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24 horas; Deadline – James Swallow

Mal havia passado pela porta quando eles o atacaram. Dois homens, um de cada lado, saltando de trás da cobertura dos contêineres de suprimentos e das prateleiras do estoque. Nas sombras do porão, não conseguiu perceber muitos detalhes, apenas uma impressão de massa muscular e velocidade antes que os golpes começassem a chover sobre ele. A pancada seca de um cassetete explodiu sobre seu antebraço e a força aplicada ali fez seus nervos arderem. Ele soltou sua pistola, a arma caindo de seus dedos dormentes, e grunhiu de dor. O outro braço se ergueu para desviar um soco arrasador do segundo atacante. Girando o corpo sem sair do lugar antes que qualquer um dos dois homens pudesse colocar as mãos nele outra vez, inclinou-se para a frente e completou a esquiva com uma cotovelada no peito do homem que vinha pela esquerda. Pôde sentir uma costela estalar sob o impacto e ouviu o atacante ofegar em agonia. O cômodo era iluminado por uma lâmpada industrial, a implacável luz branca de trás de uma jaula ovalada, lançando o espaço ao redor deles em sombras profundas. Era mais que suficiente para que ele pudesse lutar. Sem perder o ritmo, ele deixou o sujeito com a costela quebrada recuar aos tropeções e pressionou seu ataque sobre o outro, o do cassetete, que levantava a arma para um segundo golpe. Fazendo uma garra com sua mão vazia, disparou para a frente e agarrou a garganta do primeiro atacante, atingindoo com força suficiente para fazê-lo expelir todo o ar de seus pulmões. Tropeçando, os dois caíram no feixe de luz criado pela lâmpada no teto, e ele manteve a pressão, socando sem parar – ataques curtos e cortantes que atingiam a pele macia da garganta do sujeito. Percebeu um movimento vindo de trás. O cara com a costela quebrada estava voltando à cena, e ele se virou para poder se defender, mas foi lento. Lento demais. Toda a fadiga das últimas horas, todo o esforço sem fim o deixaram menos afiado e, pouco a pouco, roubaram dele segundos preciosos dos quais precisava. Lento demais. O outro atacante deu-lhe um chute forte atrás do joelho e sua perna dobrou-se debaixo dele com um choque de dor. Ele vacilou e desabou sobre o piso de concreto empoeirado, as palmas das mãos atingindo o chão para conter sua queda. Ouviu alguém gritar, mas as palavras soaram abafadas e indistintas, o som distorcido pela névoa deixada pelos socos que tomara na cabeça. Apenas o tom era claro: uma ordem, dura e cortante. Alguém furioso com ele, alguém querendo que dessem jeito nele rapidamente. Um pequeno lampejo de azul cintilou na mão de um dos homens, e antes que ele pudesse se desviar os contatos metálicos de um tazer pressionaram contra seu peito e o aparelho disparou. Milhares de volts de eletricidade percorreram sua carne e ele uivou.


Seus músculos se trancaram, rígidos, e por longos e agonizantes segundos ele sentiu como se tivesse sido mergulhado em fogo. E então estava deitado de costas, tremendo, abalado. Podia sentir um leve odor de algodão queimado e carne tostada. Eles o arrastaram pelos cotovelos e o largaram sobre uma cadeira de plástico gasta. Ele ficou ali como uma marionete com as cordas cortadas, ofegante, tentando se recompor. O homem que ele atingira na garganta o encarava com morte no olhar, ofegando e tossindo sangue, esfregando o pescoço. O outro atacante abaixara-se para apanhar sua pistola de onde ela havia caído, movendo-se com lentidão exagerada devido a seu novo ferimento. Notou que havia outros no local. Um homem grande e bronzeado, com um rosto de boxeador e cabelos brancos e ralos estava na fronteira das sombras, as mãos cruzadas à sua frente com a forma alongada de uma pistola com silenciador em seus punhos. Outra silhueta – essa, menos distinta – estava mais distante do feixe de luz, emoldurada pelo brilho da tela de um celular. Uma mulher – percebeu ele –, o azul frio da tela destacando as linhas planas de seu rosto como uma escultura de gelo. – Prendam-no – disse o grandalhão, gesticulando com a arma. Os dois brutamontes se aproximaram e usaram lacres de plástico para prender os pulsos dele aos braços da cadeira. Ele se mexeu levemente na cadeira, pensando em ângulos de ataque. Aquilo lhe vinha de maneira automática, por instinto. Começou a construir um plano para tomar a pistola do sujeito, avaliando quem era a maior ameaça naquela sala, decidindo qual deles deveria morrer primeiro. – Fico impressionado que você ainda esteja vivo – o grandalhão falou diretamente com ele pela primeira vez. Havia um sotaque claro do Leste Europeu em suas palavras; provavelmente da Geórgia. – Você já devia ter morrido uma dúzia de vezes. Ele concordou com um gesto cansado da cabeça. – Já me disseram isso – com cuidado, testava o quanto haviam apertado os lacres. Havia alguma liberdade ali, mas não muita. – Não mais – disse o georgiano. – Hoje, seu tempo se esgota – ele inclinou a cabeça, examinando seu novo prisioneiro como se se tratasse de algum quebra-cabeça. – Eu sei tudo a seu respeito.

