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A abominação – Jonathan Holt

A pequena embarcação saiu do ancoradouro, seu motor de dois tempos não mais que balbuciou na popa. Controlando a cana do leme, Ricci a conduziu cuidadosamente entre os barcos pesqueiros e as gôndolas que, fora de temporada, se aglomeravam no pequeno estaleiro. Ele realizava esse percurso até a laguna todas as noites, verificando ostensivamente seus cestos de caranguejo. Poucas pessoas sabiam que, às vezes, suas excursões enredavam uma presa mais lucrativa: pacotes embrulhados emplástico azul, deixados por pessoas e por embarcações despercebidas pelas boias que marcavam a localização de cada cesto de arame. Quando o barco se afastou da ilha de Giudecca, ele se curvou para acender um cigarro. — È sicuro — declarou baixinho para a chama. Está seguro. Seu passageiro surgiu da cabine apertada sem responder. Estava vestido de acordo com o tempo — impermeável escuro, luvas e uma touca de lã puxada para baixo sobre os olhos. Ainda segurava na mão esquerda o estojo de metal com o qual havia embarcado. Pouco maior que uma pasta e alongado, fazia Ricci se lembrar dos estojos de instrumentos usados por músicos. Porém, tinha quase certeza de que o passageiro dessa noite não era músico. Uma hora antes, Ricci havia recebido uma ligação pelo cellullare. A mesma voz que geralmente lhe dizia a quantidade de pacotes que devia procurar o informou que essa noite ele levaria umpassageiro. Estava na ponta da língua de Ricci retrucar dizendo que Veneza estava repleta de táxis aquáticos e que seu barco pesqueiro não era um deles, mas algo fez o comentário morrer em sua garganta. Desde que tinha começado a receber ordens da voz, nunca a ouvira soar tão temerosa. Nemmesmo quando as instruções foram levar um embrulho pesado na forma de um corpo para as regiões mais remotas da laguna e lá despejá-lo para deleite dos caranguejos. Ouviu-se o som de água espirrando e de gritos vindo da lateral do barco. Vários botes de madeira, impulsionados a remo, precipitavam-se em direção a eles. Ricci reduziu a velocidade, mantendo marcha lenta. — O que houve? — foram as primeiras palavras do passageiro. Seu italiano, observou Ricci, tinha um forte sotaque. Ele era norte-americano. — Não se preocupe. Não é com a gente.


É para La Befana. Eles estão praticando para a competição náutica. — Quando os barcos se aproximaram, foi possível ver que estavam cheios do que pareciam ser mulheres de vestido longo e chapéu antigo. E ao passarem ficou evidente que eramequipes de remadores, inadequadamente em trajes femininos. — Eles vão embora num minuto —acrescentou. De fato, os barcos rodearam uma boia e rumaram de volta a Veneza, um deles pouco à frente. O passageiro resmungou. Quando os remadores se aproximaram, ele desceu rapidamente, deixando claro que não queria ser visto. Agora estava parado na proa, segurando-se na amurada e olhando para o horizonte, enquanto Ricci acelerava ao máximo. Levou uma hora para chegarem aos cestos de caranguejo. Não havia nada preso a qualquer uma das linhas e nenhum barco tinha vindo do outro lado para encontrá-los. Já estava escuro, mas Ricci deixou as luzes apagadas. À distância, as saliências de algumas ilhotas quebravam a linha do horizonte. — Qual delas é Poveglia? — perguntou o passageiro. — Aquela. — Ricci apontou. — Me leve até lá. Sem mais palavra, Ricci fixou a rota. Ele sabia que alguns teriam se recusado ou pedido mais dinheiro. A maioria dos pescadores se mantinha bem distante da pequena ilha de Poveglia. Porém, exatamente por essa razão, era um local útil para um contrabandista eventual e, às vezes, ancorava lá à noite para pegar cargas grandes demais para serem atadas a uma boia — caixas de cigarros ou de uísque, a ocasional garota trêmula do Leste Europeu e seu cafetão. Mesmo assim, raramente permanecia por mais tempo que o necessário. Inconscientemente, Ricci fez o sinal da cruz, sem ficar mais ciente do gesto do que estava dos mínimos ajustes que fazia no motor ao desviar dos bancos de areia que se espalhavam nesta parte da laguna. Em seguida o barco entrou em um trecho de água livre, o que o impulsionou para a frente. Respingos gelados chicotearam o rosto de ambos, com a embarcação colidindo de uma onda para outra, no entanto o homem na proa parecia nem notar.

