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A Abadia de Northanger – Jane Austen

Ninguém que tenha visto Catherine Morland em sua infância poderia supor que ela tivesse nascido para ser uma heroína. Sua situação na vida, o caráter de seu pai e de sua mãe, sua própria pessoa e seu ânimo, tudo se mostrava igualmente contra ela. Seu pai, um clérigo, não era desafortunado ou pobre – um homem muito respeitável, embora seu nome fosse Richard, e nunca fora bonito. Tinha uma considerável autonomia, além de dois salários; e nem de longe era dado a trancafiar suas filhas. Sua mãe, dona de um apropriado senso comum, tinha bom temperamento e – o que era mais notável – uma boa constituição. Teve três filhos antes de Catherine nascer. E, ao invés de morrer ao trazer esta última ao mundo, como seria de se esperar, ela ainda viveu – viveu para ter mais outros seis filhos e vê-los crescer ao seu redor, enquanto gozava de excelente saúde. Uma família de dez filhos sempre será chamada de uma família admirável; em que há cabeças, braços e pernas suficientes para o adjetivo. Mas os Morland tinham outro pequeno direito sobre a palavra, pois eram, em geral, muito corretos, sendo que Catherine, por muitos anos, foi tão correta quanto os demais. Dona de compleição magra e estranha, pele pálida, sem cor, cabelos pretos escorridos, e traços fortes – excessivamente fortes para a sua pessoa. E não menos inapropriada para o heroísmo parecia a sua mente. Ela era apaixonada pelas brincadeiras dos garotos e preferia críquete não apenas em relação às bonecas, mas também às diversões mais heroicas da infância, como cuidar de um rato do campo, alimentar um canário ou regar uma roseira. Na verdade, ela não gostava do jardim. E se fazia ramalhetes de flores era principalmente pelo prazer de enganar – pelo menos era o que se supunha, pois ela sempre preferia aquelas proibidas de serem colhidas. Tais eram suas propensões. E suas habilidades eram bem peculiares. Ela nunca podia aprender ou compreender algo antes de ser ensinada. E, às vezes, nem mesmo assim, pois era muito desatenciosa e, ocasionalmente, estúpida. Sua mãe levou três meses para ensiná-la a repetir “Beggar’s Petition”[1], no entanto sua irmã mais nova, Sally, podia recitá-lo melhor do que ela. Não que Catherine fosse sempre estúpida, de jeito nenhum. Ela aprendeu a fábula “The Hare and Many Friends”[2] tão rápido quanto qualquer garota na Inglaterra. Sua mãe queria que ela aprendesse música, e Catherine estava certa de que gostaria disso, pois adorava pressionar as teclas da velha e abandonada espineta[3]; assim, começou aos oito anos, estudando por um ano apenas, pois já não aguentava mais. A senhora Morland, que não insistia em tornar prendadas suas filhas, a despeito da incapacidade ou do fastio, permitiu que ela abandonasse os estudos. O dia em que demitiu o professor de música foi um dos mais felizes da vida de Catherine. Seu apreço por desenho não era muito maior, se bem que, sempre que encontrava uma carta jogada fora por sua mãe ou qualquer pedaço de papel, ela fazia o que podia, desenhando casas e árvores, galinhas e galos; tudo parecendo a mesma coisa.


Seu pai lhe ensinava a escrever e a fazer contas; sua mãe, francês. Sua competência em qualquer destas disciplinas não era notável e ela se esquivava das lições sempre que podia. Que caráter estranho e irresponsável! Com todos esses sintomas de má conduta, ela não tinha um mau coração ou um mau temperamento. Quase nunca era teimosa e muito menos emburrada. Pelo contrário, muito bondosa com os menores, e raramente autoritária. Ela era bem mais barulhenta e irrequieta; odiava o confinamento e a limpeza; e amava, mais do que tudo, rolar pela verde encosta abaixo, atrás de sua casa. Assim era Catherine Morland aos 10 anos. Aos 15, as aparências se corrigiram. Começou a encaracolar os cabelos e a ansiar por bailes – encorpou e seus traços suavizaram-se, comexuberância e colorido. Seus olhos ganharam mais vivacidade e sua figura, mais imponência. Seu amor pela sujeira deu lugar a uma inclinação pela sofisticação; à medida que crescia, tornava-se mais limpa e mais esperta. Agora tinha o prazer de ouvir, às vezes, seu pai e sua mãe comentarem sobre seu aprimoramento pessoal. “Catherine está se tornando uma garota muito bonita, ela está quase encantadora.” – eram palavras que agarravam seus ouvidos, de vez em quando. E como erambem-vindos tais sons. Parecer-se quase encantadora é uma aquisição mais prazerosa para uma garota de aparência rude, pelos primeiros quinze anos de sua vida, do que para uma garota bonita desde o berço. A senhora Morland era uma mulher muito boa e desejava que seus filhos tivessem tudo o que almejassem. Mas estava sempre tão ocupada em cuidar e em ensinar os mais novos, que os mais velhos eram deixados a cuidar de si mesmos. Deste modo, não era muito intrigante que Catherine, que por natureza nada tinha de heroica em si, preferisse, na idade de 14 anos, críquete, beisebol, montar a cavalo e correr pelos campos, a livros – ou, pelo menos, livros educativos. No entanto, dado que nada como um conhecimento útil poderia ser obtido disso e que eram apenas histórias e não reflexões, ela nunca tinha qualquer objeção a livros. Mas, dos 15 aos 17 anos, ela estava emtreinamento para se tornar uma heroína. Leu todos os livros que as heroínas deveriam ler para fornecer em suas memórias aquelas citações que eram tão úteis e tranquilizantes durante as vicissitudes de suas agitadas vidas. Com Pope[4], ela aprendeu a censurar aqueles que “fazem zombaria dos aflitos”. Com Gray[5], que “muitas flores nascem para florir sem serem vistas, e desperdiçam sua fragrância no ar deserto”. Com Thompson[6], que “é uma deliciosa tarefa ensinar a uma jovem ideia como se desenvolver”.

