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20 Regras de Ouro Para Educar Filhos e Alunos – Augusto Cury

O deserto emocional da construção da personalidade está cheio de pais e professores bemintencionados. Eles sonham em formar mentes livres, mas não poucas vezes, sem que percebam, traumatizam filhos e alunos, formando mentes encarceradas; desejam que sejam líderes, mas usamtécnicas erradas que asfixiam a segurança, a ousadia e a resiliência, formando jovens frágeis, conformistas e servos de seus próprios conflitos; almejam que sejam capazes de debater ideias, mas é frequente formar adolescentes tímidos e assombrados pelo medo do que os outros pensam e falamde si. Não basta ser bons educadores, têm de ser educadores brilhantes e eficientes. Ter como meta gerar filhos que sejam generosos e inteligentes é fundamental, mas na práxis educacional é muito mais fácil formar jovens ansiosos, egocêntricos e espectadores passivos. Que tipo de criança e adolescente você está contribuindo para formar? Educar é uma tarefa de extrema complexidade, que pode ser mais difícil do que dirigir uma empresa com milhares de funcionários ou uma nação com milhões de pessoas. Para termos uma ideia dessa complexidade, pense o próprio pensamento: ele tem natureza real ou é virtual? Quando você corrige seu filho ou aluno, você o entende a partir dele mesmo ou a partir de si mesmo? Quando umpsiquiatra atende a um paciente que tem ataques de pânico, ele assimila a dor e o desespero do paciente ou entre ele e o paciente existe um espaço infinito, pois o entende virtualmente? Estudar a natureza, os tipos, o processo de construção e o gerenciamento dos pensamentos é estudar a última fronteira da ciência. As regras de ouro deste livro são baseadas nessa sofisticada área. Aprenderemos que o pensamento consciente é de natureza virtual e, portanto, não consegue mudar o real, as matrizes da memória dos filhos e alunos que geram a expressividade das características de personalidade, como impulsividade, teimosia, alienação, e nem mesmo muda o estado emocional concreto do indivíduo, como fobia, angústia, humor depressivo. Por isso, estudaremos que uma das regras de ouro para formar mentes brilhantes é: ninguém muda ninguém; temos o poder de piorar os outros e não de mudá-los. E os pioramos com frequência ao levantar o tom de voz, criticar em excesso, comparar, pressionar. Não mudamos ninguém, mas podemos usar ferramentas de ouro para que eles mesmos se reciclem, reescrevam sua história e dirijam seu próprio script. Sem usar técnicas inteligentes, os resultados na formação da personalidade podem ser desastrosos! Produziremos janelas Killer ou traumáticas em abundância nas crianças e nos jovens. Pais e professores, por favor, reflitam sobre este tema: se somos incapazes de mudar a essência dos outros, o que é educar, afinal? Educar não é modificar a mente dos educandos, mas levá-los a pensar antes de agir; não é adestrar o cérebro deles, mas levá-los a desenvolver consciência crítica; não é cobrar demais, mas conduzi-los a ter autonomia; não é superproteger, mas estimulá-los a trabalhar perdas e frustrações; não é dar broncas ou punir, mas levá-los a ter autocontrole e colocar-se no lugar dos outros. O educador é um piloto da aeronave mental capaz de conduzir a si mesmo e aos filhos e alunos em suas mais importantes viagens. Quais? Para dentro deles mesmos, para o centro da mente humana. Bem-vindos às técnicas de ouro para pilotar a mente humana! Mas saiba: não há pilotos perfeitos. Respeitando a cultura em que o indivíduo está inserido, as metas fundamentais da educação de qualquer povo deveriam ser: promover a capacidade de gestão da emoção dos jovens para que sejamminimamente autores de sua própria história, pacientes, proativos, ousados, estáveis, autônomos, altruístas, seguros, carismáticos, empáticos, capazes de aplaudir a vida e não reclamar de tudo e de todos. Mas onde se encontram jovens com esse tipo de personalidade capaz de liderar a sociedade e resolver os desafios da vida? Essas