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60 anos depois – Fredrik Colting

60 anos depois é um exercício literário sobre O apanhador no campo de centeio, um dos mais notáveis romances de todos os tempos, e sobre a relação entre o que provavelmente sejam os dois personagens mais famosos da América, Holden Caulfield e J. D. Salinger. De muitas formas, Holden se tornou tão real quanto Salinger. Para a maioria de nós, ele é simplesmente um personagem ficcional que vive em nossa imaginação. Com 60 anos depois, decidi levar a cabo a tarefa de desvendar o verdadeiro relacionamento entre Salinger e Holden e descobrir o que resulta quando um escritor cria um personagem e, não menos importante, a consequente responsabilidade do escritor em relação a suas criações. Eu realmente acredito que 60 anos depois tem muito a oferecer aos leitores no que diz respeito à relação entre Salinger e Holden. Devo mencionar que não sou pesquisador na área de literatura nemespecialista em Salinger. Muitos especialistas em literatura analisaram e comentaram O apanhador no campo de centeio antes de mim. Eu fiz o mesmo, e o fato de que o fiz, na minha opinião, de maneira criativa e na forma de um romance não faz diferença. Havia questões que eu queria responder e, ao escrever este livro, encontrei um local para explorar meu ponto de vista de maneira confortável e que, eu esperava, fizesse sentido também para as outras pessoas. Acho que o fato de 60 anos depois ser um romance – o que o torna acessível a um grande público – é o que o faz singular e uma excelente oportunidade de explorar em profundidade O apanhador no campo de centeio. Eu vejo este livro como um Frankenstein moderno, no sentido de que a criatura se tornou maior que o criador. Ao transformar o precoce e autêntico Holden em um homem de 76 anos cheio de indecisão e insegurança, 60 anos depois esmiúça e critica a estatura icônica tanto de Salinger quanto de seu personagem mais famoso. Todo mundo tem uma opinião sobre Holden, personagem que serviu de base para diversos outros, em livros e filmes. Quando penso nele, vejo-o como um rebelde, no bom sentido – eu o admiro por se recusar a se entregar. Em outras ocasiões, eu me pergunto o que há de tão extraordinário em um garoto mimado de 16 anos. Holden age como se o mundo girasse a seu redor. Ao pôr Salinger na história, pude enxergar melhor como a verdadeira relação entre Holden e ele se desenvolveu. Na dança entre as duas dimensões – a realidade e a fantasia –, muita coisa interessante acontece, e muitas questões são propostas. Por exemplo: O que é um personagem? O que acontece com os personagens quando fechamos o livro? Para onde vão? Existe outra dimensão, umlugar onde Holden, Ivanhoé e Patrick Bateman moram no mesmo condomínio? Um mundo em que Huck Finn e o Pequeno Príncipe jantam juntos todos os dias, como figurantes em um filme, esperando para retomar seus papéis, perguntando por que seus criadores nunca telefonam? Acho que jamais saberemos. É claro que 60 anos depois é muito mais que uma dissecação clínica de O apanhador no campo de centeio. Além de uma exploração da relação entre Salinger e Holden, este livro também é uma história sobre o envelhecimento, sobre a relação entre pai e filho, marido e mulher, criador e criatura, sobre família e sobre aquilo que está no cerne de todas as histórias: o amor. Provavelmente não passou despercebido o fato de que 60 anos depois esteve envolvido em uma ação judicial pela qual Salinger tentou impedir sua publicação. Claro que foi uma situação lastimável, e não tenho a intenção de importunar Salinger e perturbar a paz de um idoso, coisa que ele parece estimar acima de tudo.


