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50, eu? – Zeca Camargo

É uma região do corpo que mesmo amantes experientes às vezes não se lembram de beijar. Seu olho dificilmente consegue vê-la. Escondida no espelho, ela mal é lembrada pela memória – e quase sempre esquecida pelo toque. Não é uma parte da pele que coça nem que toma muito sol – e se umdia merece algum destaque é como extensão de uma tatuagem mais elaborada (e, mesmo assim, não é ali que vai ficar o desenho de maior destaque). Lá ninguém passa perfume, ninguém faz carinho ou mesmo aplica um beliscão. Por isso tudo, é difícil lembrar quando eu mesmo olhei para essa superfície, até que um dia, sem querer, reparei com um choque que dali nascia um tufo de pelos. Não sei se “tufo” é a melhor definição, pois quando pensamos nisso geralmente a imagem que vemé de um conjunto mais ou menos uniforme de pelos, folhas ou mesmo cerdas (pense numa escova de dentes). Mas os pelos que eu via crescer nessa parte do corpo não pareciam seguir regra nenhuma – a primeira delas a ser desrespeitada, aliás, era a da estética. Irregulares e errantes, eles desafiavam até mesmo a lógica de outras peles peludas, onde tudo cresce mais ou menos no mesmo sentido. Esses fios escuros, de espessura aparentemente grossa (que eu assim supunha mesmo antes de criar coragem para tocá-los), cresciam sem direção nem harmonia, como um bando de bêbados saindo de uma festa que durou mais do que devia. De qualquer maneira, eles formavam um conjunto – ainda que irregular – e pareciam estar lá menos para me provocar do que para anunciar que eu não tinha mais noção do que estava acontecendo com meu corpo. Claro que, com os 50 anos se aproximando, todos nós cuidamos um pouco mais da imagem. Basta ver qualquer superfície prateada para que a gente se aproxime e dê uma rápida checada se está tudo em cima – se nada “despencou” desde a última checagem (um espaço de tempo que geralmente varia de 1 a 15 minutos no nosso cotidiano). Mas o principal objetivo dessa manutenção platônica é sempre o rosto, nosso cartão de visitas maior – e que nem sempre joga a nosso favor. Outros cantos da nossa geografia pessoal ou estão ocultos sob a roupa ou distantes demais do enquadramento do que está sendo refletido. No caso desse pequeno latifúndio cutâneo a que me refiro, os dois fatores colaboram para fazê-lo desaparecer por completo dos nossos olhos. É um cantinho tão recluso que, mesmo depois de toda essa descrição, acho que sua imaginação ainda não chegou lá. Chegou? Vou facilitar, então: falo de um canto do seu braço, entre o ombro e o cotovelo. Não é o valorizado bíceps, ou o delicado morro, justamente onde o braço encontra o tronco – e que você até consegue tocar com os lábios. Também não me refiro à axila, que, condenada a ser boicotada, insiste em se fazer presente nem que seja pela sua capacidade de perturbar qualquer nariz. Estou tentando chegar àquela parte de trás do braço – não é bem aquela que começa a balançar demais quando você dá um tchau em qualquer idade mais avançada que 25 anos, mas um pouco mais para fora: uma tripa de pele para a qual ninguém dá bola, e que, para alcançá-la com a mão oposta (já que nem mesmo os melhores contorcionistas são capazes de tocá-la com a do mesmo braço), é preciso atravessar todo o peito e ainda curvar os dedos. Achou? Foi ali mesmo que encontrei essa curiosa forração que nunca havia identificado e que agora, se eu deixar a natureza seguir seu rumo – que, admito, é minha inclinação –, vai ficar cada vez mais hirsuta. Não foi a primeira mudança que notei no meu corpo ao longo dessas cinco décadas. Acostumado a me tocar e ver minha imagem em diversos suportes – de espelhos de elevador a telas de TV –, não posso negar que, em cada época da minha vida, meu rosto e tudo o que vem abaixo dele têm sofrido ligeiras – quando não inesperadas – metamorfoses. Como alguém que sempre aceitou, sem maiores conflitos, a passagem do tempo – um resquício do que gosto de chamar de meu “budismo diletante” –, nunca me incomodei com nenhuma delas.


