um romance longo. E, se as décadas que ele passou longe da fonte sulista de sua melhor ficção — curta e longa — não o tivessem desinteressado ou tornado incapaz de escrever mais sobre aquele mundo primal, teríamos igualmente mais motivos para ser gratos por sua obra. Na verdade, no entanto, se pusermos a ficção de Capote no topo da pilha que inclui A sangue frio e um punhado vigoroso de ensaios de não-ficção, teremos reunido um corpo variado de obras que só é igualado por poucos de seus contemporâneos nos Estados Unidos da segunda metade do século xx. Esse homem, que personificou um palhaço exótico nos primeiros e mais reservados anos de sua carreira e depois — pressionado pelo pesado fardo de seu passado — se tornou o palhaço público demente de seu fim, deixou, não obstante, obras de primeira classe suficientes para situá-lo agora —poucas décadas após sua morte — muito mais alto do que seu corpo pequeno e desdenhado jamais pressagiou. Em 1966, quando começou a anunciar que estava trabalhando num romance longo — e a receber por ele enormes adiantamentos do editor —, disse que intitularia o livro Answered prayers.

E afirmou que answered prayers [súplicas atendidas] era uma expressão que encontrara entre os ditos de santa Teresa de Ávila — “Mais lágrimas foram derramadas por súplicas atendidas do que por súplicas sem resposta”. Há poucos sinais de que as preces a Deus ou a algum santo intercessor — digamos, um místico espanhol com apoplexia ou a prima Sook de Capote — tenham sido uma preocupação regular da vida de Truman Capote, mas sua busca de vida inteira por ampla atenção e riqueza foi espantosamente bem-sucedida. Antes de completar quarenta anos, ele alcançara os dois objetivos, em profusão torrencial e completo sofrimento. Em sua ruína final, esta esguia coletânea de contos pode ter parecido a Capote a menor de suas realizações; mas, na arena da expressão dos sentimentos humanos, eles representam sua vitória mais impressionante. Do tormento de uma vida a ele imposta, primeiro, por um pai perversamente negligente e uma mãe que nunca devia ter dado à luz e, depois, por sua própria recusa a subjugar seus desejos ardentes, ele não obstante conquistou no campo de batalha da prosa inglesa estas histórias, que, nos seus melhores casos, deviam permanecer por longos anos vindouros como preces calmas duradouras e bênçãos consumadas — livres para que qualquer leitor use. Tradução de Otacílio Nunes Jr. 20 contos de truman capote As paredes são frias “… então Grant disse a eles para virem conosco a uma festa maravilhosa, e, bom, foi fácil assim. Realmente, eu acho que foi genial trazê-los, Deus sabe que eles são capazes de nos ressuscitar do túmulo.” A garota que falava bateu a cinza do cigarro no tapete persa e olhou com cara de desculpa para sua anfitriã. A anfitriã arrumou o elegante vestido preto e apertou os lábios, nervosa. Era muito jovem e pequena e perfeita. Seu rosto era claro e emoldurado pelo cabelo preto liso, e o batom era umpouquinho escuro demais. Passava das duas, e ela estava cansada e queria que todos fossem embora, mas não era tarefa fácil se livrar de umas trinta pessoas, particularmente quando a maioria estava encharcada do scotch de seu pai. O ascensorista tinha subido duas vezes para reclamar do barulho; então ela lhe dera um highball, que de qualquer modo é só o que ele quer. E agora os marinheiros… ah, eles que se danem. “Está tudo bem, Mildred, de verdade. Que são alguns marinheiros a mais ou a menos? Deus, espero que eles não quebrem nada. Você pode ir à cozinha pegar gelo, por favor? Vou ver o que posso fazer com seus novos amigos.” “Realmente, querida, não acho que isso seja necessário. Pelo que vi, eles se aclimatam com muita facilidade.” A anfitriã caminhou na direção de seus convidados inesperados. Eles estavam apinhados num canto da sala de estar, apenas olhando e não parecendo muito à vontade. O mais bem-apessoado do grupo de seis virou nervosamente o boné e disse: “Nós não sabíamos que era uma festa como esta, senhorita. Quer dizer, a senhorita não nos quer aqui, não é?”. “É claro que vocês são bem-vindos.

