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79 Park Avenue – Harold Robbins

Parei o carro no local de estacionamento que ficava defronte do Tribunal Criminal, do outro lado da rua. Antes mesmo que eu desligasse o motor, o guardador já estava abrindo a porta para mim. Saí sem muita pressa, apanhando a pasta que estava no banco ao meu lado. Eu nunca havia merecido até então um atendimento tão solícito. — Belo dia, Sr. Keyes — disse ele, acompanhando-me enquanto eu me dirigia para a saída. Olhei para o céu. Um belo dia, sem, mas para quem gostava de dias cinzentos de dezembro. — É verdade, Jerry. Parei e olhei-o. Havia um sorriso para mim naquele rosto. Não era preciso ele me dizer que já sabia. Era evidente. E era por isso que eu merecia tantas atenções. — Obrigado — disse eu e atravessei a rua para o tribunal. Não fazia mais de vinte minutos que eu mesmo soubera. A treze quilômetros e vinte minutos de distância, num quarto de hospital, no Pavilhão Harkness. Entretanto, já sabiam de tudo. O rosto do Velho estava contorcido de dor e cinzento contra o travesseiro. Eu estava aos pés da cama. — Você tem de aceitar, Mike — sussurrou ele. Sacudi a cabeça. — Não, John. Não posso. — Por quê? — perguntou numa voz fantasmagórica.


— Sabe por quê — respondi, hesitando um instante antes de acrescentar: — Dê a um dos outros. Há assistentes de sobra. Porque foi escolher logo a mim? A voz trêmula tornou-se mais incisiva. — Porque todos eles têm padrinhos políticos, é por isso. Você é o único em quem posso confiar, o único que empreguei por minha conta. Todos os outros me foram empurrados garganta abaixo e você sabe muito bem disso! Não respondi, embora soubesse que ele não estava dizendo a verdade. Desde o tempo em que Thomas Dewey tinha sido promotor público, o escritório vivera a salvo de ingerências políticas. De política só havia ali as ambições de John DeWitt Jackson. Os olhos dele estavam fitos em meu rosto, e eu não podia desviar o olhar dele. — Lembra-se de quando você me apareceu pela primeira vez? Naquele tempo, você era da polícia e usava sapatos de sola muito grossa. Trazia na mão seu diploma de bacharel em direito. Usava até seu nome verdadeiro, que parece inventado, Millard Keyes. Parecia que você tinha a boca cheia de pedras quando me pediu o lugar. Eu lhe perguntei: “Por que meu escritório?” Lembra-se da resposta que me deu? Claro que me lembrava. Foi a única ocasião em que não usei o nome pelo qual os outros me chamavam, Mike. Mas naquele momento fiquei calado. — Pois vou dizer o que você disse — exclamou ele, levantando a cabeça do travesseiro. —Você disse: “Sou polícia, Sr. Jackson, e para mim só há um lado da lei”. Dei-lhe o lugar porque acreditei no que você me disse. — Pousou de novo cansadamente a cabeça no travesseiro e acrescentou com uma voz que era de novo um murmúrio: — E agora você quer me abandonar. — Não o estou abandonando, John — disse eu prontamente. — Acontece apenas que não posso aceitar esse caso. Não é justo comigo e tampouco com você, acho. Disse-lhe isso desde o princípio.

— Não estava preocupado quando começou e não estou agora — disse ele veementemente. Virou então a cabeça para o lado durante um instante. — Droga de apêndice! Por que não esperou mais algumas semanas? Sorri mesmo sem vontade. O Velho não dispensava um só truque. Cortava todas as saídas. — Bem sabe o que o médico disse. Desta vez, não era mais possível esperar — disse eu, comuma demonstração correta de amizade. Ele assentiu tristemente com a cabeça. — Os médicos são assim mesmo. Às vésperas do mais importante julgamento da minha carreira! Eu sabia o que ele queria dizer. Dali a poucos meses, os políticos se trancariam em salas de todo o Estado. Quando se levantassem para abrir as janelas e arejar o aposento, pesado de fumaça de cigarro e cheiro de uísque, o próximo governador estaria indicado. O Velho havia escolhido a época com muita habilidade. Nem tão cedo que esquecessem, nem tão tarde que já houvessem chegado a uma decisão. — Mas naquele momento estava assustado. O que servia para ele podia servir para outros, e ele não queria facilitar. Encarou-me da cama com os olhos cheios de inexprimível tristeza. — Você nunca foi como os outros, Mike. Você foi… foi quase um filho para mim. Você era a minha única esperança, a única coisa de todo o miserável escritório que me enchia de orgulho. Você era meu. Não sou mais um jovem. Tenho meus planos, mas se não derem certo, tenho de resignar-me. É a vontade de Deus. — Encolheu os ombros quase imperceptivelmente sob a bata de algodão do hospital.

