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28 Contos de John Cheever – John Cheever

Lançada em 1978, The stories of John Cheever, a coletânea da qual foram selecionados os contos aqui publicados, é considerada um fenômeno editorial até hoje, mais de trinta anos depois. Nunca, até e desde então, um livro de contos, gênero que raramente chega às listas de mais vendidos, obteve tamanho sucesso nos Estados Unidos: vendeu 125 mil exemplares na edição de capa dura e figurou por seis meses na lista de best-sellers do New York Times. O triunfo se estendeu ao circuito da literatura institucional e à imprensa. The stories of John Cheever ganhou três dos prêmios literários mais prestigiosos, o Pulitzer, o National Book Circle Critics Award e o American Book Award. O Washington Post afirmou que “os contos de John Cheever são, simplesmente, os melhores”. A revista Time estabeleceu que a antologia “mapeava uma das obras mais importantes das letras contemporâneas”. E o New York Times decretou que o livro não era “apenas o acontecimento literário do momento, mas um evento maior na literatura inglesa”. A celebração de John Cheever começara no ano anterior, 1977, com a publicação do romance Acerto de contas (Falconer, no original), que levou a revista Newsweek a estampar na sua capa a manchete “Um grande romance americano”. E prosseguiu até a morte do escritor. Em abril de 1982, Cheever recebeu a National Medal for Literature. “Uma página de boa prosa permanece invencível”, disse ele ao aceitar a honraria no Carnegie Hall, em Nova York. Passados menos de dois meses, morreu de câncer. Obituários que o qualificaram de inventor e mestre foram postos na primeira página de grandes jornais. A revista New Yorker o descreveu como “uma das maiores figuras literárias do país nos últimos cinquenta anos”. A celebração apontava para duas verdades, uma biográfica e outra literária. No plano existencial, ele seria o ápice de uma vida produtiva e feliz. Morador durante décadas de uma casa antiga emOssining, subúrbio de classe média alta à beira do rio Hudson, em Nova York, o escritor teve um casamento duradouro, três filhos bem encaminhados e viveu apenas da sua arte. Uma arte da qual não se desviou. Que preservou do comercialismo e das modas. E na qual persistiu até ser admirado pelos críticos, pela academia (apesar de não ter terminado o curso secundário, recebeu em 1978 um título honorário de Harvard) e pelos seus pares — entre eles, Philip Roth, Saul Bellow, John Irving e John Updike, para o qual Cheever “escrevia como com a pena da asa de um anjo”. Sua obra investiga aspectos à primeira vista específicos da vida americana de meados do século XX: a aridez espiritual dos subúrbios ricos e, concomitantemente, a possibilidade de transcendência do indivíduo numa sociedade cujo fundamento é a alienação. Colados à realidade, seus melhores contos soam como críticas inexoráveis do vazio de seus personagens, das vidas anódinas a que estão condenados. Ainda assim, em situações extremas, e por meio de rupturas líricas da narrativa realista, Cheever abre caminho para epifanias: a existência não seria só isolamento sem sentido; o amor, as relações familiares e a natureza, transformados pela arte, são motivo de alumbramento. Em outros termos, a consagração de The stories of John Cheever e os obituários apoteóticos serviriam de alavanca para colocar a sua obra no cânone americano, na condição de clássico da literatura contemporânea. Daí Cheever ter sido rotulado de “o Ovídio de Ossining” e “o Tchekhov americano”.


