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80 dias 3 – A Cor da Paixão – Vina Jackson

Meus pés acompanham o ritmo do meu coração. O Central Park estava coberto de branco. Apesar da calma relativa dentro do parque, eu estava sempre ciente da cidade que se espalhava ao meu redor, como uma enorme mão aberta com um pedaço de área verde bem no meio e prédios apontando para cima como dedos cinzentos sujos cercando coberturas imaculadas de neve nos gramados. A neve ainda estava fresca, com textura de pó, e eu conseguia senti-la estalar de leve debaixo dos meus pés, amortecendo os passos. A ausência de cor no parque amplificou todos os meus outros sentidos, de forma que conseguia sentir o ar seco e gelado na pele como o toque de algum ser sobrenatural gélido. Minha respiração saía em jatos de vapor na frente do meu rosto como nuvens de fumaça, e o ar frio queimava minha garganta. Corri todos os dias durante um mês desde que descobri o livro de Dominik na Shakespeare & Co., na Broadway. Eu o li com pressa, nos raros momentos em que ficava sozinha em casa, tomando cuidado com o olhar atento de Simón. A sensação de ler o trabalho de Dominik foi estranha. A heroína era muito parecida comigo. Ele incluiu algumas das conversas que tivemos nos diálogos, descreveu cenas da minha infância que eu tinha lhe contado, sobre a sufocante natureza da vida de quem cresce em uma cidade pequena e sobre meu desejo de sair dela. Até tinha dado cabelos ruivos à personagem. Eu reconhecia a voz de Dominik ao longo do texto, clara como água. As estruturas de frase específicas dele, as referências aos livros que eu sabia que havia lido e músicas das quais gostava. Dois anos se passaram desde que terminamos. Tivemos um horrível mal-entendido, e permiti que meu orgulho falasse mais alto e o abandonei, ato do qual me arrependo até hoje. Quando voltei para o apartamento de Dominik para tentar esclarecer as coisas, ele tinha ido embora. Olhei por baixo da porta e vi uma sala vazia, e a correspondência estava empilhada no chão. Não tive notícias desde então. Até aquele dia em que saí para comprar tênis novos em Manhattan e descobri o romance dele na vitrine de uma livraria. Eu o abri por curiosidade e fiquei chocada ao ver que, apesar de nosso relacionamento tempestuoso e da natureza desagradável da nossa separação, ele o dedicara a mim: “Para S. Sempre seu.” Não consegui pensar em mais nada desde então. Correr era minha maneira de tirar os sentimentos do corpo.


Principalmente no inverno, quando o chão estava coberto de branco e as ruas estavam mais silenciosas do que o habitual. No inverno, o Central Park era como um deserto de neve, o único lugar onde eu conseguia fugir da cacofonia da cidade por uma hora. Também era uma chance de me dar um pouco de espaço para pensar longe de Simón. Ele ainda regia a Gramercy Symphonia, a orquestra na qual nos conhecemos. Entrei para a seção de cordas três anos atrás, tocando o violino Bailly que Dominik tinha me dado de presente. Simón era o maestro, e sob a tutela dele minha capacidade de tocar melhorara imensamente. Ele tinha me encorajado a ter uma carreira solo e me apresentou para uma agente. Agora, eu já tinha feito algumas turnês e lançado dois discos. Nosso relacionamento foi profissional, embora com flertes confessos ocasionais. Eu sabia que Simón estava apaixonado por mim, e não fiz quase nada para desencorajar os sentimentos dele, mas nada havia acontecido entre nós até minha briga com Dominik. Eu estava em turnê na época e não tinha casa para onde ir. O apartamento de Simón perto do Lincoln Center com a sala de ensaios pareceu uma opção óbvia, mais fácil e mais prática do que um hotel. Mas então Dominik desapareceu, e duas noites com Simón rapidamente viraram dois anos. Eu entrei no relacionamento com satisfação. Simón era uma pessoa fácil e eu gostava dele, até mesmo o amava. Nossos amigos receberam a ideia de estarmos juntos com entusiasmo imediato. Fazia muito sentido: o jovem maestro genial e a violinista em ascensão. Depois de passar anos ou decididamente solteira ou com alguém que meus amigos e minha família desconfiavam não ser o homem certo para mim, eu de repente me encaixava. Eu me senti aceita. Normal. A vida passou em uma sequência contínua de ensaios e apresentações, estúdios de gravação, a empolgação de lançar meu primeiro disco e depois outro. Festas acolhedoras, jantares de Natal e Ação de Graças passados com amigos e parentes. Até aparecemos em alguns artigos de revista como o casal musical de ouro de Nova York. Fomos fotografados no Carnegie Hall após um concerto, de mãos dadas, eu com a cabeça apoiada no ombro de Simón, com meu cabelo ruivo encaracolado misturado com os cachos escuros e densos dele. Eu estava usando um vestido longo de veludo preto decotado atrás.