Você fez tantos, tantos inimigos, meu amigo. Imagino quantos homens vão dormir mais tranquilos essa noite, depois que isto tiver acabado. Ele não disse nada, esperando pelo momento certo. O outro homem prosseguiu, desapontado por não receber a resposta que queria. – Sim. Será um tipo de bondade, acho. Olhe para você. Como um cão de guerra, velho demais e longe demais de sua coleira para ser controlado. Sua própria gente te quer morto! Estou lhes fazendo um favor. – Então faça logo – rosnou ele. – E vá embora. O grandalhão deu uma espiada para um dos outros, que apareceu com seu próprio celular e o ergueu, enquadrando os dois na minúscula câmera do aparelho. A arma se levantou e uma luz fraca brilhou no cano preto do silenciador. – Jack Bauer… – o georgiano disse o nome como se fosse uma maldição e seu dedo comprimiu o gatilho. – Seu tempo se esgotou. Chet Reagan surgiu da sala de pessoal arrumando a camisa de seu uniforme e tentando conter umbocejo. Dirigindo-se para a recepção, notou que a sala de espera estava vazia, o que era estranho para um dia de semana. Tipicamente, o turno da noite era quando as coisas começavam a ficar agitadas na clínica. As pessoas costumavam aparecer no centro médico de emergência saindo de um dia puxado no trabalho, talvez buscando uma desculpa para não precisar voltar ao escritório no dia seguinte – eram esses ou o pessoal que não tinha conseguido uma folga para marcar uma consulta com o médico durante a manhã. Mas não nessa noite. Ele viu algumas pessoas esperando sua vez, os tipos modernosos do East Village em vez do pessoal habitual que morava nas redondezas da clínica, no Lower East Side. Pareciam um pouco deslocados e ele se divertiu imaginando o que havia de errado com eles. Alguma DST, talvez? Algo que eles não queriam que seu médico de costume ficasse sabendo? Ele conteve um sorriso. A clínica recebia muitos pacientes desse tipo. Quando se aproximou da mesa, viu Lindee atendendo e não pôde evitar uma expressão de desgosto quando ela fez uma careta e apontou para o relógio de pulso com um dedo longo e de unha bem-feita.

O olhar de Chet desviou-se para a tela de TV na parede da sala de espera, eternamente ligada no canal de notícias principal da CNB, e viu o horário no canto da tela. Cinco horas. Era esse o horário em que seu turno começava, e era essa hora em que ele estava ali. Claro, sabia muito bem que o supervisor deles gostava que os técnicos em medicina chegassem dez, até vinte minutos mais cedo, mas Chet não estava disposto a passar mais tempo de seu dia na clínica do que era obrigado. Eles não lhe pagavam o suficiente para ir além do básico. – Que foi? – perguntou para Lindee. – Não estou atrasado. – Mas também não está adiantado – retrucou ela. – Você tem sorte de não estarmos com pressa. Mas podemos ficar a qualquer segundo. Você recebeu a mensagem de texto? – os olhos dela se estreitaram, seu rosto oval e escuro se contorcendo em uma expressão de irritação. – Não – a bateria de seu telefone tinha acabado na noite passada e ele se esquecera de recarregála. – Olha, eu cheguei a tempo, não cheguei? Mas não foi graças à polícia. Eles estão em todos os lugares hoje… – A mensagem de texto – insistiu Lindee. – A prefeitura colocou todos os hospitais e clínicas em alerta… – a voz dela foi sumindo. – Você esteve, tipo, enfiado em uma caverna ontem? Não viu os jornais? – Não – repetiu ele. – Que foi, morreu alguém famoso? A expressão de Chet se fechou. Uma das coisas mais inconvenientes de morar e trabalhar em Manhattan era que ali também era o lar de dignitários estrangeiros, de embaixadas e das Nações Unidas – e sempre que eles estavam em peso na cidade, todo nova-iorquino comum tinha de lidar com a perturbação causada por sua presença. Chet se lembrou de algo que tinha visto nos jornais sobre um grande acordo político acontecendo com o povo de um daqueles países árabes, porém não se interessara pelos detalhes. – Eu nunca assisto aos jornais – disse ele. – É tudo palhaçada, isso sim. Lindee rolou os olhos. Ela havia tido essa conversa com Reagan mais de uma vez antes e já tinha se cansado dela há muito tempo. Em vez disso, pegou o controle remoto da TV e apontou-o para a tela, aumentando o volume. – Bem, talvez você queira prestar atenção a essa parte.

