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21 Contos – Tripulação de esqueletos – Stephen King

O churrasco havia terminado. Tinha sido excelente; bebidas, a carne mal-passada, tostada na brasa, uma salada de verduras e o molho especial de Meg. Começara às cinco da tarde. Agora eram oito e meia, já quase crepúsculo — a hora em que reuniões movimentadas começam a gerar desordem. Contudo, ali não havia uma reunião movimentada. Os reunidos eram apenas cinco: o agente e sua esposa, o prestigiado jovem escritor e sua esposa, e o editor da revista, de sessenta e poucos anos, porém parecendo ser mais idoso. O editor dedicara-se a beber Fresca. Antes que ele chegasse, o agente havia contado ao jovem escritor que, uma vez, ali houvera um problema de bebida. O problema desaparecera, bem como a esposa do editor… motivo pelo qual eles eram cinco, em vez de seis. Ao invés de surgir qualquer desordem, caiu sobre eles um ânimo introspectivo, quando começou a escurecer no pátio dos fundos do jovem escritor, dando para o lago. O primeiro livro do jovem escritor tinha recebido uma crítica excelente e vendera uma boa quantidade de exemplares. Ele era um rapaz de sorte e, para seu crédito, estava a par disso. Com divertida morbidez, a conversa passara do precoce sucesso do jovem escritor para outros escritores também prematuramente bem sucedidos e que, então, se haviam suicidado. Falou-se em Ross Lockridge, depois em Tom Hagen. A esposa do agente mencionou Sylvia Plath e Anne Sexton. O jovem escritor disse que não achava Sylvia Plath qualificada como escritora vitoriosa. Ela não se suicidara por causa do sucesso, disse ele; ela obtivera sucesso por ter-se suicidado. O agente sorriu. — Por favor, não podíamos falar de outras coisas? — perguntou a esposa do jovem escritor, um pouco nervosamente. Ignorando-a, o agente disse: — Também há a loucura. Houve os que enlouqueceram devido ao sucesso. O agente falava nos tons brandos, mas gorgeados, de um ator nos bastidores. A esposa do escritor ia protestar novamente — ela sabia que o marido, além de gostar de falar sobre o assunto, também pilheriava a respeito, porque pensava demais naquilo quando o editor da revista começou a falar. E ele disse algo tão estranho, que ela esqueceu o protesto. — A loucura é um projétil flexível.


A esposa do agente olhou para ele, intrigada. O jovem escritor inclinou-se para diante, com ar inquisitivo. — Isso me soa familiar… — disse ele. — Sem dúvida — replicou o editor. — Esse termo, a imagem, “projétil flexível”, é de Marianne Moore. Ela a usou para descrever um ou outro tipo de carro. Eu sempre pensei que descrevia perfeitamente a condição da loucura. A loucura é uma espécie de suicídio mental. Hoje em dia, os médicos não afirmam que a única maneira de realmente medir-se a morte é através da morte da mente? Pois a loucura é uma espécie de projétil flexível para o cérebro. A esposa do jovem escritor procurou mudar de assunto. — Alguém quer outra bebida? Ninguém se manifestou. — Pois eu quero, já que iremos falar dessas coisas — disse ela, e saiu para preparar seu drinque. — Apresentaram-me uma história certa vez, quando eu trabalhava em sua seleção, em Logan’s. Naturalmente, já encerrou suas atividades, da mesma forma que Collier’s e agora The Saturday Evening Post, porém sobrevivemos a ambos. — Ele declarou isto com um toque de orgulho na voz. — Publicávamos trinta e seis contos por ano, talvez mais, e a cada ano, quatro ou cinco deles figuravam na coleção de alguém como melhores do ano. E as pessoas os liam. De qualquer modo, o nome desta história a que me referi era “A Balada do Projétil Flexível”, tendo sido escrita por um homem chamado Reg Thorpe. Um rapaz da idade deste jovem aqui e também um sucesso. — Não foi ele que escreveu Underworld Figures? — perguntou a esposa do agente. — Sim, foi ele. Uma ficha espantosa para uma primeira novela… Críticas espetaculares, vendas formidáveis em brochura e encadernação, Associação Literária, tudo. Inclusive o filme foi bom, embora não tanto como o livro. Nem lhe chegou aos pés. — Eu adorei aquele livro — disse a esposa do autor, novamente atraída à conversa, embora a contragosto.

