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99 sonetos sacanas e 1 canção de amor – Henrique Pimenta

Em ritual secreto, madrugada,
um homem, sua fêmea, se acasalam.
Odores se harmonizam porque exalam
amor de seus hormônios, a florada.
Os dois se fazem um. Não há de cada,
revel, competição. Do que se fala,
gemidos e gritinhos a abestá-la,
e trancos nos seus quartos. Revelada
a bela sem moldura de museu,
arquétipo que afirma: sou mais eu.
Transfere-se do belo para a bela
em elo que se anela, que se apela,
o mel de seus humores irascível.
À força é toda cópula sensível.
Acerca de uma glosa de Sesyom
Da vida que me deram não me canso,
na orgia e no prazer com a putaiada
e fumo, jogatina, pingaiada,
gandaias que equilibram o balanço.
Não há longevidade que me alcance,
porque é na ligeireza da picada
que o cabra se descobre na parada
e páramos não há quem afiance.
Censuram-me a descrença no porvir,
polvilhos de um povinho, um estrupício,
boiolas que não gostam de mulher!
A gula do meu pau há de convir,
convém mais uma buça, mais um vício,
que eu como e nem preciso de talher.
Pimentinha
É dessa pimentinha que cê gosta?
Desastre de sabor de quem trafica
das Índias, não se espera nem resposta,
que gosto não discuto, que complica.
Sim, há quem beba mijo, coma bosta,
delícias de acepipes, vai a dica.
Entanto não seria mais disposta
a mesa com o meu saco e a minha pica?
Há muito o que fazer por esse prato,
que é quente pra caralho, um diabrete.
Sorvê-lo e então soltá-lo com saliva:
o talo e o seu escroto muito gratos,
com a língua de pastilha com chicletes,
sabor de pimentinha e de água-viva.
DVD
Eu vivo bem feliz no barracão.
Um bico de pedreiro, se aparece.
Não vivo de barraco, falação.
A filha do vizinho que confesse.
Eu vi, mas eu não falo. O rabecão
não sobe na favela nem por prece.
Não posso, não há preço nem pressão
que faça eu dedurar, vê se me esquece.
Se pode, se não pode, nem me diga,
criança com criança na barriga,
de pai que era da boca devedor.
Foi feito o DVD à revelia,
venderam de montão, nem se avalia
o lucro com a menina com pudor.
Diplomacia
Vicio-me na lenta violência,
que levo para a cama com frescor
algemas e mordaça.


Competência
não falta para dar à luz a dor.
Você vem de zumbi e eu de excelência.
Distância, segurança para pôr
o corpo numa lida por essência,
num leito pelo néctar promissor.
Promessas de prazer, parafilia,
a dor que vem brotando e que se alia
em roxos e vermelhos ao seu colo.
É livre nos pedidos por arrego.
Enfio minha língua no seu rego.
E pronto! Foi quebrado o protocolo.
Súcubo
Lolita que se compra ainda no gelo,
com gosma de cadela, à fantasia,
a besta do underground em afasia,
a musa do bizarro. Vem com selo.
Um culto, uma escultura parabella,
monstrinha que demanda a anestesia,
um opus ao sensível que extasia.
Desejos de foder a magricela.
Um súcubo ninfeta sem saúde,
sonâmbula ao azul de sua oferta,
inferno que há na crica e que amiúde
levanta a minha pica, lá me aperta
e me liquidifica pelo grude.
A tez de silicone desconcerta.
Romaria aos mistérios do amor
Senhor, não vos credito o que vos devo?
A salvo, são, no colo de quem amo,
despeço-me das crenças em relevo?
Amálgama de mágoas? Não reclamo…
No solo mais celeste em que me atrevo,
o trevo do querer de quem me gamo.
Nos termos da mulher, por seu enlevo,
não temo se é vexame, não destramo.
Eu acho que estou certo perguntando
e, mesmo sem resposta, não estando
ao menos na metade do caminho,
coloco na berlinda o que é supremo,
aquilo que se espreme enquanto tremo
à flor de sua pele, pergaminho.
Varapau
Se não sei como chegar,
pelo menos um esboço
dessa plural, singular:
uma mulher que é só osso,
faz o tesão congelar,
tem nada além de caroço,
não tem nem onde pegar,
porque é seu cós sem almoço,
da dieta d’avant-garde,
uma filé de pescoço
em aridez jugular.
Não vou ferir, porque é grosso:
tem bone appeal a bagaça
e como top arregaça!
Dois amigos
Apenas dois amigos inocentes,
com gosto parecido, por acaso.
Cresceram neste bairro onde se sente
um quê de estranhamento pelo prazo.
Se somos uma soma displicente,
se a massa da cabeça voa raso,
se o peito descontrola-se indecente,
é certo que há um erro nesse caso.
São bons e são amigos, ou apenas
equívocos, desejos reprimidos
a ponto de romper pelo sufoco?
O fôlego felino lanha a cena,
rompendo o mal secreto. Corrompidos,
conservam-se inocentes pelo fogo.
Anita
Vislumbro na cadela adolescente
os olhos embaçados de uma vó,
de alguém que muito breve estará só,
por meio de um sorriso inteligente
que intriga a quem o vê. É diferente,
difere pra caralho o mocotó,
as carnes criam corpo para o pó…
Neste ínterim, porém, é de repente
na cama à fruição, com acessório,
além do namorado masoquista,
pedinte pela surra no cangote,
a teen dominadora, em decisório
poder que não lhe doma, que conquista
a eterna juventude no chicote.
Língua de Sá-Carneiro
O senso de responsa me deprime,
destaca-me dos trilhos do motivo.


Que louco participa desse crime,
veloz locomotiva do ser vivo?
Na gare eu aos agarros por meu time,
só o bardo português que é permissivo?
Eu beijo o meu amor que me comprime
e agora já nem sei se é tão nocivo.
Se freio no meu peito todo o mal;
ao fumo dos motores, acelero
a máquina que pulsa por pressão.
Sorrindo pela via lacrimal…
Apito! Dá a partida o monstro fero
em ferro e, menos denso, o coração.
Da servidão
Se a moça for do solo da Toscana,
é dona de manter o desmantelo,
contente por amar e por mantê-lo
à vista de seu corpo. Que sacana!
Se ainda for ferina, que me engana,
bruxedo que arruína meus castelos,
aflige fantasias a cutelos,
os ossos esfacela. Que magana!
À luz de suas meias em turqui,
em tour por suas pernas, por prazer,
estou no que é pedido para ser…
A venda nos seus olhos e eu aqui
na frente desse espelho que me vê
fazendo o que bem quero com você.

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