E, de Shakespeare, ela guardou muita informação, dentre todas, que “fios leves como o ar são, para o ciumento, confirmação evidente como provas das Santas Escrituras”[7]. E ainda, que “O pobre inseto, quando pisado, sente, em sofrimento corporal, uma dor tão grande quanto a de um gigante que morre.[8]”. E que uma jovem mulher apaixonada sempre se mostra “como a Paciência em um monumento, sorrindo para a dor[9]”. Até então, seu aprimoramento era suficiente, e, em muitos outros aspectos, ela ia muito bem. Embora não pudesse escrever sonetos, obrigava-se a lê-los, e embora parecesse não haver chances de levar todo um grupo às lágrimas em um prelúdio ao piano que ela mesma compusera, podia ouvir o desempenho de outros, sem o menor cansaço. Sua maior deficiência estava no lápis. Não tinha noção de desenho, nem mesmo para tentar um esboço do perfil de seu amado, o qual ela poderia encontrar no desenho. Era quando ficava miseravelmente menor que a verdadeira altura heroica. Até o momento, ela não conhecia sua própria miséria, pois não tivera um amado para retratar. Ela chegou aos 17 anos sem ter visto um jovem amável que pudesse despertar sua sensibilidade, sem ter inspirado uma paixão verdadeira, e sem ter levantado mesmo qualquer admiração, além daquelas moderadas e passageiras. Isto era, de fato, estranho! Mas as coisas estranhas podem ser geralmente explicadas, se sua causa for pesquisada com isenção. Não havia nenhum lorde na vizinhança, nem mesmo um barão; não havia nenhuma família em seus relacionamentos que tivesse abrigado e cuidado de um garoto acidentalmente encontrado em sua porta – nenhum jovem rapaz cuja origem fosse desconhecida; seu pai não tinha nenhum protegido; e o escudeiro da paróquia, nenhum filho. Mas, quando uma jovem dama é predestinada a ser uma heroína, a perversidade de quarenta famílias ao redor não pode detê-la. Algo deve, e irá, acontecer para lançar um herói em seu caminho. O senhor Allen, que era o proprietário da maior parte das terras perto de Fullerton, a vila em Wiltshire onde viviam os Morland, foi enviado a Bath para cuidar de sua gota, e sua esposa, uma mulher bem-humorada, que gostava da senhorita Morland, e provavelmente ciente de que, se as aventuras não recaíssem sobre uma jovem dama em sua própria vila, era iria buscá-las em outro lugar, convidou-a a acompanhá-los. O senhor e a senhora Morland eram só condescendência, e Catherine, só felicidade. [1] Poema que encabeça o livro “Poems on Several Occasions”, do Reverendo Thomas Moss, publicado em 1769. [2] Fábula de Esopo, transformada em poema por John Gay , em 1727. [3] Instrumento similar a um piano ou um cravo, inventado por Giovanni Spinnetti, em 1503. [4] Alexander Pope, poeta inglês nascido em 1688 e falecido em 1744. O verso citado é do poema “Elegy to the Memory of na Unfortunate Lady “ (Elegia à memória de uma desafortunada dama). [5] Thomas Gray, nascido em 1716 e falecido em 1771. Os versos são de “Elegy Written in a Country Church-yard” (Elegia escrita em um cemitério camponês). [6] James Thompson, nascido em 1700 e falecido em 1744.

