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40 Um romance feminino – Martha Mendonca

Amanhã faço quarenta anos. O bilhete do metrô está perdido dentro da minha bolsa. Cada vez que eu penso que achei, são apenas amostras de perfume com o mesmo formato retangular. Estou nervosa. Perdi o trem. Um homem me dá um esbarrão inútil, agora temos pelo menos cinco minutos para esperar o próximo. Desço as escadas calmamente, forçando os músculos da coxa. Algum exercício eu preciso fazer. Amanhã faço quarenta anos. Não gosto de salto alto, mas há algum tempo uso sem reclamar. Quando eu era criança, olhava as mulheres com seus saltos agulha e sentia uma coisa no estômago, um vazio de vontade de crescer. Como andar em cima daquilo? Como gostar de café? Nunca vou me depilar, eu pensava, já antecipando o sofrimento de hoje. Amanhã faço quarenta anos. Há um dia entre tantos que escolhi para não esquecer. Não foi feliz ou triste. Só um momento que marquei para lembrar de quem sou. Eu tinha quinze anos e estava no ponto de ônibus, voltando da escola. Era um fim de tarde e eu esperava o que me deixava mais perto de casa. O ônibus demorava. Sempre que preciso esperar — como agora — penso em maluquices. Naquele dia combinei comigo mesma: para o resto da minha vida vou pensar nesse momento agora, em que pego o ônibus nesse fimde tarde e imagino que para o resto da vida vou voltar a este momento agora. Como num eterno encontro comigo mesma. Lembro até hoje que sorri ao achar a ideia genial e fui flagrada por uma senhora carrancuda. O vestido estampado que ela usava eu ainda tenho na memória. E também me recordo de que, naquela hora, indaguei por que, afinal, mulheres de mais idade tinham de se vestir de uma forma que as fazia parecer ainda mais velhas.


Eu não andaria de salto, não tomaria café e jamais vestiria uma roupa como aquela. Pois amanhã faço quarenta anos e não sei avaliar se as roupas que uso hoje poderiam ser classificadas como roupas de velha por alguma menina de quinze. Ao salto, me acostumei. E café, tomo até demais. Encerrei o encontro comigo mesma com a chegada do trem. Tento relaxar. A meu lado, um homem lê um jornal popular. Na manchete, o desempregado que parou o centro da cidade ao ameaçar se jogar de um prédio. Vi na televisão ontem à noite. Três horas de expectativa e quilômetros de engarrafamento, bombeiros, imprensa, curiosos. Na foto da primeira página, ele sorri abraçado à atriz da novela das oito. Podre de rica na vida real, desempregada na trama, foi ela quem o convenceu a não pular. A mídia transborda de felicidade, nada melhor poderia ter acontecido neste hiato de escândalos na política e raros casamentos do século. À minha frente, dois adolescentes arrulhavam, mãos dadas, fones nos ouvidos. Será que ouvem a mesma coisa? Ela estava de uniforme e tinha o cabelo de um falso louro-alaranjado. Usava uma trança até a cintura e tinha as unhas roídas. O namorado era muito alto, o que se percebia mesmo ele estando sentado. A cabeça quase raspada. Usava a camisa da Copa do Mundo passada e jeans surrado. Eram muito feios, pensei. E aparentavam uma felicidade que só as crianças têm. Tive saudade de um tempo em que eu não pensava no que estava por vir e concluí que só pensamos no futuro quando ele começa a ficar escasso. Tenho saudades demais pra quem ainda vai fazer apenas quarenta anos. Que estranha idade essa minha, que é muito e é pouco, já saímos da juventude, mas ainda não somos velhos, não sonhamos muito mais, mas não desistimos de querer, temos esperança e também medo de tê-la. Ao lado do casalzinho, um homem com o olho direito tapado.