metas previnem transtornos emocionais, homicídios, suicídios, guerras, corrupção, discriminação, violências contra crianças, mulheres e minorias, a pacificação de conflitos e a preservação do meio ambiente. Se essas metas não forem alcançadas, a sociedade adoecerá e a humanidade se tornará inviável. Nesse caso, o privilégio da espécie humana de ter um cérebro e umintelecto superevoluídos, em comparação com mais de 10 milhões de espécies, ao invés de nos dar uma tremenda vantagem, nos torna meninos com uma bomba nas mãos. Há uma bomba em nosso cérebro que destrói a saúde emocional e social. Ela precisa ser desarmada. Por exemplo, se os pais e professores não souberem gerir sua emoção nos focos de tensão, como ensinarão seus filhos e alunos a geri-la? Quase impossível! Se pais e professores têm alto índice de GEEI (Gasto de Energia Emocional Inútil), ou seja, se sofrem pelo futuro, se ruminam mágoas, se cobram demais de si e dos outros, se compram estímulos estressantes que não produziram, como ofensas, e pagam caro, como ensinarão os jovens a preservar e otimizar sua energia emocional? Estudaremos que, se os educadores são consumidores irresponsáveis de energia do seu planeta mente, terão grande chance de levar quem amam a ter também altíssimo índice GEEI! O ser humano passa boa parte da vida dentro de uma escola, duas ou três décadas, da pré-escola à pós-graduação, mas sai como um péssimo piloto para controlar sua ansiedade, proteger suas emoções, usar lágrimas para irrigar a sabedoria e reciclar suas necessidades neuróticas, como a de ser o centro das atenções sociais e de estar sempre certo. Vá a qualquer escola, mesmo as com mensalidade mais caras, e pergunte para os alunos se eles são inquietos, acordam fatigados, se entediam com facilidade na rotina diária, são tolerantes às frustrações, têm paciência quando o celular não liga, sabem “domesticar” seus fantasmas mentais, como medos, timidez, baixa autoestima. Você irá as lágrimas! Investigue também se esses sintomas fazem parte do seu cardápio mental.


A situação é tão grave que, por exemplo, nos Estados Unidos e em outros países, há muitos diretores de escolas espantados com o comportamento agitado e egocêntrico dos alunos, recomendando que os pais procurem psiquiatras ou neurologistas para prescreverem drogas da obediência que abrandem quimicamente a ansiedade dos alunos. Acreditam que os alunos são portadores da hiperatividade ou do transtorno de déficit de atenção. Não entendem, como estudaremos já no primeiro capítulo, que frequentemente não são alunos hiperativos, embora tenhamsintomas parecidos, mas portadores da SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado) e com GEEI (Gasto de Energia Emocional Inútil). Erram o diagnóstico por não conhecerem os bastidores da mente humana. A irritabilidade e a inquietação da juventude atual são provocadas em grande parte pelo sistema social doentio e pelo rapidíssimo universo digital que construímos, e não pela carga genética. Violamos a mente de nossos filhos e alunos, levando-os a ter uma mente estressadíssima e com baixíssimo limiar para suportar frustrações, algo jamais visto na história da humanidade. E, para tentar aliviar o desastre emocional que causamos, prescrevemos drogas moderadoras da atividade cerebral. Erramos duplamente. Sou psiquiatra; medicamentos são importantes para casos específicos, mas não para este caso. Em minhas conferências para juízes, polícia federal, psicólogos, médicos, educadores, sempre comento fortemente que estamos assistindo a um trabalho escravo legalizado, crianças que têm excesso de atividades, têm tempo para tudo, mas não para ter infância, brincar, relaxar, elaborar experiências. Como formar mentes tranquilas, crianças que sejam líderes de sua própria mente? A tarefa é dificílima, mas vital! Essa sociedade urgente, consumista, saturada de informações, que pouco induz à interiorização, onde a oferta de estímulos calmos foi abandonada, alterou assustadoramente o ritmo de construção dos pensamentos. É