1 Obviamente, este livro não é uma cópia de O apanhador no campo de centeio. Ele tem sua própria e singular história e se sustenta por si só. Minha opinião é de que todo mundo cria alguma coisa. Sejam pintores, atores, arquitetos ou escritores, todos têm algo emcomum: criam para inspirar os outros. A inspiração para a escrita vem de todos os lugares. Nós lemos, observamos árvores, vemos uma linda mulher encostada numa parede. Salinger é um grande artista, e é isso que grandes artistas fazem – inspiram os outros a criar. Essa é a beleza da arte, e é o que faz de Salinger e sua obra tão belos. Fredrik Colting Se você tiver perguntas ou comentários a fazer, fique à vontade para me escrever: jdcalifornia@mail.com Notas 1 Este livro foi originalmente publicado antes da morte de J. D. Salinger, ocorrida em 27 de janeiro de 2010. (N. do E.) Abro os olhos e, assim, sem mais nem menos, estou acordado. Vou trazê-lo de volta. Depois de tantos anos, finalmente resolvi trazê-lo de volta. Parece que acabei de fechar os olhos e, ao mesmo tempo, é como se eu estivesse dormindo há séculos. Estico o corpo, respiro fundo e percebo que minhas costas estão meio doloridas. Talvez tenha dormido na posição errada de novo; isso sempre acontece comigo. Às vezes acordo de manhã e meu braço dormiu, então eu o pego com o outro braço e o sacudo até que ele volte à vida. Realmente, é uma sensação bem estranha não sentir o próprio braço. Acho que é porque não faço muito exercício. Não faço, não faço mesmo. Nunca fui muito atlético, mas ultimamente a coisa piorou ainda mais.

Passo a maior parte do tempo aqui mesmo, deitado nesta cama, dormindo ou escrevendo, ou só observando as nuvens do lado de fora da janela. Mas parei de fumar, é. Não fumo nenhum cigarro desde que cheguei aqui, então, em um aspecto, as coisas não podem estar assim tão ruins. Pelo menos não quando se pensa em quanto eu fumava na outra semana mesmo. Mas, bom, acho que é por isso que meu braço dorme desse jeito. Eu realmente devia começar a me exercitar. Não sei dizer exatamente o que é, mas tem um cheiro ruim saindo de algum lugar no quarto. Talvez seja um sanduíche velho ou alguma coisa que consegui derrubar embaixo da cama. Preciso me lembrar de pedir que deem uma olhada lá embaixo quando vierem fazer a limpeza mais tarde. Imagino que seja cedo pra caramba, mas ainda deve ser de madrugada. Está tão escuro que mal consigo ver a porcaria da minha mão na frente do rosto. Quando estico o braço para acender a luz, minha mão passa pelo tampo da mesa onde deixei o caderno na noite passada, mas não consigo encontrar o interruptor. Fico procurando pela mesa toda, vou até a cabeceira da cama, volto, percorro a mesa com a mão mais uma vez e mesmo assim não o encontro. Está tão escuro que não consigo nem achar meu caderno, e a única coisa que consigo fazer é derrubar um objeto no chão. Ouço o barulho quando ele cai e se desfaz em mais ou menos um milhão de pedacinhos. Caramba, tento dizer a ninguém em especial, já que tenho um quarto só para mim e tudo o mais, mas só consigo soltar um coaxo. Minha voz soa seca e estridente, e o que realmente me seria útil é um copo de água. Se pelo menos eu conseguisse encontrar a porcaria do interruptor do abajur, poderia me levantar sem destruir o quarto inteiro. Sinto a bexiga como se fosse um balão inchado dentro de mim, tiro as cobertas de cima do corpo e deixo as pernas caírem sobre a beirada da cama. Tem mesmo um cheiro ruim no quarto; agora o sinto ainda mais forte. Não é um odor assim tão pungente, mas está muito presente, de um jeito que não dá para escapar, por mais que eu vire a cabeça para outro lado. Do jeito que minhas costas estão doendo, fico imaginando se não aconteceu nada comigo ontem. Parece que um trem ou algo parecido passou por cima de mim, mas não consigo me lembrar de nada fora do comum que tenha acontecido. Passei a maior parte do tempo aqui, tirando as duas vezes que fui até o refeitório, e foi só um dia igual a todos os outros neste lugar. A única coisa que teve de diferente ontem, que consigo me lembrar, é que acabei de contar todas as coisas malucas que aconteceram comigo ultimamente.