Chet voltou a olhar para a tela quando a voz da âncora da CNB ficou mais alta. Por sobre o ombro da locutora loira havia imagens de um prédio da ONU e um vídeo mostrando a presidente Allison Taylor diante de um púlpito. – Eu nunca votei nela – comentou Chet com desprezo. – As circunstâncias continuam inconstantes – dizia a âncora. – O que a CNB pode confirmar até agora é que a presidente Taylor, em um anúncio chocante para a imprensa mundial, abandonou as conversas de um acordo de paz entre os Estados Unidos, a Federação Russa e a República Islâmica do Camistão. A presidente falou em uma conspiração por trás do acordo e em atividades criminais nas quais ela mesma teve participação. A Casa Branca prometeu uma declaração formal iminente, mas em um dia no qual abundam rumores sobre uma possível atividade terrorista na cidade de Nova York, um dia que também viu o assassinato do líder da República Islâmica do Camistão, Omar Hassan, em solo americano, podemos apenas cogitar que tipo de revelações as próximas horas trarão. – Hum – disse Chet, absorvendo a informação. – Então um político mentiu a respeito de alguma coisa. Mas que surpresa. Lindee o encarou ferozmente. – Você não entendeu? Isso é importante! Vai ter gente ficando furiosa… as pessoas podem sair feridas! Porém Chet já estava se afastando. – Esse é o tipo de merda que acontece quando mexemos com outros países. Não haveria nada se esses caras do Cami-qualquer-coisa ficassem na casa deles, não é? Ele pegou uma prancheta e desceu pelo corredor na direção das salas de exame nos fundos do prédio. O primeiro trabalho que faria nesse turno seria o inventário das salas 10 e 11 – e se ele fizesse isso sem pressa, sabia que conseguiria ficar fora do radar do supervisor por pelo menos duas horas. Tinha dado dois passos para dentro da sala 10 quando percebeu que o interruptor de luz não estava funcionando. Apertou-o algumas vezes e fez uma careta, mas no segundo seguinte seu sapato esmagou um pedaço de vidro quebrado e ele notou que o tubo fluorescente acima tinha sido deliberadamente arrebentado. Um ar frio tocou seu rosto e ele viu que a janela de vidro protegido por uma grade estava aberta, permitindo a passagem da brisa. Iluminada apenas pelo dia que se apagava, a sala era composta por vários tons de sombra, e o coração de Chet saltou até sua boca quando ele finalmente percebeu a presença de mais alguém ali. Um homem em uma blusa de moletom cinza rasgada surgiu de trás da cortina colocada ali para oferecer privacidade aos pacientes junto à maca. Em uma das mãos dele havia o formato metálico de uma arma. As entranhas de Chet se contraíram e ele sentiu um suor frio descer pelo pescoço. – Ah, merda – ele ergueu as mãos. – Ei. Ei, espere.

Não atire em mim, tá? Eu… eu tenho família. Só… olha, leve o que você quiser, tá? Eu não vou te impedir. Eles o tinham avisado sobre esse tipo de coisa quando aceitou o emprego na clínica. Viciados em drogas ou criminosos de rua tentando levantar dinheiro rápido roubavam clínicas de pronto-socorro em busca de analgésicos ou quaisquer drogas que pudessem vender. – Tranque a porta – disse o homem armado. – O quê? – Tranque-a – da segunda vez que ele falou, Chet se viu obedecendo sem hesitação. Com as mãos trêmulas, virou a tranca e encolheu-se em um canto, os olhos dardejando pela sala em busca de algum meio para escapar. Havia apenas a janela aberta, e o homem armado estava entre Chet e ela. O cara parecia ter entrado em uma discussão com uma jamanta e perdido. Exibia cortes em sua testa e em seu queixo, e através dos rasgões em seu moletom Chet podia ver outros cortes e contusões de gravidades diversas. – Você vai me ajudar – disse o sujeito com a arma. Ele leu o crachá do técnico. – Chet. Eu preciso me limpar. Preciso de curativos limpos. Remédios. – Você vai me matar? – perguntas escavam dos lábios de Chet antes que ele percebesse as palavras se formando em seu cérebro. – Aquilo nas notícias, é sobre você? Você é… um terrorista? – Não – o homem baixou o cano da pistola até que ela estivesse apontando para algum ponto próximo ao joelho direito de Chet. – Mas tenho uma ótima mira. E vou te aleijar se você tentar alguma bobagem, entendeu? – Sim – foi a resposta mais enfática que Chet já havia dado a qualquer pergunta. – Bom – o homem acendeu uma luminária ao lado da maca antes de pegar um bisturi e usá-lo para abrir a blusa com um corte, despindo-a para revelar seu peito nu. Chet perdeu o ar ao ver as cicatrizes formando um retalho pelo torso do sujeito. Ele reconheceu as marcas pregueadas de tiros quando as viu, e as linhas severas de facadas e cortes antigos. Havia, porém, outras cicatrizes ali, marcas que ele não podia nem imaginar do que seriam. A carne do sujeito era um mapa de violência sofrida e sobrevivida.