Nem a verdade biográfica nem a literária se confirmaram. Nas últimas décadas, a máscara pública do John Cheever lhano e modesto, o americano tranquilo por excelência, deu lugar à figura angustiada de um alcoólatra agressivo. Saiu o anjo e entrou o demônio que atormentou a mulher e os filhos, abusou de dezenas de amantes de ambos os sexos (admiradoras e jovens protegidos) e se ressentia na surdina do sucesso dos colegas que, de viva voz, enaltecia. Quanto à obra, ela praticamente não é estudada nas universidades, não foi assunto de nenhumcrítico de renome e parece não entusiasmar os novos leitores. The stories agora vendem 5 mil exemplares por ano. Um número “excelente para um livro de contos, mas desprezível para umclássico do pós-guerra”, conforme observou o seu biógrafo Blake Bailey em Cheever — A life, publicado em 2009. O que aconteceu? A boa prosa não é invencível? John Cheever nasceu numa família branca, anglo-saxã e puritana de Massachusetts e se vangloriava da sua estirpe, por assim dizer, aristocrática. “Nunca esqueça que você é um Cheever”, repetia ele aos filhos, querendo dizer que um Cheever sabe de onde veio e quem é. Só que ele engrandecia as suas origens e não aceitava ser quem era. Seu pai foi um vendedor de sapatos que sucumbiu à bancarrota e à depressão. Para manter a família, sua mãe abriu uma loja de enfeites e presentes, algo que Cheever considerava uma “humilhação abissal” (o mundo heroico do passado que se condensa em comércio de quinquilharias para turistas é um tema do seu primeiro romance, A crônica dos Wapshot). Foi um segundo filho indesejado: a mãe lhe contou que, se não tivesse tomado um drinque a mais numa determinada noite em Nova York, ele não teria sido concebido; e que o marido a aconselhara a procurar um aborteiro. Sua maior ligação na infância foi com o irmão mais velho, Fred. É assim que John Cheever o descreve, numa anotação de 1967 do seu diário: Meu único irmão, depois de vinte e cinco anos enchendo a cara e de duas crises alcoólicas terminais; depois de ter perdido o emprego e todos os seus bens na Terra, a mulher, e a confiança e o afeto de pelo menos dois dos filhos; depois de ter considerado todos os que o empregaram estúpidos e insensíveis; depois de ter cambaleado à deriva em quartos de pensão, vendendo anúncios para uma pequena estação de rádio; depois de ter sido aleijado pela artrite; depois de chegar aos sessenta e dois anos de idade, me telefona às nove da manhã, quando ainda estou jogado na cama, nauseado pela ressaca. Sua voz é exclamativa e calorosa. Atencioso, pergunta como vou indo, exatamente como fazia quando ficava bêbado uma semana inteira. Agrada-me pensar que temos em comum a compleição resistente. Lembro como, misteriosamente, a nossa relação virou uma competição. Ele vai dirigir até o Colorado no sábado, enquanto eu, o moderado, o sóbrio, o laborioso etc., mal posso guiar até o vilarejo vizinho. O diário deixa entrever que Fred foi a bússola de Cheever até o fim da adolescência: “Ele era o centro da minha vida, minha moral, meu sentido de bem e mal”, escreveu. O diário também permite supor que tiveram uma relação incestuosa, possivelmente carnal. Que se desentenderam de maneira irremediável na juventude, e que a ruptura provocou em Cheever um remorso que ele carregou até o túmulo. Que, além da compleição resistente, compartilharam o alcoolismo, a fúria autodestrutiva e casamentos conturbados, para não dizer infernais. E que nunca deixaram de se amar.

