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3 Grau – Clube das Mulheres Contra o Crime – Vol 3 – James Patterson

A PIOR SEMANA DA MINHA VIDA começou com uma manhã clara e calma de Abril. Estava a fazer jogging junto à baía com a minha border collie, Martha. É o meu costume aos domingos de manhã: levantar-me cedo e colocar a minha outra metade no lugar da frente do Explorer. Tento correr cinco quilómetros, desde Fort Mason até à ponte e voltar. O suficiente para me convencer de que me mantenho em algo parecido com uma boa forma física aos trinta e seis anos de idade. Nessa manhã, a minha amiga Jill acompanhou-me. Para fazer correr o seu cachorro labrador, Otis, ou, pelo menos, foi isso que alegou. Embora me tenha parecido que estivesse a fazer o aquecimento para uma subida de bicicleta ao monte Tamalpais, ou o que quer que fosse fazer mais tarde como exercício a sério. Era difícil de acreditar que haviam passado apenas cinco meses desde que perdera o bebé. Ali estava ela, o seu corpo novamente tonificado e esguio. – E então, como correu ontem à noite? – perguntou ela, caminhando sem esforço ao meu lado. – Corre o rumor de que tinhas um encontro. – Podes chamar-lhe um encontro… – disse, olhando para Fort Mason, que, para minha infelicidade, não parecia estar mais perto –, como poderás dizer que Bagdade é um local de veraneio. Ela fez uma careta. – Desculpa ter tocado no assunto. Durante toda a corrida, não me saiu da cabeça a recordação do desagradável comentário de Franklin Fratelli sobre «revenda de activos» (que era uma maneira fina de dizer que mandava gorilas contratados atrás dos donos das «ponto.com» em falência que já não podiam pagar os seus BMW e os seus relógios Franck Muller). Ao longo de dois meses, Fratelli aparecera no meu gabinete de cada vez que visitava a brigada, até que me fartei e o convidei para jantar um sábado à noite (tive de guardar no frigorífico as costeletas estufadas em vinho do Porto ao perceber no último momento que ele não ia aparecer). – Deixou-me plantada – expliquei entre um passo e outro. – Não perguntes mais nada. Não vou contar-te os pormenores. Parámos no final de Marina Green. Soltei um grito para aclarar os pulmões ao mesmo tempo que a corredora Mary Decker continuava aos pulinhos nas pontas dos pés como se fosse dar outra volta. – Não sei como consegues – comentei, com as mãos na cintura, tentando recuperar o fôlego. – A minha avó – explicou, rolando os ombros e esticando os tendões por trás dos joelhos – começou a caminhar oito quilómetros por dia quando tinha sessenta anos.


Agora tem noventa. Não fazemos ideia onde esteja. Desatámos a rir. Era bom ver que a antiga Jill começava a aparecer de novo. Era uma alegria escutar a sua risada outra vez. – Queres ir tomar um mochachino? – indaguei. – É a Martha que paga. – Não posso. O Steve regressa hoje de Chicago e quer ir de bicicleta ver a exposição do decano Friedlich na Legião de Honra assim que mudar de roupa. Sabes como fica aquele cachorrinho quando não tem a sua dose de exercício. Franzi o sobrolho. – Custa-me imaginar o Steve como um cachorro. Jill acenou com a cabeça e despiu a camisola, erguendo os braços. – Jill – arquejei –, que diabo é isso? Sob a alça do seu sutiã de desporto apareciam umas pequenas nódoas negras, que se assemelhavam a marcas de dedos. Colocou a camisola por cima do ombro, como se tivesse sido apanhada desprevenida. – Caí ao sair do polibã – respondeu ela. – Devias ter visto como ficou o polibã. – E piscou-me o olho. Assenti, mas havia algo naquelas nódoas negras que não me agradava. – Tens a certeza que não aceitas o café? – inquiri. – Lamento… Conheces El Exigente, se chego cinco minutos atrasada, começa logo a dizer que é um mau hábito. – Chamou Otis com um assobio e largou a correr de volta para o carro. Despediu-se com um aceno. – Vejo-te no trabalho. – Então e tu? – Ajoelhei-me frente a Martha.

– Estás com cara de quem lhe apetece ummochachino. – Coloquei-lhe a trela e, em passo apressado, dirigi-me para o Starbucks, em Chestnut. A Marina sempre foi uma das minhas zonas preferidas. Ruas serpenteantes com pitorescas casas restauradas. Famílias, o piar das gaivotas, o ar que chegava da baía. Atravessei Alhambra, o meu olhar desviando-se para uma bonita casa de três andares que me chama sempre a atenção quando ali passo. Postigos de madeira entalhada e telhado de terracota como no Grand Canal. Segurei Martha enquanto passava um automóvel. Foi o que recordei desse momento. Que o bairro começava a despertar. Que um miúdo ruivo com uma camisola da marca FUBU fazia uns quantos truques com os seus patins em linha. Que uma mulher de jardineiras dobrava apressada uma esquina, transportando um fardo de roupa nos braços. – Vamos, Martha. – Dei um pequeno puxão na trela. – Já estou a salivar da vontade que sinto de beber um mochachino. E então, a casa do telhado de terracota explodiu em chamas. Era como se São Francisco se tivesse de súbito transformado em Beirute. 2 – OH, MEU DEUS! – gritei, ao mesmo tempo que um golpe de calor e uma chuva de destroços quase me atiravam ao chão. Virei-me e agachei-me para proteger Martha enquanto as quentes ondas de choque provocadas pela explosão passavam por cima de nós. Uns segundos mais tarde levantei-me. Mãe Santíssima… mal podia acreditar no que via. A casa que estivera a admirar não passava agora de uma ruína. As chamas consumiam o primeiro andar. Nesse instante ocorreu-me que devia haver gente no interior. Prendi Martha a um candeeiro de rua.

