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50 Fatos que Mudaram a Historia do Rock – Paolo Hewitt

O rock’n’roll não tem começo nem fim. O que há são rios de criatividade, fluindo, se misturando, gerando novos sons e estilos. Blues, jazz, folk, gospel, pop, rock, heavy metal, rap, house, grime, dubstep – e o que mais vier. Um desses rios foi descoberto por Sam Phillips. Nos anos 1950, ele percebeu que, se conseguisse encontrar um cara branco descolado para cantar blues, ele arrasaria. Então Elvis Presley entrou em seu estúdio… Mais tarde, Sam diria que o primeiro rock’n’roll gravado foi “Rocket 88”, por Ike Turner. É comum vermos essa afirmação sendo repetida hoje em dia: o rock’n’roll começou com “Rocket 88” porque Sam disse isso. Talvez. Mas e aquelas canções gospel e blues que vieram antes de Ike, com características típicas do rock’n’roll? “Good Rocking Tonight”, de Roy Brown, lançada em 1947? Ou “Cadillac Boogie”, também do mesmo ano, do grupo que atende pelo maravilhoso nome de Jimmy Liggins and His Drops of Joy. Como eu disse, rios dentro de rios. Existiam pistas ainda mais antigas de que uma música nova estava surgindo. Em dezembro de 1946, oito dos principais grupos de jazz dos Estados Unidos terminaram. Uma dessas bandas era liderada por Tommy Dorsey. Ele e seu irmão Jimmy passaram a comandar programas de tevê. Em janeiro de 1956, apresentaram Elvis Presley aos Estados Unidos. O simbolismo não poderia ser mais perfeito: o rock’n’roll ganhava os holofotes enquanto o jazz deixava os palcos. E isso aconteceu num momento de rápido crescimento econômico nos Estados Unidos. Esperava-se que a juventude do país acordasse cedo, trabalhasse duro e voltasse para casa, para a mulher, os filhos e a felicidade do lar. Mas algumas pessoas perceberam que a felicidade do lar não fazia seu estilo. O rock’n’roll de gente como Elvis expressava essa insatisfação. Com sua chegada, a garotada enlouqueceu. Arrumavam confusão, brigavam e namoravam. O rock’n’roll era original e eletrizante, sexy e perigoso. E mesmo assim, em 1960, ano em que este livro começa, os EUA achavam que o rock’n’roll estava morto. Todos os seus maiores adeptos – Elvis, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richard – haviam encontrado a riqueza ou Deus, ou padeciam na desgraça.


AAmérica adulta deu um suspiro de alívio, mas cedo demais. Na Grã-Bretanha, o rock’n’roll norte-americano teve enorme impacto emadolescentes como John Lennon, Paul McCartney, Pete Townshend, Keith Richards, Ray Davies e Steve Marriott. O mesmo aconteceu com a chegada do rhythm and blues ao país. Na verdade, no começo da década de 1960, a música que viria a ser o soul tomou do rock’n’roll a posição de somdo adolescente. A maioria dos promissores músicos britânicos do início dessa década queria cantar como Ray Charles, com a atitude do Elvis. Ironicamente, quando bandas como os Beatles levaramsua música de volta aos EUA, Elvis era um artista leve, justamente o tipo de figura que o rock’n’roll planejara destruir. Mudanças sísmicas também estavam acontecendo na música negra. Muitos militares afroamericanos voltaram da Segunda Guerra Mundial esperando desfrutar sua parcela da prosperidade do país. Quando tal esperança se desfez, um desafiador espírito empreendedor brotou, revelado por meio de boates e gravadoras de negros, principalmente a Motown, de Berry Gordy. O impacto de suas gravações e da obra de artistas como Ray Charles não pode ser subestimado. Na Grã-Bretanha, durante todos os anos 1960, a música negra era a força propulsora por trás de todas as principais bandas a partir dos Beatles. E não nos esqueçamos do mento jamaicano, que gerou o ska, que gerou o reggae e assim nos trouxe Bob Marley. Conforme os anos 1960 avançavam, a música se afastava das raízes do rock’n’roll para explorar e criar outros gêneros, como a psicodelia, o rock pesado, o heavy metal. Novamente, rios dentro de rios. No começo, essa música era a força que unia a juventude, os que não tinham direitos. As bandas eram do povo e para o povo. Em músicas e entrevistas, afirmavam o desejo por essa liberdade. Junto com seu público, não queriam que velhotes sem identidade lhes dissessem o que vestir, ouvir ou assistir. Todavia, também se tornava muito evidente que o rock era um grande negócio, criando assim uma dicotomia entre artista e plateia. Na década de 1970, a noção de comunidade que impeliu o idealismo dos anos 1960 começou a ruir. A música se tornou busca de prazer. Foi o punk, no fim da década de 1970, que devolveu ao rock o senso do dever de desafiar diretamente o mundo ao redor. Isso abriu caminho para os anos 1980 e uma nova geração de músicos que não disfarçava o desejo por dinheiro e fama. Ainda assim, foi essa década que viu o Live Aid, o momento mais altruísta da história do rock. Contudo, na música sempre há uma reação.