Fez uma pausa e voltou a falar com voz mais áspera: — Mas não quero que nenhum patife oportunista suba pela escada que eu preparei! Olhamo-nos durante alguns momentos em silêncio, e ele continuou: — Compareça ao tribunal por mim, Mike. Você terá carta branca para fazer o que quiser. Pode até requerer o arquivamento do caso sob alegação de não ter conseguido provas para confirmar a acusação. Pode deixar-me em má situação, não me importa. Mas não deixe nenhum dos outros pisar em meu cadáver. Respirei fundo. Sabia que estava vencido. Não acreditava na sinceridade de uma só de suas palavras, mas isso não tinha qualquer importância. Era um homem calculista e astuto, mas eu tinha lágrimas nos olhos e estimava-o da cabeça aos pés com todas as suas mentiras. Ele também sabia disso, porque começou a sorrir. — Fará isso, não é, Mike? — Claro, John. Meteu a mão por baixo do travesseiro e tirou algumas anotações datilografadas. — Quanto aos jurados, tenha cuidado com o número 3… — Sei de tudo a respeito dos jurados — disse eu, despedindo-me e encaminhando-me para a porta. — Além disso, você me deu carta branca, não foi? Os repórteres me alcançaram antes que eu tivesse posto os pés na escadaria do Fórum Criminal. Contrafeito, tentei passar por eles. O Velho devia ter pegado no telefone no momento em que eu saíra do quarto. — Soubemos que vai funcionar como promotor. É verdade, Sr. Keyes? Não dei resposta e fui andando. Mas eles me seguiram com uma bateria de perguntas. Parei no meio das escadas e levantei as mãos. — Deem-me a oportunidade de respirar, sim? Como sabem, cheguei das minhas férias hoje de manhã. — É verdade que o promotor lhe passou um telegrama antes de ir para o hospital anteontem? E que o adiamento só foi solicitado para dar-lhe tempo de voltar? Forcei meu caminho pela porta giratória e, virando para a direita, passei pela sala de imprensa rumo aos elevadores. Alguns flashes espocaram, fazendo-me ver pontos roxos diante dos olhos. Chegando à porta do elevador, voltei-me para eles.

— Faremos uma declaração no intervalo do meio-dia. Daí por diante, procurarei responder na medida do possível a todas as perguntas. No momento, quero apenas passar alguns minutos sozinho antes de comparecer ao tribunal. Entrei e o ascensorista fechou-lhes a porta na cara. Saltei no sétimo andar e fui para meu gabinete no fim do corredor. Joel Rader estava à minha espera. — Felicidades, Mike — disse ele, aproximando-se com a mão estendida. — Obrigado, Joel. Estou precisando mesmo disso. Joel era um dos homens a que o Velho se referira. Era inteligente, tenaz, ambicioso e apenas alguns anos mais velho do que eu. — Como está o Velho? — Você não o conhece? Reclamando de tudo, como sempre. — Você devia tê-lo visto outro dia quando o médico lhe deu a triste notícia — disse Joel. — Pouco faltou para quebrar a cabeça do médico. — Imagino — disse eu, colocando o chapéu e o casaco num banco ao lado de minha mesa, depois do que olhei para Joel. — Não tive a menor intenção de invadir suas atribuições. — Não está invadindo coisa alguma — disse ele, sorrindo insinceramente. — Afinal de contas, você trabalhou ao lado do Velho nas investigações. Compreendo perfeitamente. Eu compreendia também. Ele estava se eximindo de antemão de qualquer participação, caso as coisas não corressem bem. Isso não significava que não quisesse ganhar algum mérito com o caso. Adorava a publicidade. O que não queria era arriscar-se. — Alec está por aí?-perguntei-lhe.

