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50 poemas e um Prefacio interessantissimo – Mario de Andrade

Nesta coletânea apresentamos cinquenta poemas representativos de Mário de Andrade, um dos mais importantes e atuantes autores brasileiros do modernismo, precedidos do célebre PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO, texto publicado em 1922, em Pauliceia desvairada, o primeiro livro de poemas do modernismo brasileiro. A seleção dos textos seguiu alguns critérios que nos pareceram coerentes com nosso projeto, qual seja, o de dar a público uma mostra significativa da poesia desse autor, especialmente para leitores que estejam entrando em contato com ela pela primeira vez. Para tanto, selecionamos poemas bemconhecidos de quase todos os livros de poesia de Mário de Andrade, mantendo uma divisão por livro para que se saiba a qual deles determinado poema pertence originalmente. Importa ressaltar que todos os poemas que ora apresentamos foram fixados pelas estudiosas da obra andradiana, professoras Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo, e sairão em breve numa bela reedição das Poesias completas do autor, que contará com um alentado dossiê ilustrado, além de um texto crítico de apresentação. Outro critério que nos norteou foi o da escolha preferencialmente de poemas mais curtos, que podem ser lidos com toda a calma de um final de tarde de domingo, mas também no ônibus, no metrô, no trem, no intervalo entre uma atividade e outra, em meio ao dia a dia agitado das grandes metrópoles. As únicas exceções a essa regra foram o NOTURNO DEBE L O HORIZONTE e o CARNAVAL CARIOCA , que representam, nesta coletânea, o interesse do autor pela diversidade cultural de um país tão multifacetado como o nosso. No fim do volume, acrescentamos quatro poemas inéditos em livro, que foram descobertos pelas referidas pesquisadoras, num trabalho de verdadeiro garimpo. Neles, reproduzimos as notas de rodapé, elaboradas por essas pesquisadoras, e que esclarecem a origem desses textos. O tomempregado aí nesses quatro poemas é o mesmo que o encontrado em toda a poesia do autor: simples, coloquial, bem-humorado, crítico, preocupado em registrar uma fala brasileira. Mário de Andrade era um indivíduo plural, interessado nos assuntos mais variados e sua vasta obra — não só a poética e a ficcional, mas também a ensaística e a crítica — representou uma verdadeira renovação para nossa literatura. Tentando dar um pouco mais a medida da vitalidade que Mário trouxe para nossas letras, apresentamos ainda neste volume, como já mencionado, o PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO, texto que se tornou emblemático do modernismo no Brasil e que é, ao mesmo tempo, uma espécie de manifesto da poesia andradiana. Nele, são mencionadas as teorias das vanguardas europeias tão em voga naquele período e que muito influenciaram nossos escritores. Sua leitura comcerteza ajudará, um pouco mais, na compreensão da poesia arlequinal do poeta que fundou o “Desvairismo” e o encerrou páginas depois por não querer ser responsável por mais um movimento estético que acabaria se tornando um amontoado de regras a serem seguidas. Como se pode supor, mais que um simples contato com as características e o espírito do modernismo brasileiro, esta antologia reúne conteúdo fundamental para se conhecer e entender a poesia desse nosso grande escritor. PAULICEIA DESVAIRADA PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO Dans mon pays de fiel et d’or j’en suis la loi. E. VERHAEREN Leitor: Está fundado o Desvairismo. • Este prefácio, apesar de interessante, inútil. • Alguns dados. Nem todos. Sem conclusões. Para quem me aceita são inúteis ambos. Os curiosos terão prazer em descobrir minhas conclusões, confrontando obra e dados. Para quem me rejeita trabalho perdido explicar o que, antes de ler, já não aceitou. • Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita.


Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO. • Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei. • E desculpe-me por estar tão atrasado dos movimentos artísticos atuais. Sou passadista, confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria hipócrita se pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem. • Livro evidentemente impressionista. Ora, segundo modernos, erro grave o Impressionismo. Os arquitetos fogem do gótico como da arte nova, filiando-se, para além dos tempos históricos, nos volumes elementares: cubo, esfera, etc. Os pintores desdenham Delacroix como Whistler, para se apoiarem na calma construtiva de Rafael, de Ingres, do Greco. Na escultura Rodin é ruim, os imaginários africanos são bons. Os músicos desprezam Debussy, genuflexos diante da polifonia catedralesca de Palestrina e João Sebastião Bach. A poesia… “tende a despojar o homem de todos os seus aspectos contingentes e efêmeros, para apanhar nele a humanidade”… Sou passadista, confesso. • “Este Alcorão nada mais é que uma embrulhada de sonhos confusos e incoerentes. Não é inspiração provinda de Deus, mas criada pelo autor. Maomé não é profeta, é um homem que faz versos. Que se apresente com algum sinal revelador do seu destino, como os antigos profetas”. Talvez digam de mim o que disseram do criador de Alá. Diferença cabal entre nós dois: Maomé apresentava-se como profeta; julguei mais conveniente apresentar-me como louco. • Você já leu São João Evangelista? Walt Whitman? Mallarmé? Verhaeren? • Perto de dez anos metrifiquei, rimei. Exemplo? ARTISTA O meu desejo é ser pintor – Lionardo, cujo ideal em piedades se acrisola; fazendo abrir-se ao mundo a ampla corola do sonho ilustre que em meu peito guardo… Meu anseio é, trazendo ao fundo pardo da vida, a cor da veneziana escola, dar tons de rosa e de ouro, por esmola, a quanto houver de penedia ou cardo. Quando encontrar o manancial das tintas e os pincéis exaltados com que pintas, Veronese! teus quadros e teus frisos, irei morar onde as Desgraças moram; e viverei de colorir sorrisos nos lábios dos que imprecam ou que choram! • Os srs. Laurindo de Brito, Martins Fontes, Paulo Setúbal, embora não tenham evidentemente a envergadura de Vicente de Carvalho ou de Francisca Júlia, publicam seus versos. E fazem muito bem.

Podia, como eles, publicar meus versos metrificados. • Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contato com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. A culpa é minha. Sabia da existência do artigo e deixei que saísse. Tal foi o escândalo, que desejei a morte do mundo. Era vaidoso. Quis sair da obscuridade. Hoje tenho orgulho. Não me pesaria reentrar na obscuridade. Pensei que se discutiriamminhas ideias (que nem são minhas): discutiram minhas intenções. Já agora não me calo. Tanto ridicularizariam meu silêncio como esta grita. Andarei a vida de braços no ar, como o Indiferente de Watteau. • “Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia citada) não compreenderam logo. Creio mesmo que é impossível compreender inteiramente à primeira leitura pensamentos assim esquematizados semuma certa prática. Nem é nisso que um poeta pode queixar-se dos seus leitores. No que estes se tornam condenáveis é em não pensar que um autor que assina não escreve asnidades pelo simples prazer de experimentar tinta; e que, sob essa extravagância aparente havia um sentido porventura interessantíssimo, que havia qualquer coisa por compreender”. João Epstein. • Há neste mundo um senhor chamado Zdislas Milner. Entretanto escreveu isto: “O fato duma obra se afastar de preceitos e regras aprendidas, não dá a medida do seu valor”. Perdoe-me dar algum valor a meu livro. Não há pai que, sendo pai, abandone o filho corcunda que se afoga, para salvar o lindo herdeiro do vizinho.

A ama-de-leite do conto foi uma grandíssima cabotina desnaturada. • Todo escritor acredita na valia do que escreve. Se mostra é por vaidade. Se não mostra é por vaidade também. • Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres. • O ridículo é muitas vezes subjetivo. Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre. Criamolo para vestir com ele quem fere nosso orgulho, ignorância, esterilidade. • Um pouco de teoria? Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada. Entroncamento é sueto para os condenados da prisão alexandrina. Há porém raro exemplo dele neste livro. Uso de cachimbo… • A inspiração é fugaz, violenta. Qualquer empecilho a perturba e mesmo emudece. Arte, que, somada a Lirismo, dá Poesia,1 não consiste em prejudicar a doida carreira do estado lírico para avisá-lo das pedras e cercas de arame do caminho. Deixe que tropece, caia e se fira. Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. • Que Arte não seja porém limpar versos de exageros coloridos. Exagero: símbolo sempre novo da vida como do sonho. Por ele vida e sonho se irmanam. E, consciente, não é defeito, mas meio legítimo de expressão. • “O vento senta no ombro das tuas velas!” Shakespeare. Homero já escrevera que a terra mugia debaixo dos pés de homens e cavalos. Mas você deve saber que há milhões de exageros na obra dos mestres. • Taine disse que o ideal dum artista consiste em “apresentar, mais que os próprios objetos, completa e claramente qualquer característica essencial e saliente deles, por meio de alterações sistemáticas das relações naturais entre as suas partes, de modo a tornar essa característica mais visível e dominadora”.

