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54 – Wu Ming

O povo esloveno iniciou uma luta definitiva contra a ocupação. Muitos de seus companheiros de armas já tombaram nessa luta. E vocês continuarão tombando, dia após dia, noite após noite, enquanto forem instrumentos nas mãos dos nossos opressores, enquanto o último pedaço do solo esloveno não for libertado. Seus governantes querem convencê-los de que o povo esloveno gosta de vocês, e só uns “pouquíssimos comunistas” estão oferecendo resistência. Isso é uma grande mentira. Na luta contra os ocupantes, todos nós, como Eslovenos, estamos unidos. Sob a direção do Comitê Nacional Esloveno de Libertação, todo o nosso povo está organizado em uma única e invencível Frente Libertadora. SOLDADOS ITALIANOS! Os seus superiores lhes escondem a terrível condição em que Mussolini deixou o “Império italiano”, vendendo-o a Hitler. Escondem que a Abissínia, pela qual Mussolini fez derramar tanto sangue de seus compatriotas, já escapou das mãos italianas. Escondem a situação sem saída das suas tropas emtodas as colônias italianas na África. Escondem as baixas que essas mesmas tropas sofreram nos Bálcãs, o fato de que agora a Sérvia ocidental, Montenegro, a maior parte da Bósnia-Herzegóvina, Lika e áreas da Dalmácia são terras livres. Escondem as terríveis perdas e os sofrimentos impostos às tropas italianas, na frente russa, pela superioridade esmagadora das armas inimigas e pelo seu insuportável inverno. Escondem as desordens que surgem nas cidades italianas por causa da escassez crescente de mantimentos, pelos contínuos bombardeios da aviação inglesa, e o crescente descontentamento do povo italiano quanto à política do fazedor de guerras Mussolini, que está jogando a Itália no abismo. SOLDADOS ITALIANOS! Entendam vocês também que o povo italiano está cada vez mais consciente de que Hitler os empurra para todas as frentes — África, Bálcãs, França e URSS — a fim de que não ofereçam resistência emsua própria casa quando ele atacar a Itália “aliada” como atacou a “aliada Iugoslávia”. Entendam vocês também o que hoje qualquer cego consegue ver: que a Itália associada à Alemanha só pode ir ao encontro de uma terrível derrota no mar, na terra e no ar, imposta pelas forças unificadas da Rússia, da Inglaterra e de todos os povos do mundo que amam a liberdade. Entendam, soldados italianos, que a única salvação para vocês, e para todo o povo italiano, é voltar as armas contra os que só causaram desgraças a vocês e a nós: a corja fascista de Mussolini! Não adianta só dizer que também condenam a bestialidade de Hitler e Mussolini, que tambémdesejam o fim do fascismo e da guerra. É preciso provar com atitudes o amor que têm à liberdade e à paz, o ódio que sentem pelos opressores, que são nossos e de vocês também, ou então fiquemesperando, como eles, a ruína. SOLDADOS ITALIANOS! O Partido Comunista da Eslovênia lhes diz: Não obedeçam às ordens de seus superiores, não atirem nos eslovenos, não persigam os partigiani [1] , mas rendam-se a eles, não imponham obstáculos à nossa luta libertadora! Ataquem e desarmem a milícia fascista, os agentes da OVRA[2] e todos os que incitam à luta contra o povo esloveno! Destruam as forças armadas italianas, os depósitos de armas e mantimentos enquanto não puderem entregá-los à resistência, destruam os meios de transporte do exército italiano —caminhões, motos, cavalos, estradas, ferrovias etc! Oponham-se ao envio de tropas italianas à frente russa, porque morrerão por causa do louco Hitler e seus serviçais. Peçam que as mandem de volta para casa! Desertem do exército italiano, o nosso povo os ajudará com prazer! Entreguem as armas e munições à resistência e à Defesa Popular! Juntem-se às unidades da resistência eslovena e ajudem com as armas em punho a abreviar a absurda carnificina da guerra, e poderão antecipar a volta às suas casas, às suas mães, mulheres e filhos, pobres e abandonados, e lá instituir uma verdadeira soberania popular. VIVA A LUTA CONJUNTA DE TODOS OS POVOS CONTRA AS BARBÁRIES FASCISTAS! VIVA A URSS E SEU INVENCÍVEL EXÉRCITO VERMELHO, DEFENSOR PODEROSÍSSIMO DA LIBERDADE E DO PROGRESSO! VIVA STALIN, O GUIA DOS POVOS E DOS TRABALHADORES DE TODOS OS PAÍSES! VIVA O PARTIDO COMUNISTA DA IUGOSLÁVIA! MORTE AO FASCISMO — LIBERDADE PARA O POVO! Comitê Central do Partido Comunista da Eslovênia No muro descascado, alguém tinha escrito SMRT FAŠIZMU com tinta vermelha. Puseram-nos bem ali na frente, enfileirados. De seus rostos, nada transparecia. Fechados, ausentes. Como as janelas do lugarejo. O capitão gritou a ordem à companhia.