Alec Carter era o outro adjunto de promotor que trabalhava com o Velho, ao lado de Joel, no tribunal. — Você sabe como Alec é — respondeu Joel. — Mas deixou as anotações do Velho em sua mesa. Eu sabia como Alec era. Extremamente nervoso, passava a maior parte do tempo nos sanitários quando tinha de comparecer ao tribunal. Mas, uma vez lá, tudo corria bem com ele. Olhei para minha mesa e encontrei as anotações. Virei-me para Joel, mas ele adivinhou meus pensamentos. Tinha cinco anos mais de serviço no escritório do que eu e não ia me dar a oportunidade de mandá-lo embora. — Se precisar de alguma coisa, estou no meu gabinete, Mike — disse ele. — Obrigado, Joel — respondi, vendo-o sair. Tirei um maço de cigarros do bolso, acendi um e comecei a examinar os papéis. Em cima de tudo estava o libelo. Peguei-o e coloquei minha cadeira de modo que a luz da janela incidisse diretamente no papel. Começava assim: “A Justiça Pública do Estado de Nova York, AUTORA Maryann Flood, RÉ”. Senti um aperto no coração. Era exatamente isso. Tudo o que havia acontecido anteriormente era como se não existisse. Eu tinha de aguentar aquilo tudo. Fechei os olhos. Não devia ter deixado o Velho convencer-me. As raízes de tudo eram muito profundas. Respirei fundo e tentei livrar-me da dor que me oprimia o peito. Talvez nunca pudesse libertarme dela. Lembrava-me ainda da primeira vez em que a vira.

Parecia que já haviam passado mil anos, mas não estava tão longe assim. Fora no verão de 1935. Era uma época de ansiedade geral. Homens desempregados e o calor abatendo pesadamente os ânimos já sobrecarregados. Meu pai era como os outros. Dois anos como encarregado de umedifício. haviam-no envelhecido prematuramente. Eu tinha pelo menos uma espécie de emprego. Trabalhava na banca de jornais da esquina da 86ª Street com a Lexington Avenue, nas noites de sábado e nas manhãs de domingo, arrumando os jornais. Começava a trabalhar às nove horas da noite do sábado e ia até as dez e meia da manhã do domingo. Tinha dezesseis anos, e minha mãe estava sempre a recomendar que não deixasse de assistir à missa dos domingos. Por isso, ia à missa das onze na St. Augustine. Aquele domingo não foi diferente dos outros. Cheguei à igreja no último momento, fui para umbanco quase vazio logo na entrada e, no mesmo instante em que me sentei, peguei no sono. Pouco antes de fechar os olhos, senti uma cotovelada no corpo. Encolhi automaticamente as pernas e o corpo para que quem tivesse chegado pudesse passar. Mas senti de novo a cotovelada. Dessa vez abri os olhos. Levei quase um minuto para apreender o que via. Depois, prendi a respiração e deixei-as passar. A mulher mais velha não me mereceu mais que um olhar rápido. Seus desbotados cabelos cinzento-louros e suas faces cansadas não me interessavam. Ela passou murmurando alguma coisa indistinta que interpretei como um pedido de desculpas. Foi a moça, filha dela, que me atingiu emcheio no coração.

Os louros cabelos prateados caíam-lhe como ouro líquido em torno do rosto e a grande boca sensualmente pintada de escarlate se entreabria mostrando os alvos dentes. O nariz pequeno e quase clássico tinha narinas que vibravam de repente abaixo das maçãs do rosto salientes e dos traços finos que lhe delineavam os olhos. Os olhos eram todo um livro. Grandes e castanhos, matizavam-se de verde em torno da íris. Eram quentes, luminosos, inteligentes e sugeriam uma paixão que eu não compreendia. Feriam e atraíam, mas, de uma maneira sutil, perseguiam também. Procurei ver o que havia neles além da superfície, mas não pude transpor uma invisível proteção. Os olhos castanhos tinham alguma coisa que eu nunca pudera aprofundar. Não se podia ler abertamente neles como nos olhos azuis. Ela desviou os olhos de mim quando passou pela minha frente e foi como se uma infinidade de pequenos choques elétricos me sacudissem o corpo. A mãe, duas vezes maior do que ela, havia passado sem tocar em mim. Mas ela, não. — Desculpe — murmurou, com um toque de riso na voz. Gaguejei uma resposta ininteligível que se perdeu no barulho que fizeram os fiéis ajoelhandose. Ajoelhei-me também com os olhos fitos nela. Já estava ajoelhada, com as mãos fervorosamente postas no encosto do banco da frente e com os olhos baixos. Do outro lado dela, a mãe descansava a cabeça pesadamente nas mãos entrelaçadas e murmurava preces em alguma língua estrangeira. Voltei os olhos para a moça. O corpo arfava sob o vestido leve de algodão. Vinha dela uma quente fragrância e eu via a leve mancha de suor que ia se espalhando no vestido pela altura da axila. Fechei os olhos e tentei concentrar-me nas orações. Alguns segundos depois, comecei a sentirme melhor. Não era tão mau quando eu fechava os olhos. Senti a moça aproximar-se de leve de mim. Sua coxa encostou-se na minha.