O que é dominante um dia é substituído por seu oposto no dia seguinte. Bandas como Primal Scream, Nirvana, Oasis, Stone Roses e Happy Mondays lutaram para restabelecer o rock como música rebelde, ligada a um estilo de vida de resistência. Entretanto, o rock em si não era mais um jovem nessa época. A música tinha um passado, e este livro escolhe os 50 principais momentos de sua história. O relato começa com Elvis e termina comMichael Jackson, dois superastros separados pelo tempo, não pelo destino. Entre os dois, existemmomentos de absoluta genialidade, de verdadeira inspiração e indignação, de comportamentos pura e simplesmente estúpidos, momentos corajosos, brilhantes, bizarros e de grande beleza. A vida toda está aqui, glorificada pela luz do estrelato e pela busca de grandes verdades. Alguns desses 50 momentos se escolheram – Cooke, os Beatles, Woodstock, Hendrix, Cobain –, outros representamminha escolha pessoal, na esperança de que esclareçam ou simplesmente divirtam. Tenho certeza de que você também tem seus 50 momentos prediletos. Estes são os meus. Paolo Hewitt Os Estados Unidos inventaram o rock’n’roll e podem muito bem ter ateado fogo nele. O rock’n’roll corrompeu toda uma geração. Transformou rapazes educados em adolescentes rudes que fumavam, bebiam e usavam penteado engraçado. A polícia os chamava de delinquentes. Moças comportadas, destinadas à maternidade e à cozinha, se tornaram criaturas atrevidas e sensuais capazes de pôr abaixo qualquer casa. “Deixamos o diabo escapar” , disse um dia o cantor Carl Perkins, com um sorriso irônico. Existiam cantores melhores que Elvis Presley – Little Richard, por exemplo. Existiam homens mais selvagens e perigosos – Jerry Lee Lewis. E existiam compositores e artistas muito melhores – Buddy Holly e Gene Vincent. Porém Elvis os venceu por causa do visual. Elvis foi perfeitamente construído para excitar uma geração de garotas. Era alto, bonito, aparência típica de norte-americano, com olhar pensativo e cabelo penteado para trás. Quando dançava, parecia tão natural. Ele não iria para a cama com a plateia com passos falsos. Era simplesmente ele mesmo, requebrando os quadris, murmurando ao microfone, o cabelo caindo na testa e os olhos medindo a distância do desejo entre você e ele e viceversa.

Não havia ninguém como Elvis. Quando ele subia no palco, as garotas não conseguiam se controlar. Berravam e corriam em sua direção; quando não conseguiam alcançá-lo, provocavam tumulto. Danificaram casas de espetáculos e invadiram hotéis, agindo de um jeito que os Estados Unidos não conheciam. Ele era o que elas queriam. A fórmula perfeita. As garotas sonhavam em ir para a cama com ele, os garotos desejavam ser como ele. Elvis tirou a sorte grande. Durante dois anos, aonde quer que fosse, havia desordem, loucura, comportamento perturbado. Então, os quadradões contra-atacaram. MOÇAS COMPORTADAS, DESTINADAS À MATERNIDADE E À COZINHA, SE TORNARAM CRIATURAS ATREVIDAS E SENSUAIS CAPAZES DE PÔR ABAIXO QUALQUER CASA Recrutaram Elvis para o exército. Ele caiu numa armadilha. Caso se rebelasse, se negasse a ir, seria considerado antipatriota, a pior coisa de que alguém pode ser chamado nos EUA. Sua carreira acabaria no ato. Ele não teve escolha. Era a hora de vestir o uniforme, de ser comedido. Durante seus dois anos de serviço militar, Elvis nunca foi considerado insubordinado nem rebelde. Era o soldado modelo. Muitos acham que ele agiu assim para afastar a ideia de que estava recebendo tratamento especial. Em 1960, ele deu baixa com honra do exército americano, mas o mundo que ele conhecia havia mudado. O rock’n’roll estava morto, liquidado, fora de moda. Jerry Lee Lewis e Chuck Berry haviamse divertido com garotas menores de idade e praticamente não conseguiam mais se apresentar; Eddie Cochran e Buddy Holly estavam mortos e Little Richard se cansara do pecado e fora buscar em Deus sua redenção. Será que Elvis agora salvaria a música? Tornando-se mais rebelde, sarcástico e ainda mais sexy? Ou faria uma mesura e pediria desculpas? Os EUA souberam a resposta quando milhões de pessoas ligaram a tevê e viram sua primeira apresentação depois do serviço militar. O apresentador era ninguém menos que Frank Sinatra. Em 1957, Sinatra declarou ao repórter de uma revista: “O rock’n’roll cheira a falsidade, imitação.