O primeiro conto desta coletânea, “Adeus, meu irmão”, se baseia na ligação entre Fred e John. John Cheever foi um aluno medíocre (seus originais estão repletos de erros ortográficos) e popular entre os colegas devido à capacidade incomum de inventar e contar histórias. Era um dom inato. Chamado à frente da classe, narrava uma história fabulosa à medida que a criava. Foi expulso da escola por ter sido pego fumando. Usou a experiência para escrever o conto “Expulso”, que enviou para a New Republic. Um editor da revista reconheceu no escrito a “voz de uma nova geração” e o publicou. Cheever tinha dezessete anos. Vendeu mais um conto, “Buffalo”, para The New Yorker. A ele se seguiriam, por mais de quatro décadas, 120 outros. Desde a sua fundação, em 1925, a New Yorker publicou todas as semanas contos e trechos de romances. Aos poucos, deixou de ser uma revista de humor leve, esnobe e marcadamente nova-iorquina para virar uma publicação cosmopolita. Com o enriquecimento americano no pós-guerra, o seu público decuplicou. E migrou de apartamentos de Manhattan para casas espaçosas nos subúrbios de Nova York. O fundador e primeiro editor da revista, Harold Ross, acreditava que ela deveria publicar contos brandos, que, em vez de espicaçar a inteligência dos leitores, os entretivessem suavemente. Não admitia palavrões, descrições de sexo, violência e ousadias formais. Nesse credo, a ficção pacata de um John Updike ou de um Richard Yates rendiam mais do que os sobressaltos de um Norman Mailer ou de um Jack Kerouac. Em todos esses aspectos, John Cheever era o autor ideal para a New Yorker. Com duas vantagens adicionais. Primeiro, o universo físico e emocional dos seus contos, o dos subúrbios afluentes (que se generalizariam em torno de quase todas as metrópoles americanas), era o mesmo dos leitores da revista, possibilitando identificação. E, depois, porque Cheever, sem forçar a mão, ecoava lendas da Antiguidade clássica e parábolas bíblicas. “O nadador”, por exemplo, alude tanto ao mito de Narciso como ao périplo de Ulisses. Com isso, ele como que enobrecia os leitores. A New Yorker, escreveu Cheever, “me deu o presente inestimável de um grupo grande, sagaz e sensível de leitores, e dinheiro suficiente para alimentar minha família e comprar um terno a cada dois anos”. Nem por isso o seu contato com a revista foi fácil.

Num longo ensaio sobre a reputação do escritor, publicado no ano passado, Charles McGrath sustentou que Cheever teve com os editores da New Yorker uma relação “do tipo que às vezes se tem com a família — próxima e confiante no começo, e no fim desconfiada e briguenta em questões de dinheiro”. Dinheiro, aliás, negaceado. A revista era a que melhor remunerava os colaboradores, mas estava longe de ser pródiga. E os seus editores queriam que o escritor se ativesse à fórmula bem-sucedida. Entre forma artística e fórmula editorial, porém, há um espaço que, no caso de Cheever, às vezes se assemelhou a uma prisão. Ele queria arriscar-se em outras direções, como o romance. Acabou fazendo contos formalmente mais ousados e romances. Com intensidade crescente, implicou com as sugestões de mudança e comentários de editores da New Yorker. Brigaram feio mais de uma vez. A revista veio a reformular suas normas quanto a peças de ficção. Mas a expressão “contos da New Yorker” havia adquirido nas universidades uma conotação pejorativa, sinônimo de literatura de segunda categoria, de concessão ao gosto de um público conservador, a middle America. E Cheever foi reduzido a expoente dessa pretensa subliteratura. Com a morte do escritor, um candidato a biógrafo se aproximou da família e contou que sabia muito mais do que eles a respeito da lancinante ambiguidade sexual de Cheever, e que pretendia revelá-la. Para se adiantar, e controlar a repercussão, sua filha Susan Cheever publicou em 1984 um livro de memórias intitulado Home before dark. O livro se baseia nas reminiscências dela e nos diários que o escritor guardara num cofre do museu Morgan, em Nova York. Registrados em 29 cadernos, num total de mais de 4 mil páginas, os diários se estendem do fim dos anos 40 ao início dos 80. Home before dark provocou perplexidade por revelar o homossexualismo e o alcoolismo de Cheever. Para quem admirava o artista sempre em busca “da luz e do brilho”, como notou um comentarista, foi chocante a exposição da sua personalidade doloridamente sombria. Passados mais quatro anos, foram publicadas algumas das cartas do escritor, e elas corroboraram essa percepção. Por fim, a New Yorker comprou, por 1,2 milhão de dólares, o direito de reproduzir trechos dos diários de Cheever. Ao longo de doze meses, em seis partes distintas, a revista publicou cerca de 5% dos diários. O mesmo material foi recolhido no livro The journals of John Cheever. A discrepância entre o artista e sua obra tornou-se, então, esquizofrênica. As descrições minuciosas de cenas sexuais (inclusive masturbação), o ódio aos homossexuais, apesar de ser um deles, o relato frio do seu pouco-caso com os filhos, o revolver repetido do dia a dia de hostilidades entre ele e a mulher, a batalha eternamente perdida para não tomar álcool antes do meio-dia (e em seguida antes das onze, das dez e até das nove da manhã), a tristeza atroz e constante tornam penosa a leitura dos Journals. O contista lírico, o cantor da alegria da vida em família, o arauto das virtudes da contenção e da simplicidade saiu de cena definitivamente.