Era o vestido que havia usado na primeira vez que toquei para Dominik, Vivaldi, As Quatro Estações, no coreto em Hampstead Heath. Dominik e eu tínhamos feito um acordo. Ele compraria um novo violino para mim — pois o meu havia sido destruído em uma briga na estação de metrô de Tottenham Court Road — em troca de uma performance no palanque, e outra mais particular em que toquei para ele completamente nua. Era umpedido ousado para um estranho, mas a ideia me excitou de tal maneira que não consegui explicar na época. Dominik viu em mim uma coisa que eu ainda estava por ver. Um atrevimento e um desejo que eu ainda não tinha nem começado a explorar. Um lado de mim que desde então me trouxe tanto prazer quanto dor. Fiel à palavra, Dominik substituiu meu violino velho e quebrado pelo Bailly, o instrumento que eu usava desde então e com o qual ainda tocava nas minhas apresentações, embora tivesse outros adicionais com os quais ensaiar. Simón queria que eu comprasse um novo. Ele tinha preferência por instrumentos modernos comtom mais limpo e achava que eu devia experimentar algo mais claro, para variar. Eu desconfiava que ele só queria que eu me livrasse de todas as partes de Dominik que ainda permeavam minha vida. Recebi muitas ofertas de amantes de música e fabricantes de instrumentos com as quais poderia ter substituído o Bailly dez vezes. Mas o presente de Dominik me dava uma sensação reconfortante. Nenhum outro instrumento tinha o mesmo tom, o mesmo peso ideal que descansava na minha mão, o encaixe perfeito sob meu queixo. Tocar o Bailly inevitavelmente trazia Dominik à mente, e pensar em Dominik me fazia ir para aquele lugar onde eu tocava melhor: uma sensação de desaparecimento mental, meu corpo assumindo e meu cérebro recuando para um sonho acordado em que a música ganhava vida e eu não precisava mais tocar, apenas vivenciava o sonho enquanto a mão que segurava o arco se movia sobre as cordas por mim. Uma mulher olhou para mim com surpresa. Estava usando uma jaqueta pesada com o capuz apertado ao redor do rosto para se proteger do frio e empurrava um carrinho azul com uma criança bastante agasalhada dentro. Outro corredor equipado dos pés à cabeça com roupas térmicas amarelas com tiras reflexivas me lançou um olhar compreensivo ao passar. Simón havia me dado um par de tênis de corrida de Natal, entre outros presentes. Talvez fosse um sinal de que ele pretendesse parar de me perturbar para entrar para uma academia. Simón odiava que eu corresse no Central Park, principalmente de manhã cedo ou à noite. Ele citava estatísticas sobre corredoras no Central Park e a probabilidade que tinham de serem atacadas. Aparentemente, a maioria era de louras que usavam rabo de cavalo e corriam às seis da manhã de segundas-feiras. Isso me excluía quase completamente, eu disse para ele, pois sou ruiva e nunca estou fora da cama às seis da manhã, nunca. Mas mesmo assim ele me perturbava.