comum vermos escolas, empresas, famílias, inclusive igrejas ou instituições religiosas doentes, onde a maioria é estressada e tem sintomas psicossomáticos. Nunca os pais estiveram tão ansiosos e os filhos, tão inquietos. Jamais os professores estiveram tão fatigados e os alunos, tão agitados. Sem aprender a gestão da mente humana, promover o autocontrole e trabalhar a educação socioemocional, será impossível resolver essa equação. Líderes e colaboradores também estão coletivamente com o cérebro esgotado. Espero que percebam que as técnicas deste livro para formar mentes livres e brilhantes não são focadas apenas em educação, mas podem ser úteis para todo o teatro social. A educação racionalista e exteriorizante desprotege o planeta emoção dos nossos filhos e alunos, os expõe a uma série de transtornos psíquicos. O que fazer? Não podemos ficar assistindo passivamente à personalidade deles e à nossa sendo asfixiada, fragmentada e encarcerada! Temos de ser protagonistas e não espectadores passivos. Devemos sair da plateia. Esta indrodução é um mapa dos capítulos que virão pela frente. Espero que os jovens, pais, professores não apenas do ensino básico, mas também da graduação e pós-graduação se encorajem a transformar o caos emoportunidade. Neste livro, apresentarei vinte regras ou ferramentas de ouro. A proposta desta obra não é produzir mais um livro de orientação educacional, mas ambiciona reciclar alguns fundamentos da educação mundial, pois ela é baseada no processo de construção dos pensamentos e do Eu como gestor da emoção, uma complexa área que pouco foi estudada pelos grandes pensadores, como Freud, Piaget, Vygotsky, Skinner, Fromm, Kant, Hegel, Marx, Sartre. Uma proposta ousada, sim, mas humilde também, pois todos somos eternos aprendizes, e, como tal, precisamos mapear nossas fragilidades e “loucuras”, caso contrário, nosso Eu será dominado pelos nossos fantasmas mentais durante toda a vida.

Se não mudarmos a essência da educação, se não aprendermos a pilotar a complexa aeronave mental e protegermos o delicado planeta emoção, as sociedades modernas se converterão num grande hospital psiquiátrico a céu aberto! Infelizmente, as estatísticas demonstram que já estamos vivendo num manicômio global…! CAPÍTULO 1 A educação está doente formando jovens doentes! Educadores bem-intencionados também causam desastres Notáveis educadores, por não terem estudado o processo de construção de pensamentos, não entenderam que, como abordei, jamais deveríamos ter alterado o ritmo dessa construção nas crianças e nos jovens. Você pode alterar a velocidade de qualquer coisa e ter ganhos de produtividade, das turbinas dos aviões aos processadores na computação, mas a mente humana precisa pensar calmamente, elaborar ideias tranquilamente, caso contrário, o raciocínio complexo e a saúde mental serão afetados seriamente. Uma das consequências da hiperconstrução de pensamentos é a simulação de sintomas tais quais as pessoas hiperativas apresentam, como déficit de concentração, inquietação, conversas paralelas, teimosia, dificuldade de se colocar no lugar dos outros e de elaborar experiências de dor, perdas e frustrações. É provável que entre 1% e 2% dos jovens hiperativos tenham um viés genético, enfim, pais agitados. Mas por que, então, entre 70% e 80% estão apresentando os mesmos sintomas? São vítimas de um vírus contagiante como nos filmes hollywoodianos? Não! São vítimas do nosso sistema social contagiante, que produziu coletivamente a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Violamos algo que deveria ser inviolável, a caixa preta do funcionamento da mente da juventude mundial! Essa sociedade insana e frenética tornou-se algoz da mente de nossos filhos e alunos. As crianças têm tempo para mil atividades, menos para ter infância. Tenho falado para plateias de magistrados que todos somos contra o trabalho escravo, mas criamos um “trabalho escravo infantil legalizado”. A mente das crianças está intoxicada com excesso de estímulos, inclusive, das mídias digitais, formatando