Abri os olhos e olhei-a. Parecia não ter conhecimento do contato, pois rezava com os olhos fechados. Afastei-me ligeiramente dela e fiquei à espera. Com os olhos ainda fechados, moveu-se para junto de mim. Eu já estava na ponta do banco e não podia afastar-me mais, sob pena de cair no chão. Conservei-me assim da melhor maneira possível e tentei concentrar-me na palavra de Deus. Mas não adiantava. O Demônio estava ao meu lado. Afinal, a missa terminou e todos se levantaram. Foi só então que tive coragem de abrir os olhos e olhá-la. Não olhou para mim. Tinha os olhos atentamente voltados para a frente. Voltou a encostar-se em mim para deixar a mãe passar à sua frente. Fiz menção de sair do banco, mas ela já estava passando por mim. Recuei, e ela parou e recuou comigo. Virou-se então completamente para mim. Olhei-a bem nos olhos. Havia neles um riso provocante que eu ainda não havia visto emquaisquer outros olhos. Era uma espécie de fogo violento e perigoso que me foi direto à alma. Os lábios se entreabriramnum sorriso, e eu a ouvi murmurar alguma coisa, embora fosse capaz de jurar que não vira seus lábios se moverem. — Tem se divertido muito, Mike? — perguntou ela, num sussurro. Foi só um instante depois, quando ela já se perdera no meio da multidão, que percebi que ela sabia meu nome. Saí lentamente da igreja, pensando em quem poderia ser ela. Talvez minha vida tivesse sido melhor se eu jamais conseguisse saber. Corri as cortinas da memória.

Os papéis ainda estavam em minhas mãos, e eu tinha de lê-los. O julgamento começaria daí a quarenta minutos. A fim de concentrar-me, comecei a ler o libelo lentamente, palavra por palavra. Entramos no tribunal pela porta do lado. A assistência ficou em silêncio enquanto nos dirigíamos para nossos lugares na mesa à direita do tribunal. Não levantei os olhos para o público. Não queria que vissem a cólera que me provocava a insaciável curiosidade dos presentes. Sentei-me de costas para o público e tratei de arrumar os papéis à minha frente. Sentia-me dominado por tremenda tensão. Um julgamento era de certo modo como uma luta de boxe. Passei a língua nos lábios e formulei a esperança de que o bolo que sentia na boca do estômago se desmanchasse. Só para ouvir minha voz, perguntei a Joel: — Que horas são? Ele olhou para o grande relógio da parede e respondeu: — Quase dez. — Ótimo. O tribunal não tardaria a reunir-se. Olhei para a mesa dos réus. Ainda estava vazia. Joel percebeu meu olhar e disse: — Vito chega sempre no último instante. Assim tem oportunidade de fazer uma entrada teatral. Vito conhecia seu ofício. Era um dos advogados criminais mais bem-sucedidos de Nova York. Era alto, bem-apessoado e tinha uma basta cabeleira grisalha a emoldurar-lhe os penetrantes olhos azuis. Eram bem poucas as causas que perdia. Trabalhava muito bem e todos no escritório tinham-lhe muito respeito. De repente, um murmúrio de interesse agitou a sala às nossas costas. Houve vários clarões dos flashes que espocavam.