Escrevi tudo no caderno, aquele que não encontro agora por causa desta porcaria de escuridão que está aqui. D. B. veio aqui no sábado passado e até ele ficou me perguntando a respeito disso, mas eu não sabia o que responder a metade das perguntas que me fez. Quer dizer, nem sei por que faço metade das coisas que faço. Então, fiquei achando que era melhor escrever enquanto ainda lembrava a maior parte, e acabei ontem. Talvez algum dia eu publique e me torne famoso, igualzinho a D. B., mas nunca vou me vender a Hollywood como ele fez, nem que me deem um carro novo que venha com uma garota de filme. A gente precisa ter certos princípios, mesmo quando se é famoso. Precisa, de verdade. Talvez eu esteja ficando gripado ou algo assim, e é por isso que sinto o corpo todo pesado, que minhas costas doem e tudo o mais. Ah, mas isso seria mesmo perfeito. Venho para cá para melhorar e o que acontece? Pego uma gripe. Minha mãe e meu pai vão ter um ataque. Não dá para acreditar em como me sinto desperto, apesar de ser tão cedo. Geralmente consigo passar metade do dia dormindo, e isso costuma não me incomodar nem um pouco, mas agora parece que dormi o suficiente para uma vida inteira. Se pelo menos conseguisse encontrar a droga do interruptor… Preciso realmente chegar ao banheiro logo, porque minha bexiga está me matando. Eu me levanto e me desloco pelo piso com cuidado, com os braços estendidos à frente. Devo estar parecendo completamente ridículo, mas isso é mesmo a minha cara, topar direto com alguma quina e machucar a perna, além de tudo. Eu esqueço completamente que tinha derrubado alguma coisa e piso bem em cima, e parece que são umas pedrinhas ou algo assim que grudam na sola dos meus pés até eu ficar mais ou menos um dedo mais alto. Tenho sorte por não ser vidro ou coisa parecida. Quando chego à parede, preciso parar, erguer um pé de cada vez e usar a mão para tirar os pedacinhos, seja lá o que forem. Meu corpo realmente parece esquisito e pesado; é possível que seja mesmo uma gripe. Ouvi o pessoal falando outro dia de umas pessoas no segundo andar que tinham pegado uma gripe e precisaram ficar afastadas do refeitório.

Encontro a porta do banheiro, mas quando tento entrar não consigo, porque tem um monte de lixo no caminho. É sério, é um muro de lixo que vai dos meus pés até a cabeça, e durante mais ou menos um segundo fico confuso de verdade. E daí, mais ou menos com a mesma rapidez, percebo que devo ter aberto a porta do guarda-roupa. Nesta porcaria de escuridão, eu poderia ter ido até a sacada e feito xixi, e nem teria percebido. Quer dizer, se eu tivesse sacada, coisa que não tenho. Encontro a porta certa um pouco mais para frente, mas daí acontece uma coisa estranha. Espero que você não ache que estou inventando tudo isso ou algo assim – realmente já deixei essa mania para trás, mas confesso que tinha o costume de agir dessa forma o tempo todo, antes. Mas é que tudo no banheiro parece ter trocado de lugar durante a noite. A privada não está logo à direita quando se entra, como sempre esteve; em vez disso, está mais para frente, seguindo a parede. É ainda mais estranho o fato de o boxe do chuveiro ter passado de um lado para o outro do banheiro, e nem aqui consigo encontrar a porcaria do interruptor de luz. Devo mesmo estar pegando uma gripe muito forte. Nem me dou o trabalho de procurar a luz; me inclino por cima da privada e sinto a porcelana fria como gelo contra as canelas quando coloco o corpo para a frente e escuto a água bater na água. Não dá para acreditar no pouquinho que sai de mim. Pela dor que estava sentindo na bexiga, dava para pensar que ia ficar mijando durante pelo menos meio minuto. Mas acabou tão rápido que quase me senti traído. Fico com as mãos estendidas ao sair do banheiro e voltar para o corredor mais uma vez. A esta altura, meus olhos realmente já deveriam ter se acostumado com a escuridão, mas isto aqui é diferente de qualquer escuridão que já tenha visto. Estou dizendo, está preto feito breu. A única luz que consigo enxergar é um pontinho vermelho no chão, embaixo da escrivaninha. Parece que realmente poderia estar a mil anos-luz de distância, flutuando sozinha no meio de toda aquela escuridão, e não ser só uma luz embaixo da escrivaninha. Estou com muita sede e não quero entrar de novo em outro quarda-roupa a caminho da cozinha, então tateio a parede do corredor até finalmente encontrar o interruptor. No começo o clarão me cega e continuo sem conseguir enxergar nada, mas depois de alguns segundos me acostumo e finalmente consigo enxergar o quarto. Deve haver alguma coisa errada. Apago a luz e volto a acendê-la, mas algo continua errado. Será que me trocaram de lugar enquanto estava dormindo? Porque este aqui não é o meu quarto.

