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6 de Abril – Sveva Casati Modignani

Lucia Bonanno Brambilla pousou na mesa da cozinha uma travessa cheia de espaguete com molho de tomate, manjericão e pimentão. Era alta e tinha um corpo sólido, bem modelado. Era de Milão. Os cabelos loiros e os olhos azuis fascinaram o inspetor da polícia Giovanni Bonanno quando a encontrou na praia de Mondello, perto de Palermo. Tinham passado trinta anos desde aquele primeiro encontro. Lucia era então uma jovem professora, em férias com umas amigas. Bonanno flertou com discrição. Ela apreciou a solidez moral do siciliano. Não foi amor à primeira vista, apaixonou-se por ele pouco a pouco. Depois casaram. Durante muito tempo ficaram na Sicília, onde nasceram os dois filhos. Viviam em Milão havia doze anos, desde que Giovanni fora nomeado vice-comissário da Brigada Anticrime da Lombardia. Profundo conhecedor dos mecanismos da máfia, obteve resultados importantes em investigações complexas sobre as ligações entre o crime organizado, o mundo político e o dos negócios. Em seguida foi promovido a comissário. A família e o trabalho eram toda a sua vida. Este último, porém, absorvia quase por inteiro o seu tempo. Quando os filhos eram ainda pequenos, a Senhora Bonanno lamentava-se: – Pareço uma mãe solteira. Giovanni desaparecia durante dias e dias sem sequer poder dizer onde estava, nem de que assuntos estava tratando. Lucia temia por ele, porque sabia que estava empenhado em operações perigosas. Escondia a sua ansiedade atrás de uma aparente rudeza, que o marido tentava atenuar, consciente de ser a causa daquela inquietação. O comissário tinha chegado em casa meia hora antes e beijara-lhe levemente a face enquanto falava com alguém ao celular. Lucia foi para a cozinha e pôs para ferver a água para o espaguete. Agora a massa já estava na mesa e o marido ainda continuava falando ao telefone. Andava para trás e para frente na pequena sala de estar do apartamento. Era um sinal inequívoco: significava que tinha nas mãos um caso importante.


A senhora Bonanno apareceu à porta da sala e, por gestos, deu-lhe a entender que o almoço estava pronto. O comissário não replicou e acendeu um cigarro. – Terronel, comilão e fumante. Mas quem foi que me mandou casar com você? – resmungou, enquanto voltava à cozinha. Bateu a porta com força, sentou-se à mesa e começou a comer sozinha. O marido foi até ela um pouco depois e sorriu. – E a mim, quem foi que me mandou casar com uma mulher com mau jeito como você? Como única resposta, a senhora Bonanno agarrou uma fatia de pão e atirou nele. Ele pegou-a no ar. – Sabe o que Sócrates disse à mulher, Xantipa, quando ela partiu uma jarra na sua cabeça? – brincou o comissário, enquanto se sentava à mesa. E continuou: – “Tanto trovejou, que acabou por chover.” Xantipa ficava sempre furiosa, como você, porque o marido passava mais tempo com os discípulos do que com ela – concluiu Bonanno, enterrando o garfo na massa. – Pobre mulher, como eu a entendo – suspirou a senhora Bonanno, que começava finalmente a se acalmar. O telefone tocou na sala de estar. Ela olhou o marido nos olhos. – Se atender, te espeto – preveniu-o, segurando o garfo com um ar ameaçador. Ele continuou comendo e deixou que o gravador de chamadas entrasse em funcionamento. Lucia viu que ele estava ansioso, mas fez de conta que não percebeu. Naquele momento tocou também o celular. Bonanno desligou-o. A mulher deu um suspiro resignado e disse: – Vamos, despache esse assunto. Eu mantenho o prato quente. Espero que consiga acabar o almoço. O comissário limpou a boca com o guardanapo. – És uma querida – agradeceu. – O que é que está acontecendo, desta vez? – perguntou ela.