As chamas grassavam a uns quinze metros de nós. Atravessei a rua a correr até à casa em chamas. O primeiro andar tinha já desaparecido. Ali ninguém tivera a menor hipótese. Procurei o telemóvel na minha pequena bolsa de cintura e marquei freneticamente o 911, o número de emergência – Fala a inspectora Lindsay Boxer, da Polícia de São Francisco, crachá dois-sete-dois-um. Houve uma explosão na esquina da Alhambra com a Pierce. Uma casa de habitação. É possível que haja vítimas. Necessito de apoio médico e de combate ao fogo. É urgente! Terminei a comunicação. Segundo as normas, eu devia esperar, mas se havia alguém no interior da casa, então não tinha tempo. Despi a camisola e enrolei-a em volta da cara. – Meu Deus, Lindsay – murmurei, e sustive a respiração. Logo em seguida entrei na casa em chamas. – Está alguém aqui? – gritei, e sufoquei de imediato com o incomodativo fumo cinzento. O calor intenso queimava-me os olhos e o rosto nas zonas onde a camisola não chegara. Uma parede de estuque em chamas pendia sobre a minha cabeça. – Polícia! – gritei de novo. – Há aqui alguém? O fumo parecia cortar-me os pulmões como navalhas afiadas e era impossível escutar fosse o que fosse por cima do rugido das chamas. De repente entendi por que razão as pessoas cercadas por chamas em pisos altos preferiam saltar a suportar o intolerável calor. Protegi os olhos, abrindo caminho por entre o fumo. Gritei uma última vez: – Está alguém aqui? Não podia avançar mais. Tinha as sobrancelhas chamuscadas e dei-me conta de que poderia morrer ali. Dei a volta e dirigi-me para a luz e para o ar fresco que sabia estarem atrás de mim. Subitamente, avistei dois vultos, os corpos de uma mulher e de um homem.

Obviamente mortos e com as roupas a arder. Estaquei, sentindo o estômago às voltas. Contudo, não havia nada que pudesse fazer por eles. Em seguida, escutei um som abafado. Não tinha a certeza se era real. Detive-me e esforcei-me por escutar por cima do rumor do fogo. Mal conseguia suportar a dor do lacerante calor no meu rosto. Escutei-o de novo. Sim, era real. Estava alguém a chorar. 3 ENGOLI AR e avancei para o interior da casa, que ameaçava ruir a qualquer instante. – Onde estás? – chamei. Tropecei em destroços chamejantes. Sentia medo, não apenas por quem tinha gritado mas também por mim. Ouvi-o novamente: um leve gemido vindo da parte de trás da casa. Dirigi-me de mediato para lá. – Estou a chegar! – gritei. À minha esquerda, uma viga de madeira caiu com estrépito. Quanto mais avançava mais perigo enfrentava. Avistei o corredor de onde me parecia virem os sons, o tecto ameaçando cair. – Polícia! – bradei. – Onde estás? Nada. Voltei a escutar os lamentos. Desta vez mais próximo. Avancei pelo corredor, protegendo a cara com a camisola.

Vá lá, Lindsay… Só mais alguns metros. Empurrei uma porta envolta em fumo e chamas. Meu Deus, é o quarto de uma criança. Ou o que restava dele. Vi uma cama caída de lado e encostada a uma parede. Estava envolta numa grossa capa de poeira. Gritei e voltei a ouvir o barulho. Um som abafado, como uma tosse débil. A estrutura da cama estava quente ao toque, porém consegui afastá-la um pouco da parede. Oh, meu Deus… Deparei-me com o perfil do rosto de uma criança. Era um rapaz, e devia ter uns dez anos. 4 – ESTOU BEM – garanti, e soltei-me do paramédico. Aproximei-me do rapaz, já deitado numa maca. Transportavam-no para uma ambulância. O único movimento do seu rosto era um ligeiro mexer dos olhos. Mas estava vivo. Meu Deus, tinha conseguido salvá-lo. Na rua, a polícia tentava controlar os curiosos. Vi o rapaz ruivo que estivera a fazer habilidades com os patins em linha, assim como um amontoado de outras caras aterrorizadas. De súbito escutei um ladrar. Meus Deus, era Martha, ainda presa ao poste de iluminação. Corri para ela e abracei-a com força enquanto me lambia a cara. Um bombeiro abordou-me. Exibia a insígnia de capitão no capacete. – Sou o capitão Ed Noroski.