Os militares italianos em formação, fuzis nos ombros. Quase todos reservistas. O oficial era o mais jovem, bigodes bem cuidados e o quepe cinza inclinado sobre a testa. * * * Os condenados ergueram os olhos para observar os rostos dos carrascos. Para ter certeza de que eram homens como eles. Estavam habituados à morte, até a própria, costume adquirido no decorrer de milhares de gerações. Do outro lado, olhares baixos, sensações refletidas no espelho. As duas fileiras se defrontaram imóveis, como estátuas abandonadas em um gramado. Um dos condenados esfregou um pé na perna, gesto automático e grotesco. O capitão se voltou para as casas e ordenou ao intérprete que se aproximasse. — Os habitantes deste lugarejo abrigaram rebeldes comunistas! Os mesmos que ontem à noite assassinaram covardemente dois soldados italianos! O intérprete traduziu. — Vocês foram avisados! Quem der cobertura aos bandidos, quem lhes oferecer proteção e os acolher é culpado de colaboração e pagará com a vida! O oficial deixou que o intérprete traduzisse. — Hoje, dez habitantes deste lugarejo serão fuzilados. Que isso sirva de exemplo para os que ajudarem os bandidos que infestam estas montanhas! Quando o intérprete terminou, o capitão permaneceu parado, as botas plantadas no barro, como se esperasse uma resposta do grupo de casas mudas. Nenhum sinal de vida. Até o ar estava parado. Berrou: — Companhia! Preparar! Um movimento confuso percorreu a fileira de soldados, como se só alguns deles tivessementendido a ordem e os outros estivessem apenas os imitando. Um fuzil escorregou de uma mão. — Ordem, que diabo! Ordem! Naquele momento, três soldados trocaram um sinal entre si e viraram os fuzis. Um para a cabeça do capitão, os outros dois para os camaradas dele. — Parem todos! Aqui ninguém vai atirar. O capitão empalideceu: — Capponi, que porra você está fazendo? Farina! Piras! Mando vocês pra Corte Marcial! Os outros soldados olhavam estupefatos. Os ombros se encolhendo, desconcerto geral. — Capitão, jogue a pistola no chão. — Isto é deserção, vocês enlouqueceram! — Jogue a pistola, ou o Farina atira no senhor.

O oficial ficou imóvel, a arma apontada para a sua têmpora, os dentes cerrados de raiva. A velocidade dos pensamentos oprimindo o seu cérebro. — Capitão, se jogar a pistola, nós o deixamos ir embora. E o outro falou, sibilando: — Capponi, eu sempre soube que você era um comunista de merda. E o que você pretende fazer? Diga! E vocês, que diabo estão fazendo aí plantados? Estão querendo ser fuzilados também? Nenhuma resposta. Olhares se cruzaram sem encontrar nada a que se apegar. Nada que desse indicação sobre o que fazer. Só sabiam que, se desarmassem os companheiros, teriam que fuzilá-los com os outros. A fileira se desfez, ficaram um pouco afastados, incertos sobre o que iria acontecer. Os homens contra o muro mantinham os olhos arregalados na cena. — Jogue a pistola. O oficial estava com o maxilar tão cerrado que nem conseguia falar. Tirou a arma do coldre e a deixou cair. Capponi a apanhou e enfiou no cinto. — Pode ir — e voltou-se aos condenados: — Vocês também. Fez um gesto com a mão e eles, incrédulos, um atrás do outro, começaram a correr na direção da montanha. — Ouçam bem, vocês todos. Quem quiser ir também, eu, Farina e Piras vamos subir atrás dos rebeldes. Façam como quiserem, mas, como disse o capitão, se forem pegos pelos nossos, talvez sejam fuzilados por terem ficado só olhando. E fizeram muito bem, porque matar essa gente é coisa de canalhas. Os três pegaram as mochilas e as colocaram nas costas. — Espere aí, Romagna [3] , você nos colocou nesta situação, agora vai ter que nos tirar dela. — Não, romano. Quem colocou você nesta situação foi o Cavalier Benito Mussolini. Agora cada um decide por si.