Não era preciso virar-me para saber que estavam chegando. Os sussurros indicavam-no melhor do que um radar. Levantei a cabeça e voltei-me para eles no momento em que iam chegando à grade que separava o recinto do público. Vito já abrira a porta e estava esperando que sua cliente passasse. Ela me viu quando levantou os olhos para agradecer-lhe. Os olhos dilataram-se um pouco e comecei a ver dentro deles. Fazia tanto tempo, tanto tempo. Nosso olhar durou apenas um instante. Depois ela voltou os olhos e encaminhou-se para a sua cadeira. Via-a caminhar. Era o mesmo andar majestoso de que eu me lembrava, os mesmos tornozelos finos, as mesmas pernas calçadas de meias de náilon. Usava um costume escuro feito por alfaiate e trazia nos ombros um casaco azul. O cabelo era de um brilhante louro acobreado e estava todo penteado em cachinhos amontoados no alto da cabeça. Sentou-se sem afetação e acomodou a saia sobre os joelhos. Vito sentou-se ao lado dela, e os dois começaram a conversar. — Que mulher! — sussurrou Joel ao meu ouvido. Ouvi-lhe o tom de admiração na voz e assenti com a cabeça, sem falar. — Não há ninguém nessa sala que fosse capaz de recusar uma coisa daquelas — acrescentou ele. Tive de conter-me para não explodir. Era esse, sempre fora esse o problema. Ela era uma dessas mulheres que carregam o sexo em torno de si como uma auréola. Nenhum homem podia deixar de senti-lo. — É quase uma vergonha trazer uma mulher assim à barra do tribunal por ter feito aquilo para que ela nasceu — continuou Joel, com um risinho. — E, pelo que eu soube, não há nada de que ela goste mais. Dessa vez não aguentei mais.

— Cale-se, Joel — disse eu, friamente. — Isto aqui é um tribunal e não um bar. Ele quis replicar, mas notou a expressão do meu olhar, as palavras gelaram-lhe nos lábios e ele se entregou à leitura dos papéis que tinha a sua frente. Peguei um lápis e comecei a fazer garatujas num bloco. Alec me deu uma cotovelada e ergui os olhos. Henry Vito encaminhava-se para a nossa mesa. Pisava confiantemente e, ao chegar perto de mim, sorriu e perguntou: — Como vai o Velho, Mike? — Bem melhor, Hank — respondi, sorrindo também. — Foi muita sorte dele a apendicite ter aparecido agora — disse ele, com voz suficientemente forte para ser ouvida na bancada da imprensa. Levantei a voz para que minha resposta pudesse ser também ouvida. — Qualquer sorte que possa resultar dessa apendicite irá cair direitinho do seu lado. Ele não mudou de expressão. — Se ele se tornar governador, terá de agradecer-lhe muito, Mike. Levantei-me sem pressa. Vito era alto, mas eu sou mais. Tenho um metro e oitenta e cinco sem sapatos, ombros bastante largos e um aspecto suficientemente feroz com meu nariz quebrado para fazê-lo parecer frágil. Encarou-me e eu sorri. — Obrigado pelas gentis palavras, Hank. Sei que depois do julgamento você vai achar que eu as mereci. Ele ainda sorria, mas nada disse. Eu lhe bloqueava a plateia, de modo que não havia motivo algum para que ele continuasse. Voltou para sua mesa com um gesto cordial de despedida. Joel disse-me ao ouvido logo que me sentei: — Não deixe que ele o faça perder a cabeça, Mike. — Fique descansado — disse eu, sorrindo friamente. — Pensei que fosse bater nele quando se levantou — murmurou Alec do outro lado. — A intenção era mesmo essa.