O verso citado é do poema ”The Seasons: Spring”, e a citação completa é: ”Delightful task! / To render the tender thought / To teach the young idea how to shoot”. (“Deliciosa tarefa!/ Transformar o puro pensamento/Para ensinar uma jovem ideia como se desenvolver”). [7] “Otelo, O Mouro de Veneza”, Ato III, Cena III. [8] “Medida por Medida”, Ato III, Cena I. [9] ”Noite de Reis,” Ato II, Cena IV. CAPÍTULO 2 Além do que já foi dito sobre os dotes pessoais e mentais de Catherine Morland, quando ela estava prestes a ser lançada a todas as dificuldades e aos perigos de uma estadia de seis semanas em Bath, pode-se dizer – para melhor compreensão do leitor, a menos que as páginas seguintes fracassem em dar qualquer ideia do que a personalidade dela deveria ser – que seu coração era afetuoso; seu temperamento alegre e aberto, sem presunção ou afetação de qualquer tipo; suas maneiras recém-libertadas do constrangimento e da timidez de uma garota; sua pessoa agradável e, quando bem vestida, bonita; e sua mente tão ignorante e desinformada quanto uma mente feminina aos 17 anos geralmente é. Quando a hora da partida se aproximava, a ansiedade maternal da senhora Morland deveria, naturalmente, tornar-se mais severa. Mil pressentimentos alarmantes e ruins sobre sua querida Catherine, por essa terrível separação, deveriam oprimir seu coração com tristeza e afogá-la em lágrimas no último ou penúltimo dia juntas, e o conselho da mais importante e aplicável natureza deveria, claro, fluir de seus sábios lábios, na conversa de despedida em seu quarto. Precauções contra a violência de lordes e de barões quanto ao prazer em forçar jovens damas para alguma remota casa no campo deveriam, em tal momento, aliviar seu coração aflito. Quem não pensaria assim? Mas a senhora Morland sabia tão pouco sobre lordes e barões que não tinha nenhuma noção de suas maldades em geral, e era totalmente ingênua quanto aos perigos das maquinações contra sua filha. Seus cuidados se restringiram aos seguintes aspectos: “Te peço, Catherine, que sempre se agasalhe muito bem na garganta, ao sair dos salões à noite. Espero que sempre tente manter conta do dinheiro que gastar. Para isso, leve esta pequena caderneta”. Sally, ou melhor, Sarah (pois, qual menina com um nome comum chega aos 16 anos sem mudar seu nome para o mais diferente possível?) deveria, pela situação daquele momento, ser a amiga íntima e a confidente de sua irmã. É notável, porém, que ela nem tenha insistido para que Catherine lhe enviasse uma carta a cada passagem do carteiro, nem cobrasse dela a promessa de transmitir o caráter de cada novo amigo, ou o detalhe de cada conversa interessante que Bath pudesse lhe prover. Tudo o que se relacionava diretamente a essa importante viagem foi feito pelos Morland com uma dose de moderação e de compostura, o que parecia bem mais coerente com os sentimentos comuns da vida cotidiana, do que com as refinadas suscetibilidades ou as suaves emoções que a primeira separação de uma heroína de sua família sempre deveria suscitar. Seu pai, ao invés de lhe dar uma ordem ilimitada ao seu banqueiro, ou mesmo colocar uma nota de 100 libras em suas mãos, deu-lhe apenas dez guinéus e prometeu mais assim que ela quisesse. Sob estes auspícios nada promissores, a partida ocorreu e a viagem começou. Foi executada com adequada quietude e tranquila segurança. Nem ladrões ou tempestades os acompanharam. Nem uma afortunada reviravolta para apresentá-los a um herói. Nada mais alarmante ocorreu além de um susto, da parte da senhora Allen, por ter esquecido seus tamancos em uma estalagem, o que se provou, por sorte, infundado. Chegaram a Bath. Catherine estava ansiosa e encantada. Seus olhos estavam aqui, ali, emtodo o lugar, enquanto se aproximavam de seus belos e impactantes arredores, passando, em seguida, por aquelas ruas que os conduziam ao hotel.

Ela queria estar feliz e já se sentia assim. Logo se instalaram em confortáveis habitações em Pulteney Street. Agora é adequado fornecer alguma descrição da senhora Allen, para que o leitor possa julgar de que maneira suas ações irão, doravante, inclinar-se em promover a desgraça de todos os acontecimentos, e como ela provavelmente contribuirá para submeter a pobre Catherine à infelicidade e ao desespero – fazendo com que uma nova obra fosse necessária –, seja pela sua imprudência, vulgaridade ou ciúme, seja por interceptar suas cartas, destruir seu caráter ou expulsála de casa. A senhora Allen era daquele tipo de mulher cuja companhia poderia suscitar nenhuma outra emoção que a surpresa por haver algum homem no mundo que a apreciaria tanto, a ponto de se casar com ela. Não tinha beleza, gênio, prendas ou modos. O tom de uma dama, uma boa porção de temperamento tranquilo por natureza, um insignificante voluteio de espírito, era tudo o que se podia atribuir para que ela fosse a escolha de um homem sensível e inteligente como o senhor Allen. Em umaspecto ela era admiravelmente talentosa: em apresentar uma jovem dama ao público, pois ela era tão apaixonada por ir a todos os lugares e ver a tudo, que qualquer jovem dama poderia se tornar também. A moda era sua paixão. Ela tinha um prazer bem inofensivo em estar elegante. E a entrée de nossa heroína na vida não poderia ocorrer antes de três ou quatro dias aprendendo o que mais se usava, e de sua acompanhante ganhar um vestido da última moda. Catherine também fez, sozinha, algumas compras, e quando todos esses assuntos foram resolvidos, a importante noite em que ela seria levada aos Salões Superiores chegou. Ela cortou o cabelo e se cobriu com as melhores roupas, todas vestidas com cuidado, e tanto a senhora Allen quanto sua criada declararam que ela se aparentava como deveria. Com tal incentivo, Catherine esperou pelo menos passar sem a desaprovação da multidão. Quanto à admiração, era sempre bem-vinda quando aparecia, mas ela não precisava disso. A senhora Allen demorou-se tanto a se aprontar que elas adentraram pelo salão de baile quando já era tarde. A temporada estava cheia, a sala repleta, e as duas damas se esgueiraram o quanto puderam. Quanto ao senhor Allen, ele se dirigiu diretamente ao salão de jogos e as deixou para que apreciassem a turba por si mesmas. Com mais cuidado pela segurança de seu novo vestido do que pelo conforto de sua protegée, a senhora Allen abria seu caminho pela aglomeração de homens à porta, tão agilmente quanto a necessária precaução poderia permitir. Catherine, porém, mantinha-se imediatamente ao seu lado e prendeu seu braço tão firme ao de sua amiga para que só pudesse ser separada por algum esforço conjunto de uma multidão em luta. Mas, para sua extrema surpresa, ela descobriu que para seguir adiante pelo salão não era, de forma alguma, o modo como se desprendia da aglomeração. Esta, ao contrário, parecia aumentar à medida que seguiam, enquanto ela imaginou que, uma vez depois da porta, elas facilmente encontrariam assentos e seriam capazes de assistir as danças com perfeita conveniência. Mas isto estava longe de ser o caso e, por meio de incansável diligência, mesmo ao chegarem ao topo do salão, a situação delas ainda era a mesma. Nada viam dos dançarinos, além das penas no topo dos chapéus das damas. Ainda assim, iam – algo melhor ainda estava para ser visto. E, pela aplicação continuada de força e engenho, encontraram-se, finalmente, na passagem atrás da mais alta bancada.