Tinha a surpresa e agradável expressão de quem acaba de recordar algo esquecido por muito tempo. — Ele escreveu mais alguma coisa em seguida? Li Underworld Figures quando freqüentava a faculdade, e isso foi… bem, há muito tempo, para lembrar agora. — Você não envelheceu um dia desde então — disse a esposa do agente, em tom simpático, embora achando que a esposa do jovem escritor usava um corpete pequeno demais e shorts muito apertados. — Não, ele não tornou a escrever — disse o editor. — Exceto por esta única história de que falei. Ele se matou. Ficou louco e matou-se. — Oh! — exclamou desoladamente a esposa do escritor. Eles voltavam ao tema — E o conto foi publicado? — perguntou o jovem escritor. — Não, mas não porque o autor enlouquecesse e se matasse. Ela jamais foi impressa, porque o editor ficou louco e quase se matou. O agente levantou-se de súbito para renovar seu drinque, que dificilmente precisava ser renovado. Ele sabia que o editor tivera um colapso nervoso no verão de 1969, não muito antes de Logan’s ter afundado em um mar de tinta vermelha. — Eu era o editor — informou o editor aos restantes. — Em certo sentido, ficamos loucos juntos, Reg Thorpe e eu, embora eu estivesse em Nova York, ele em Omaha e nem mesmo nos conhecêssemos. Seu livro havia sido publicado seis meses antes, e ele se mudara para lá, a fim de “ordenar as idéias”, como se dizia então. Só sei este lado da história, porque vejo ocasionalmente a esposa dele, quando ela vem a Nova York. É pintora e bastante boa nisso. Aliás, é uma moça de sorte. Ele quase a levou consigo. O agente voltou e sentou-se. — Começo a me lembrar de algo disso agora — falou. — E não foi apenas a esposa, certo? Ele baleou duas outras pessoas, uma delas uma criança. — Exatamente — confirmou o editor. — E foi a criança que finalmente lhe desencadeou a loucura.

— A criança o levou à loucura? — perguntou a esposa do agente. — O que quer dizer com isso? O rosto do editor, no entanto, dizia que não ia ser forçado; falaria, mas sem que o questionassem. — Conheço o meu lado da história, porque o vivi — disse o editor da revista. — Também sou um sujeito de sorte. Tive uma maldita sorte. É uma coisa interessante, sobre aqueles que tentam matar-se apontando uma arma para a cabeça e puxando o gatilho. Qualquer um pensaria que é ummétodo certeiro, melhor do que pílulas ou cortar os pulsos, mas não é. Quando uma pessoa dá um tiro na cabeça, não pode dizer o que vai acontecer. O balaço pode ricochetear no crânio e matar alguém mais. Pode seguir a curvatura craniana inteiramente e sair do outro lado. Pode alojar-se no cérebro e cegar a pessoa, sem matá-la. Um homem pode meter na testa uma bala de um 38 e acordar no hospital. Outro pode meter na testa uma bala de um 22 e acordar no inferno… se é que existe tal lugar. Sou propenso a crer que está aqui mesmo, na terra, possivelmente em Nova Jersey. A mulher do escritor riu um tanto agudamente. — O único método infalível de suicídio é atirar-se de um prédio bem alto, mas esta é uma saída tomada apenas pelos extraordinariamente dedicados. Causa tanta confusão, não é mesmo? “Meu ponto, contudo, é simplesmente este: quando a pessoa atira em si mesma com umprojétil flexível, em realidade ignora qual será o desfecho. No meu caso, saltei de uma ponte e acordei em um aterro entulhado de lixo, com um motorista de caminhão espancando-me as costas e bombeando meus braços, para cima e para baixo, como se tivesse apenas vinte e quatro horas para ficar em forma e me tomasse por algum aparelho para exercitar-se em remadas. Para Reg, o projétil foi letal. Ele… Bem, lá estou eu contando uma história e nem sei se querem ouvi-la. Ele olhou inquisitivamente em torno, à penumbra cada vez maior. O agente e sua esposa entreolharam-se, duvidosos. A esposa do escritor ia falar que já haviam tido uma dose suficiente de assuntos lúgubres, quando seu marido disse: — Eu gostaria de ouvi-la. Caso não se importe de contá-la, por motivos pessoais, quero dizer. — Nunca a contei — disse o editor — porém não por motivos pessoais.