– Um roubo numa igreja – respondeu, enquanto se levantava da mesa. – Atacaram o padre? – Agrediram uma mulher. Jovem e muito bonita, ao que parece. Deram-lhe uma pancada na cabeça com um candelabro e levaram a sua carteira. Antes de ser atacada, ela tentou se defender e, por baixo das unhas, os peritos encontraram pedaços de pele do agressor. Fizeram algumas análises que nos permitiram identificá-lo. Tem cadastro nos nossos arquivos por furto de joias e relógios de marca. É pouco provável que a vítima tivesse joias e relógios valiosos numa bolsa de pano. Não acha? Em suma, tem todo o ar de ser um roubo muito estranho. – Giovanni, você vai se reformar daqui a três meses. Como é que vai conseguir sobreviver sem os seus enigmas? – perguntou a mulher, com doçura. – Vou dedicar a você o tempo que tirei em trinta anos de casamento. Pinto as paredes da casa, levo-a para pescar e trato do jardim da nossa casa no lago – disse, sem convicção. – Vai entrar em depressão e eu vou ter de inventar qualquer coisa que dê sentido ao tempo que nos resta para vivermos juntos – comentou ela, com alguma amargura. O marido nem a ouviu. Já estava na sala. Tinha acendido um cigarro, esquecendo as boas intenções do dia, e estava lendo no celular o número da chamada que não tinha atendido. Era do seu escritório. Sentou-se no sofá e ligou para Capuzzo. – Há novidades? – perguntou o comissário. – O Terlizzi já tentou contatá-lo três vezes. Quer um relatório completo sobre o caso San Marco – informou o inspetor. Terlizzi era o magistrado que acompanhava o processo. Tinha recebido um primeiro relatório e queria saber mais, até porque a identidade da vítima ainda estava envolvida num grande mistério, enquanto a do agressor suscitava algumas interrogações. Chamava-se Gerlando Randazzo e era oriundo de Trapani.

Alguém afirmava que ele tinha ligações fortes com um foragido mafioso sobre o qual pendiam algumas acusações graves. Bonanno, que tinha adquirido uma longa experiência na Sicília, conhecia bem o mundo da máfia e nunca deu crédito a essas vozes. O dito foragido era de grande calibre e Bonanno excluía a hipótese de haver qualquer ligação entre um ladrão insignificante, como Randazzo, e um homem tão poderoso. No entanto, o caso San Marco tinha qualquer coisa de anormal e Bonanno queria falar sobre isso com Angelo Marenco, o chefe da polícia, antes de contactar o magistrado. – Se o Terlizzi voltar a ligar, diga que não me encontrou – ordenou o comissário, e perguntou: – Notícias da vítima? – Boas e más. Fisicamente está reagindo bem, mas parece que tem um problema de memória. Vamos ver o que acontece nos próximos dias. De qualquer maneira, por enquanto, ainda não se conhece a identidade da mulher – concluiu Capuzzo. Bonanno desligou a chamada sem fazer comentários. A mulher entrou na sala de estar com uma xícara de café na mão. – Já tem açúcar – anunciou. – Só precisa ter o trabalho de beber. Quanto ao almoço, esquento para o jantar. – Sentou-se numa poltrona, em frente ao marido. Ele tomou o café. – Nem a minha mãe conseguia fazer um café tão bom – elogiou. E acrescentou: – Na sua opinião, por que é que um ladrão de relógios de marca, sem mais nem menos, quase mata uma mulher para lhe tirar uma bolsa indiana de pano? – Para a oferecer à namorada, que adora bolsas indianas – brincou ela, olhando-o com ternura. O marido era um honesto servidor do Estado. Recebia um salário modesto e tinham dado juntos alguns saltos mortais para educar dois filhos e dar a eles um curso superior. Agora envelheciam juntos. Giovanni tinha os cabelos cinzentos, bolsas debaixo dos olhos, e estava ficando pesado. Ela era ainda loira, com a ajuda de alguma pintura, e os músculos do rosto tinham perdido firmeza. Mas guardava a imagem dela e a do marido como quando eram jovens e bonitos. – Pois bem, vou trabalhar – disse Bonanno, levantando-se. – Nem vale a pena perguntar a que horas chega logo à noite – resmungou Lucia.