a construção de pensamentos e emoções num ritmo jamais visto na história. Cometemos o maior crime contra os filhos da humanidade sem peso na consciência. E ainda temos a coragem de aplaudir nossos filhos, dizendo que são gênios pois sabem mexer em aplicativos e programas de computador com incrível maestria. Mas os anos passam e a genialidade começa a desaparecer na pré-adolescência. A maioria dos jovens mostra sinais evidentes de que algo está errado. Começamos a detectar uma intensa insatisfação, impaciência, TR (Tédio à Rotina) altíssimo, necessidade de obter tudo rapidamente e dificuldade de pensar nas consequências dos seus comportamentos. Os pais deixam de aplaudir seus filhos e passam a criticálos. O gênio decresce à medida que expande o baixo limiar para suportar frustrações. Hoje, é simplesmente impossível exigir silêncio pleno dos nossos filhos e alunos. Não devemos sufocar a energia mental deles, domar seus cérebros quimicamente, a não ser em casos onde a ansiedade é altíssima e vem acompanhada de sintomas psicossomáticos. Usar a energia deles criativamente é uma das grandes ferramentas que este livro propõe. Levá-los a serem jardineiros emocionais, artistas plásticos mentais, ecologistas sociais, inventores imaginativos, devem ser nossas metas. Por favor, não critiquem nem excluam seus filhos e alunos inquietos, agitados e irritadiços. Educadores brilhantes apostam tudo o que têm nos que pouco têm. Se usarmos as regras de ouro deste livro, é provável que as crianças que nos dão dores de cabeça atualmente nos darão mais alegrias amanhã. Mas, infelizmente, nossas empresas, escolas, famílias, estão doentes formando pessoas doentes para um sistema doente. Não dá para culpar os pais e professores por esse fenômeno, pois todos nós somos construtores e, ao mesmo tempo, vítimas desse sistema alucinante, onde somos vistos mais como um número de cartão de crédito do que como um ser humano completo e complexo.

Todavia, se temos de eleger um grande culpado pela perda da essência humana, pelo caos no processo educacional mundial, por esse caldeirão de ansiedade, pelo adoecimento emocional coletivo de jovens e adultos, eu o aponto: O RACIONALISMO OU CARTESIANISMO. Vejamos. O racionalismo: suas vantagens e seus defeitos educacionais O francês René Descartes foi um dos maiores pensadores da história, um dos fundadores da filosofia moderna, o grande promotor do racionalismo. O racionalismo é uma corrente de pensamento que supervaloriza a lógica e o raciocínio matemático como modelo de pesquisa e interpretação dos dados. Ele se tornou os trilhos para a produção científica, levando-nos a saltos tecnológicos semprecedentes na engenharia, física, comunicação, biologia e computação. O racionalismo, ou cartesianismo, foi fundamental para o progresso material, mas foi desastroso para o progresso emocional! Ele exerceu não apenas uma influência importantíssima nas ciências lógicas, mas também uma influência perniciosa nas ciências humanas, em destaque a psicologia, a psicopedagogia, a sociologia e as ciências jurídicas. Obviamente, o racionalismo também teve aspectos positivos inegáveis nas ciências humanas. Analisar um objeto de estudo (por exemplo, um medicamento antidepressivo, como ele se comporta no cérebro, fazer estudos usando placebos e medicamentos ativos etc.), gerou um controle de processos fundamental para a evolução das ciências. Mas vamos ver alguns aspectos destrutivos. Muitas empresas são racionalistas ou cartesianas, fazem inúmeros testes para selecionar profissionais pelo desempenho técnico e lógico, pela formação acadêmica e pelos treinamentos. Todavia, 80% desses profissionais são despedidos por deficiências emocionais! Não sabem lidar com perdas e frustrações, usam seu cargo para controlar os seus colaboradores e não para libertar sua mente e criatividade, têm a necessidade neurótica de ser o centro das atenções. Muitas escolas, professores e pais são cartesianos, racionalistas, inclusive nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e