O que estariam fazendo aqui se eu não os quisesse?” O marinheiro estava constrangido. “Aquela garota, aquela Mildred e o amigo dela nos pegaram num bar, e nós não tínhamos idéia de que vínhamos para uma casa como esta.” “Que absurdo, totalmente absurdo”, disse a anfitriã. “Você é do Sul, não é?” Ele pôs o boné debaixo do braço e pareceu mais à vontade. “Sou do Mississippi. Imagino que nunca esteve lá, esteve, senhorita?” Ela olhou para a janela e passou a língua nos lábios. Estava cansada, terrivelmente cansada daquilo. “Ah, sim”, mentiu. “Um belo estado.” Ele deu um sorriso forçado. “A senhorita deve estar confundindo com algum outro lugar. Não há nada que chame a atenção no Mississippi, a não ser talvez na região de Natchez.” “Natchez, claro. Eu estudei com uma garota de Natchez. Elizabeth Kimberly, conhece?” “Não, não posso dizer que conheço.” De repente, ela percebeu que estava sozinha com o marinheiro; todos os amigos dele tinham ido para perto do piano, onde Les tocava Porter. Mildred estava certa sobre a aclimatação. “Venha”, disse ela. “Vou preparar um drinque para você. Eles podem se virar sozinhos. Meu nome é Louise, então, por favor, não me chame de senhorita.” “O nome de minha irmã é Louise, eu me chamo Jake.” “É mesmo? Que coisa adorável! Eu falo da coincidência.” Ela alisou o cabelo e sorriu com seus lábios escuros demais. Entraram no vestíbulo, e ela sabia que o marinheiro observava o modo como seu vestido balançava em volta dos quadris.

Abaixou-se para passar pela porta atrás do bar. “Bem”, disse, “o que vai ser? Eu esqueci, temos scotch e uísque de centeio e rum; que tal um belo rum com Coca?” “Se você acha bom”, ele sorriu, passando a mão sobre a superfície espelhada do bar, “sabe, eu nunca vi um lugar como este. Parece coisa de cinema.” Com um bastão misturador ela girou vigorosamente o gelo num copo. “Se você quiser, eu o levo para um passeio de quatro centavos. É muito grande, quer dizer, para um apartamento. Temos uma casa de campo que é muito, muito maior.” Isso não pareceu certo. Era muito arrogante. Ela se virou e pôs a garrafa de rum de volta no nicho. Podia ver pelo espelho que ele olhava fixamente para ela, talvez através dela. “Quantos anos você tem?”, ele perguntou. Ela precisou pensar por um minuto, realmente pensar. Mentia com tanta freqüência sobre a idade que às vezes ela mesma esquecia a verdade. Que diferença fazia ele saber ou não sua verdadeira idade? Então ela lhe contou. “Dezesseis.” “E nunca foi beijada…?” Ela riu, não do clichê, da resposta que deu. “Estuprada, você quer dizer.” Estava de frente para ele, e viu que ele ficou chocado e depois alegre e depois alguma outra coisa. “Ah, pelo amor de Deus, não me olhe assim, eu não sou uma menina má.” Ele corou, e ela passou pela porta, voltando, e pegou a mão dele. “Venha, vou lhe mostrar o apartamento.” Conduziu-o por um longo corredor revestido descontinuamente de espelhos, e mostrou a ele aposento por aposento. Ele admirava os tapetes macios em tom pastel e a mistura harmoniosa de móveis modernistas com móveis de época. “Este é o meu quarto”, ela disse, segurando a porta aberta para ele, “não repare na bagunça, não é toda minha, a maioria das garotas se arrumou aqui.