É cantado, tocado e composto por valentões cretinos […]. Graças às suas letras sujas, lascivas e maliciosas […] consegue ser a música mais marcial de todo delinquente com costeletas da face da Terra […]. É a forma de expressão mais bruta, feia, desesperada e malévola que já tive o desprazer de ouvir”. E de repente ali estava Sinatra em seu programa de tevê dando as boas-vindas a Elvis, o rei do rock’n’roll, um valentão cretino, com um belo aperto de mão e um enorme sorriso. Sinatra, é claro, desprezava Elvis. O fato de que Francis Albert provavelmente fosse mais rock’n’roll do que Elvis jamais seria – com suas mulheres, uísque e fixação pela máfia – nunca foi mencionado. Sinatra representava uma versão bem-apessoada do país, uma terra de ternos e gravatas elegantes, de respeito pela lei, pelas mulheres e pela noção de sossegar e ter filhos. Presley tentara destruir aquilo tudo, e agora ali estavam Frank e Elvis, e os dois eram um só. Que lindo. O correto país finalmente amansou a fera. ELE ERA O QUE ELAS QUERIAM. AS GAROTAS SONHAVAM EM IR PARA A CAMA COM ELE, OS GAROTOS DESEJAVAM SER ELE. ELVIS TIROU A SORTE GRANDE. DURANTE DOIS ANOS, AONDE QUER QUE FOSSE, HAVIA DESORDEM O que tinha acontecido? Embora Sinatra detestasse a música de Elvis, reconhecia a inclinação patriótica do cantor, impressionantemente demonstrada nos dois anos anteriores. E reconheceu a grande tragédia vivida por Elvis: o rapaz perdera a mãe, Gladys, em agosto de 1958. Elvis e ela eram próximos, e seu falecimento o magoou profundamente. Para o show, Elvis vestiu smoking e camisa branca. O cabelo era abundante, mas penosamente penteado de modo a não ofender ninguém. Depois da apresentação brincalhona de Sinatra – “Acho que você perdeu apenas suas costeletas” –, Elvis lançou uma música bastante comportada chamada “Fame and Fortune”. Ele elevou o nível com a canção seguinte, uma versão de “Stuck on You”. Estalou os dedos e em determinado momento gingou os quadris, roubando gritos da plateia. Porém o que antes fora subversivo era agora um truque de festa. Sinatra então se uniu a Elvis para um dueto. Sinatra cantou “Love Me Tender” e Elvis contra-atacou com sua versão da clássica “Witchcraft”. No fim do dueto, eles se abraçaram.

O caminho a seguir seria o mesmo para ambos: filmes, discos com trilhas sonoras, Las Vegas, coristas, dinheiro, paranoia, riqueza, comportamento descontrolado, recolhimento. Ainda assim, os dois saíram lucrando com a apresentação. Frank teve de olhar um pouco para o rebolado, e Elvis, com bons modos e disposição em agradar, se colocou no mainstream. A primeira fase do rock’n’roll terminara. Porém o espírito que Elvis, Buddy e Jerry incitaramnão morrera. Voara para o outro lado do Atlântico, para Liverpool, e se envolvera com quatro músicos adolescentes. Eles usariam esse espírito para conquistar o mundo. Quando chegaram aos Estados Unidos, as garotas – emudecidas havia dois anos – voltaram a gritar. Já Elvis, não. Ele adormecia profundamente.

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