na China. Eles aplaudem seus filhos e alunos por seu desempenho lógico, exaltam os mais bem-comportados e aqueles que apresentam os melhores desempenhos nas notas escolares, sem saber que mesmos esses podem estar sendo assombrados por fantasmas mentais, como a timidez, a autopunição, o sofrimento por antecipação e o medo da crítica. As escolas cartesianas consideram os alunos como um número na classe, enquanto as escolas gestoras da emoção os consideram joias únicas no teatro da existência. As escolas cartesianas são especialistas em exaltar as falhas, enquanto as escolas gestoras da emoção são mestras em aplaudir os acertos. As escolas cartesianas corrigem seus alunos em público, enquanto as escolas gestoras da emoção treinam seus professores para que elogiem em público e corrijam em particular. As escolas cartesianas viciam os cérebros dos alunos com o pensamento lógico-linear – que, por sua vez, gera o fenômeno estímulo-resposta ou bateu-levou –, enquanto as escolas gestoras da emoção irrigam o pensamento imaginário para que seus alunos pensem antes de agir. As escolas cartesianas são preocupadas com as notas escolares, enquanto as escolas gestoras da emoção valorizam as provas escolares, mas também as provas da vida, por isso promovem a empatia, a ousadia, a resiliência, o altruísmo, o empreendedorismo e, é claro, a gestão da emoção. PRIMEIRA REGRA DE OURO PAIS E PROFESSORES RACIONALISTAS X EDUCADORES GESTORES DA EMOÇÃO Que tipo de educador você é? Cartesiano ou gestor da emoção? Permita-me defini-los, embora haja muitas exceções. O professor cartesiano esgota seu cérebro com facilidade, enquanto o educador gestor da emoção protege sua mente e renova suas forças; o professor cartesiano vive desanimado diante de uma plateia desconcentrada, enquanto o educador gestor da emoção usa estratégias para cativar seus alunos e refinar seu apetite intelectual; o professor cartesiano se perturba com a irritabilidade e ansiedade dos alunos, enquanto o educador gestor da emoção filtra estímulos traumáticos e não compra o que não lhe pertence; o professor cartesiano culpa os alunos por serem alienados e impulsivos, enquanto o educador gestor da emoção sabe que o sistema os adoeceu, por isso não desiste de nenhum deles, principalmente daqueles que o decepcionam; o professor cartesiano ensina a matéria e, desanimado, não vê a hora de se aposentar, enquanto o educador gestor da emoção não vê a hora de encenar mais uma peça do conhecimento no teatro da sala de aula, pois não ensina apenas, ensina a pensar. Os pais cartesianos são manuais de regras, enquanto os pais que são gestores da emoção são manuais de vida; os pais cartesianos são especialistas em criticar, enquanto os pais gestores da emoção são peritos em promover e elogiar as habilidades de seus filhos; os pais cartesianos dão muitos presentes, enquanto os pais gestores da emoção dão o que o dinheiro não pode comprar; os pais cartesianos são impacientes e mal-humorados, enquanto os pais gestores da emoção são tolerantes e bem-humorados, capazes de dar risadas de alguns dos seus erros e dos erros dos seus filhos; os pais cartesianos não sabem falar a linguagem do coração, enquanto os pais gestores da emoção são capazes de dizer “eu te amo”, “obrigado por você existir”, “me desculpe”; os pais cartesianos não revelam suas lágrimas, enquanto os pais gestores da emoção falam de suas lágrimas para que seus filhos aprendam a chorar as suas próprias. Educação cartesiana vê os alunos como máquinas de aprender Pais calmos também têm suas crises de ansiedade e professores generosos têm seus golpes de egoísmo! Ninguém é 100% lógico ou racionalista, a não ser que esteja morto, mas nesta sociedade cartesiana, embriagada pela estatística, insistimos em sê-lo, temos a necessidade neurótica de sermos perfeitos. Por isso, é incomum reconhecermos nossas loucuras, pedirmos desculpas ou declararmos nossos sentimentos. Raramente perguntamos para nossos filhos, “Quais pesadelos o controlam?”, “Onde eu errei com você e não notei?”.