Havia menos gente do que embaixo, e, portanto, a senhorita Morland tinha uma visão abrangente de toda a companhia sobre ela e de todos os perigos de sua recém-terminada passagem por ela. Era uma vista esplêndida, e ela começou, pela primeira vez naquela noite, a se sentir ela mesma em um baile – ela ansiava por dançar, mas não conhecia ninguém no salão. A senhora Allen fazia o que podia, em tal caso, ao dizer muito placidamente, a cada momento: “Queria que você dançasse, minha querida, queria que encontrasse um parceiro”. Por algum tempo, sua jovem amiga se sentiu agradecida por tais desejos, mas estes foram repetidos comtanta frequência e se provaram tão artificiais que, por fim, Catherine se cansou e já não mais lhe agradecia. Não puderam, porém, gozar por muito tempo do repouso da eminência que conquistaramcom tanto trabalho. Logo, todos estavam se movimentando pelo chá, e elas deveriam se esgueirar assim como o resto. Catherine começou a se sentir um pouco desapontada – ela estava cansada de ser seguidamente prensada contra as pessoas. A generalidade daqueles rostos não possuía nada de interessante e, com todos aqueles a quem ela era completamente desconhecida, ela não poderia se aliviar do aborrecimento daquela prisão com a troca de uma sílaba com qualquer um dos seus companheiros reféns. Quando por fim chegaram à sala de chá, Catherine sentiu ainda mais o constrangimento de não ter algum grupo com quem se juntar, nenhuma amizade a chamar, nenhum cavalheiro a ajudá-la. Não viram o senhor Allen. Depois de procurar ao redor da sala por uma situação mais favorável, foram obrigadas a se sentar ao fim de uma mesa, na qual um grupo grande já ocupava lugares, sem ter o que fazer ou alguém para conversar, além delas mesmas. A senhora Allen se felicitava, assim que se sentaram, por ter preservado seu vestido de algum dano. “Teria sido chocante se ele tivesse rasgado”, ela disse, “não é mesmo? É uma seda muito delicada. De minha parte, não vi nada que eu gostasse tanto em toda a sala, garanto-lhe”. “Como é desconfortável”, sussurrou Catherine, “não ter uma única amizade aqui!” “Sim, minha querida”, replicou a senhora Allen perfeitamente serena, “de fato, é muito desconfortável”. “O que devemos fazer? Os cavalheiros e as damas nesta mesa nos olham como se perguntando o porquê de estarmos aqui. Parece que estamos forçando nossa entrada no grupo deles”. “Ah, parecemos. Isso é muito desagradável. Queria que tivéssemos inúmeros conhecidos aqui”. “Queria que tivéssemos ao menos um conhecido aqui. Seria alguém com quem conversar”. “É bem verdade, minha querida. E se conhecêssemos alguém, iríamos nos encontrar comele imediatamente. Os Skinners estiveram aqui no ano passado.