Curativo enorme e bem-colado. Quem tem um olho só perde a perspectiva, deve ser difícil para ele andar por aí. Engraçado que faço quarenta anos amanhã, mas nunca tive um olho tapado ou um braço engessado. Não andei de muletas, nunca tomei anestesia geral. Foram quarenta anos de poucas aventuras. Chegou minha estação. * * * Deixei bem claro que não queria festa. Não adiantou. Em casa, minha mãe, irmãos e mais umas vinte pessoas me esperavam. Surpresa! O que não tem nada a ver com alegria e satisfação. O aniversário não é hoje, corrigi. Claro que eles sabiam. Mas no dia seguinte seria o casamento da Luciana, minha prima mais nova, a família estaria toda lá. Depois de meia-noite cantamos parabéns, explicou mamãe. Não imaginava chegar aos meus quarenta anos com um falso sorriso nos lábios. Mas também não imaginava comemorá-los com tantos olhares de pena à minha volta. Nunca entendi bem as pessoas. Será que elas imaginavam mesmo que uma festa me faria feliz? Não faz ainda um mês que tudo aconteceu. Ainda tenho vergonha. Ainda estou magoada. Ainda quero sumir. No dia em que faltava um mês para os meus quarenta anos, ganhei uma demissão de presente. No dia em que faltavam vinte dias para meus quarenta anos, meu marido declarou que ia embora. Tinha outra. Estava apaixonado.

Sentia muito. Blá-blá-blá. Na festa dos meus quarenta anos, Camila, minha prima de trinta anos cuja debilidade mental a família nunca oficializou, perguntou-me se fiquei mais chateada de perder o emprego ou o marido. Minha tia apressou-se em afastá-la enquanto eu pensava no que responder. Camila nem era a pior entre os presentes. Mal maior me faziam os que fingiam que estava tudo bem. As horas não passavam, a festinha sem fim se arrastava no meu apartamento depenado. Apenas um sofá, a mesa de jantar com as cadeiras assentando os convidados, um buraco no lugar da televisão, lacunas de livros na estante. Na parede, a sombra de dois quadros retirados. No chão, marcas dos móveis arrastados se misturavam a restos de brigadeiro espalhados pelos filhos da minha irmã. Chorei na hora do parabéns. Não de emoção e nem de tristeza. Talvez não tenham reparado, já que as lágrimas não rolaram. Claro que a gente chora mesmo sem derramar lágrima! É uma questão de equilíbrio e de experiência de uma vida inteira segurando o choro. As lágrimas ficam acumuladas na parte inferior dos olhos, formando uma espécie de bolha. Lágrimas equilibristas de sombrinha, que podem cair a qualquer momento, por qualquer movimento brusco, sem nenhuma rede embaixo. Cortei o primeiro pedaço de bolo e declarei que precisava ir ao banheiro. * * * Um mês atrás. Era uma quinta-feira de muita chuva e, antes de sair de casa, pensei: não vou passar rímel. Se me molho, borra tudo. Claro que agora eu penso que era uma premonição, porque me borrei mesmo —mas de tanto chorar. Eu já não achava que ser advogada do escritório Novaes & Canellas era o melhor emprego do mundo. Há quinze anos, quando saí do meu primeiro emprego numa pequena empresa de direito do consumidor, encarei o convite como o maior feito da minha vida. Eu estava casada havia poucos meses, fiz a entrevista e o resultado veio em dois dias, num telefonema: Senhora Paula Granato, comparecer ao endereço tal, dia tal, para efetuar o contrato. Até rimava.

Estranhei ser chamada pelo nome de casada, coisa estranha, era como se não fosse eu. Mas era. O escritório era especializado em causas trabalhistas. Era grande e tinha prestígio e eu agora faria parte desse time. Vinte e cinco anos, casada com o homem mais maravilhoso do mundo e com o emprego que pedi a Deus. Estava predestinada à felicidade. Naqueles primeiros tempos eu já acordava sorrindo — ou hoje me parece que era assim. Bem cedinho eu tomava banho cantando, vestia uma bela roupa e passava maquiagem leve. Nunca me senti tão bonita. Só fechava a cara diante dos sapatos de salto. Eles me olhavam desafiantes quando eu os calçava e avisavam que me castigariam nas pedras portuguesas da travessa onde eu trabalhava. Perdi a conta de quantas vezes virei o pé em pequenas valas e por duas vezes cheguei a torcê-los. Mas eram indispensáveis ao meu papel de advogada promissora. Não pode ser tudo um mar de rosas, era o que eu pensava. Vão-se os pés, ficam os brios. O escritório sempre teve muita rotatividade, os amigos iam e vinham. E eu ficava. Mudei de função algumas vezes, aprendi muito, ensinei bastante, em especial nos últimos anos. Assumi uma área de coordenação e treinamento dos recém-contratados. Eram todos Paulas de anos e anos atrás, olhos brilhando, achando que podiam tudo. Eu gostava de estar com eles, mentir que tudo aquilo era perfeito e eternamente excitante, exatamente como fizeram comigo. No fundo eu gostava do trabalho, ele apenas não me desafiava mais. Eram quase quinze anos. Os mesmos caminhos, a mesma mesa, a mesma vista da janela. A mesma máquina de café.