A mais recente era um curativo de batalha sobre um tiro de raspão, e o tecido preso sobre o ferimento estava preto amarronzado e ensopado. Com cuidado, Chet retirou a bandagem antiga e começou a aplicar a nova. Jack Bauer observava enquanto o técnico fazia o que lhe fora ordenado. As mãos do sujeito estavam tremendo, o que era de se esperar. – Você disse que tem uma família – o homem se retesou quando Jack falou. – Sim? – disse ele, a voz rouca de medo. – Conte-me sobre eles. Chet engoliu seco. – Um… um filho. Petey. Ele tem seis anos. Esposa. Jane. – Aqui em Nova York? – Certo. Sim. Jack pesou a pistola Sig Sauer roubada, em sua mão. – Você deveria levá-los para fora da cidade por alguns dias. Sair daqui. Ele não pôde evitar a visão do rosto de Kim em sua mente, a filha sorrindo para ele e prometendo que as coisas iriam melhorar entre eles. Naquele momento, Jack queria que aquilo fosse verdade mais do que qualquer outra coisa no mundo. Mas o destino tinha o hábito de se meter no caminho do que Jack Bauer queria e arrastá-lo para uma confusão sangrenta após a outra. Ele olhou para o homem à sua frente, esse cara comum com seu trabalho comum e sua vida comum, e, por uma fração de segundo, Jack o odiou por isso. Chet deve ter visto aquele lampejo de fúria em seus olhos, porque ele recuou, a cor sumindo de seu rosto. – O-o quê? Jack afastou aqueles pensamentos. – Continue trabalhando.

O impulso desapareceu tão rapidamente quanto havia surgido, porém uma dor aguda se prolongou. Em algum nível, Jack ressentia-se do fato de que qualquer chance de ter uma vida normal havia ficado para trás há muito tempo. Ele podia sentir o peso de tudo aquilo pressionando-o, não só as horas de luta e corrida e batalha para continuar vivo, mas a dor em sua alma. A consequência de todas as suas escolhas e de todas as coisas que havia feito. Outrora, Jack fora um soldado de sua nação, lutando por um ideal que acreditava ser bom e correto. Em algum momento, aquela lealdade havia se ofuscado e desaparecido. Olhou para dentro de si e encontrou ali uma questão esperando por ele: pelo que você vai lutar agora, Jack? – Eu tenho uma família – disse ele em um sussurro. – Eles são tudo para mim. – Eles estão… aqui? Jack não respondeu. Qualquer coisa que dissesse para aquele homem iria terminar nas mãos das pessoas que o estavam caçando. – Vou sair daqui – disse ele, após um momento. – Para longe. Hong Kong. Foi o primeiro lugar que lhe ocorreu, e era uma mentira boa o bastante para deixar para trás. Chet parou, a bandagem acima do tiro substituída e os outros cortes tão bem cuidados quanto era possível. Ele se virou, apontando para os gabinetes de remédios. – Olha, eu posso… – Não precisa – Jack saiu da maca e colocou as mãos ao redor do pescoço do técnico antes que ele pudesse impedi-lo. Apertando com firmeza, ele deu uma gravata no pescoço de Chet e observouo ofegar e lutar. – Não lute. Em alguns segundos, o técnico amoleceu, e Jack o colocou gentilmente no chão. Tirou as chaves de Chet do chaveiro em seu cinto e vasculhou os gabinetes atrás de doses de antibióticos e analgésicos. Ele tinha o peito mais estreito que o de Jack, mas a camisa que vestia sob o uniforme lhe servia mais ou menos. Jack pegou o pouco de dinheiro que o homem tinha consigo e saiu de novo pela janela pela qual entrara. Do lado de fora, as nuvens se aproximavam e o sol já havia sumido de vista sob os prédios de apartamento que margeavam a avenida. A um bloco dali, encontrou um antigo Toyota com uma fechadura enferrujada.