É raro professores indagarem para seus alunos inquietos quais angústias eles têm, ou que perdas já sofreram. Veja até que ponto vai a insanidade do racionalismo no sistema educacional. Certa vez, o presidente de um grande conglomerado educacional, com mais de 20 mil alunos dos ensinos fundamental e médio, teve a coragem de me dizer que um de seus alunos estava ferido, com edema nos olhos e manchas no rosto. Observando-o, uma professora perguntou diante da classe qual era a razão do ferimento. O aluno, angustiado, disse que era porque seu pai o havia espancado. O resultado? O presidente desse grupo educacional, que faturava centenas de milhões, despediu a professora, obviamente sem lhe dizer o motivo. Mas o real motivo era que a escola não queria ter problemas com os pais do aluno. Esse líder comentou que os alunos estão nas suas escolas para aprender e a professora não devia entrar na seara emocional. Era um grupo de escolas doente, frio, racionalista. Chocado, lhe falei sobre a importância da educação socioemocional. O presidente disse que eu era um escritor que ele admirava muito. Mas eu não queria ser admirado por esse homem, que via seus alunos como máquinas de aprender, queria que ele admirasse e respeitasse seus alunos como seres humanos complexos. Muitas escolas estão doentes, formando alunos doentes. Elas não os ensinam minimamente a gerir suas emoções e desenvolver habilidades para serem autores das suas próprias histórias. O racionalismo no máximo levou os alunos a aprenderem alguns valores, o que é completamente insuficiente para sobreviverem, serem livres e saudáveis nesta sociedade estressante. O cartesianismo enxergou o Homo sapiens como um ser classicamente pensante, racional, lógico, mas não entendeu que ele é dramaticamente emotivo, afetivo, sensível, inspirador, sonhador e sujeito a muitas armadilhas mentais. O nome de nossa espécie, Homo sapiens, homem-pensante, está drasticamente desequilibrado. Ela deveria ser chamada de Homo sapiens-emovere. O homem não é apenas previsível, mas tambémimprevisível, não é apenas lógico, mas também amante, sonhador, fora da curva. Um computador será sempre escravo de estímulos programados, e o ser humano jamais o será, até porque a criatividade nasce do caos, da dúvida, da insegurança, do estresse saudável, que chamo de ansiedade vital. A inteligência artificial poderá simular todos os comportamentos humanos, mas jamais terá o território da emoção. Pense na seguinte história. Era o ano de 2100 d.C. A humanidade ainda não havia se autodestruído, os computadores haviam evoluído ao máximo.

Os robôs eram parecidíssimos com seres humanos. O presidente dos Estados Unidos convidou jornalistas do mundo inteiro para visitar uma fábrica de robôs ultramodernos. Ele exaltava as máquinas dizendo que os robôs humanoides eram melhores que os seres humanos: só trabalhavam, não reclamavam e duravam muito mais tempo. Na solenidade, muitas perguntas foram feitas pelos jornalistas para um robô e ele respondeu a todas com eximia inteligência. Todos o aplaudiram entusiasmados. Mas antes de irem embora, o único menino presente, que tinha 8 anos e era filho do próprio presidente, levantou a mão. “Posso fazer uma pergunta?”. “Claro, meu filho”, disse o presidente. “Mas não sei se ele vai ter resposta”. O pai respondeu “É impossível, meu filho, vá adiante”. Então, dirigindo-se ao robô, o menino perguntou “Meu pai trabalha muito. Quando fica muitos dias longe de mim, sinto tristeza e vontade de chorar. Você já sentiu solidão?”. O robô entrou em pane. Ainda que nossa espécie não se autodestrua, viva por milhares de anos, e os computadores possam evoluir, eles jamais sentirão o sabor da dúvida, o paladar da solidão, os flashes do ciúme, o gosto da ansiedade, os encantos do amor, o prazer da tranquilidade. Os computadores, assim como os seres humanos, fazem exercícios matemáticos, mas jamais construirão monstros em sua mente, nunca sentirão fobias, enquanto os seres humanos serão assombrados pela nictofobia (medo do escuro), claustrofobia (medo de lugares fechados), fobia social (medo de se expressar em público), futurofobia (medo do futuro), acrofobia (medo de altura) e muitas outras. Se perguntarmos para todos os computadores, incluindo o supercomputador Watson da IBM, se eles querem ser ricos ou felizes, eles travarão, não entenderão a pergunta. Mas pergunte aos seres humanos, e a grande maioria dirá: prefiro ser feliz. Mas mesmo os que querem ser felizes traem seu sono por um pouco mais de trabalho, traem o tempo com sua família por usar os celulares nos finais de semana, traem a sua qualidade de vida por se colocarem em lugares indignos de sua agenda. Os computadores jamais se trairão, pois não têm emoções! Bons educadores podem ser tanto excessivamente racionais quanto intensamente emocionais, mas educadores brilhantes são