Um dos chefes envelheceu, o outro morreu. O filho que assumiu seu lugar queria mudanças. Uma delas fui eu. Foi, como eu já disse, numa quinta-feira de chuva em que passei rímel de teimosa. Não houve grandes explicações. Não durou muito tempo. Acho que mais ou menos três minutos. Mais dez segundos em que eu não consegui dizer nada. O que se diz nessas horas? Obrigada por tudo? Foi bomenquanto durou? É uma pena? Acho que de minha boca só saiu um ok um pouco rouco, me levantei e saí. O corredor da empresa é enorme, tem um carpete verde-musgo e paredes bege, reproduções de quadros de pintores impressionistas. Uma fotografia que não sai mais da minha cabeça é aquele corredor. Tenho sonhado com ele e com o exato instante em que me vi ali sem rumo. Não sabia se terminava o dia de trabalho, se pegava minhas coisas e saía, se mandava uma mensagem de despedida a todos ou se aproveitava para tomar um último café da máquina que me abasteceu durante todos esses anos. Logo eu, que achava que nunca ia gostar de café, escolhi a última opção. Estava mais amargo do que de costume, talvez o açúcar da mistura estivesse no fim. Ou talvez minhas lágrimas já estivessem afogando o gosto de qualquer coisa. * * * Vinte dias atrás. Eu tinha resolvido que não entraria em pânico com a demissão. Renato estava bem de vida, o consultório dentário que ele dividia com o primo tinha pacientes até demais — ele estava sempre chegando muito tarde em casa. Meu marido ganhava o suficiente para segurar a casa sozinho semtermos que reduzir nosso padrão. Nosso padrão: um apartamento de dois quartos na zona sul, umcarro (dele), algumas viagens para a serra nos fins de semana (cada vez menos), alguns bons jantares. Fizemos uma viagem à Europa quando completamos dez anos juntos. Lisboa, Madri, Roma e Veneza. Não ter filhos facilitava. Crianças têm muitos gastos.

Mas é claro que não foi por isso que não as tivemos. Melhor contar do começo. Eu tinha uns vinte anos e fui atropelada pelo Fábio, irmão do Renato. Eu estava saindo da faculdade, uma motocicleta saiu de trás de um ônibus e me pegou. Foram apenas alguns arranhões, mas aquele que seria meu futuro cunhado fez questão de me levar ao hospital para um exame de raios X. O irmão, que o esperava a algumas quadras dali, foi até lá. Eu devia estar horrorosa naquela veste do setor traumatológico, mas acho que foi amor à primeira vista. Claro que existe amor à primeira vista! Não é porque agora tudo deu errado e o Renato deixou de me amar que eu vou negar a existência do fenômeno. Quando ele chegou, eu esperava o exame sentada numa cadeira de rodas. O irmão me apresentou, nos olhamos e alguma coisa aconteceu. As chapas não revelaram nenhum problema, os arranhões foram pintados de mercurocromo. Vesti minhas roupas, mas não queria ir embora. Renato me chamou para comer alguma coisa com ele e o irmão. Duas pizzas de presunto depois, eu sabia que aquele era o homem da minha vida. Fábio não era o único irmão do meu marido. Havia o mais novo, Caio. Autista. Um amor de garoto. Doce, alegre. Mas tinha seu próprio mundo, característica da doença. Eu e Caio sempre tivemos um convívio para lá de delicioso. Filha única, acho que o adotei como irmão. Ou talvez como filho. E foi um pouco por causa dele que não tive os meus. Eu e Renato tínhamos três anos de casados quando comecei a falar sobre crianças.