Talvez nunca tenha encontrado os ouvintes certos. — Pois então, conte! — convidou o escritor. — Paul… — Sua esposa lhe pôs a mão no ombro. — Não acha que… — Agora, não, Meg. O editor disse: — A história chegou de bandeja, uma vez que nessa época, a Logan’s há muito deixara de ler textos não solicitados. Quando eles chegavam, uma moça se limitava a enfiá-los em envelopes de devolução, anexando uma nota: “Devido à crescente despesa e à crescente impossibilidade do pessoal editorial em dar conta do número crescente de textos recebidos, Logan’s deixou de ler manuscritos não solicitados. Desejamos-lhe sorte e que coloque sua obra em outra editora”. Não é um formidável punhado de conversa fiada? Não é fácil usar a palavra “crescente” três vezes em uma só frase, mas eles conseguiram. — E se não houvesse selos para a devolução, a história ia para a cesta de papéis — disse o escritor. — Não é? — Oh, inapelavelmente! Não há piedade na cidade nua. Uma estranha expressão de desconcerto pairou no rosto do escritor. Era a expressão do homem que está em uma cova de tigres, onde dúzias de homens melhores já foram rasgados em pedaços. Até então, este homem não viu tigre algum. Contudo, ele pressente que os tigres estão lá e que suas garras continuam afiadas. — De qualquer modo — disse o editor, pegando sua cigarreira — esta história chegou e a moça da sala de correspondência a pegou, grampeou a fórmula de rejeição à primeira página e já ia enfiá-la no envelope de devolução, quando viu o nome do autor. Bem, ela tinha lido Undenworld Figures. Todos a tinham lido naquele outono ou estavam lendo, quando não se encontravam na lista de espera da livraria ou vistoriando as prateleiras dos drugstores pela edição em brochura. A esposa do escritor, que percebera a momentânea inquietude no rosto do marido, tomoulhe a mão. Ele sorriu para ela. O editor acendeu o cigarro com um isqueiro Ronson de ouro e, à crescente escuridão, todos puderam ver quão desfigurado estava seu rosto — as bolsas frouxas abaixo dos olhos, com uma pele semelhante à dos crocodilos, as faces marcadas por sulcos, a ponta do queixo do velho emergindo daquele rosto de avançada meia-idade, como a proa de um navio. Umnavio, pensou o escritor, que se chama velhice. Ninguém deseja um cruzeiro nele, porém os camarotes estão cheios. Por falar nisso, também os porões. O isqueiro apagou-se e o editor, sugou pensativamente o cigarro. — A moça da sala de correspondência que leu aquela história e a passou adiante, em vez de devolvê-la ao autor, é hoje editora-chefe na G.