Simón me deu um par de luvas térmicas de marca e calça, camisa e jaqueta combinando, e o par de tênis mais caro no mercado, embora eu tivesse acabado de comprar um. — Você está correndo sobre gelo, vai escorregar. Eu usava os tênis para fazê-lo feliz, porém substituí os cadarços brancos por vermelhos para dar um toque colorido. E usava as luvas. Mas quase todos os dias eu deixava a jaqueta térmica em casa. Mesmo no inverno eu preferia correr apenas de camiseta. Ficava absurdamente frio no começo. O vento cortava minha pele como uma cama de pregos, mas logo eu esquentava. Gostava da sensação do ar fresco e do vento frio que me encorajava a correr mais rápido. Quando chegava em casa, minha pele estava inevitavelmente vermelha, e às vezes meus dedos estavam inchados apesar das luvas, como se eu tivesse me queimado com o frio. Simón me tomava nos braços e me beijava para me aquecer, esfregando meus braços e ombros nus até minha pele doer. Ele era caloroso de todas as maneiras, desde a pele da cor de café, cortesia da origemvenezuelana, aos grandes olhos castanhos, cabelo cacheado volumoso e corpo grande. Tinha quase 1,90m de altura e vinha ganhando peso gradualmente desde que fomos morar juntos. Não era nada gordo, mas os jantares a dois e as garrafas de vinho compartilhadas no sofá assistindo a um DVD o tinham levado de magro a forte, e isso dera ao corpo dele uma sensação adicional de maciez. O peito era coberto de uma densa camada de pelos escuros pelos quais eu amava passar as mãos quando ficávamos deitados na cama depois de fazer amor. Simón era escancaradamente masculino na aparência e profundamente carinhoso no comportamento. Nossos dois anos juntos foram como relaxar em um banho de espuma. Entrar em umrelacionamento com ele foi como voltar para casa depois de um longo dia no trabalho e colocar pijamas de flanela e meias velhas. Não há nada como a companhia de um homem que ama você completamente, sem dúvida nenhuma. Com Simón eu estava bem-cuidada, protegida, tranquilizada. Mas também estava entediada. Eu tinha conseguido acalmar a corrente de insatisfação no nosso relacionamento com uma série de hobbies. Trabalhando feito um demônio. Tocando violino como se cada apresentação fosse a última. Correndo na maratona de Nova York.

Correndo, correndo, correndo, o tempo todo fugindo, mas sempre voltando para casa. Até ler o livro de Dominik. Desde então, eu ouvia a voz de Dominik na minha mente quase constantemente. Primeiro nas palavras do romance dele, como se em vez de ler eu estivesse ouvindo umaudiolivro. As lembranças encheram como a maré. Nosso relacionamento era intensificado pelo sexo, mas não o sexo frequente e carinhoso que eu fazia com Simón. Dominik era um homem com desejos mais sombrios do que a maioria, e estar com ele foi como uma luz se acendendo na minha vida. Com Dominik, tive grande prazer na realização de fantasias com as quais não sonhava antes. Ele me pedia para fazer coisas com ele que outras pessoas nemsequer sussurrariam. Não era tanto a aventura, mas a insistência de Dominik para eu permitir que usasse meu corpo para seu prazer, para me submeter a ele em um jogo estranho, mais mental que físico, e do qual éramos ambos cúmplices, apesar de para alguém de fora talvez parecer que eu estava deixando que ele mandasse em mim. Sexualmente, Simón era o oposto de Dominik. Ele gostava que eu ficasse por cima, e eu passava a maior parte das nossas noites me esfregando nele por cima, tentando impedir que minha mente vagasse para sonhos acordados com o trabalho e listas de compras, ou que olhasse para a parede branca atrás da cabeceira. Meu telefone vibrou no bolso da calça, dei um pulo de surpresa e quase escorreguei em um trecho congelado. Poucas pessoas tinham meu número, e eu não costumava receber ligações. Quando alguémme ligava, era Simón ou a minha agente, Susan. Simón sabia que eu estava correndo, então era improvável que ligasse, a não ser que quisesse me pedir para comprar algo para o café da manhã, como um dos donuts açucarados que ele gostava tanto de mergulhar no café, da lanchonete na esquina da Lexington com a 56. Rapidamente tirei uma das luvas. Meus dedos estavam tão congelados que mal consegui segurar o aparelho. Era um número da Nova Zelândia, mas que não estava na minha lista de contatos. Apertei o botão para atender com um pouco de nervosismo. Eu raramente falava com minha família ao telefone. Não éramos do tipo que mantinha comunicação frequente e preferíamos usar emails ou o Skype. E seria tarde da noite lá. — Alô? — Oi, Sum, como vai? — Fran? — Não me diga que faz tanto tempo que você não reconhece mais minha voz, mana. — Claro que reconheço, só não esperava uma ligação sua.