equilibrados, respiram e caminham nos dois planetas. Quem não tem a razão e a emoção trabalhadas com maturidade viverá esses paradoxos doentios: a emoção inspira as poesias, mas a razão fomenta atritos e agressividades; a emoção aplaude os que acertam, mas a razão elimina os que erram; a emoção exalta os amigos, mas a razão exclui os diferentes. Portanto, se o Eu, que representa a capacidade de escolha, não for inteligente e generoso para gerir o planeta emoção junto com a razão, seremos seres humanos doentes! A pergunta que não pode calar é: em que escola ou universidade se estuda e se ensina a gestão da emoção para que seus alunos aprendam a protegê-la, a filtrar estímulos estressantes, a preservar e expandir os recursos de suas mentes? Harvard? Cambridge? Oxford? Infelizmente, estamos na Idade da Pedra nessa nobre área das ciências humanas! Pergunto frequentemente em minhas conferências na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos: quem sofre por antecipação? A grande maioria. Quem é refém do passado, rumina perdas, mágoas ou frustrações? Muitos. E quem cobra demais de si mesmo? Novamente, muitos. Aprendemos a conduzir empresas, a pilotar carros e a operar computadores, mas não aprendemos a dirigir nossas mentes.

Sem “gestão da emoção” nossa espécie é inviável Há escolas de ensino médio que encorajam ou “contratam” os melhores alunos do país para que eles venham estudar nelas. Eles amam os alunos que têm as melhores notas, mas desprezam alunos medianos ou que estão nos últimos lugares, sem saber que lá se encontram muitos “Einsteins”. Esses alunos se matam de estudar, são os melhores da classe, da cidade, mas quando entram numa notável faculdade, esquecem que todos que entraram lá estão no nível deles. O resultado é que muitos não mais atingem o topo, por isso, se mutilam, se deprimem, pensam em desistir da vida. Quantos alunos não desenvolvem gravíssimas crises emocionais no Japão, na China, nos Estados Unidos, no Brasil, por não serem os melhores da classe? Alguns se matam, sem saber que é possível ser o número dois, três, dez, com dignidade. Sem saber ainda que nem sempre os melhores da classe serão os maiores profissionais, empreendedores, cientistas. Porque suas escolas estão doentes, não ensinam técnicas básicas de gestão da emoção, e eles se cobram e se culpam emdemasia, são carrascos de si mesmos Essas escolas sonham com a notoriedade de seus alunos, sem se preocupar intensamente emcomo está a saúde emocional deles. Sem dúvida, o ranking de escolas pode ser positivo. Deve se estimular o aprendizado, a ousadia e o desafio. Mas jamais devemos deixar de contemplar as habilidades socioemocionais como altruísmo, generosidade, empatia. Nada é mais agradável do que estar em paz no território da emoção! Nada é mais prazeroso do que ser autônomo, livre, protagonista, passar nos testes de estresse da vida! Por isso, todas as escolas deveriam ser escolas de gestão da emoção, escolas da inteligência socioemocional, escolas onde os alunos têm como meta fundamental desenvolver um Eu que seja autor de sua própria história. A mente das crianças e dos jovens mudou, mas as escolas estão na Idade da Pedra, atrasadas cinco séculos. Os pais e professores assistem perplexos ao desenvolvimento mental notável dos filhos, mas, ao mesmo tempo, eles parecem incontroláveis. Nunca os jovens tiveram um raciocínio tão rápido e, ao mesmo tempo, jamais tiveram emoções tão frágeis e desprotegidas! Essa é uma das causas que têm nos levado a infeliz estatística: aumentamos em 40% o índice de suicídio entre os jovens. Deveríamos chorar com esses números. Durante mais de três décadas, arrisquei-me na empreitada complexa de produzir conhecimento numa área em que poucos pensadores tiveram a oportunidade de entrar. Precisamos conhecer o que está ocorrendo no centro da psique dos jovens, precisamos sair das camadas superficiais da psicologia, da sociologia e da psicopedagogia para avançar na última fronteira da ciência, o mundo dos pensamentos, o epicentro de formação do Eu, os papéis conscientes e inconscientes da memória e a gestão da emoção. Você não vai ler aqui um livro de autoajuda, como nenhum dos meus livros o são. Eles podem até ajudá-lo e motivá-lo, mas entraremos em camadas pouco visitadas de nossa psique. Vamos falar sobre as regras de ouro para formar pensadores, mentes livres e criativas. Não estou me referindo a inteligência emocional. Anos antes que o brilhante psicólogo Daniel Goleman escrevesse Inteligência emocional, eu já produzia conhecimento sobre gestão da emoção. Inteligência emocional é o solo. Muitos sabem que é importante edificar uma construção num solo adequado. Gestão da emoção, metaforicamente falando, trata dos fundamentos e dos alicerces dos mais variados tipos de edifícios, trata ainda da engenharia emocional para construir prédios, casas, pontes, usinas.