Finalmente, Ricci desacelerou. Agora, a ilha estava diante deles, em silhueta contra o céu negro arroxeado, com a torre do relógio do hospital abandonado despontando das árvores. Alguns pontos de luz fraca tremeluziam entre as ruínas — talvez fossem velas num dos aposentos. Podia ser umencontro, afinal. Ninguém vivia em Poveglia, não mais. Ajoelhando-se, o passageiro abriu o fecho do estojo de metal. Ricci viu de relance um cano, uma coronha preta de espingarda, uma fileira de balas, tudo colocado ordenadamente em seus espaços definidos. Entretanto, o que o homem pegou primeiro foi um instrumento para visão noturna, largo como uma lente de câmera. Levou-o ao olho, equilibrando-se contra o balanço do barco. Por um momento, ele olhou na direção das luzes. Então gesticulou para Ricci rumar em direção ao píer, pulando na costa impaciente porém silencioso, antes mesmo que o barco tocasse a terra, com o estojo de metal ainda na mão. Mais tarde, Ricci cogitaria se tinha ouvido alguns tiros, mas então se lembrou do outro tubo que havia visto de relance no estojo — um silenciador ainda mais longo e grosso que o instrumento de visão noturna. Portanto devia ter sido sua imaginação. Seu passageiro se ausentou por apenas 15 minutos, e em seguida eles voltaram para Giudecca emsilêncio. 1 A festa na penumbra do bacaro veneziano já acontecia havia quase cinco horas e as pessoas não paravam de chegar. O jovem de boa aparência que tentava conquistar Katerina Tapo não estava simplesmente conversando com ela, mas gritando: os dois precisavam ficar muito perto e berrar alternadamente no ouvido um do outro para serem ouvidos, o que, além de tirar qualquer sutileza do flerte, também a deixava com poucas dúvidas quanto às intenções dele. Aquilo não era nada mau, concluiu Kat. Apenas quem se sentisse realmente atraído pelo outro daria continuidade a uma conversa fiada em condições tão difíceis. No que lhe dizia respeito, ela já havia decidido que Eduardo — ou seria Gesualdo? — iria para seu pequeno apartamento em Mestre mais tarde. Eduardo, ou talvez Gesualdo, quis saber o que ela fazia para viver. — Sou agente de viagens — respondeu Kat, gritando. Ele assentiu. — Legal. Você viaja muito? — Um pouco. Ela sentiu a vibração do celular tocando contra a coxa.

Estava configurado para tocar, mas o barulho ao redor deles era tanto que ela não tinha ouvido. Ao pegá-lo, viu que já havia perdido três ligações. — Un momento — gritou, indicando ao acompanhante que voltaria num instante. Então desceu os degraus da escada lotada do bar e chegou ao ar livre. Céus, estava congelando! Ao redor, alguns fumantes resistentes enfrentavam o frio. Ao falar ao telefone, sua boca bafejou um vapor quase tão denso quanto a fumaça que eles exalavam. — Si? Pronto? — Apareceu um corpo — soou a voz de Francesco. — Você está nessa. Acabei de falar com a Central. — Homicídio? — Ela se esforçou para não mostrar a empolgação na voz. — Pode ser. Seja o que for, vai ser grande. — Por quê? Francesco não respondeu imediatamente. — Estou enviando uma mensagem com o endereço. Fica perto de Salute. Você vai encontrar o colonnello Piola na cena do crime. Boa sorte. E lembre-se, você me deve essa. — Ele desligou. Kat olhou para a tela do telefone. O endereço ainda não tinha sido enviado, mas, se era perto da Basílica de Santa Maria della Salute, seria preciso pegar um vaporetto. Mesmo assim, ela devia estar a uns vinte minutos de lá, e isso supondo que não passasse em casa para se trocar antes, o que definitivamente devia fazer devido às roupas que estava usando. Droga, pensou, não havia tempo para isso. Abotoaria o casaco e esperaria que Piola não fizesse muitas conjeturas sobre suas pernas nuas nem sobre a maquiagem. Afinal, era La Befana — 6 de janeiro, a Festa da Epifania ou Dia de Reis, mas também uma celebração em homenagem à velha bruxa que traz doces ou pedaços de carvão para as crianças, dependendo do quanto elas tivessem sido travessas — e toda a cidade estava nas ruas se divertindo.