– Vá lá, dê um sorriso para mim – disse ele, enquanto se inclinava para a mulher e acariciava a sua face. – Gosto de você, velho comilão – sussurrou ela. Depois acrescentou: – Não fique angustiado. Até porque já sabe que essa história também vai ser resolvida. – Acha? – Tenho certeza. 1 – Era alta, magra, jovem e bonita – afirmou a mulher, uma dona de casa com cerca de sessenta anos, pequena e redonda como uma bola. – Eu estava saindo da igreja, depois da missa, quando ela entrou. Eu até trazia o saco das compras – explicou, indicando o saco de plástico pousado no chão –, mas ela não tinha nada na mão. Só trazia uma bolsa a tiracolo, de pano colorido, com franjas e espelhinhos. Sabe o que me pareceu, comissário, uma daquelas bolsas orientais. Mesmo a saia, apertada de lado, que cobria as pernas até os tornozelos, e o lenço amarrado na cabeça pareciam de tecido indiano. Passou ao meu lado e deixou um rastro de perfume muito bom. Parei e olhei para ela: era um espanto. Até pensei que fosse modelo. Vi-a entrar nesta capela e ajoelhar-se em frente à imagem de Santa Teresa do Menino Jesus. Nessa altura fui embora. Saí da igreja e, ao atravessar a praça, encontrei uma conhecida minha com quem conversei um bocado. Depois entrei no café em frente para tomar um descafeinado. Sabe, é que a cafeína me faz mal. Estava saboreando o meu café na santa paz, quando ouvi a sirene da ambulância. Foi só o tempo de esvaziar a xícara e, da porta do café, vi que tinha parado em frente à igreja. Então atravessei a praça correndo; correndo tanto quanto eu consigo correr, porque tenho um enfisema. De qualquer maneira, quando lá cheguei, os enfermeiros estavam transportando a mulher. Eu olhei para ela. O rosto, tão bonito, estava coberto de sangue.

Um bife, comissário. Santo Deus, como a deixaram! E logo aqui, na casa do Senhor! Tirou um lencinho do bolso do vestido e limpou uma lágrima. Estava sentada na beira de um banco, ao lado do comissário, na capela de Santa Teresa. Em frente a eles, os peritos da polícia fotografavam algumas manchas de sangue no chão, evidenciadas por um risco branco de giz. Do alto de um pedestal, Santa Teresa do Menino Jesus parecia observar, com uma infinita piedade, a cena que se desenrolava aos seus pés. – Muito obrigado, minha senhora – disse o comissário, que tinha ouvido a história com atenção. Os homens da Brigada Anticrime esquadrinhavam todos os cantos da igreja, tentando fazer o mínimo de barulho possível, por respeito ao lugar onde se encontravam. – Quem é que pode tê-la agredido de uma maneira tão brutal? – perguntou a mulher ao comissário. O homem olhou para ela, pensativo. Depois sorriu e disse: – Vamos descobrir, fique sossegada. O comissário chamava-se Giovanni Bonanno e tinha passado toda a vida nas forças armadas. Uma vez que sabia do assunto, passo a passo degrau acabou por chegar a chefe da Brigada Móvel de Milão. Pouco tempo antes, no seu gabinete na delegacia, rolava entre os dedos o terceiro cigarro do dia. Ainda tinha que esperar dez minutos antes de o acender, porque prometera a si próprio fumar só um por hora. Entretanto, olhava pela janela para o céu sereno daquela manhã de julho, o que o fazia desejar pescar no rio. Lamentando o fato de não poder fazer, ia permitir-se, pelo menos, o prazer antecipado do cigarro, quando o inspetor Capuzzo irrompeu no gabinete. – Já não se bate mais à porta? – comentou com agressividade, enquanto desistia de acender o isqueiro que apertava na mão. – Desculpa, mas chegou agora uma comunicação da central. Agrediram uma mulher em San Marco – anunciou de um só fôlego. A igreja, ao fundo da via Fatebenefratelli, ficava a um quarteirão da delegacia. Chegaram ao local em poucos minutos. San Marco parecia deserta. Depois, de uma capela lateral, saiu um reduzido grupo de pessoas: a dona de casa com o saco das compras, um jovem sacerdote com uma cabeleira farta, um velhote alto e magro e alguns curiosos atraídos pela sirene da ambulância. O padre explicou sucintamente as condições em que a vítima fora encontrada. Tinha celebrado, como todas as manhãs, a missa das oito e meia no altar-mor.