Todas ou quase todas me pareciam para melhor: não só do ponto de vista estético, mas dentro de um conceito geral de envelhecimento. Há anos aceitei que não possuo mais as formas e os contornos dos meus 20 anos, mas de um tempo para cá – e, de maneira mais acentuada, desde que comemorei o 45 o aniversário –, certas coisas começaram a se deteriorar nessa embalagem que me envolve desde que fui concebido. “Deteriorar” talvez seja um verbo forte demais para descrever todo o processo, que, embora cruel, é também gentil. Talvez eu possa dizer que sinto que meu corpo está mais visivelmente desgastado. Isso! Desgastado – e sem muitas perspectivas de reposição. Nós, as pessoas da minha geração, nunca fomos bem preparados para chegar a este estágio da vida. Somos talvez o primeiro grupo demográfico que cresceu com a promessa de que, se comesse tudo certinho e sempre se exercitasse, poderia levar toda a energia da juventude para a frente. A noção de “vida saudável”, claro, não nasceu com esses filhos dos anos 60. Mas pessoas da geração do meu pai, por exemplo, conviviambem com a noção de que um cigarro e um copo de uísque poderiam coexistir muito bem com uma partida de tênis ou futebol. Minha mãe e suas amigas na praia do Rio, onde passei a infância, talvez tenham sido as últimas mulheres que, enquanto aproveitavam as benesses de um dia junto ao mar (a brisa e o convite ao exercício da natação se associando para a ilusão de que aquele cenário todo fazia bem), passavam não um protetor solar, mas um óleo bronzeador para intensificar a ação dos raios solares na cútis já esturricada. Comigo as coisas já eram um pouco diferentes. Os esforços físicos que eram exigidos nas aulas de “educação física” da escola – uma expressão que anacronicamente uso até hoje, sem querer, quando digo a alguém que vou à academia (de ginástica) – logo se transformavam em uma prática saudável na adolescência, que era então estimulada a continuar nos tenros anos da juventude. Quando completei 21 anos, e teoricamente já estava maduro para escolher o que queria fazer com minha mente e com meu corpo, o vídeo de workout de Jane Fonda – uma atriz que só quis conhecer melhor quando descobri que uma de minhas bandas favoritas desse período havia sido batizada em homenagem a um personagem de seu filme Barbarella (Durang Durang, que virou Duran Duran) – já era um fenômeno mundial. E, embora eu não tivesse abraçado as academias com o mesmo entusiasmo de meus colegas de faculdade, enveredei pela dança, não apenas como forma de expressão, mas como resposta a uma necessidade que sempre tive de me mexer. Nessas três décadas que se passaram, a busca pelo corpo equilibrado só se intensificou – e, apesar de a dança ter sido oficialmente abandonada no início dos anos 90, raros foram os períodos a minha vida em que deixei de fazer alguma atividade física. O fato de nunca ter fumado, de ter uma relação dentro do razoável com bebidas alcoólicas e achar, em minha inocência, que tinha uma dieta alimentar sensata, me fazia pensar que poderia viver num estado de comunhão perpétua com meu corpo. Até que fiz 40 anos… Não foi – nunca é – da noite para o dia: dormi de um jeito em 7 de abril de 2003 e acordei de outro no dia seguinte. Eu diria que naquela época ainda me considerava razoavelmente ágil. Meus olhos ainda não davam sinais de cansaço, as pernas ainda não indicavam que podiam pesar o dobro do que a balança mostrava, os dedos das mãos ainda não mostravam movimentos involuntários. Digestão? Tudo era possível – eu, um incrível exemplo de um “homem que comia de tudo”. Cansaço? Bem, já que eu tinha quase que abandonado qualquer atividade mais regular nesse período, como saber? O rosto ainda era de garoto – ou, pelo menos, era isso que eu ouvia. E eu gostava, de maneira geral, do que via refletido na parede do meu banheiro. Mas aos poucos – e posso assinalar que isso começou a me chamar a atenção depois dos 40 – cada uma dessas convicções foi se desmanchando. A princípio eu pensava que pequenos deslizes – uma falta de ar aqui, um pequeno incômodo em uma articulação acolá – eram incidentes isolados. Mesmo quando eles começaram a acontecer com mais frequência, eu (talvez propositalmente) me recusava a vê-los como um conjunto, o anúncio de uma mudança que estava para acontecer comigo.