Depois de uma internação, em 1975, e de aderir aos Alcoólicos Anônimos, Cheever nunca mais bebeu. Mais tarde, chegou também a certo equilíbrio sexual e amoroso, reconciliando-se em parte com a família e consigo mesmo. Mas, postumamente, o que ficou foi a imagem crua projetada pelos diários — a do pobre-diabo perdido na treva mais espessa. Imagem que contaminou uma obra feita de nuances, alusões sutis e iluminações inesperadas. As mudanças no ambiente literário americano nas últimas décadas também não ajudaram a obra de Cheever. Nos departamentos de letras, a valorização dos artistas de comunidades e minorias (gays, negros, latinos, feministas etc.) se fez em detrimento dos escritores brancos, anglo-saxões e de classe média, e em oposição a eles. Para piorar, é difícil definir a filiação literária de Cheever. Na querela entre os modernos e pós-modernos, ele fica num não lugar. Foi influenciado por Hemingway e Fitzgerald, mas não está longe de John Barth e Donald Barthelme. E, em todo caso, a reputação dos quatro já teve dias melhores. Para lá da política e das modas literárias, a obra de Cheever, sobretudo os contos, tem apelo universal. Desde os anos 50, ela foi admirada nos países submetidos ao stalinismo, a começar pela finada União Soviética, onde até hoje ele é tido como um grande escritor. Isso para não falar da França e do Brasil, países onde sua obra, exceto pelos diários, foi publicada praticamente na íntegra e continua a ser reeditada. Mesmo na China, ele tem fãs: o escritor Wang Meng, ministro da Cultura no final dos anos 80, disse certa vez que Cheever era o seu escritor favorito. A boa prosa continua invencível. Adeus, meu irmão Nossa família sempre foi muito unida espiritualmente. Papai morreu afogado num acidente de barco quando éramos pequenos e mamãe costuma dizer que nossas relações familiares possuem um tipo de permanência que jamais voltaremos a encontrar. Embora eu não pense frequentemente na família, quando lembro de meus parentes, da área da costa em que viviam e do sal marinho que faz parte de nosso sangue, fico feliz em saber que sou um Pommeroy — que herdei deles o nariz, a cor da pele e a promessa de longevidade. Não que sejamos uma família de estirpe, porém, quando estamos juntos, nos permitimos a ilusão de que os Pommeroy têm algo de especial. Não digo isso porque me interesse pela história da família ou por dar grande importância a essa sensação de sermos especiais, mas apenas para deixar claro que somos leais uns com os outros a despeito de nossas diferenças e que qualquer ruptura nessa lealdade constitui uma fonte de dor e confusão. Somos quatro filhos: minha irmã Diana e três homens — Chaddy, Lawrence e eu. Como ocorre com quase todas as famílias depois que os filhos passam dos vinte anos, fomos nos separando por conta dos empregos, dos casamentos e da guerra. Helen e eu agora moramos em Long Island comnossos quatro filhos. Sou professor numa escola secundária e, se já não tenho a pretensão de chegar a diretor, admiro o trabalho que faço.