P. Putnam’s Sons. Seu nome não vem ao caso; importa é que, no grande gráfico da vida, o vetor dessa jovem se cruzou com o de Reg Thorpe, na sala de correspondência da revista Logan’s. Seu vetor subia, o dele descia. Ela entregou a história a seu chefe e esse chefe a passou para mim. Eu a li e adorei. Em realidade, era um pouco longa, mas pude ver onde ele cortaria quinhentas palavras, sem deturpar o sentido. Então, ficaria ótima. — Qual era o tema? — perguntou o escritor. — Você nem devia perguntar — replicou o editor. — Ele se ajusta maravilhosamente ao contexto total. — É sobre enlouquecer? — Sim, de fato. Qual é a primeira coisa que lhe ensinam, em seu primeiro curso universitário de escrita criativa? Escreve sobre o que você sabe. Reg Thorpe sabia sobre ficar louco, porque estava envolvido nisso. A história provavelmente me tenha seduzido, porque eu também me achava no mesmo caminho. Agora você diria — se fosse editor — que a única coisa que não precisa ser impingida ao público leitor americano, é outra história a respeito de Enlouquecer Elegantemente na América, tema secundário, Não Existe mais Dialogo. Um tema popular, na literatura do século XX. Todos os grandes escreveram a respeito e todos os escribas parecem obcecados por isso. Contudo, aquela história era engraçada. Quero dizer, era de fato hilariante. “Eu não havia lido nada igual antes e não li até hoje. O mais aproximado seriam alguns dos contos de F. Scott Fitzgerald… e Gatsby. O personagem na história de Thorpe estava enlouquecendo, mas enlouquecia de maneira muito divertida. A gente ri o tempo todo e havia duas passagens — aquela em que o herói despeja a gelatina de limão na cabeça da moça gorda é a melhor — em que se dava gargalhadas.

Só que são gargalhadas nervosas, compreendam. Rimos e depois queremos olhar por cima do ombro, para saber o que ouvimos. As linhas opostas de tensão nessa história são realmente extraordinárias. Quanto mais se ri, mais nervoso se fica. E quanto mais nervoso, mais se ri… até o ponto emque o herói sai da festa dada em sua homenagem e volta para casa, onde mata a esposa e a filhinha. — Qual é a trama? — perguntou o agente. — Ora, isso não vem ao caso — replicou o editor. — Tratava-se apenas de uma história sobre um rapaz que, aos poucos, ia perdendo o controle para enfrentar o sucesso. É melhor que tudo fique vago. Uma sinopse detalhada da trama seria apenas tediosa. Sempre é assim. “De qualquer modo, escrevi-lhe uma carta. Dizia o seguinte: “Caro Reg Thorpe, Acabei de ler “A Balada do Projétil Flexível” e achei excelente. Gostaria de publicá-la em Logan’s, no início do próximo ano, se lhe convier. Acha que 800 dólares soam bem? Pagamento contra aceitação. Mais ou menos”. Ponto parágrafo. O editor pontilhou o ar noturno com seu cigarro. “A histeria está um pouco longa e gostaria que você a encurtasse em cerca de quinhentas palavras, se for possível. Eu estabeleceria um corte mínimo de duzentas palavras. Podemos fazer uma ilustração”. Ponto parágrafo. “Telefone, se interessar.” Minha assinatura. E lá se foi a carta para Omaha.

— E ainda se lembra dela, palavra por palavra, como disse? — perguntou a esposa do escritor. — Mantenho toda a correspondência em um arquivo especial — disse o editor. — As cartas dele, as cópias das minhas. No fim, havia uma boa pilha, incluindo-se três ou quatro cartas de Jane Thorpe, sua esposa. De vez em quando leio tudo aquilo. Não é muito bom, claro. Querer tentar compreender o projétil flexível, é tentar compreender como uma fita de Môbius só pode ter uma superfície. É assim que são as coisas, neste melhor-de-todos-os-possíveis mundos. Sim, sei a carta palavra por palavra ou quase isso. Algumas pessoas sabem a Declaração da Independência de cor. — Aposto como ele telefonou no dia seguinte — disse o agente, sorrindo. — A cobrar. — Não, ele não telefonou. Logo depois de Underworld Figures, Thorpe deixou completamente de usar o telefone. Foi sua esposa que me contou. Quando se mudaram de Nova York para Omaha, eles nem mesmo mandaram instalar um aparelho na casa nova. Compreendam, ele havia decidido que o sistema telefônico não funcionava realmente à base de eletricidade, mas do radium. Thorpe achava que este era um dos dois ou três mais bem guardados segredos do mundo. Afirmou para sua esposa que era o radium o único responsável pela porcentagem crescente de câncer, não os cigarros, emissões de automóveis ou a poluição industrial. Cada telefone tinha um pequeno cristal de radium no fone, de modo que, em todas as vezes quando era usado, a pessoa injetava radiação na cabeça. — Nossa, o cara era mesmo louco — disse o escritor, e todos eles riram. — Ele escreveu, em vez de telefonar — disse o editor, com um piparote atirando seu cigarro na direção do lago. — Sua carta dizia o seguinte: “Caro Henry Wilson (ou apenas Henry, se possível), Sua carta foi não apenas excitante, mas também gratificante. Minha esposa ficou ainda mais satisfeita do que eu. O dinheiro está ótimo… embora eu deva dizer, com toda sinceridade, que a idéia de ver o conto publicado em Logan’s me pareceu uma compensação mais do que adequada (contudo, eu o aceito, vou aceitá-lo).