Minha primeira resposta, que chegou tardiamente depois que completei 45 anos, foi retomar comafinco os exercícios. Fiel defensor de escolas alternativas para o corpo, cedi aos encantos duvidosos das academias de ginástica, vencendo com esforço quase sobre-humano a barreira para suportar aquela música ambiente. Comecei por conta própria, mas não demorei a adotar um personal, superando meu preconceito contra essa abordagem ao corpo – preconceito que não tinha nada a ver com o próprio personal (tive a sorte de ser premiado com um profissional bastante competente), mas com o risco de me tornar uma caricatura de um quarentão que busca os aparelhos para tentar não envelhecer. Não, isso não tinha nada a ver comigo. Sempre declarei minha idade e sentia mais orgulho do que vergonha de ver um ano acrescentado a essa resposta a cada mês de abril – na verdade, gosto tanto do meu aniversário que, por hábito, já passo a falar que tenho um ano a mais a partir de 1 o de janeiro. Então, por que estava “desesperadamente” correndo atrás de uma forma física que sabia que já não tinha? O que me levava a outro questionamento: será que era isso que eu estava buscando, a simples forma física? Parte da minha “entrega” à academia tinha a ver com a forte campanha de amigos contemporâneos – entre eles, vários que sempre mexeram com o corpo – para que eu enfim começasse a cuidar melhor de mim. Mas nem o mais emocionado apelo teria me convencido se eu mesmo não estivesse sentindo que precisava fazer alguma coisa. Eu já estava de certa forma insatisfeito com meu corpo, algo que percebi menos pela observação do próprio (sempre negamos o que vemos no espelho, não é mesmo?) do que pela somatória de indícios externos, como as roupas que não estão mais confortáveis ou simplesmente não cabem mais (quando as marcas que você gosta de vestir, aquelas que você considera que lhe caem bem, já não fazem mais peças para o seu tamanho, isso é um alerta vermelho), ou olhares reprovadores de familiares e amigos (mais os olhares indiferentes de quemvocê pensa conquistar – esses, sim, os mais convincentes!). Fui me acostumando aos poucos com essa nova rotina corporal. Quanto mais gostava dos exercícios, porém (e até via um ou outro resultado “palpável”), mais percebia que certas coisas que estavam mudando em mim não iam retroceder pelo simples fato de eu começar a me cuidar. Por exemplo, a decadência da minha visão – não sei por quê, mas chamar o processo de “decadente” parece suavizar esse declínio. Como vou desenvolver melhor no capítulo sobre meus olhos, nunca pude me orgulhar da minha capacidade de enxergar, e travei a vida inteira uma batalha com os óculos – acredite, sei todos os apelidos possíveis que uma criança pode ganhar no colégio quando chega com 5 graus de miopia: quatro-olhos, fundo de garrafa, Mr. Magoo, zarolho (mesmo tendo escapado do estrabismo!), telescópio, CDF (numa estranha associação entre estudo e miopia, que sempre achei injusta!), zoínho, cegueta. E eis que aos 40 e muitos (e já com 8 graus de miopia), estava sendo derrotado. Ou veja a questão da minha silhueta. Nem quando eu dançava, quando a barriguinha não era uma preocupação, mas sim algo que precisava – ó, ironia – ser preenchida, nunca portei aquilo que se conhece por “tanquinho”. (Também nunca queria ter um, mas, para você acreditar em mim, vai ter que ler o capítulo sobre minha barriga.) O que me incomodava agora, no entanto, não era a falta de um desenho, mas a linha que teimava em não retroceder: uma curva modesta, ainda que persistente, logo abaixo do umbigo, como uma lombada de estrada que prepara seu olhar antes de chegar ao ventre – ou, ainda, um pedágio que você tinha que pagar para tentar se admirar (algo cada vez mais difícil). Obstáculos como esses começaram a pipocar: um tornozelo um pouco mais inchado; umtorso que já não mostra tanta firmeza; um pescoço que já não se alonga; uma respiração que por vezes não comparece. Mas nada disso me derrubou – até que um dia vi, ou melhor, percebi, aqueles pelos atrás do meu braço. Como eles foram parar lá? Esta foi a pergunta que fiz, quase num reflexo. Simplesmente brotaram? Claro que não. Mas, se foram crescendo aos poucos, primeiro como uma comportada gramínea de tamanho moderado, até chegarem a esse estado de um cabelo de medusa rebelde, como eu não havia sido avisado disso? Não considerava justo que um dia, depois de esbarrar os olhos involuntariamente nessa região que era enxugada por uma felpuda toalha, viesse a perceber que ali havia se instalado mais um insensível sinal de que eu estava ficando velho. Vale aqui um breve esclarecimento quanto a minha relação com essa palavra. Não a uso no sentido pejorativo, uma vez que sempre aprendi a não ter outra coisa senão respeito pelas pessoas que, desde minha juventude, podia encaixar nessa categoria.