No início, ele parecia gostar da ideia. Mas no momento em que falei em parar de tomar a pílula, ele mudou de atitude. Era cedo para pensar nisso, ele repetia. Não, não era. Ele fugia do assunto. Insisti nummotivo. Então meu marido me confessou seus temores: não queria correr o risco de ter um filho autista. A revelação me deixou surpresa e, ao mesmo tempo, aliviada. Já estava imaginando que Renato não me amava tanto a ponto de ter filhos comigo. Essas coisas que a mente inventa quando quebra-cabeças não fecham. Eu estava certa de que poderia convencê-lo de que as chances de termos um filho doente erammínimas. Conversei com médicos, que me explicaram que havia, sim, uma predisposição genética, mas que realmente o risco não era grande. Renato não me ouvia. Não ouvia ninguém. Não queria ter filhos. Brigamos, passamos por meses de crise. Achei que o tempo resolveria o impasse. Cheguei a sugerir que, então, adotássemos um bebê. Ele também não quis. Quando completamos uma década de casados, eu tinha trinta e cinco anos e já começava a ficar tarde para ser mãe. Na noite de comemoração, jantamos, bebemos muito vinho e eu fiz um apelo emocionado. Eu queria um filho. Queria muito. A resposta dele foram as passagens para a Europa e um cartão que dizia que, para ele, bastava nós dois. Nunca mais toquei no assunto.

Demitida, eu estava em casa há mais de uma semana. Havia resolvido tirar um período de dedicação integral a mim mesma antes de sair atrás de um novo emprego. Marquei todos os médicos que não conseguia marcar antes, comprei um pacote de massagens e tratamentos numa clínica aqui perto de casa, passei na locadora e peguei um monte de filmes que não vi. Vida de madame, coisa que nunca tive. A questão é que uma mulher em casa também vê seu casamento com outros olhos. Renato saía cedo, chegava tarde. Eu raramente conseguia falar com ele durante o dia — coisa que eu nunca tentava quando estava trabalhando. A secretária dizia sempre que ele ligaria depois — o que dificilmente acontecia. Precisamos estar mais juntos, pensei. Então programei um jantar especial, vinte noites atrás. Pedi à Judite, nossa empregada, que fizesse o presunto defumado que ele sempre adorou e um pavê de chocolate. Mas não chegamos à sobremesa. Renato pareceu não gostar da surpresa, se disse esgotado, demorou no banho como se não quisesse sentar à mesa comigo. Quando percebi que ele mal tocava no presunto, tive certeza de que algo errado estava acontecendo. Não precisei insistir muito para que ele abrisse o jogo. O nome dela Renato não chegou a dizer. Falou apenas que era separada e tinha dois filhos. E que era protética. Teria sido muito mais fácil para mim se ela fosse uma jovem, bela e ignorante recepcionista de vinte e poucos anos, solteira e visivelmente interesseira. O diagnóstico óbvio (Renato tem quarenta e dois anos, está em busca de autoafirmação e não posso competir com isso) me faria sentir melhor. Talvez eu acreditasse que era um caso passageiro, só sexo. Mas não, nada disso. Ele estava apaixonado por uma mulher real, de carne e osso, que trabalhava, pagava contas, que já tinha sido casada — e talvez já tivesse sido traída como eu. Uma mulher que faz dentaduras. Há algo mais real do que isso? E mãe de dois filhos.

Essa parte doeu ainda mais. Renato seria padrasto, um quase pai. Ele, que não queria crianças. A forma como ele abriu o jogo não me deu margem para escândalos ou cobranças. Há tempos não éramos os mesmos, a rotina, o trabalho, a falta de sintonia, o raro sexo, as eternas possibilidades, o imponderável. Qualquer ser humano que se preze já fez um exercício de imaginação e se colocou num momento como aquele. O meu continha muitas lágrimas, cobranças, portas batidas. Na vida real, desfiei minuciosamente o peru que restava no prato com o garfo, enquanto pensava de quais móveis e livros eu não abriria mão. Renato dormiu no sofá em sua última noite em nossa casa. E então aqui estou no banheiro, zero hora e quinze minutos do dia do meu aniversário. Olho-me no espelho e vejo a verdade: Tenho quarenta anos. Meu marido foi embora. Não tenho mais emprego. Não sei de onde vou tirar energia para procurar emprego. Meu rosto está caindo. Perdi o capítulo de hoje da novela. A última coisa que quero agora é voltar para a sala. Minha irmã bateu na porta. Sim, está tudo bem. Não, não! Na verdade, nada vai bem e eu queria pedir um favor, espero que não pegue mal: diga a todos que estou com uma dor de cabeça dos infernos, um mal-estar geral. E deitei para descansar. Agradeço a atenção, os presentes, desculpo os olhares de pena. Sim, mamãe, pode levar o resto do bolo, não precisa deixar um pedaço para Judite. Não, não é preciso passar um pano no chão da sala para tirar os doces amassados, por favor, apenas apaguem as luzes quando todos saírem que daqui do corredor eu passo para o quarto e não saio mais de lá.

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