Queria que estivessem aqui agora”. “Não é melhor irmos embora? Não há nem louça ou talheres de chá para nós, veja”. “Não há mais, de fato. Que provocação! Mas acho que é melhor sentarmos imóveis, pois se pode tropeçar tanto em uma multidão como essa! Como está minha cabeça, querida? Alguém me deu um empurrão que temo ter desarrumado meu penteado”. “Não, na verdade, está muito bem. Mas, querida senhora Allen, você está segura de que não há ninguém que a senhora conheça em toda essa multidão de pessoas? Acho que você deve conhecer alguém”. “Não, juro. Gostaria de conhecer. Sinceramente, queria ter muitos conhecidos aqui, e então eu lhe arranjaria um parceiro. Eu ficaria tão feliz por você dançar. Lá vai uma mulher esquisita! Que vestido estranho ela está usando! Como é antiquado! Olhe para as costas”. Depois de algum tempo, foi-lhes oferecido chá por algum de seus vizinhos, o qual foi polidamente aceito, e isso levou a uma leve conversa com o cavalheiro que fez a oferta, sendo esta a única vez em que alguém falou com elas durante a noite, até que foram descobertas pelo senhor Allen, que se juntou às duas quando as danças se encerraram. “Bem, senhorita Morland”, ele disse, diretamente, “espero que tenha tido um baile agradável”. “Muito agradável, de fato”, ela replicou, tentando em vão esconder um grande bocejo. “Queria que ela tivesse dançado”, disse sua esposa; “queria que tivéssemos arrumado umparceiro para ela. Eu estava dizendo que ficaria muito feliz se os Skinners estivessem aqui neste inverno ao invés do último. Ou se os Parrys tivessem vindo, como falaram uma vez. Ela poderia ter dançado com George Parry. Estou tão triste por ela não ter tido um parceiro!” “Faremos melhor em outra noite, espero” consolou o senhor Allen. O grupo começou a se dispersar quando as danças terminaram, sendo o suficiente para deixar espaço para que o restante pudesse caminhar com algum conforto. Agora era a hora para uma heroína que não tinha ainda interpretado um papel mais distinto nos eventos da noite ser descoberta e admirada. A cada cinco minutos, ao desmanchar da multidão, abriam-se mais oportunidades para seus encantos. Ela era agora observada por muitos jovens que não tinham se aproximado dela antes. Nenhum, porém, começou a contemplá-la com arrebatado assombro. Nenhum sussurro de ansiosa curiosidade começou a circular pela sala.

Nem ela foi chamada de divindade por alguém alguma vez. Contudo, estava bonita e, tivessem aquelas pessoas visto Catherine três anos antes, agora eles a teriam achado demasiadamente encantadora. Ela era observada, entretanto, e com alguma admiração, pois, como ela mesma ouviu, dois cavalheiros disseram que ela era uma garota bonita. Tais palavras tiveram seu devido efeito. Ela pensou imediatamente que a noite fora mais agradável do que ela achara até então. Sua humilde vaidade estava saciada. E ela se sentia mais grata aos dois jovens por esse simples elogio do que uma heroína de genuína qualidade teria estado por quinze sonetos celebrando seus encantos, e rumou à sua cadeira de bom humor com todos, perfeitamente satisfeita com o que recebeu de atenção pública. CAPÍTULO 3 Toda manhã trazia agora seus deveres normais: lojas que deveriam ser visitadas; alguma nova parte da cidade que deveria ser observada; a casa de bombas[1], onde caminhavam para cima e para baixo por uma hora, olhando para todo mundo e não falando com ninguém. O desejo das numerosas amizades em Bath era ainda forte na senhora Allen, e ela o sentia a cada nova prova trazida pela manhã, pois lá ela não conhecia ninguém. As duas fizeram sua aparição nos Salões Baixos e, aqui, o destino foi mais favorável à nossa heroína. O mestre de cerimônias a apresentou a um jovem muito cavalheiro para parceiro. Seu nome era Tilney. Ele parecia ter 24, 25 anos, era bem alto, tinha feições agradáveis, olhos muito inteligentes e lívidos e, se não era muito bonito, estava perto disso. Sua abordagem era boa, e Catherine se sentiu com muita sorte. Havia pouco tempo livre para falar enquanto dançavam, mas quando se sentaram para o chá, ela o descobriu tão agradável quanto acreditava que ele fosse. Ele conversava com fluência e espírito, e havia uma malícia e uma graça em seus modos que chamavamatenção, embora dificilmente fossem compreendidas por ela. Depois de conversar por algum tempo sobre aqueles assuntos que surgiram naturalmente dos objetos ao redor deles, ele subitamente se dirigiu a ela com – “Até então fui muito negligente, madame, quanto às atenções apropriadas a umparceiro; ainda não lhe perguntei há quanto tempo está em Bath; se já esteve aqui antes; se já foi aos Salões Superiores, ao teatro e ao concerto; e se gostou do lugar. Fui muito negligente – mas, está disposta a me satisfazer com tais detalhes? Se estiver, começarei imediatamente”. “Não precisa se dar ao trabalho, senhor”. “Nenhum trabalho, eu lhe asseguro, madame”. Então, usando seus traços para construir umsorriso pronto, e artificialmente suavizando sua voz, ele acrescentou, com um ar afetado, “Está há muito tempo em Bath, madame?” “Cerca de uma semana, senhor”, replicou Catherine, tentando não rir. “Sério?”, perguntou com falsa surpresa. “Por que a surpresa, senhor?” “Sim, é verdade! Por que…?”, ele disse em seu tom natural. “Mas, alguma emoção deveria ser provocada por sua resposta, e a surpresa é a mais facilmente aceitável, e não menos racional que qualquer outra. Agora, prossigamos.