Pelo contrário, sempre me diverti com pessoas mais velhas e mais moças – ou, ainda, sempre me diverti com a mistura entre elas. Acho, há tempos, que a inteligência e a ironia que vêm com a idade são o complemento perfeito para a curiosidade e a ousadia da adolescência. Por isso, quando falo que estava começando a me sentir velho, não coloco nisso nenhum juízo de valor: é mais como se tivesse ganhado um novo carimbo no meu passaporte, depois de ter visitado um novo país. Islândia? Papua-Nova Guiné? Tuvalu? Já conheci todos muito bem. Mas essa “terra distante” chamada Velhice agora se apresenta como um território a ser desbravado. Pegue a enxada, digo, a bengala e siga comigo! É exatamente este o convite que quero fazer a você. Para celebrar meus 50 anos, resolvi olhar comdoses iguais de franqueza e humor para mim e tentar entender como devo responder a isso – agora e daqui em diante (considerando, de maneira otimista, que existe um longo adiante que vale a pena ser vivido). Não se trata – é bom alertar – de um livro científico. Não quero, nessa viagem, esmiuçar causas nem tampouco soluções para as mazelas que a idade nos traz. Você tem minha palavra de que não vai encontrar aqui nem entrevistas com médicos nem sábias palavras de gurus do envelhecimento. Em compensação, prometo honestidade – e uma certa graça. Minhas indagações, observações, constatações e conclusões são apenas minhas. E muito minhas! As ideias que aqui coloquei partem tão somente deste corpo que tenho, e assim, muito embora alguns pontos de vista possam parecer universais, só têm a ver comigo – o que não quer dizer que você não possa se divertir ou mesmo aprender com eles. E sem querer afastar as leitoras femininas, que podem se divertir como se estivessem olhando de muito perto um campo do adversário, são ainda comentários que inevitavelmente remetem ao universo masculino: este é o corpo que tenho (e de que gosto muito!), com suas particularidades, exigências, armadilhas e prazeres. O corpo feminino guarda outros segredos, que, retomando a ideia do início deste texto, nem mesmo amantes experientes são capazes de desvendar. Por isso, em respeito e admiração a elas, deixo os possíveis paralelos que podem ser feitos entre o que está acontecendo comigo e pode acontecer com prováveis leitoras por sua conta. Aliás, homem ou mulher, quem é capaz de descortinar por completo os mistérios daquilo que o dicionário me ensina que é um conjunto formado por cabeça, tronco e membros? Na minha exploração, vou passar por todas essas partes, e vou até dividi-las em fragmentos ainda menores e mais específicos. E vou começar então por esses pelos que tanto me deixam indignado. Ah! Um lembrete para quem, por acaso, depois dessa minha confissão, alguém que talvez esteja perto da minha idade, resolva procurar ali naquela superfície do seu braço se eles já começaram a nascer: aceite-os! Mesmo que você com uma pinça tire um hoje, dois amanhã, desista… Eles vão voltar!

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