Chaddy, que se deu melhor do que qualquer um de nós, vive em Manhattan com Odette e seus filhos. Mamãe mora na Filadélfia e Diana ficou na França após o divórcio, só voltando aos Estados Unidos no verão para passar um mês em Laud’s Head. Laud’s Head é um local de veraneio numa ilha de Massachusetts. Onde antes tínhamos apenas uma cabana de praia, papai construiu na década de 20 uma casa bem grande no alto de um promontório. Comexceção de Saint-Tropez e de algumas cidadezinhas nos Apeninos, aquele é meu lugar predileto no mundo. Todos nós temos uma parcela da propriedade e contribuímos para sua manutenção. Nosso irmão mais moço, Lawrence, que é advogado, se empregou numa firma de Cleveland depois da guerra e ficamos quatro anos sem vê-lo. Quando decidiu se mudar para Albany, escreveu a mamãe dizendo que, antes de começar a trabalhar na nova firma, passaria dez dias em Laud’s Head com a esposa e os dois filhos. Sua estada lá coincidiria com a época em que eu havia planejado tirar férias com Helen depois de terminadas as aulas do período de verão. Como Chaddy, Odette e Diana também iam para lá naqueles dias, toda a família estaria reunida. Lawrence é o membro da família com quem todos os outros têm menos em comum. Nunca convivemos muito com ele e suponho que por isso ainda o chamemos de Tifty — apelido que ganhou na infância porque, quando vinha pelo corredor para tomar o café da manhã, seus chinelos faziam um ruído semelhante ao som daquela palavra. Era assim que papai o chamava, e todos passaram a fazer o mesmo. Quando ele cresceu, Diana às vezes o chamava de Menino Jesus e mamãe, frequentemente, de Resmungão. Embora não gostássemos de Lawrence, aguardávamos seu retorno com um misto de apreensão e lealdade, somado à alegria e ao prazer de recuperar um irmão. Lawrence chegou à ilha no barco das quatro da tarde, já no fim do verão, sendo recebido por mime por Chaddy. As chegadas e saídas das balsas no verão são cercadas de todo o aparato das grandes viagens — apitos, sinos, baús, encontros calorosos, cheiro de maresia —, conquanto se trate de uma travessia banal; quando vi o barco entrar no porto azul naquela tarde e pensei que ele completara uma viagem banal, percebi que esse era exatamente o tipo de observação que Lawrence teria feito. Procuramos seu rosto detrás dos para-brisas dos carros que desciam da balsa e não foi difícil reconhecê-lo. Corremos para lhe dar um aperto de mão e beijar meio sem jeito sua esposa e as crianças. “Tifty!”, Chaddy gritou. “Tifty!” É difícil avaliar as mudanças na aparência de um irmão, mas, ao voltarmos para Laud’s Head, Chaddy e eu concordamos que ele ainda tinha um ar bastante jovem. Lawrence chegou à casa antes de nós e pegamos as malas em seu carro. Quando entrei, ele estava em pé na sala de visitas conversando com mamãe e com Diana. Usando suas melhores roupas e todas as joias, elas o recebiam com grande entusiasmo; mas mesmo então, quando todos tentavamse mostrar afetuosos e o momento favorecia tais manifestações, eu sentia uma ligeira tensão na sala. Refleti sobre isso enquanto subia as escadas carregando as pesadas malas de Lawrence e me dei conta de que nossas antipatias são tão profundamente enraizadas quanto nossas melhores paixões, lembrando-me de que vinte e cinco anos antes, quando joguei uma pedra na cabeça de Lawrence, ele se levantou do chão e correu para fazer queixa ao papai.

Levei as malas para o terceiro andar, onde Ruth, a esposa de Lawrence, começara a acomodar a família. Ela é bem magra e parecia muito cansada após a viagem, mas, quando perguntei se queria que lhe trouxesse um drinque, respondeu que não. Lawrence não estava por lá quando desci, mas todos os demais se preparavam para tomar umdrinque e resolvemos ir em frente sem ele. Lawrence é o único membro da família que jamais gostou de beber. Levamos as bebidas para o terraço a fim de apreciar a vista dos rochedos, do mar e das ilhas a leste. A chegada de Lawrence e de sua esposa, a presença deles na casa, parecia reavivar nossas reações à paisagem tão familiar, como se o prazer que eles iriam sentir diante da amplidão e das cores daquele trecho do litoral, após tão longa ausência, houvesse sido partilhado