O sr. Luís Carlos, porém, reconheço que tem o direito de citar o mesmo em defesa das suas “Colunas”. • Já raciocinou sobre o chamado “belo horrível”? É pena. O belo horrível é uma escapatória criada pela dimensão da orelha de certos filósofos para justificar a atração exercida, em todos os tempos, pelo feio sobre os artistas. Não me venham dizer que o artista, reproduzindo o feio, o horrível, faz obra bela. Chamar de belo o que é feio, horrível, só porque está expressado com grandeza, comoção, arte, é desvirtuar ou desconhecer o conceito da beleza. Mas feio = pecado… Atrai. Anita Malfatti falava-me outro dia no encanto sempre novo do feio. Ora Anita Malfatti ainda não leu Emílio Bayard: “O fim lógico dum quadro é ser agradável de ver. Todavia comprazem-se os artistas em exprimir o singular encanto da feiura. O artista sublima tudo”. • Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório – questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural – tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do Brás Cubas), ora inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa. • Nossos sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar, etc… Só idealmente podemos conceber os objetos como os atos na sua inteireza bela ou feia. A arte que, mesmo tirando os seus temas do mundo objetivo, desenvolve-se em comparações afastadas, exageradas, sem exatidão aparente, ou indica os objetos, como um universal, sem delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder de nos conduzir a essa idealização livre, musical. Esta idealização livre, subjetiva, permite criar todo um ambiente de realidades ideais onde sentimentos, seres e coisas, belezas e defeitos se apresentam na sua plenitude heroica, que ultrapassa a defeituosa percepção dos sentidos. Não sei que futurismo pode existir em quem quase perfilha a concepção estética de Fichte. Fujamos da natureza! Só assim a arte não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia… colorida. • Não acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional de sílabas.

Já, primeiro livro, usei indiferentemente, sem obrigação de retorno periódico, os diversos metros pares. Agora liberto-me também desse preconceito. Adquiro outros. Razão para que me insultem? • Mas não desdenho baloiços dançarinos de redondilhas e decassílabos. Acontece a comoção caber neles. Entram pois às vezes no cabaré rítmico dos meus versos. Nesta questão de metros não sou aliado; sou como a Argentina: enriqueço-me. • Sobre a ordem? Repugna-me, com efeito, o que Musset chamou: “L’art de servir à point un dénoument bien cuit”. • Existe a ordem dos colegiais infantes que saem das escolas de mãos dadas, dois a dois. Existe uma ordem nos estudantes das escolas superiores que descem uma escada de quatro em quatro degraus, chocando-se lindamente. Existe uma ordem, inda mais alta, na fúria desencadeada dos elementos. • Quem leciona História do Brasil obedecerá a uma ordem que, certo, não consiste em estudar a guerra do Paraguai antes do ilustre acaso de Pedro Álvares. Quem canta seu subconsciente seguirá a ordem imprevista das comoções, das associações de imagens, dos contatos exteriores. Acontece que o tema às vezes descaminha. • O impulso lírico clama dentro de nós como turba enfuriada. Seria engraçadíssimo que a esta se dissesse: “Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o fim!” A turba é confusão aparente. Quem souber afastar-se idealmente dela, verá o imponente desenvolverse dessa alma coletiva, falando a retórica exata das reivindicações. • Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela; não abuso. Sei embridá-la nas minhas verdades filosóficas e religiosas; porque verdades filosóficas, religiosas, não são convencionais como a Arte, são verdades. Tanto não abuso! Não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Costumo andar sozinho. • Virgílio, Homero, não usaram rima. Virgílio, Homero, têm assonâncias admiráveis. • A língua brasileira é das mais ricas e sonoras.

E possui o admirabilíssimo “ão”. • Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra em liberdade. Aliás: velha como Adão. Marinetti errou: fez dela sistema. É apenas auxiliar poderosíssimo. Uso palavras em liberdade. Sinto que o meu copo é grande demais para mim, e inda bebo no copo dos outros.

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