— E nós aqui, pra onde vamos? Farina passou ao lado dele com uma caixa de munições tirada do caminhão que os tinha trazido: — Podem ir lá pra cima também. — Lá com os bandidos? Eles vão atirar na gente! Capponi abanou a cabeça: — Não se preocupe, eles não vão atirar. Venham atrás de mim. — É, não se preocupe, ele diz — e se encaminhou, xingando, para o caminhão. — O que você vai fazer? Vai com eles? — perguntou um dos outros. O romano encolheu os ombros: — E eu vou ficar aqui? — apontou para o capitão. — Eu não confio nele. Na melhor das hipóteses, ele nos põe atrás das grades. É capaz até que sejamos fuzilados. Além do mais, nunca fui com a cara dele. Pegou a mochila: — Se a minha mulher me visse… Pro inferno com ela, o pai dela e… — enquanto virava, percebeu um movimento rápido do capitão, que arrancava alguma coisa do cinto do intérprete. — Opa!!! Vittorio Capponi atirou primeiro e o capitão voou ao chão, com a cabeça estourada. Uma coisa escura rolou ao lado dele. — É uma granada! Todos se lançaram ao chão, com as mãos na cabeça, sem respirar. Não aconteceu nada. Dali a pouco, alguém abriu os olhos. Depois esticou o pescoço. No fim, criou coragem e se aproximou. Ficaram todos imóveis, como se estivessem encantados, contemplando o ponto em que jazia o corpo do oficial que poderia ter acabado com a vida de todos eles. Alguém agradeceu a Nossa Senhora do Carmo o fato de as armas do Duce serem uma porcaria. Outro cuspiu. O intérprete ficou sentado com os braços erguidos: — No atirar, italianos! No atirar, mi inocente! — mas ninguém lhe deu atenção. Farina fez um sinal a Capponi para se mover: — Vai, Romagna, vamos embora. Os três entraram em largas passadas na trilha para o morro, com o sardo [4] à frente. O romano, sem convicção, foi atrás, tropeçando e virando várias vezes para espiar o cadáver, como se esperasse vê-lo se levantar.

Os outros não disseram nada. Gestos desconsolados. No fim, um atrás do outro, pegaram as próprias mochilas e seguiram em fila indiana atrás dos primeiros. II Território livre de Trieste, 5 de novembro de 1953 O arquiteto e poeta Carlo Alberto Rizzi saiu de casa às dez da manhã. A barba negra perfeitamente aparada, altivo como se estivesse posando para um monumento eqüestre, olhou ao redor por uminstante, ajeitou a tricolor [5] enfiada sob o casaco e, finalmente, tomou o caminho para S. Antonio Nuovo onde, dali a pouco, os estudantes estariam reunidos. O vento trazia um vozerio de longe, gritos e cantos. Era uma manifestação da cidade contra os abusos do general Winterton e pela restituição de Trieste e todos os territórios ainda não recuperados pela Itália. Os desfiles haviam sido organizados na noite anterior, com mensageiros correndo de porta em porta, fugindo do controle dos anglo-americanos que ocupavam a cidade há nove anos. Nove anos, durante os quais Rizzi tinha enviado cartas aos jornais, apresentado pedidos às autoridades, declamado ardentes poemas patrióticos em teatros e cafés. Rizzi, 46 anos, definia-se como “um daqueles liberais dos quais já se perdeu o molde”, e sofria com a sina da sua cidade, ocupada pelos alemães em 1943, por Tito em 1945 e pelos angloamericanos pouco depois. As grandes potências não queriam que os povos da Venezia Giulia, Ístria e Dalmácia escolhessem livremente o próprio destino, de italianos entre italianos. Trieste havia se tornado um limbo, chamado com desprezo de ridículo “Território Livre”. Nem de um lado, nem do outro, nem carne, nem peixe: a cidade e os territórios ao norte haviam sido entregues ao Governo Militar Aliado e denominados “zona A”; ao sul dos confins comunais, a “zona B”, administrada pela Iugoslávia. A humilhante imposição era sancionada pelo chamado “Tratado de Paz” de 1947. Mas paz de quem? As ruas de Trieste eram patrulhadas pela polícia civil do GMA, cuja unidade móvel era apelidada “quinta coluna de Tito” pela violência com que reprimia as manifestações dos italianos. Quanto à zona B, Tito usava mão de ferro para apagar todo rastro de identidade itálica. Era tempo de reconquistar a dignidade perdida. Talvez aquele 5 de novembro ainda se tornasse o dia da verdade. Sem sono, incapaz de interromper suas reflexões, tinha esperado o amanhecer à janela do seu quarto. Em 8 de outubro a esperança quase renasceu, com a promessa de devolver à Itália a zona A. Mas, em 3 de novembro, 36º aniversário da libertação de Trieste, o general John Winterton proibiu qualquer manifestação patriótica e comemorativa. Apesar da proibição, o prefeito Bartoli içara a tricolor no telhado do Paço Municipal. Winterton fez com que fosse arriada e apreendida, negando-se depois a devolvê-la à Prefeitura. Em 4 de novembro, aniversário da vitória na Grande Guerra, Rizzi foi à manifestação de Redipuglia, primeiro lugarejo além da “fronteira”.