Não basta ter o solo e saber que a emoção é importante: é fundamental saber o que edificar e como edificar. Gestão da emoção, portanto, envolve questões vitais: como proteger a própria emoção? Como preservar seus recursos naturais e expandi-los? Como dar um choque de lucidez e qualificar os sentimentos? Como gerenciar a emoção nos focos de tensão? Qual a relação entre pensamentos e emoções? Por que emoções tensas são capazes de fechar o circuito da memória e levar o Homo sapiens a ser Homo bios, ou seja, a reagir como um animal? É possível que um executivo de Manhattan, em Nova York, tenha reações cerebrais, quando é contrariado, da mesma forma que um africano nas savanas diante de um predador? Construímos predadores em nossas mentes? É possível deletar a memória, como fazemos nos computadores, ou só podemos reeditá-la? A emoção é imutável ou pode envelhecer precocemente? É possível um jovem de 15 anos ter a mesma emoção de umidoso de 90, e vice-versa? Como ser autor de nossa própria história diante dos estresses da existência? Reitero: gestão da emoção vai muito além da inteligência emocional. E precisa ir, para nos dar um mapa mínimo para sermos saudáveis nessa sociedade ansiosa e doente. Todas essas questões não apenas envolvem a formação de mentes brilhantes, o desenvolvimento da saúde emocional, mas também lidam com a viabilidade da espécie humana. Somos uma espécie viável? Sem gerir a emoção, não. Nossa história é vergonhosamente manchada por guerras, homicídios, suicídios e discriminações, pelo autoritarismo, pela intolerância a contrariedades e por milhões de doenças emocionais que poderiam ser prevenidas… A emoção tornou-se terra de ninguém Uma das teses do racionalismo diz que tudo o que existe deve ser inteligível, racional, coerente. Mas eis um grande problema: a empatia, a generosidade, a tolerância a frustrações ultrapassam os limites da lógica. Sem esses elementos, promoveremos a exclusão social de quem nos decepciona! Por exemplo, o racionalismo espera que toda ação gere uma reação, um pensamento lógico. Todavia, uma pessoa racionalista se doará esperando a contrapartida e, portanto, chafurdará na lama das frustrações, pois os íntimos são os que mais nos decepcionam. Só existem almas gêmeas quando os dois estão num cemitério, um ao lado do outro. Ainda que os casais sejam muito parecidos nas preferências por alimentos, filmes, vinhos e viagens, que tenhamvisões de mundo semelhantes, o parceiro e a parceira vivem momentos diferentes com aberturas distintas de janelas da memória que produzem pensamentos e reações diversas a cada momento existencial. Se você se doar ao seu marido esperando que ele dê sempre o retorno com a mesma intensidade, é melhor procurar um psicólogo! Estamos na era dos mendigos emocionais. [1] A ONU detectou que há 800 milhões de pessoas famintas, ingerindo menos de 2 mil calorias diárias. Um desastre. Mas o que a ONU não pesquisou é que há bilhões de crianças e adultos emocionalmente famintos, vivendo miseravelmente, não poucos morando em palácios ou belos condomínios residenciais.

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