Nunca esteve aqui antes, madame?” “Nunca, senhor”. “Ora! Você já honrou os Salões Superiores?” “Sim senhor, estive lá na última segunda-feira”. “Já foi ao teatro?” “Sim, senhor, estive na peça de terça-feira”. “Ao concerto?” “Sim senhor, na quarta-feira”. “E você está gostando de Bath, como um todo?” “Sim, gosto muito”. “Agora devo sorrir falsamente, e então poderemos ser racionais novamente”. Catherine virou sua cabeça, sem saber se poderia se aventurar a rir. “Vejo o que você pensa de mim”, ele disse, gravemente – “Deverei ser nada além de uma triste figura em seu diário, amanhã”. “Meu diário?!” “Sim, sei exatamente o que você dirá: Sexta-feira, fui aos Salões Inferiores. Vesti meu roupão de seda enfeitado de ramos com detalhes azuis, sapatos pretos lisos que pareceram cair muito bem, mas fui estranhamente incomodada por um homem pouco genial e esquisito, que me fez dançar com ele e me agoniou com suas besteiras”. “Na verdade, não devo dizer tais coisas”. “Devo lhe dizer o que você diria?” “Se quiser”. “Dancei com um jovem muito agradável, apresentado pelo senhor King. Conversei muito com ele e me pareceu ser um gênio dos mais extraordinários. Espero que eu conheça mais dele. Isso, madame, é o que desejo que escreva”. “Mas, talvez, eu não tenha diário algum”. “Talvez você não esteja sentada nesta sala, e eu não esteja sentado com você. Estes são pontos em que a dúvida é igualmente possível. Não manter um diário! Como suas primas ausentes vão entender o tom de sua vida em Bath, sem um diário? Como as civilidades e os feitos de cada dia serão relatados como devem, a menos que sejam anotados a cada noite em um diário? Como serão relembrados seus vários vestidos e o estado particular de seu semblante e os cachos de seus cabelos, descritos em toda a sua diversidade, sem recorrer constantemente a um diário? Querida madame, não sou tão ignorante dos modos das jovens damas como você supõe acreditar. É este delicioso hábito de manter um diário que em muito contribui para formar o fácil estilo de escrever pelo qual as damas são geralmente celebradas. Todos concordam que o talento de escrever agradáveis cartas é peculiarmente feminino. A natureza pode ter feito algo, mas estou certo de que deve ter sido essencialmente ajudada pela prática de manter um diário”. “Penso, às vezes”, disse Catherine hesitante, “se as damas realmente escrevem cartas melhor do que os cavalheiros! Quero dizer, eu não diria que a superioridade esteja sempre ao nosso lado”. “Pelo que tive oportunidade de julgar, parece-me que o estilo habitual de redigir cartas entre as mulheres é perfeito, exceto por três detalhes”.

“E quais são eles?” “Uma deficiência geral de assunto, uma total falta de atenção à pontuação e uma ignorância muito frequente de gramática”. “Realmente! Não preciso temer o elogio. Você não tem uma ideia muito boa de nós, nesse sentido”. “Não deverei mais estabelecer como regra geral que as mulheres escrevem melhores cartas que os homens, que elas cantam melhores duetos ou desenham melhores paisagens. Em cada poder, no qual o gosto é a base, a excelência é muito bem dividida entre os sexos”. Foram interrompidos pela senhora Allen: “Minha querida Catherine”, disse ela, “retire este alfinete de minha capa. Temo que já tenha feito um furo. Ficarei muito triste se for o caso, pois este é meu vestido favorito, embora não custe mais do que nove xelins a jarda”. “Era exatamente isso o que eu teria achado, madame”, disse o senhor Tilney, olhando para a seda. “Você entende de seda, senhor?” “Particularmente bem. Sempre compro minhas próprias gravatas, e me permito ser umexcelente juiz. E minha irmã, às vezes, confia-me a escolha de um vestido. Comprei um para ela outro dia, e me disse que foi uma compra prodigiosa por todas as damas que o viram. Não dei mais que cinco xelins por jarda por ele, e era uma verdadeira seda indiana”. A senhora Allen estava bastante surpresa com o seu gênio. “Os homens geralmente dão tão pouca atenção a estas coisas”, disse ela; “Não consigo fazer com que o senhor Allen distinga um vestido de outro. Você deve ser um grande conforto para sua irmã, senhor”. “Espero que sim, madame”. “E, por favor, senhor, o que acha do vestido da senhorita Morland?” “É muito bonito, madame”, disse ele, examinando-o gravemente. “Mas não acho que a lavagem o fará bem. Temo que ele desfie”. “Como pode”, disse Catherine, rindo, “ser tão…”. Ela quase disse “estranho”. “Sou bem da mesma opinião, senhor”, replicou a senhora Allen; “e foi o que eu disse quando a senhorita Morland o comprou”. “Mas você sabe, madame, que a seda sempre pode se transformar em uma coisa ou outra.