Cinco minutos depois estava dirigindo para o oeste, escondendo-se em plena vista entre as filas do trânsito da hora do rush. Jack deu uma olhada em si mesmo no retrovisor e aqueles conhecidos olhos verdes o espiaram de volta, uma memória espreitando ali. A lembrança de uma promessa feita, a única que ele ainda tinha para manter, a única que lhe restara. – Eu vou te ver em breve, Kim – disse para o ar. As portas do elevador se abriram para deixar o Agente Especial Thomas Hadley no 23o andar do prédio Jacob K. Javits e ele saiu para uma espécie de caos controlado. A atmosfera no escritório do FBI em Nova York era tensa e ele umedeceu os lábios inconscientemente, quase como se pudesse sentir o sabor da urgência no ar. Hadley se identificou e ainda estava prendendo o crachá ao bolso do terno quando quase colidiu com Mike Dwyer, um agente supervisor, e seu superior direto. – Tom, que bom – disse Dwyer, puxando-o de lado. – Você chegou. Chegando aos cinquenta anos e atarracado, Dwyer contrastava imensamente com a compleição esguia e atlética de Hadley – pálido e loiro, enquanto o jovem era moreno e tinha a cabeça raspada. Hadley assentiu, reparando nos outros doze agentes indo de um lado para o outro, todos concentrados em tarefas urgentes que ele mal podia adivinhar. – Todos a postos, hein? Dwyer balançou a cabeça afirmativamente. – Todos e mais alguns. – Eu tenho tempo para tomar um café? – Não – o outro agente apontou com o polegar para um escritório fechado de vidro do outro lado da sala. – O AEAE deixou ordens para enviá-lo diretamente a ele quando chegasse aqui. Se descobrir que eu deixei você sequer pendurar o casaco antes de falar com ele, cortaria minhas bolas. Os olhos de Hadley se arregalaram. No longo caminho dirigindo até ali, tinha recebido fragmentos de informações do que estava acontecendo em Nova York pelas estações de notícia do rádio, no entanto nada muito concreto. – Tão ruim assim? – Seja lá o que você tenha ouvido – disse Dwyer, afastando-se –, é pior. Os lábios de Hadley se curvaram e ele abriu caminho pelo escritório, pegando relances de outros agentes revisando filmagens ou berrando ordens ao telefone. Havia torcido para que os rumores de um ataque terrorista na cidade fossem apenas histeria, uma reação exagerada de gente que tinha ouvido parte da verdade e tinha uma imaginação hiperativa. Mas estar naquele escritório agora lhe dizia que este não era o caso. Enquanto se aproximava do escritório do Agente Especial Assistente Encarregado Rod O’Leary, viu que o irlandês grandalhão estava ao telefone, o aparelho grudado a seu ouvido. O’Leary viu Hadley através do vidro e o chamou com um gesto tenso da mão.

– Não ajuda ninguém se você começar a enrolar – dizia o AEAE. – Se você quer que o FBI faça algo que nós possamos chamar efetivamente de assistência, sugiro que consiga que o pessoal da Segurança Nacional gentilmente tire as cabeças dos próprios rabos – O’Leary assentiu enquanto uma vozinha do outro lado da linha replicava em afirmativo. – Arrã. Certo. Faça isso. E me ligue quando conseguir. Ele colocou o telefone no receptor e soltou o fôlego. – Senhor – começou Hadley. – O senhor queria me ver? – Feche a porta, Tom, e sente-se. Hadley se largou em uma cadeira do outro lado da mesa lotada de seu chefe e ficou observando enquanto O’Leary organizava seus pensamentos. O homem era inflexível, com frequência grosseiro, mas também era direto, e isso era algo com que Thomas Hadley podia lidar. Contudo, nos meses desde que fora designado para o escritório da cidade de Nova York, ele nunca havia sentido que o AEAE desejasse lhe dar alguma atenção. Imaginou o que teria mudado. – Para encurtar a história… – O’Leary se lançou em uma explanação antes que Hadley pudesse fazer qualquer pergunta. – Nas últimas vinte e quatro horas tivemos o líder de um governo estrangeiro sequestrado e morto em nosso próprio território, pelo povo dele. – Omar Hassan – disse Hadley, assentindo. – O que não chegou ao conhecimento público é que os assassinos de Hassan tinham uma bomba atômica que iriam explodir aqui mesmo, em Nova York. Ou que, aparentemente, pode haver elementos dentro do governo russo que estavam envolvidos para fazer isso acontecer. A garganta de Hadley secou. – Isso… isso foi confirmado? – Não, não foi confirmado droga nenhuma – disparou O’Leary, sua irritação ficando óbvia. – Temos a matriz de todos os incidentes internacionais se desenrolando bem diante de nossos olhos, além de uma bagunça que faria o 11 de setembro parecer um show de beira de estrada. O FBI, a Segurança Nacional, o Serviço Secreto, a polícia de Nova York, todos estão bem no meio disso e nós não estamos sequer na mesma página. A Unidade Contraterrorismo foi completamente destruída, algo a ver com um ataque em seus sistemas, então eles estão de fora… – ele suspirou. – E se isso não bastasse, parece que a presidente vai melar toda a sua carreira antes do fim do dia. – Certo… – a mente de Hadley estava em disparada, tentando processar tudo isso.