— Sua expressão não me enganou… Nesse exato momento, o juiz deu entrada no tribunal. Peter Amelie era baixo, robusto e calvo, dando a impressão de que a cabeça de um boneco de louça emergia da sua toga negra. Ouviu-se então a voz do escrivão: — Atenção! Está aberta a sessão deste tribunal sob a presidência do Excelentíssimo Juiz Peter Amelie. Não havia mais escapatória. A luta ia começar e o árbitro já estava no ringue. De repente, livrei-me de toda a tensão. Dali por diante, nada me perturbaria e as recordações não me torturariam. Tinha meu trabalho para executar. Levantei-me alguns momentos depois a um sinal do juiz. Dirigi-me lentamente através da sala em direção ao recinto dos jurados. Ela não levantou os olhos quando passei pela mesa dos réus, mas eu sabia que estava observando todos os meus movimentos daquele jeito alucinante que tinha de ver tudo pelos cantos dos olhos. Parei diante dos jurados, dando-lhes oportunidade de me verem bem. Alguns segundos depois, comecei a falar. — Senhoras e senhores do júri, sinto-me neste momento como um mau ator chamado a substituir um astro. Pode tal substituição ser satisfatória? Claro que não. Fiz morrer meu leve sorriso cordial e continuei: — Mas o povo do Estado de Nova York tem direito à representação e proteção das autoridades que elege. E o povo do Estado de Nova York, por intermédio da sua justiça, julga ter motivos para apresentar a este tribunal um libelo contra certa pessoa por haver-lhe violado as leis e a moral. Peço-vos, portanto, humildemente, indulgência para a tarefa que vou empreender, à minha maneira deficiente, de representar o povo do Estado de Nova York contra os crimes de Maryann Flood. Vito levantou nesse ponto uma objeção, que foi aceita pelo juiz, como eu esperava. Mas eu já havia dito o que desejava. Continuei: — Gostaria agora de ler o libelo perante este tribunal. Nele se sustenta que a ré, Maryann Flood, envolveu-se e empenhou-se nas seguintes atividades, o que será provado convincentemente: ” ‘Maryann Flood, oculta sob a fachada de uma respeitável casa de modelos, a Park Avenue Models, Inc., aliciou com intuito de lucro moças e mulheres para fins ilícitos e imorais, fazendo-as viver em prostituição. ” ‘Maryann Flood em várias ocasiões pagou ou subornou certas autoridades a fim de proteger suas atividades ilícitas. ” ‘Maryann Flood, em virtude de contatos feitos no seu infame comércio, conseguiu extorquir quantias variáveis de seus clientes, sob a ameaça de desmascará-los.

’ ” Deixei de ler o libelo e olhei para o júri. Senti o interesse que havia despeitado. “Aliciamento para fins de prostituição.” “Suborno de autoridades.” ”Extorsão e chantagem.” — Não é um quadro edificante para ser contemplado pelo povo do Estado de Nova York. Todos os anos, milhares de mocinhas chegam a Nova York com os olhos levantados para as estrelas. Broadway, televisão, trabalho como modelos, cada qual com suas esperanças de esplendor e de sucesso. “À espera dessas inocentes está alguém como Maryann Flood, certa de que o suborno e a extorsão lhe darão proteção contra qualquer ação ou obstáculo que lhe possa surgir de coisas tão prosaicas quanto as leis do Estado de Nova York.” Voltei-me pela primeira vez para a mesa dos réus. Ela estava de cabeça baixa, com um lápis firmemente seguro entre os dedos. Vito tinha um leve sorriso nos lábios. — Maryann Flood! — disse eu, chamando-a. Ela levantou automaticamente a cabeça e seus olhos se fixaram nos meus. Havia neles uma mágoa que eu não conhecia. Voltei-me para o júri e continuei como se não a houvesse chamado. — Maryann Flood comparece a julgamento perante um tribunal de seus pares sob a acusação de haver violado as leis da sociedade em que vive. “E nós, que representamos o povo do Estado de Nova York, esse povo pelo qual ela tem tanto desprezo, provaremos as acusações que lhe fazemos de modo a não deixar em nenhum espírito qualquer resquício de dúvida sobre sua culpabilidade. Seguiremos passo a passo cada ato de sua carreira ilícita e ilegal. Cada um desses atos será exaustivamente comprovado. E quando tudo vos for revelado, senhores jurados, sereis chamados a proferir um veredicto capaz de desestimular e refrear qualquer pessoa que se sinta no direito de desafiar e esquivar-se às responsabilidades e às leis do povo.” Dei aos jurados tempo de ruminarem o que eu havia dito enquanto voltava a minha mesa e trocava o libelo por outros papéis. Voltei então calmamente para diante dos jurados. — Senhoras e senhores do júri, gostaria de revelar-lhes a maneira pela qual o Estado tomou conhecimento das atividades de Maryann Flood. — Os jurados se inclinaram para a frente, cominconfundível interesse.