No cemitério militar, o povo reunido em grande número comemorava a libertação do domínio austríaco e aclamava o fim da submissão aos eslavos. Com os olhos marejados, Rizzi observara as delegações das cidades não recuperadas: Zara, Cherso, Lussino, Isola… Inesquecível. À noite, homens e mulheres, voltando de trem a Trieste, em vez de se recolherem imediatamente, desfilaram pelas ruas em pequenos grupos, que depois confluiriam para uma grande manifestação espontânea. Na praça da Unidade, mais de mil pessoas estavam paradas entre o Paço Municipal e o Café dos Espelhos. Saindo pelo portão da Prefeitura, um oficial inglês da polícia civil agrediu violentamente o porta-bandeira do grupo, arrancando-lhe das mãos a tricolor. Exatamente naquele momento chegou a unidade móvel, capas pretas e rifles, que havia levado os manifestantes. Estes últimos, incluindo Rizzi, defenderam-se arrebentando as cadeiras e as mesas do café e usando as pernas como porretes. No meio da confusão, Rizzi conseguiu recuperar milagrosamente a tricolor do porta-bandeira, que agora a carregava dobrada entre o paletó e o casaco. Os tumultos prosseguiram diante do monumento a Verdi na praça San Giovanni, na praça Goldoni e avenida XX de Setembro, onde o povo havia invadido um cinema reservado aos oficiais ingleses. Por causa da grande desordem, uma caminhonete da polícia colidiu com um ônibus elétrico: dez policiais feridos. Na rua das Torres, cujo asfalto estava sendo substituído, os manifestantes haviam tentado erguer uma barricada usando cavaletes e um rolo compressor. Às pedradas, os policiais responderamatirando para o alto, para em seguida romper o bloqueio com dez jipes e ainda contar com o reforço de furgões carregados de policiais. Os confrontos se estenderam até os pórticos de Chiozza. Ao todo, vinte pessoas ficaram feridas. Dezesseis foram detidas. Os estudantes, e não só eles, decidiram descer até a praça na manhã seguinte. Todos os grupos se juntaram na frente do comando da polícia. * * * Em virtude das obras em andamento, a rua em frente à igreja estava toda arrebentada. No lado dos manifestantes havia carrinhos de mão, sacos de cascalho, algumas picaretas e vários pedaços de calçamento. Duas ruas desembocavam na praça, a XXX de Outubro e a Dante. O posto policial, na esquina da rua XXX de Outubro, ficava perigosamente perto. Entre os duzentos destemidos cercados pela unidade móvel, havia estudantes de segundo grau, universitários, algum velho irredentista [6] e vários cidadãos apolíticos. Havia também exfascistas, mas, enfim, não eram italianos também? A unidade móvel estava posicionada com jipes protegidos por redes metálicas, blindados, no mínimo trezentos homens com capacete de aço, cassetete, fuzil e bombas de gás lacrimogêneo. O aspecto deles era ameaçador, mas… era ou não era o momento da verdade? Rizzi desfraldava a tricolor e soltava gritos de arrebentar a garganta. Em um determinado momento, um dos comandantes saiu da formação, aproximou-se do povo exatamente diante de Rizzi, olhando fixamente em seus olhos e agitando um chicote.

Sem sombra de dúvida, era o mesmo provocador da noite anterior. Pálido feito um trapo, uma expressão mais fria que o vento gelado do inverno. O silêncio tomou conta. Sem desviar o olhar, Rizzi colocou o pano em seus ombros. Com uma pronúncia sofrível, o homem disse: — Estow é a únicow adwertência, não hawrá outras: despe’sem-se e vowtem pwa casa!

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