Estive examinando os cortes que indicou e parecem oportunos. Acredito que melhorarão a história, além de deixarem espaço para aquelas ilustrações. Atenciosamente, Reg Thorpe.” — Sob sua assinatura havia um pequeno e curioso desenho… mais como um rabisco. Umolho em uma pirâmide, como aquele no verso da nota de um dólar. Contudo, em vez de Novus Ordo Secloruin, na faixa abaixo, havia estas palavras: Fornit Some Fornus. — Deve ser latim ou Groucho Marx — disse a esposa do agente. — Era apenas parte da crescente excentricidade de Reg Thorpe — respondeu o editor. — Sua esposa me disse que ele começara a acreditar nas “pessoas miúdas”, algo assim como elfos e fadas. Os Fornits. Eram os elfos da sorte e Reg achava que um deles morava em sua máquina de escrever. — Oh, meu Deus! — exclamou a esposa do escritor. — Segundo Thorpe, cada Fornit possuía um pequeno dispositivo, como um pulverizador, cheio de… pó-da-sorte, creio que poderia dizer-se assim. E o pó-da-sorte… — … tinha o nome de fornus — completou o escritor, sorrindo amplamente. — Exato. A esposa dele achava isso muito divertido. A princípio. De fato, no início — Thorpe havia concebido os Fornits dois anos antes, enquanto rascunhava Undenworld Figures — ela pensava apenas que Reg estivesse lhe fazendo uma brincadeira. Talvez, no começo ele estivesse mesmo. A coisa parece ter progredido de fantasia a superstição e de superstição a crença absoluta. Era uma… uma fantasia flexível. Só que rija no fim. Muito rija. Todos ficaram calados. Os sorrisos morreram.

— Os Fomits tinham seu lado engraçado — disse o editor. — A máquina de escrever de Thorpe começou a ir regularmente para o conserto, no final da permanência do casal em Nova York, idas que se tornaram ainda mais freqüentes quando se mudaram para Omaha. Thorpe escrevia emuma máquina emprestada, quando a sua foi consertada a primeira vez, já em Omaha. O gerente da firma ligou dias depois de Reg receber sua máquina de volta, para comunicar que lhe mandaria uma conta, pela limpeza não só da máquina de empréstimo, como da que pertencia a ele. — Qual era o problema? — quis saber a esposa do agente. — Acho que sei — disse a esposa do escritor. — Ela estava cheia de comida — disse o editor. — Pedacinhos diminutos de bolo e biscoitos. Havia também manteiga de amendoim na peça em que são fixados os tipos da máquina. Reg estava alimentando o Fornit que vivia em sua máquina de escrever. Também colocara comida na máquina de empréstimo, na hipótese de que o Fomit se tivesse mudado para ela. — Caramba! — exclamou o escritor. — Eu não sabia de nada disso então, compreendam. Por essa vez, escrevi em resposta, dizendo-lhe o quanto estava satisfeito. Minha secretária datilografou a carta e a trouxe para que eu a assinasse, mas então precisou sair para fazer qualquer coisa. Assinei, e ela ainda não tinha voltado. Foi quando — sem a menor razão para tanto — fiz o mesmo desenho garatujado abaixo de meu nome. Pirâmide. Olho. E “Fornit Some Fornus”. Loucura. A secretária viu aquilo e perguntou se eu ia mandar a carta assim mesmo. Dei de ombros, disse-lhe que a enviasse. — Dois dias mais tarde, Jane Thorpe me telefonou. Disse que minha carta deixara Reg muitíssimo excitado.