— Numa tarde, no mês de maio passado, uma jovem mulher foi internada no Hospital Roosevelt. Sofria de uma hemorragia interna em consequência de uma operação ilegal. Apesar de todos os cuidados que recebeu, seu estado foi se agravando rapidamente. “Como é de praxe nestes casos, nosso escritório foi cientificado do fato. A pobre estava muito fraca para responder às muitas perguntas, mas alguma coisa conseguimos saber dela. Era modelo e estava registrada na Park Avenue Models, Inc. Pediu ainda que avisassem Maryann Flood. Parecia certa de que ela poderia ajudá-la. “Um telefonema de rotina à Park Avenue Models obteve a resposta de que lá não conheciam nenhum modelo com esse nome. Cerca de uma hora depois, Maryann Flood telefonou para nosso escritório e disse que tinha havido um engano por parte de uma das suas empregadas. A moça estava realmente registrada na sua agência. Parecia preocupada com o que a moça dissera e ofereceu formalmente sua ajuda. “Tanto o telefonema quanto o oferecimento de ajuda chegaram tarde demais. A moça morrera pouco antes. “Uma investigação entre as pessoas que conheciam a moça revelou que ela chegara a Nova York havia aproximadamente um ano. Durante os primeiros seis meses, lutara com grandes dificuldades financeiras. De repente, apareceu com variado guarda-roupa e peles caras. Explicou às amigas sua repentina prosperidade, dizendo que estava trabalhando para a Park Avenue Models. Começou a sair frequentemente, e as amigas viam-na cada vez menos. Explicava dizendo que era constantemente chamada para trabalhar e que seu trabalho a mantinha ocupada todas as horas do dia e da noite. “Mas, quando essas afirmações foram confrontadas com o registro de empregos feito pela agência, encontrou-se grande discrepância. A agência só a tinha chamado para dois ou três serviços durante aquele período de seis meses. Ganhara ao todo durante esse tempo apenas cento e vinte e cinco dólares, descontadas as comissões da agência.” Folheei alguns papéis e fingi que os consultava, enquanto tomava fôlego. Ao fim de um instante, olhei para os jurados.

Estavam todos à espera de que eu continuasse. — Enquanto se faziam essas investigações, a Equipe de Repressão ao Vício recebeu uma comunicação de que verdadeiras orgias estavam se realizando no apartamento de um rico fabricante de roupas íntimas para senhoras, no East Side. Revelou-se também à polícia que o mesmo homemhavia afirmado em vários círculos que mantinha relações com uma certa agência de modelos, a qual lhe assegurava a possibilidade de obter pequenas a qualquer hora do dia ou da noite, bastando para isso que os amigos lhe telefonassem. “No último dia de maio, a polícia interrompeu uma festa que se realizava no apartamento desse industrial. Quatro homens e seis mulheres foram encontrados em estados variáveis de nudez e emcertas atitudes — digamos por decoro — comprometedoras. “Todas as mulheres declararam que tinham a profissão de modelo. Uma delas afirmou que estava registrada na Park Avenue Models. Várias outras segredaram-lhe alguma coisa e ela imediatamente voltou atrás na sua declaração. Uma verificação provou que todas as mulheres estavam ali registradas. “Foi nesse ponto que a polícia e o escritório do promotor público se convenceram de que estavam diante de um exemplo revoltante de vício organizado. Iniciou-se imediatamente uma investigação sobre a agência.” Troquei os papéis e comecei a ler outro: — “Park Avenue Models, Inc. Fundada em junho de 1948. Autorizada a funcionar como agência de modelos para arte, fotografia, desfiles de modas, etc. Presidente, Maryann Flood”. Virei a página. Vinha depois um relatório da polícia sobre Marja. Passei os olhos rapidamente por ele, enquanto me encaminhava em silêncio para o júri: “Maryann Flood, nascida a 16 de novembro de 1919 em Nova York. Solteira. Primeira entrada na polícia: abril de 1936, por haver agredido o padrasto com uma arma mortífera. Julgada no Tribunal de Menores, sob a presidência do Juiz Ross. Mandada para a Casa de Correção Rose Geyer para Moças Delinquentes, em maio de 1936. Solta em novembro de 1937 por haver atingido a idade de dezoito anos. Presa em fevereiro de 1938, por vagabundagem e prostituição. Condenada a trinta dias de prisão.

Presa em abril de 1943, por haver cometido roubo depois de um ato de prostituição. O caso foi arquivado por falta de provas. Não houve novas prisões. Conhecida como ligada a pessoas com antecedentes criminais. Foi arrolada como testemunha no assassinato de Ross Drego, conhecido jogador e gângster, em Los Angeles, Califórnia, em setembro de 1950”

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