Depois foi tomar o café da manhã. Cerca das nove e meia estava outra vez na igreja para a leitura dos Salmos e a meditação sobre o Evangelho. De repente, sentiu o barulho de uma queda atrás de si. Pousou o livro sagrado na estante do altar-mor e olhou em volta. Não havia ninguém. Então avançou pela coxia central até que, do lado esquerdo, viu um homem no chão, tateando à procura de um apoio para se levantar. Era o velhote trêmulo que agora estava sentado, em silêncio, ao lado da dona de casa. O homem contou ao comissário que tinha ficado por ali depois do fim da missa, porque na casa do Senhor se sentia menos só. – Desde que fiquei viúvo – sussurrou –, a surdez torna a minha solidão ainda mais penosa. – Quando decidiu deixar a igreja, viu uma mulher estendida no chão na capela de Santa Teresa. Parecia morta. Assustou-se e gritou para pedir ajuda, mas nem um único som saiu da garganta. Sentiu-se mal e caiu onde o padre foi encontrá-lo, após o que, descoberto o corpo da mulher, correu até a sacristia para ligar para o 109. Foram estas as informações que o comissário recolheu. Nessa altura, depois de ter mandado embora as testemunhas, Bonanno ficou na capela organizando os dados que possuía. Uma mulher, jovem e bonita, entrou na basílica pouco depois das nove da manhã de um dia útil, para rezar. Segundo o testemunho da dona de casa, a mulher estava só e não parecia assustada. A certa altura, alguém a atacou. Talvez o agressor se encontrasse já na igreja e estivesse à espera dela. Talvez a tivesse seguido. O comissário formulava rapidamente as suas hipóteses, enquanto a mão, enfiada no bolso do casaco, martirizava o maço de cigarros. O único dado seguro era a hora da agressão, ocorrida enquanto o sacerdote tinha ido tomar o café da manhã e o homem idoso, isolado pela surdez, se demorara junto ao altar-mor, que ficava a cerca de trinta metros de distância do local do crime. – Capuzzo, o que é que vocês encontraram? – perguntou Bonanno ao inspetor, que entrava na capela. – Descobrimos o objeto contundente – respondeu Capuzzo, que lhe mostrava um candelabro de latão. A base facetada estava suja de sangue.

Bonanno anuiu. Um dos peritos da polícia tomou conta dele e enfiou-o num saco de plástico. – Estava dentro de um confessionário, ao fundo da igreja – explicou o inspetor. Depois leu os apontamentos do comissário. – Encontramos uma fotografia em preto e branco, um lencinho de algodão branco e um frasco com vaporizador de perfume Chanel – anunciou. – É tudo? – perguntou Bonanno. – Pelo menos até agora. Estes objetos devem ter caído da bolsa, da qual não há vestígios, como confirmam também os enfermeiros da ambulância. O comissário assentiu. – Notícias da mulher? – Foi levada para o hospital de Niguarda e foi operada no serviço de urgência de cirurgia. Um dos nossos homens está lá – informou o inspetor. – Vamos ao hospital – decidiu Bonanno.

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