– Então, qual a minha tarefa nisso tudo? – Nós vamos chegar lá – o comportamento de O’Leary mudou. – Antes, uma outra coisa. Tenho más notícias – ele fez uma pausa. – Tenho de lhe dizer que Jason Pillar foi morto a tiros há pouco mais de uma hora. Sinto muito, eu sei que ele era seu amigo. – O quê? – sem nenhum pensamento consciente, a mão de Hadley foi até o ponto acima de sua clavícula, onde, sob sua camisa, estava uma tatuagem em fonte gótica dizendo Semper Fidelis; Sempre Fiel, o lema da Marinha dos Estados Unidos. – Eu sei que Pillar foi seu comandante no Golfo, e que vocês eram próximos. Queria que você ouvisse primeiro por mim. – Obrigado, senhor… – Hadley ficou em silêncio por um instante. A verdade era que sua época na Marinha não tinha sido boa, e se não fosse por Pillar, teria sido ainda pior. Quando Hadley e a corporação se separaram, enfim – e em termos nada amigáveis –, tinha sido seu ex-comandante que ajudara Tom a encontrar seu caminho para uma carreira como policial e, eventualmente, no FBI. O homem havia dito que vira algo nele. O próprio Pillar tinha seguido em frente para missões maiores e melhores, primeiro com a Agência de Espionagem da Defesa e depois como assistente-executivo do ex-presidente Charles Logan; e os dois tinham mantido contato próximo ao longo dos anos. Hadley sabia que algumas pessoas no escritório de campo de Nova York – inclusive O’Leary – acreditavam que Pillar ajudara a ignorar coisas no passado de Hadley que talvez impedissem seu avanço. E tudo aquilo era verdade, claro, mas Hadley jamais admitiria. E agora seu amigo e aliado estava morto. – Os detalhes são vagos – O’Leary estava dizendo. – O tiroteio ocorreu dentro do prédio das Nações Unidas. Charles Logan estava lá com ele e está em estado crítico devido a um ferimento a bala. O Serviço Secreto está escondendo o jogo, não estão nos dizendo nada. Nada foi divulgado a respeito de quaisquer suspeitos. Mas o rumor é que Logan pode não sobreviver a esta noite. – Isso está relacionado ao assassinato de Hassan e ao plano da bomba? – Não podemos excluir essa possibilidade – O’Leary inclinou-se para a frente. – Porém, neste momento, preciso que você se concentre em uma nova missão. Tenho gente vindo de todo canto e, ainda por cima, temos uma ordem com prioridade número um direto do diretor-suplente – ele segurou uma pilha de papéis e a entregou ao agente.

– Você precisa reunir uma equipe de perseguição para rastrear e prender esse homem. – Jack Bauer – Hadley leu o nome do arquivo diante dele. – Já ouvi falar desse cara. Se metade do que dizem sobre ele for verdade, ele é uma ameaça… O’Leary fechou a cara. – Aonde ele vai, logo surgem problemas. Também perdemos um dos nossos na noite passada, uma ex-agente chamada Renee Walker. Ela era parte daquele negócio com Starkwood um tempo atrás, mas deixou o FBI logo em seguida… Bauer teve algo a ver com isso. Aposto que ele está envolvido na morte dela. – É sobre isso, então? – Hadley ergueu o arquivo. – Nós o queremos pelo assassinato de Walker? – Nós o queremos porque há um mandado pela cabeça dele por atos de traição e conspiração contra os Estados Unidos, além do assassinato de uma porção de russos. Toda essa merda com a República Islâmica do Camistão, o acordo de paz… – O’Leary gesticulou no ar. – Ele está ligado a tudo isso. No entanto, não vamos saber como, exatamente, até que ele esteja numa sala de interrogatório. Seu amigo Pillar estava usando a UCT para rastreá-lo, mas ele escapou. Os olhos de Hadley se arregalaram. – Então Bauer está ligado também ao tiroteio na ONU? – É possível. Não temos certeza. Ele não adorava o Logan, isso é fato. Porém, neste momento estamos trabalhando baseados em suposições e circunstância. Isso tem que mudar. Estamos razoavelmente seguros de que Bauer ainda está na cidade, mas até agora eu não tinha o pessoal para ir atrás dele. Esse é o seu trabalho agora. Hadley aquiesceu gravemente, seu olhar endurecendo. – Entendido. Vou terminar o que Pillar… o que foi começado.