Você está bem? – Penso que sim – respondi sem muitas certezas. – Na polícia, não vos basta ser heróis no vosso turno, tenente? – comentou o capitão Noroski. – Estava a fazer jogging e vi a casa explodir. Pareceu-me uma explosão de gás. Fiz o que achei que devia fazer. – E fez muito bem, tenente. – O capitão observou as ruínas. – Mas não se tratou de uma explosão de gás. – Vi dois corpos lá dentro. – Sim – disse Noroski, acenando com a cabeça. – Um homem e uma mulher. Havia outro adulto numa sala das traseiras do andar térreo. O miúdo teve sorte por a senhora o ter encontrado. – Sim – concordei. O meu peito encheu-se de terror: se não se tratava de uma explosão de gás… Então avistei Warren Jacobi, o meu inspector principal, emergindo do meio da multidão em direcção a mim. Warren estava a fazer o turno de domingo de manhã. Tinha uma cara gorducha e dir-se-ia que nunca sorria, nem mesmo quando contava uma anedota. Os seus olhos fundos e escondidos pareciam incapazes de registar uma surpresa. Não obstante, quando observou o buraco onde antes se erguia o n.º 210 de Alhambra e me viu a mim, coberta de fuligem e de manchas, e sentada a tentar recuperar o fôlego, fez uma expressão de espanto. – Lindsay? Estás bem? – Penso que sim. – Tentei levantar-me. Ele olhou para a casa e depois de novo para mim. – A casa parece-me um pouco maltratada demais, tenente. Mas tenho a certeza de que farás maravilhas com o lugar.

– Conteve o sorriso. – Temos alguma delegação palestiniana na cidade de que ninguém me tenha falado? Expliquei-lhe o que tinha visto. Nem fumo, nem chamas, apenas a explosão repentina do primeiro andar. – Os meus vinte e sete anos de serviço dizem-me que não se tratou do rebentamento de uma caldeira – declarou Jacobi. – Conheces alguém que resida numa mansão como esta e tenha uma caldeira no primeiro andar? – Não conheço é ninguém que viva num lugar como este. Tens a certeza de que não queres ir ao hospital? Jacobi inclinou-se sobre mim. Desde que eu levara um tiro no caso Coombs, Jacobi transformarase num tio protector. Deixara-se até das suas estúpidas piadas machistas. – Não, Warren, não quero. Estou bem. Não faço ideia o que me fez reparar naquilo. Estava apenas ali, no passeio, encostada a umautomóvel estacionado, e pensei, Merda, Lindsay, aquilo não devia estar ali. Não depois de tudo o que acabara de ocorrer. Uma mochila vermelha. Igual à de milhões de estudantes. Ali estava ela. Comecei de novo a entrar em pânico. Ouvira falar de explosões secundárias no Médio Oriente. Quem podia dizer que não fora uma bomba o que explodira no interior da casa? Esbugalhei os olhos sem desviar a atenção da mochila vermelha. Agarrei Jacobi por um braço. – Warren, quero que tires toda a gente daqui, agora. Afasta toda a gente, já! A criança tossia e chorava. Mal conseguia falar. O seu quarto ficara soterrado sob uma avalanche de escombros. Não podia esperar.

Se o fizesse, o fumo acabaria por nos matar. – Vou tirar-te daqui – prometi. Esgueirei-me por entre a parede e a cama e, com todas as minhas forças, desviei-a da parede. Agarrei no rapaz pelos ombros, rezando para que não estivesse a magoá-lo. Tropecei por entre as chamas, carregando o rapaz às costas. Havia fumo por todo o lado, nocivo e abrasador. Avistei uma luz no local por onde acreditava ter entrado, mas não estava certa. Tossia, e o rapaz agarrava-se a mim com toda a força. – Mamã, mamã – chorava. Abracei-o com mais força para o assegurar de que não o deixaria morrer. Gritei, rezando para que alguém me respondesse. – Por favor, está alguém aí? – Aqui. – Ouvi uma voz através da escuridão. Continuei a avançar, tropeçando em destroços e evitando novos locais onde as chamas irrompiam. Avistei a entrada. Sirenes, vozes. O contorno de um homem. Um bombeiro, que gentilmente me tirou o menino dos braços. Outro bombeiro colocou os braços em redor dos meus ombros. Caminhámos para o exterior. Já cá fora, caí de joelhos, engolindo grandes quantidades de ar. Um paramédico envolveu-me cuidadosamente num cobertor. Todos ali eram simpáticos e agiam com profissionalismo. Encosteime a um carro dos bombeiros parado junto ao passeio. Por pouco não vomitei, mas depois vomitei mesmo.

Houve alguém que me colocou uma máscara de oxigénio e inspirei profundamente várias vezes. Um bombeiro agachou-se ao meu lado. – Estava no interior quando se deu a explosão? – Não. – Abanei a cabeça. – Entrei para ajudar. – Mal conseguia falar, ou pensar. Abri a mala e mostrei o meu crachá. – Sou a tenente Boxer – disse, por entre ataques de tosse. – Brigada de Homicídios.

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