Quer dizer, não estou reconhecendo nada aqui, nem mesmo o próprio quarto. Estou em algum tipo de apartamento pequeno, mas com toda a certeza não é o mesmo lugar em que caí no sono há apenas algumas horas. Este aqui deve ser um prédio completamente diferente. Pensando bem, é isso mesmo que parece, o apartamento de alguém. É tão pequeno que dou uma volta inteira no lugar só com uns dois passos. Examino o corredor, onde há alguns pares de sapatos no chão e alguns casacos e chapéus no cabideiro, e então, quando entro no quarto, vejo uma cozinha minúscula à esquerda, onde não daria para cozinhar nada, nem que você quisesse. Daí entro no quarto em si, que tem uma escrivaninha e algumas cadeiras, uma estante de livros e, é claro, a cama. Fico parado no meio do quarto e sinceramente não sei em que acreditar. Onde estou e como vim parar neste apartamento? Talvez tenha havido um incêndio e eles precisaram evacuar o lugar muito rápido, e, como me recusei a acordar, simplesmente me transferiram. É uma possibilidade, mas, então, onde diabos eu estou? Vou até a escrivaninha e examino as fotos emolduradas arranjadas em fileira ali. Eu me aproximo e olho cada uma delas com atenção, mas não me dão nenhuma pista, porque não faço a menor ideia de quem diabos são as pessoas que estão nelas. Quando me viro, meu pé bate em alguma coisa e olho para baixo. À minha frente, no chão, está um frasco de comprimidos vazio e um monte de pilulazinhas. Parecem mil coisinhas cor-de-rosa, todas espalhadas pelo chão. Então foi isso que derrubei antes. Devo estar em outra ala. Quanto mais penso na questão, mais faz sentido. Este lugar é enorme, para começo de conversa. Lembro que a namorada nova de D. B. demorou séculos só para ir ao banheiro feminino na outra ala. Tenho certeza de que é só alguma coisa trivial, como um vazamento de água, uma janela quebrada ou algo assim, e imediatamente começo a me sentir um pouco melhor. Acho que eu deveria andar logo e recolher esses comprimidos antes que a pessoa que realmente mora aqui volte e fique muito brava e tudo o mais. Então me abaixo e pego o frasco vazio, e, ao fazêlo, vejo o nome que está impresso na receita. Está escrito em uma etiqueta de papel em letras maiúsculas pretas, e demora alguns segundos para eu perceber que é meu próprio nome.

Mas, na verdade, não tenho tempo de refletir sobre a questão, porque ao mesmo tempo reparo em meus braços. Enquanto leio o texto no frasco, percebo que há algo de muito errado com meus braços. Minha pele está toda eriçada e coberta de manchinhas escuras, quase como sardas, e está solta e mole, como se meus braços tivessem encolhido dois tamanhos durante a noite e a pele não tivesse tido tempo de acompanhá-los. As veias que cobrem minhas mãos estão muito visíveis, quer dizer, estão meio saltadas, e em volta dos nós dos meus dedos a pele ficou toda enrugada e amassada. Sinto a cabeça começar a girar e me sinto confuso de verdade. Estes braços não são meus; estes não são meus braços de jeito nenhum. Da mesma maneira que esta porcaria de quarto não é minha. Largo o frasco vazio de novo no chão e corro para o banheiro. Desta vez, encontro o idiota do interruptor no mesmo instante e me coloco na frente do espelho. O que vejo quase me faz cair para trás. Não sou eu que olho para mim, e sim um velho. Minha pele, meu cabelo, meu rosto, meu tudo está coberto pelo corpo de um velho. Meu cabelo ficou com uma cor meio branca elétrica, os fios ficarammuito ralos, e meu peito parece que está pronto para ser chupado para dentro. Enxergo minhas costelas, e os ossos de meus ombros se projetam por baixo da pele. E minha pele, minha pele se transformou em um saco amarelo murcho. Pareço um frango depenado.

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