Ele pensava que achara uma alma gêmea… outra pessoa que também sabia sobre os Fornits. Vêem a que situação louca estava chegando a situação? Que me conste, àquela altura um Fornit poderia ser qualquer coisa, desde chave-inglesa para canhotos a faca de carne polaca. Idem para fornus. Expliquei a Jane que me limitara a copiar o desenho de Reg. Ela quis saber por quê. Esquivei-me à pergunta, embora a resposta pudesse ser que eu estava muito bêbado, quando assinei a carta. Ele fez uma pausa, e um silêncio incômodo caiu sobre o pátio dos fundos. As pessoas olharam para o céu, para o lago, as árvores, embora não estivessem mais interessantes agora, do que tinham estado um ou dois minutos antes. — Eu tinha estado bebendo durante toda a minha vida adulta, sendo-me impossível dizer quando a situação me escapou ao controle. No sentido profissional, eu ia do topo da garrafa até quase o próprio final. Começava a beber no almoço e voltava tocado para o escritório. Contudo, funcionava perfeitamente bem. Era a bebida depois do trabalho — primeiro no trem e depois em casa — que me levava para além do ponto funcional. “Eu e minha esposa vínhamos tendo problemas não relacionados à bebida, mas o fato de beber piorava ainda mais aqueles problemas. Ela viera se preparando para ir embora havia muito tempo. Uma semana antes da história de Reg Thorpe chegar, ela se foi. “Eu tentava manejar a situação, quando deparei com a história dele. Agora bebia pesadamente. E, para cúmulo, estava tendo — bem, acho que agora é moda dar a isso o nome de crise da meia-idade. Na época, sabia apenas que estava deprimido por causa de minha vida profissional e também da vida pessoal. Procurava lutar contra — ou tentava — uma crescente sensação de que editar histórias em massa para o mercado, histórias que terminariam sendo lidas por pacientes nervosos no dentista, donas de casa na hora do almoço e um ocasional universitário entediado, não era propriamente uma atividade nobre. Procurava também lutar contra a idéia —novamente, tentava, aliás, era o que todos fazíamos na Logan’s, nessa época — de que em mais seis meses, dez ou quatorze, talvez não houvesse mais nenhuma Logan’s. “Então, nessa monótona paisagem outonal da meia-idade angustiada, surge uma boa história, de autoria de um bom escritor — uma energética e divertida espiada à mecânica do enlouquecer. Foi como um raio brilhante de sol. Sei que parece estranho dizer isso sobre uma história que termina com o personagem matando a esposa e a filha pequenina, porém perguntem a qualquer editor o que ele considera uma real alegria, e ele lhes dirá que é a grande novela ou história inesperadas, caindo em sua mesa de trabalho como um grande presente de Natal.