A senhorita Morland terá o suficiente para um lenço, um chapéu ou uma capa. Não se pode dizer que a seda é desperdiçada. Tenho ouvido minha irmã dizer isso umas quarenta vezes, quando ela foi extravagante ao comprar mais do que ela queria, ou descuidada em retalhá-la”. “Bath é um lugar encantador, senhor. Há tantas lojas boas aqui. Infelizmente, estamos afastadas no campo. Não que não haja boas lojas em Salisbury, mas ficam muito longe. Quase 13 quilômetros é muito caminho. O senhor Allen diz que são quase 15 quilômetros, porém estou certa de que não pode ser mais que treze. Mas é um castigo. Volto extremamente cansada. Agora, aqui, podese sair de casa e comprar algo em cinco minutos”. O senhor Tilney foi educado o suficiente para parecer interessado no que ela disse, e ela o manteve no assunto de seda até que as danças recomeçaram. Catherine temeu, enquanto ouvia a conversa, que ele fosse por demais indulgente consigo mesmo, quanto aos pontos fracos dos outros. “O que você está pensando tão seriamente?”, disse ele, enquanto voltavam para o salão de baile; “não de seu parceiro, espero, pois, pelo balançar de sua cabeça, suas meditações não são satisfatórias”. Catherine se ruborizou e disse, “Eu não pensava em nada”. “Isso é astucioso e profundo, estou certo; mas preferia que dissesse que não iria me contar”. “Está bem, não contarei”. “Obrigado; pois agora seremos amigos em breve, já que estou autorizado a lhe provocar com este assunto sempre que nos encontrarmos, e nada no mundo apressa tanto a intimidade”. Dançaram e, quando o grupo fechou, separaram-se. No entanto, do lado da dama, pelo menos, houve uma forte inclinação para continuar a amizade. Se ela pensava nele enquanto bebia seu vinho com água, ou enquanto se preparava para dormir, a ponto de sonhar com ele, isso não se podia garantir. Mas espero que não mais do que em um sono leve, ou em um cochilo matinal, no máximo. Pois, se for verdade, como um celebrado escritor tem afirmado, que nenhuma jovem dama pode se apaixonar antes que o amor do cavalheiro seja declarado[2]*, deve ser muito impróprio que uma jovem dama venha a sonhar com um cavalheiro antes que se saiba se o cavalheiro sonhou com ela primeiro. Como o senhor Tilney – seja um sonhador, seja um enamorado – não foi apresentado ao senhor Allen, este se convenceu, ao perguntar sobre o jovem rapaz, de que ele era uma amizade comum para o jovem encargo dele.

Então, logo no início da noite, o senhor Allen quis saber quem era o parceiro de Catherine, e lhe foi assegurado que o senhor Tilney era um clérigo e de uma respeitável família em Gloucestershire. [1] Também conhecido como spa. Bath é uma estância termal ao sudoeste da Inglaterra. “Pump-Room”s é um conjunto de piscinas de águas termais, construído no começo do século XVIII. [2]* Ver carta do senhor Richardson, número 97, Vol. II, Rambler. CAPÍTULO 4 Com mais do que a ansiedade habitual, Catherine se apressou à casa de bombas no dia seguinte, certa de que veria o senhor Tilney lá, antes da manhã terminar, e pronta para encontrá-lo com um sorriso. Mas nenhum sorriso foi necessário, pois o senhor Tilney não apareceu. Todas as criaturas em Bath, menos ele, foram vistas no salão em diferentes períodos. Multidões de pessoas entravam e saíam a cada momento, subindo e descendo as escadas. Pessoas com quem ninguém se importava e que ninguém queria ver, e apenas ele estava ausente. “Que lugar delicioso é Bath”, disse a Senhora Allen, enquanto se sentavam próximo ao grande relógio, depois de desfilarem pelo salão até se cansarem; “e como seria agradável se conhecêssemos alguém aqui”. Este sentimento fora expresso tão frequentemente em vão, que a senhora Allen não tinha nenhuma razão em particular que fosse seguida com proveito, agora. Mas dizem-nos para “não nos desesperarmos por nada, pois poderemos obter”, já que “a incansável diligência nos faz ganhar o que queremos”. E a incansável diligência com que ela desejara todos os dias estava, por fim, a recompensá-la, pois passaram-se no máximo dez minutos, desde que se sentara e uma dama, comquase a mesma idade, sentara-se ao seu lado e a olhara com atenção por muitos minutos, até que se dirigiu a ela com grande gentileza nestas palavras: “Acho, madame, que não posso estar enganada. Já há um bom tempo tive o prazer de vê-la, mas não seria seu nome Allen?” Prontamente respondida esta questão, a estranha se declarou como sendo uma Thorpe. Imediatamente a senhora Allen reconheceu os traços de uma antiga companheira de escola, e amiga íntima, a quem ela viu apenas uma vez desde os respectivos casamentos, há muitos anos. A alegria delas com este encontro foi muito grande, como poderia se imaginar, já que nada souberam uma da outra pelos últimos quinze anos. Seguiram-se os elogios pelas boas aparências. Depois de observar quanto tempo passou desde que estiveram juntas pela última vez, e o quão pouco pensaram em se encontrar em Bath, e o prazer que era rever uma velha amiga; perguntaram e responderam sobre suas famílias, irmãs e primas, falando ao mesmo tempo, muito mais dispostas a dar do que receber informações, e cada uma ouvindo muito pouco do que a outra dizia. A senhora Thorpe, porém, tinha uma grande vantagem ao falar de sua família e dos filhos do que a senhora Allen. Enquanto ela discorria minuciosamente sobre os talentos de seus filhos e sobre a beleza de suas filhas, ou relatava as diferentes situações e opiniões – John estava em Oxford, Edward, em Merchant Taylors’, e Willian, ao mar –, sendo todos eles mais amados e respeitados em suas diferentes localizações do que quaisquer outros três seres jamais seriam, a senhora Allen não tinha informação similar a dar, nenhum triunfo semelhante a pressionar contra o ouvido relutante e incrédulo de sua amiga, assim sendo forçada a se sentar e ouvir a todas essas efusões maternais, consolando-se, porém, com a descoberta que seu olho afiado logo realizou: que o laço da peliça da senhora Thorpe não tinha nem metade da beleza que o dela. “Lá vêm minhas queridas garotas”, exclamou a senhora Thorpe, apontando para três mulheres de aparência esperta que, de braços dados, seguiam em sua direção. “Minha querida senhora Allen, quero apresentá-las. Ficarão deliciadas em vê-la: a mais alta é Isabella, a mais velha.