” Não havia nada para ele reparar, o quarto estava em perfeita ordem. A cama, as mesas, o abajur eram todos brancos, mas as paredes e o tapete eram de um frio verde-escuro. “Bem, Jake… o que acha, combina comigo?” “Eu nunca vi nada assim, minha irmã nem acreditaria se eu contasse a ela… mas eu não gosto das paredes, me desculpe falar assim… esse verde… elas parecem muito frias.” Ela pareceu desnorteada, e, sem saber bem por quê, estendeu a mão e tocou a parede atrás da penteadeira. “Você tem razão, as paredes, quero dizer, elas são frias.” Olhou para ele, e por um momento seu rosto assumiu uma expressão tal que ele não soube ao certo se ela ia rir ou chorar. “Eu não falei nesse sentido. Ah, eu não sei exatamente o que quis dizer!” “Não sabe ou está só sendo eufemístico?” Não houve resposta, então ela sentou na beira de sua cama branca. “Aqui”, disse, “sente-se e fume um cigarro, o que aconteceu com seu drinque?” Ele sentou ao lado dela. “Eu deixei no bar. Parece bem calmo aqui depois de toda aquela algazarra lá na frente.” “Há quanto tempo está na Marinha?” “Oito meses.” “Você gosta?” “Não importa muito se a gente gosta ou não… Eu vi muitos lugares que não teria visto se não estivesse lá.” “Então por que se alistou?” “Ah, eu ia ser convocado, e a Marinha me pareceu mais conveniente.” “E é?” “Bom, vou dizer uma coisa para você, eu não me dou bem com esse tipo de vida, não gosto de outros homens mandando em mim. Você gostaria?” Em vez de responder, ela pôs um cigarro na boca. Ele segurou o fósforo para ela, e ela deixou a mão roçar na dele. A mão dele tremia, e a chama não estava muito firme. Ela tragou e disse: “Você quer me beijar, não quer?”. Olhou atentamente para ele e viu o rubor se espalhar lentamente por seu rosto. “Por que não quer?” “Você não é esse tipo de garota. Eu teria medo de beijar uma garota como você, além disso você só está caçoando de mim.” Ela riu e soprou uma nuvem de fumaça em direção ao teto. “Pare, isso parece coisa tirada de ummelodrama do tempo da iluminação a gás. Aliás, o que é ‘esse tipo de garota’? Só uma idéia.

Você me beijar ou não não tem a mínima importância. Eu poderia explicar, mas para que me preocupar? Você provavelmente acabaria achando que eu sou ninfomaníaca.” “Eu nem sei o que é isso.” “Diabos, é justo isso que quero dizer. Você é um homem, um homem de verdade, e eu estou tão cansada desses rapazes fracotes e afeminados como o Les. Eu só queria saber como seria, é isso.” Ele se inclinou sobre ela. “Você é uma garota engraçada”, disse, e ela estava nos seus braços. Beijou-a, deslizou a mão pelo ombro dela e pressionou seu seio. Ela se virou e o empurrou com violência, e ele se estatelou no tapete verde e frio. Ela se levantou e ficou parada diante dele, e eles se encararam. “Seu sujo”, ela disse. Depois deu um tapa no rosto perplexo dele. Ela abriu a porta, hesitou, arrumou o vestido e voltou para a festa. Ele ficou sentado no chão por um momento, depois se levantou e foi para o vestíbulo, e então lembrou que tinha deixado o boné no quarto branco, mas não se importou, só queria sair dali. A anfitriã olhou para a sala de estar e acenou para que Mildred viesse. “Pelo amor de Deus, Mildred, tire essas pessoas daqui; aqueles marinheiros, o que eles pensamque é aqui… a uso?” 1 “Que houve, aquele sujeito a estava importunando?” “Não, não, ele é só um idiota provinciano que nunca viu nada como isto e acabou se achando o máximo, de um jeito desrespeitoso. É só um grande aborrecimento, e eu estou com dor de cabeça. Você pode mandá-los embora por mim, por favor… todos?” Ela assentiu com a cabeça, e a anfitriã voltou pelo corredor e entrou no quarto da mãe. Deitou na chaise longue de veludo e olhou para a pintura abstrata de Picasso. Pegou um travesseirinho rendado e o pressionou contra o rosto com toda a força. Ia dormir ali naquela noite, ali onde as paredes eramde um tom claro de rosa e quentes

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