Que horas são aí? — Não consegui dormir. Andei pensando. — Não faça disso um hábito. — Quero ir te visitar. — Em Nova York? — Pra ser sincera, eu preferia Londres, mas qualquer porto serve em uma tempestade. Estou ficando entediada em Te Aroha. Eram palavras que jamais esperei ouvir da boca da minha irmã mais velha. Ela se destacava como um ser estranho em nossa cidade, Te Aroha, e não me parecia ser o tipo de pessoa de cidade pequena, mas apesar disso sempre morou lá, a vida toda, por quase trinta anos. Ela trabalhava no banco desde que terminou a escola. Doze anos mais ou menos praticamente no mesmo emprego. Ela começou como caixa e passou a gerente e depois conselheira financeira, apesar de não ter educação formal nenhuma além do que era oferecido internamente. Fui a única na minha família a ir para a universidade, mas larguei tudo depois do primeiro ano. Eu conseguia visualizá-la com facilidade. Era manhã de sábado para mim, então seria tarde da noite de sábado para ela. Devia estar sentada na casinha onde morava, usando short jeans e uma camiseta de alguma cor fluorescente, cortada no estilo punk dos anos 1980. Provavelmente estava impaciente, como sempre ficava, passando a mão pelo cabelo curto oxigenado ou enrolando uma mecha da franja no dedo. Era meados do verão lá, então devia estar quente, embora a casa dela pegasse uma boa corrente de ar e Te Aroha sempre parecesse possuir um toque frio no ar, como se a cidade toda ficasse sob a sombra da montanha. — O que te levou a pensar isso? — perguntei. — Pensei que você fosse ficar aí pra sempre. — Nada dura pra sempre, dura? — Bem, não, mas é uma grande mudança de opinião pra você. Aconteceu alguma coisa? — Não sei se devo te contar. Mamãe mandou não falar. — Ah, pelo amor de Deus, agora vai ter que falar. Não pode me deixar curiosa. Eu tinha diminuído o ritmo para uma caminhada rápida, e sem o movimento da corrida me empurrando pelo gelo, estava escorregando a cada passo e congelando sem o calor do esforço intenso para me aquecer.

Os dedos da minha mão sem a luva estavam vermelhos do frio e começavam a latejar. — Fran, estou no meio do Central Park e a temperatura está abaixo de zero. Preciso começar a correr de novo e não posso correr e falar, então fala logo e te ligo quando chegar em casa. — O Sr. van der Vliet morreu. Ela falou as palavras baixinho, como se estivesse disparando uma arma com delicadeza. — Seu professor de violino… — acrescentou Fran, preenchendo o silêncio entre nós. — Eu sei quem ele é! Parei completamente e deixei o ar gelado se enrolar em mim como um cobertor de aço. Fran ficou em silêncio do outro lado da linha. — Quando? O que aconteceu? — consegui dizer depois de um momento. — Não sabem. Encontraram o corpo dele no rio, onde a mulher dele morreu. A esposa do Sr. van der Vliet falecera no dia em que eu nasci. Ela estava dirigindo pelo desfiladeiro Karangahake voltando de Tauranga quando as rodas do carro deslizaram na chuva. Tinha calculado mal a situação e bateu em um caminhão que vinha na direção oposta. O motorista do outro veículo saiu ileso, sem nem um arranhão, mas o carro da Sra. van der Vliet capotou, caiu pela lateral da estrada traiçoeira e despencou no rio. Ela se afogou antes que qualquer pessoa conseguisse alcançá-la. — Quando? — A palavra entalou na minha garganta como um punhado de algodão. — Quase dois meses atrás — sussurrou Fran. — A gente não queria te contar. Achamos que poderia te perturbar, afetar as apresentações. Mamãe e papai não queriam que você largasse tudo pra voltar pra casa pro enterro. — Eu teria ido.