O AEAE o observou com atenção. – Olha, Tom… eu vou ser sincero com você. Nós nunca nos entendemos muito bem, você e eu. Acho que seus métodos são questionáveis. Mas agora tenho uma caçada humana para executar, além de um alerta de terrorismo pela cidade toda, e pelo fato de ser o homem errado no lugar errado, você vai ser o cara que vai fazer isso para mim. Agora, pegue seja lá o que for que lhe sirva de motivação e execute o trabalho. Não quero vê-lo nem ouvi-lo até que Bauer esteja algemado. Fui claro? – Como cristal, senhor. – Dwyer cedeu algumas pessoas para isso. Dell, Markinson, Kilner e mais dois, se você precisar de reforço. Atualize-se e oriente-os. O telefone tocou e o AEAE o atendeu, dispensando Hadley com um gesto. Ele saiu da sala e voltou para o escritório principal, processando tudo o que foi dito. Analisou a imagem de Jack Bauer em seu arquivo, tentando decifrar o sujeito que jamais conhecera. As mãos de Hadley fecharam-se em punhos. Se Bauer estivesse mesmo ligado à morte de Pillar, ele devia a seu antigo comandante essa prisão; ocorria-lhe agora que essa também podia ser uma oportunidade para calar qualquer desconfiança que ainda houvesse sobre ele desde que viera para Nova York. E se isso significasse que ele precisaria utilizar alguns dos métodos “questionáveis” que O’Leary não apreciava… isso não era problema para ele. Do outro lado de Manhattan, alguns quilômetros ao norte e em um sobrado com fachada de pedra perto da East 91st Street, outro ex-soldado estava analisando o mesmo rosto e o mesmo objetivo. Arkady Bazin ainda era um garoto quando tinha ido para a guerra durante a invasão do Afeganistão; um jovem abaixo da idade de alistamento que roubara a certidão de nascimento do irmão mais velho e a utilizara para fingir ter idade suficiente para lutar. Na época, ele estava cego por um fervor patriótico que agora lhe parecia pitoresco. Todavia, mesmo décadas depois, o amor de Bazin pela Mãe Rússia não havia desvanecido. Ele se transformara em um tipo de inércia resoluta e impiedosa – como se Bazin fosse uma arma que tivesse sido solta para rolar e rolar, esmagando os inimigos de seu povo. E nunca havia uma escassez desses. Naqueles primeiros dias de sangue e fogo como um jovemsoldado, Bazin aprendera uma verdade fundamental: a guerra não tinha fim, eram apenas os campos de batalha e os rostos de seus inimigos que mudavam. Ele largou a pasta que tinha na mão e seus lábios se apertaram.