conosco. Ainda estávamos no terraço quando Lawrence chegou pelo caminho que subia da praia. “A praia não é uma beleza, Tifty?”, mamãe perguntou. “Não é formidável estar de volta aqui? Quer um martíni?” “Não faz nenhuma diferença”, Lawrence respondeu. “Uísque, gim — pouco me importa o tipo de bebida. Me dê um pouco de rum.” “Não temos nenhum rum”, disse mamãe. Era a primeira nota áspera. Ela nos ensinara a não sermos nunca indecisos, jamais responder como Lawrence respondera. Além disso, ela se preocupava muito em manter os comportamentos corretos na casa, e qualquer coisa irregular segundo seu entender, tal como beber rum puro ou levar uma lata de cerveja para a mesa, lhe causava uma perturbação que nem mesmo seu vasto senso de humor permitia superar. Ela sentiu a aspereza e tentou desanuviar a situação. “Você não quer um uísque irlandês, meu querido?”, ela perguntou. “Você sempre gostou de uísque de cevada, não é? Ali no aparador tem uísque irlandês. Por que não toma uma dose?” Lawrence disse que não fazia nenhuma diferença. Serviu-se do martíni e, quando Ruth desceu, fomos jantar. Embora a espera por Lawrence nos tivesse obrigado a beber demais antes do jantar, todos estávamos ansiosos para criar um clima agradável e fazer a refeição em paz. Mamãe é uma mulher pequena, cujo rosto ainda mostra quão bonita ela foi, e sempre conduz a conversa para temas leves, porém naquela noite só falou sobre um projeto de recuperação do solo na parte norte da ilha. Diana, tão bonita quanto mamãe deve ter sido, é uma mulher animada e charmosa que adora falar sobre os amigos libertinos que tem na França, mas naquela noite só falou sobre a escola na Suíça onde tinha deixado os dois filhos. Dava para ver que o jantar fora planejado para agradar a Lawrence. Os pratos não eram sofisticados, não havia nada de extravagante que pudesse aborrecê-lo.

Após o jantar, quando voltamos ao terraço, as nuvens estavam tingidas de um tom sanguíneo e fiquei satisfeito ao ver que Lawrence estava sendo recepcionado com um pôr do sol tão vívido. Alguns minutos depois um homem chamado Edward Chester veio apanhar Diana. Eles haviam se encontrado na França ou durante a viagem de navio e Edward resolvera se hospedar por dez dias no hotelzinho local. Foi apresentado a Lawrence e Ruth, saindo logo em seguida com Diana. “É com esse aí que ela agora anda dormindo?”, Lawrence perguntou. “Que coisa mais horrorosa de se dizer!”, Helen protestou. “Você devia pedir desculpas por falar uma coisa dessas, Tifty”, Chaddy disse. “Não sei”, mamãe comentou com voz cansada. “Não sei, Tifty. Diana é dona de seu nariz e eu não faço perguntas sórdidas. Ela é minha única filha. Não a vejo com frequência.” “Ela vai voltar para a França?” “Daqui a duas semanas.” Lawrence e Ruth estavam sentados no parapeito do terraço, e não nas cadeiras, nem no círculo de cadeiras. Com sua boca tensa, meu irmão era a imagem perfeita de um pastor puritano. Às vezes, quando tento entender sua maneira de pensar, lembro dos primeiros tempos de nossa família neste país. Aquele comentário sobre Diana e seu amante me trouxe isso à cabeça. O ramo dos Pommeroy a que pertencemos foi fundado por um pastor altamente louvado por Cotton Mather devido à sua incansável luta contra o Demônio. Os Pommeroy foram pastores até meados do século XIX, e a dureza de suas concepções — a vida humana é feita de dor, toda a beleza deste mundo nasce da concupiscência e é corrupta — foi preservada em livros e sermões. Embora o temperamento da família se tenha tornado mais alegre, quando criança conheci muitos primos e primas já velhos que, parecendo pertencer àquela época sombria dos sacerdotes, viviam mergulhados numa culpa perpétua e na deificação do flagelo. Para alguém criado nessa atmosfera, como de certo modo nós fomos, é umdesafio espiritual rejeitar os hábitos de culpa, autonegação, taciturnidade e penitência — e Lawrence sem dúvida não havia passado nesse teste. “Aquela ali é Cassiopeia?”, perguntou Odette. “Não, minha querida”, disse Chaddy. “Aquela não é Cassiopeia.” “Quem era Cassiopeia?”, continuou Odette.

“Era mulher de Cefeu e mãe de Andrômeda”, respondi.

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