Bem, vocês todos conhecem aquela história de Shirley Jackson, “A Loteria”. Ela termina da maneira mais deprimente que se possa imaginar. Quero dizer, uma bela dama é apedrejada até morrer. Seu filho e sua filha participam de seu assassinato, pelo amor de Deus! Contudo, foi uma história e tanto… e aposto como o editor da New York que primeiro leu a história, naquela noite voltou assobiando para casa. “O que estou tentando dizer é que a história de Thorpe foi a melhor coisa em minha vida, naquele momento. A única coisa boa. E, segundo o que a esposa dele me disse ao telefone, nesse dia, minha aceitação da história foi a única coisa boa que tinha acontecido a Thorpe ultimamente. O relacionamento escritor-editor é sempre de mútuo parasitismo, porém no meu caso e de Reg, esse parasitismo foi elevado a um grau incomum. — Voltemos a Jane Thorpe — pediu a esposa do escritor. — Certo. Penso que a deixei em um desvio, não? Ela ficou zangada no tocante aos Fornits. A princípio. Contei-lhe que apenas garatujara aquele símbolo olho-e-pirâmide, sem saber ao certo seu significado, e me desculpei pelo que quer que houvesse feito. “Ela dominou sua raiva e soltou tudo para mim. Estivera ficando cada vez mais ansiosa, sem ter com quem desabafar. Seus pais estavam mortos e todos os seus amigos viviam em Nova York. Reg não permitia a presença de ninguém em casa, além deles dois, alegando que os outros eram gente do Imposto de Renda, do FBI ou da CIA. Não muito depois de se mudarem para Omaha, uma garotinha chegou à porta, vendendo biscoitos para as escoteiras. Reg gritou com ela, disse-lhe que fosse vender aquilo no inferno, que sabia perfeitamente por que estava ali, e por aí adiante. Jane tentou argumentar com ele. Disse que a menina só tinha dez anos. Reg respondeu que a gente dos impostos não tinha almas nem consciências. Além do mais, disse ele, a menininha podia ser algum andróide. Andróides não estariam sujeitos às leis trabalhistas para crianças. Talvez o pessoal dos impostos houvesse mandado uma escoteira andróide, cheia de cristais de radium, para descobrir se ele estava guardando segredos… e, nesse meio tempo, para impregna-lo com raios cancerosos.

— Santo Deus! — exclamou a esposa do agente. — Ela havia esperado uma voz amistosa e a minha foi a primeira. Fiquei sabendo a história da menina escoteira, sobre a preocupação de Reg com os Fornits e sua alimentação, sobre fornus e sobre como ele se recusara a ter um telefone em casa ou a usar um. Ela falava comigo de umtelefone pago, em uma cabine de drugstore, cinco quarteirões além de sua casa. Disse recear que Reg não estivesse realmente preocupado com a gente dos impostos, homens do FBI ou da CIA. Em sua opinião, o que seu marido realmente temia era que Eles — algum maciço e anônimo grupo que o odiava, que o invejava, que não se deteria diante de nada para apanha-lo — houvessem tomado conhecimento de seu Fornit e quisessem matar a criatura. Se o Fornit morresse, não haveria mais novelas, mais contos, nada. Compreendem? A essência da insanidade. Eles estavam decididos a liquida-lo. Resumindo, nem mesmo o Imposto de Renda, que o fizera passar momentos infernais, no relacionado à renda gerada por Underworld Figures, serviria como pretexto. No fim, eram apenas Eles. A perfeita fantasia paranóica. Eles queriam matar o seu Fornit. — Céus, e o que você disse a ela? — perguntou o agente. — Procurei tranqüiliza-la — disse o editor. — Lá estava eu, tendo retornado pouco antes de um almoço regado a cinco martinis, falando com aquela mulher aterrorizada que me ligava de uma cabine telefônica em um drugstore de Omaha, procurando convencê-la de que tudo estava bem, de que não devia preocupar-se com o marido que acreditava estarem os telefones repletos de cristais de radium, imaginando que um bando de pessoas anônimas enviava escoteiras andróides para liquidalo. Disse-lhe para não inquietar-se, se seu marido havia desligado seu próprio talento de sua mentalidade, a tal ponto, que acreditava haver um elfo morando em sua máquina de escrever. “Não acho que tenha sido muito convincente”. Ela me pediu — não, suplicou — para trabalhar com Reg em sua história, para providenciar sua publicação. Aquela mulher fez tudo, exceto dizer que “O Projétil Flexível” era o último contato do marido com o que, humoristicamente, chamamos de realidade. “Perguntei-lhe como agir, caso Reg tornasse a mencionar os Fornits. “Seja indulgente com ele”, disse ela. Foram suas exatas palavras — seja indulgente com ele. E então, desligou. “No dia seguinte, havia uma carta de Reg na correspondência — cinco páginas, datilografadas, espaço um.