— Eu sei. Mas que diferença faz? Ele ainda estaria morto, com você aqui ou não. Fran, assim como a maioria dos neozelandeses que eu conhecia, era prática e pragmática. Mas a lógica dela não impediu a sensação ruim de aperto no meu coração. O Sr. van der Vliet estaria na casa dos 80 anos agora, e eu achava que ele nunca tinha superado a morte da esposa. Mas por mais silencioso e humilde que tivesse sido, ele foi como uma rocha na minha infância. A voz dele, ainda densa com o sotaque holandês apesar de ter morado na Nova Zelândia a maior parte da vida adulta, era gentil mas firme quando ele corrigia minha pegada no arco ou me elogiava por um desempenho bom. Aprendi boa parte da arte de tocar violino observando-o. A forma como o corpo alto e dolorosamente magro ganhava tanta vida e graça quando pegava o instrumento. Ele tocava como se tivesse entrado por uma porta em outro lugar, tornando-se um homem completamente diferente, sem nada do constrangimento natural. Tentei imitar a forma como parecia viver a música e logo descobri que fechando os olhos e absorvendo a melodia com o corpo eu conseguia tocar bem melhor do que se apenas lesse a partitura. O Sr. van der Vliet não era o motivo de eu ter começado a tocar. Meu pai e seus vinis foram responsáveis por isso. Mas Hendrik van der Vliet foi o motivo de eu ter seguido em frente. Ele parecia um homem muito severo por fora, mas tinha um traço de suavidade que aparecia ocasionalmente, e passei a maior parte da infância e da adolescência fazendo o que podia para conquistar seus raros elogios, ensaiando e ensaiando até meus dedos sangrarem. — Summer? Você ainda está aí? Está bem? As palavras dela eram como um eco. — Fran, te ligo depois, tá? Apertei o botão para encerrar a ligação e coloquei o celular no bolso da calça sem esperar que ela respondesse. Coloquei os fones de ouvido e aumentei a música. “Fight Like a Girl”, de Emilie Autumn, uma música que o Sr. van der Vliet teria odiado. Ele sempre me empurrou na direção da música clássica e ficou decepcionado quando larguei a faculdade de música e me mudei para Londres. Minha mente se encheu de imagens do rosto dele debaixo d’água. Será que sofrera um acidente? Um ataque cardíaco, coincidentemente no mesmo lugar que a esposa morreu? Eu duvidava.

Nunca vi o Sr. van der Vliet ter sequer um resfriado e não conseguia imaginá-lo ficando doente. Devia ter sido deliberado, mas ele não me parecia do tipo que pularia no rio. Isso parecia espontâneo demais. Ele escolheria ir de uma maneira que fosse certeira, com cada momento da morte firmemente sob seu controle. Ele teria encarado a morte andando, não pulando. Eu conseguia ver como um filme se desenrolando à minha frente. Ele teria colocado sua melhor roupa de domingo. Talvez o terno que usou no meu concerto no auditório da escola de Te Aroha, quando visitei a cidade dois anos antes no meu tour solo pela Austrália e Nova Zelândia. Uma camisa branca com colete verde-oliva escuro, calça e paletó. Ele parecia um gafanhoto, com os membros encolhidos de maneira desconfortável para caber nas pequenas cadeiras de madeira colocadas no auditório. Sua pele era fina como papel, como se pudesse sair voando na brisa como uma folha. Ele teria entrado e relaxado. Provavelmente o fez tarde da noite ou de manhã cedo, antes de o rio se encher de turistas, pessoas fazendo caminhada e crianças com câmaras de pneus inflados com a intenção de boiar na corrente que seguia até Paeroa, onde o rio Ohinemuri se encontrava com o Waihou. O Sr. van der Vliet devia ter sido uma das únicas pessoas na Nova Zelândia que não sabia nadar. Dizia que nunca quis aprender e sempre preferia o conforto da terra seca no clima quente. Com sua total ausência de tecido gorduroso, ele teria afundado o rio como uma pedra. Quando cheguei em casa, as lágrimas desciam delicadamente pelas minhas bochechas. Fiquei triste com a notícia da morte do Sr. van der Vliet, porém mais pelo fato de eu não ter sabido sobre o enterro, não ter tido chance de me despedir e agradecer por tudo que fez por mim. Simón estava sentado em um dos bancos na bancada do café da manhã lendo o jornal, com o cabelo longo e cheio emoldurando o rosto como uma cortina. Estava usando uma calça jeans velha cortada e uma camiseta do Iron Maiden, aproveitando como sempre a oportunidade de se vestir informalmente, de sair do confinamento do terno formal e da casaca de maestro, nos quais eu achava que ficava ótimo (como um cruzamento entre lobisomem e vampiro), mas que ele odiava e via como tão limitador quanto uma camisa de força. Ele se virou quando entrei na sala, se levantou e me tomou nos braços imediatamente. — Fran ligou — disse ele.