Ela não é uma fina e jovem mulher? As outras são bem admiradas também, mas acho que Isabella é a mais bonita”. As senhoritas Thorpe foram apresentadas, e a senhorita Morland, que tinha sido esquecida por pouco tempo, foi igualmente apresentada. O nome pareceu surpreender a todas, e depois de lhe falar com grande civilidade, a jovem dama primogênita observou em voz alta para as demais, “Como a senhorita Morland se parece demais com seu irmão!” “De fato, o próprio retrato dele!”, exclamou a mãe – e “eu deveria reconhecê-la em qualquer lugar, pela sua irmã!” foi repetido por todas elas, duas ou três vezes. Por um momento Catherine ficou surpresa. Mas a senhora Thorpe e suas filhas mal tinham começado a história de seu relacionamento com o senhor James Morland, quando ela se lembrou de que seu irmão mais velho já tinha formado intimidade com um jovem de seu próprio colégio, de nome Thorpe, e que ele já tinha passado a última semana das férias natalinas na casa do amigo, próximo a Londres. Sendo tudo explicado, muitas coisas gentis foram ditas pelas senhoritas Thorpe, como o desejo delas de se tornarem melhor relacionadas com Catherine, de serem consideradas já como amigas, devido à amizade de seus irmãos etc. Tudo Catherine ouvia com prazer e respondia com todas as bonitas expressões que ela podia comandar. E, como primeira prova de amizade, ela logo foi convidada a aceitar um braço da senhorita Thorpe primogênita e dar uma volta com ela pelo salão. Catherine ficou deliciada com essa extensão dos seus relacionamentos em Bath, e quase se esqueceu do senhor Tilney enquanto falava com a senhorita Thorpe. A amizade é, certamente, o melhor bálsamo para as dores do amor frustrado. A conversa logo se voltou para estes assuntos, dos quais a discussão aberta geralmente aperfeiçoa uma súbita intimidade entre duas jovens damas, tais como vestidos, bailes, flertes e esquisitices. A senhorita Thorpe, porém, sendo quatro anos mais velha que a senhorita Morland, e pelo menos quatro anos mais informada, tinha uma vantagem decididamente ampla em discutir tais temas. Ela podia comparar os bailes de Bath com os de Tunbridge, suas modas com as de Londres; podia corrigir as opiniões de sua nova amiga em muitos artigos do bom vestir; podia descobrir umflerte entre qualquer cavalheiro e dama que apenas sorrissem um para o outro; identificar umestranho por meio da espessura de uma multidão. Estes poderes receberam a devida admiração de Catherine, a quem eles eram inteiramente novos. E o respeito que eles naturalmente inspiravampoderiam ser muito grandes para familiaridade, não fosse a fácil alegria dos modos da senhorita Thorpe e suas frequentes expressões de prazer nesse relacionamento, atenuando, assim, qualquer sentimento de pavor, e deixando apenas uma terna afeição. Sua crescente ligação não se satisfaria com meia dúzia de voltas pela casa de bombas, mas exigiria, quando fossem embora juntas, que a senhorita Thorpe acompanhasse a senhorita Morland até a porta da casa do senhor Allen, que elas se separassem com o mais afetuoso e extenso aperto de mãos, depois de saberem, para alívio de ambas, que se encontrariam no teatro à noite, e que rezariam na mesma capela, na manhã seguinte. Catherine então disparou escada acima e observou a senhorita Thorpe prosseguir pela rua através da janela da sala de vestir. Admirou o gracioso espírito de seu caminhar, o ar moderno de sua figura e de seu vestido, e sentiu-se grata, como bem poderia, pela sorte de ter conseguido uma amiga dessas. A senhora Thorpe era uma viúva e não das mais ricas. Ela era uma mulher bem-humorada e de boas intenções, e uma mãe bem indulgente. Sua filha mais velha tinha uma grande beleza pessoal e as mais jovens, ao fingirem ser tão belas quanto à irmã, imitavam seu ar e se vestiam no mesmo estilo, fazendo isso muito bem. Este breve relato da família pretende suplantar a necessidade de uma exposição minuciosa da própria senhora Thorpe, de suas aventuras e sofrimentos passados, os quais poderiam, ao invés, ocupar bem três ou quatro capítulos seguintes, nos quais a falta de valor de lordes e advogados seria evidenciada e as conversas que se passaram vinte anos antes seriam detalhadamente repetidas.

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