O primeiro parágrafo era sobre a história. Ele dizia que o segundo rascunho estava indo bem. Achava-se capaz de cortar setecentas palavras das originais dez mil e quinhentas, reduzindo o conto definitivo a nove mil e oitocentas palavras. “O restante da carta era sobre Fornits e fornus. Suas próprias observações e perguntas… dúzias de perguntas. — Observações? — o escritor inclinou-se para diante. — Quer dizer que ele os via realmente? — Não — disse o editor. — Reg não os via, em um sentido real, porém, de outra maneira… suponho que sim. Sabem como é: os astrônomos supunham — sabiam — que Plutão estava lá, muito antes de contarem com um telescópio potente o bastante para vê-lo. Sabiam tudo sobre ele, estudando a órbita do planeta Netuno. Era dessa maneira que Reg observava os Fornits. Eles gostavam de comer à noite, segundo escreveu. Será que eu já percebera isso? Ele os alimentava durante todas as horas do dia, porém havia notado que a maioria da comida desaparecia após as oito da noite. — Alucinação? — perguntou o escritor. — Não — respondeu o editor. — Sua esposa, simplesmente, limpava o máximo daquela comida na máquina de escrever, quando Reg saia para sua caminhada noturna. E ele saía todas as noites, às nove horas. — Eu diria que ela teve coragem, ligando para você — grunhiu o agente, remanejando o corpo volumoso na cadeira de jardim. — Ela própria alimentava a fantasia do homem. — Acho que não entendeu por que ela me telefonou e por que estava tão perturbada. replicou quietamente o editor. Olhou para a esposa do escritor. — Pois aposto que você entendeu, Meg. — Talvez — disse Meg, e dirigiu ao marido um desconfortável olhar de esguelha. — Ela não se irritou por você incentivar a fantasia do marido.

Apenas, tinha medo que você a transtornasse. — Muito bem! — exclamou o editor, acendendo outro cigarro. — E ela removia o alimento pelo mesmo motivo. Se a comida continuasse a acumular-se na máquina de escrever, Reg faria a dedução lógica, partindo diretamente de sua própria e decididamente ilógica premissa. Ou seja, que seu Fornit morrera ou tinha ido embora. Portanto, não haveria mais fornus. Em resultado, não haveria mais escritos. Daí… O editor deixou a palavra em suspenso na fumaça do cigarro, depois prosseguiu: — Reg imaginou que os Fornits deviam ser criaturas notívagas. Elas detestavam barulho — ele já percebera que não conseguia escrever pela manhã, após reuniões ruidosas — odiavam a televisão, a eletricidade livre e o radium. Reg vendera sua TV para a Goodwill por vinte dólares, segundo afirmava, e há muito se fora o seu relógio de pulso com mostrador de radium. Depois, as perguntas. Como eu ficara sabendo sobre os Fornits? Seria possível que tivesse um morando comigo? Em caso afirmativo, o que eu pensava disto, disto ou daquilo? Acho que não preciso ser mais específico. Se vocês já possuíram um cão de determinada raça e podem recordar as perguntas feitas sobre cuidados com ele e alimentação, percebem a maioria das perguntas que Reg me fez. Umpequeno rabisco abaixo de minha assinatura, foi tudo quanto se precisou, para que se abrisse a caixa de Pandora. — O que escreveu em resposta? — perguntou o agente. — Foi aí que realmente começou o problema — respondeu lentamente o editor. — Para nós dois. Jane havia dito “Seja indulgente com ele” e foi o que fiz. Infelizmente, acho que exagerei. Quando respondi à carta, estava em casa e muito bêbado. O apartamento me parecia demasiado vazio. Tinha um cheiro rançoso de excesso de cigarros fumados e pouca aeração. As coisas tinham piorado muito, sem Sandra por ali. As cobertas em cima do sofá estavam amarfanhadas. Havia pratos sujos na pia, esse tipo de situação.

Eu era um homem de meia-idade, despreparado para a domesticidade. “Enfiei uma folha de papel de minha correspondência pessoal na máquina de escrever, e pensei: Preciso de um Fornit. De fato, eu precisava de uma dúzia deles, para que tirassem o pó desta maldita casa solitária com fornus, de ponta a ponta. Naquele instante, de fato eu estava bêbado o bastante para invejar a fantasia de Reg Thorpe.

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