Pela janela em arco atrás dele moviam-se linhas de luz brilhante, lançando fachos descorados pelas paredes e pelo teto da sala de conferência onde ele estava sentado. Havia furgões televisivos lá fora, uma fila deles estacionados juntos uns dos outros com suas antenas transmissoras armadas e seus repórteres intercambiáveis falando sem parar nos microfones em suas mãos. As luzes caíam das lâmpadas das câmeras, capturando o branco, vermelho e azul da bandeira tremulando sobre a entrada do Consulado Geral da Federação Russa. Cercando as equipes de TV estava a polícia americana, resmungona e de cara azeda diante de suas obrigações, e dentro do perímetro das cercas de ferro preto ao redor do prédio do consulado havia outra classe de observadores. Esses estavam armados de submetralhadoras Skorpion e pistolas Makarov escondidas sob jaquetas volumosas, cautelosos para garantir que as pessoas do lugar não os vissem. O SBP – serviço de segurança presidencial da Rússia – estava aqui com força total para proteger o presidente Yuri Suvarov em sua visita internacional, porém os eventos das últimas horas haviam mudado o ritmo dessa atividade de uma discreta projeção de poder para uma força de ocupação militar. Dentro do consulado, o SBP tinha fixado guardas em todos os níveis. Bazin vira um relance deles na Sala de Situação, em uma comunicação tensa com a equipe do jato de Suvarov na pista de pouso do aeroporto internacional John F. Kennedy. Ele franziu o cenho ao pensar nisso. Se a decisão estivesse nas mãos dele, Bazin teria enviado seu presidente diretamente para o aeroporto e ele estaria no ar agora, fora de qualquer risco e longe do solo estrangeiro. Verdade fosse dita, se a decisão fosse dele, em primeiro lugar, jamais teria permitido que Suvarov viesse até a América, para falar com os governantes desse país e todos os outros como se fossem seus iguais. A ideia em si fazia seu lábio se retorcer em uma expressão de desdém. Anos de operações secretas nos Estados Unidos e seus arredores haviam instilado nele uma profunda desconfiança dessa nação e de seu povo. Como oficial da Sluzhba Vneshney Razvedki, a agência de inteligência externa da Federação Russa, a exposição de Bazin à América tinha acontecido prioritariamente ao lidar com traidores, gananciosos e os tipos mais venais entre a população daquele país. O que sempre o mantivera focado era o conhecimento de que seu trabalho detinha uma corrosão vital, sempre devorando a superioridade imaginária do velho inimigo de sua terra natal. Alguns dias ele se cansava daquilo, mas sabia que não podia recuar. O Ocidente não podia vencer, nem mesmo por um momento. Eles precisavam se opor, até a morte, se necessário. Bazin achava difícil considerar os americanos gente de verdade, enquanto os comparava com seus camaradas russos. Eles eram inferiores, com sua egolatria e seu comportamento superficial e materialista – e o que mais o assustava era a possibilidade desse comportamento estar lentamente cruzando o oceano para infectar o seu povo. Ele queria ver isso acabar, e parecia que Yuri Suvarov era um homem que também pensava assim. Uma pequena parte de Bazin torcia para que ele de fato conseguisse conhecer o presidente; certamente, ambos estavam sob o mesmo teto naquele instante. Suvarov era um homem que compreendia que o Grande Urso Soviético não havia perecido, apenas hibernado; era o tipo de líder que podia reacender a velha união de que os estados russos tinham desfrutado nos dias da Era Comunista, se recebesse a chance. Bazin gostava de pensar que Suvarov veria nele um espírito irmão, alguém que relembrava e reverenciava os dias em que sua nação era uma força que não podia ser ignorada na política global.

Mas não. Desprezou o pensamento como bobagem e não profissional. Estava correto que o presidente Suvarov jamais conhecesse seu rosto ou seu nome. Bazin via a si mesmo como um filho leal da Mãe Pátria, e era suficiente que Suvarov soubesse apenas que havia armas à sua disposição que poderiam ser usadas para mostrar aos inimigos da Rússia o seu poder. Ele olhou de novo para a foto. Esse homem, esse Jack Bauer, era um desses inimigos. As informações a seu respeito haviam sido reunidas por espiões infiltrados na CIA e por aliados no governo chinês, uma colcha de retalhos de meias verdades e boatos que montavam uma imagem de quem era Bauer e do que ele era capaz. Um policial, um soldado, um espião, um assassino… Bauer tinha sido todas essas coisas, porém agora era apenas um alvo. A expressão de desprezo voltou ao rosto de Bazin. Esse ex-assassino da CIA era o exemplo perfeito de por que ele fazia o que fazia. Eles tinham quase a mesma idade, pouco mais de seis meses entre suas datas de nascimento, e talvez, na superfície, ambos parecessem o mesmo tipo de homem. Mas uma comparação assim deixaria Bazin enfurecido. O arquivo de Bauer revelava a verdade sobre ele; ele era tão americano, cada missão executada por ele nascia de alguma noção arrogante de sua nação de que eles tinham o direito de impor sua vontade ao resto do mundo. Bauer era um canalha; sua carreira sangrenta, na melhor das hipóteses, era mal disfarçada por seu governo com um tecido tão fino quanto uma folha de papel – na pior das hipóteses, era o trabalho de um psicopata semnenhum código de honra, nenhuma lealdade a nada além de seu próprio senso de certo e errado. Eles nunca tinham se encontrado, mas em algum nível Bazin já odiava esse homem. Ele desprezava o canceroso sistema capitalista que podia criar alguém como Jack Bauer. Houve uma batida na porta e Bazin ergueu o olhar quando uma mulher entrou. Ela tinha a pose orgulhosa de uma garota da sociedade moscovita, no entanto ele sabia por experiência própria que esse comportamento era apenas uma cortina de fumaça. Embora Galina Ziminova fosse mais jovemque ele, e, às vezes, liberal demais para seu gosto, Bazin apreciava o fato de que a agente da SVR era uma assassina talentosa e verdadeira patriota… mesmo que a “nova” Rússia da qual ela vinha não fosse a mesmo que tinha sido mãe e protetora para ele. – A equipe está aqui, senhor – disse ela. Ele assentiu. – Traga-os para dentro. Ziminova retornou o gesto dele e fez uma pausa ao olhar para a fotografia de Bauer. – Esse é ele?

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