— Sinto muito, gata. Eu me apoiei nele e escondi o rosto em seu ombro. Simón tinha o cheiro de sempre, de nozmoscada e canela, as fragrâncias que perfumavam a colônia que ele usava desde que o conheci. Era um odor intenso e amadeirado, um cheiro que comecei a associar com aconchego junto da sensação do abraço apertado dele. — Eu achava que ela não tinha nosso número de casa — falei estupidamente. — Dei pra ela no Natal. Simón era bem mais voltado para a família do que eu. Brigava com os irmãos como cães e gatos, e com os pais também de vez em quando, mas falava com todos pelo menos uma vez por semana. Minha família e eu tínhamos um relacionamento bem feliz, mas eu conseguia passar facilmente seis meses sem ter notícias deles. Ergui o olhar e o beijei. Ele tinha lábios carnudos e, na maior parte dos dias, barba por fazer. Simón reagiu ao toque dos meus lábios, me beijou com firmeza e me puxou delicadamente para o quarto, passando as mãos por baixo da minha camiseta e puxando o fecho do meu sutiã esportivo. Ele havia aprendido uma das minhas peculiaridades: não tinha nada que eu quisesse mais quando estava aborrecida — desde que não fosse com ele — do que sexo. Eu sabia que era uma forma estranha e específica de consolo, só minha e talvez de uma pequena minoria da população feminina. O sexo colocava meus pés no chão como mais nada conseguia fazer, e era a única coisa na Terra, atrás talvez apenas de tocar meu violino, que me fazia sentir em paz. Simón puxou minha calça de corrida para baixo e deslizou o dedo para dentro de mim. Uma onda familiar de prazer subiu pela minha coluna em reação ao toque dele. — Eu devia tomar banho — protestei. — Estou toda suada. — Não, não devia — disse com firmeza, me empurrando para a cama. — Você sabe que gosto de você assim. Era verdade, e ele tentava enfatizar isso com frequência. Simón gostava de mim como eu era, estivesse como estivesse, algo que sempre deixava claro ao me acordar com a cabeça entre as minhas pernas ou partindo para cima de mim quando eu terminava de me exercitar. Ele era um homem apaixonado que amava fazer amor e fazia tudo que podia para me agradar. Porém, tínhamos gostos diferentes na cama.

Ambos preferíamos não estar no comando. Simón não era um homem dominador, e eu sentia falta desse traço de força, da firmeza do toque de Dominik e de outros homens como ele. Eu queria ser amarrada à cama e deixar que outra pessoa fizesse o que quisesse comigo. Simón tentou, mas nunca conseguiu aceitar a ideia de que podia genuinamente me machucar. Ele dizia que, mesmo de brincadeira, não podia amarrar uma mulher nem bater nela, e isso descartava spanking, uma das coisas de que eu mais gostava. Ele era um bom homem. Eu sabia que me colocar por cima era bem mais o estilo dele do que o contrário, mas estava fazendo assim porque sabia que eu preferia. O fato de eu ter passado nosso relacionamento inteiro com uma sensação irritante de insatisfação era fonte constante de culpa, como um ferimento que não fechava, uma coceira que eu não conseguia coçar. Eu queria, mais do que qualquer coisa, ser o tipo de mulher que ficaria feliz com todas as coisas comuns. Eu tinha até mais do que as coisas comuns. Não apenas um bom homem, mas um homemmaravilhoso. Nós dois tínhamos bons amigos, ótima saúde e carreiras de sucesso. Mas, ainda assim, uma voz sussurrava no meu ouvido que a vida que eu estava vivendo não era a vida que eu queria nem uma vida certa para mim.

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