Pelo menos havia trazido suas botas de borracha, além dos sapatos de salto alto. Todos fizeram isso: a combinação de marés invernais, neve e uma lua cheia havia trazido acqua alta para Veneza, as inundações intermitentes que agora os atormentavam quase todos os anos. Duas vezes por dia, a cidade ficava alagada por uma maré vários metros acima do que a construção de Veneza permitia acomodar. Os canais se expandiam sobre suas calçadas; a Piazza San Marco — o ponto mais baixo da cidade — virava um lago de água salgada, com guimbas de cigarro e fezes de pombos. Mesmo quem tentava se manter nas passarelas de madeira elevadas instaladas pela prefeitura às vezes não tinha como deixar de chapinhar. Kat sentiu a adrenalina represar em seu estômago. Desde que havia sido promovida para a Divisão de Investigações, ela fazia pressão para trabalhar num caso de homicídio. E agora, com sorte, teria um. O coronel Piola não teria sido designado se fosse apenas outro turista bêbado afogado numcanal. Portanto, aquilo significava um duplo golpe de sorte: sua primeira grande investigação seria sob a supervisão do detetive veterano que mais admirava. Por um instante, ela pensou em voltar ao bar e dizer a Eduardo/Gesualdo que precisava trabalhar e talvez pegar seu número antes de sair. Em seguida, decidiu que não o faria. Agentes de viagens, mesmo os mais ocupados, raramente eram chamados ao escritório a dez para a meia-noite, ainda mais em La Befana. Isso significaria explicar por que não contava aos seus casos sem compromisso como ele que, na verdade, era uma oficial dos Carabinieri, geralmente tendo que abrandar o orgulho ferido, e ela realmente não tinha tempo para isso. Além disso, se fosse uma investigação de homicídio, era improvável que tivesse algum tempo livre nas próximas semanas para retornar suas ligações, quanto mais encontrá-lo para sexo. Eduardo simplesmente teria que tentar a sorte com outra. O telefone tornou a vibrar quando Francesco lhe enviou a mensagem com o endereço. Kat sentiu o coração bater um pouco mais rápido em resposta. O detetive-coronel Aldo Piola olhou para o corpo. Estava com muita vontade de quebrar sua resolução de ano-novo, de apenas seis dias, e acender um cigarro. Não que pudesse fumar ali, de qualquer modo. A conservação das provas vinha em primeiro lugar. — Um piovan? — questionou ele, usando a gíria veneziana para “padre”. O Dr. Hapadi, o perito forense, deu de ombros.

— Foi o que informaram. Mas aqui tem algo mais. Quer dar uma olhada? Um pouco relutante, Piola desceu da passarela elevada para a lama espessa, deslizando cautelosamente em direção ao círculo de luz que emanava do gerador portátil de Hapadi. Os envoltórios de plástico azul que o médico tinha lhe oferecido ao chegar ao local ficaramimediatamente inundados de água do mar gelada, apesar de estarem presos com elásticos nas panturrilhas. Outro par de sapatos arruinado, pensou com um suspiro. Normalmente não se importava, mas ele e a mulher estavam celebrando La Befana com os amigos no Bistrot de Venise, um dos melhores restaurantes de Veneza e, por isso, estava calçando seu melhor Bruno Maglis novo. Assim que pôde, saltou para os degraus de mármore da igreja, um nível acima do cadáver, fazendo uma pausa para sacudir cada pé, como se estivesse saindo de uma banheira. Quem sabe ainda pudesse salvá-los. O corpo jazia atravessado nos degraus, metade dentro e metade fora da água, quase como se a vítima tivesse tentado rastejar para fora do mar e entrar no santuário da igreja. Aquilo seria o efeito da maré, que já estava recuando um pouco, de volta para a calçada que habitualmente separava a igreja do Canale di San Marco. Não havia como confundir as vestes pretas e douradas de um padre católico trajado para a missa, nem os dois buracos de bala atrás da cabeça coberta por cabelos emaranhados de onde pingos amarronzados caíam no mármore. — Isso pode ter acontecido aqui? — perguntou Piola. Hapadi balançou a cabeça. — Duvido. Meu palpite é de que o mar elevado trouxe o corpo da laguna para cá. Se não fosse pela acqua alta, o corpo já estaria a meio caminho rumo à Croácia. Nesse caso, refletiu Piola, o cadáver não era muito diferente do restante do lixo arrastado para a cidade. A água do mar a sua volta estava com um leve odor de esgoto: nem todas as fossas sanitárias venezianas eram herméticas e era notório que alguns moradores viam as cheias como oportunidade de poupá-los da taxa de esvaziamento usual. — A que nível chegou hoje? — Um metro e quarenta, segundo os avisos. — As sirenes eletrônicas que informavam aos venezianos da iminente acqua alta também os avisavam de sua extensão: 10 centímetros acima de 1 metro para cada nota soada. Piola se curvou para ver mais de perto. O padre, quem quer que fosse, tinha uma constituição frágil. Era tentador virá-lo, mas Piola sabia que fazer isso antes que a equipe da perícia tivesse acabado de fotografar significaria provocar sua ira. — Então — continuou ele, pensativo —, ele foi baleado em algum lugar a leste ou sul. — Possivelmente.

Só que você está enganado a respeito de uma coisa pelo menos. — O quê? — Dê uma olhada nos sapatos. Com cautela, Piola enganchou um dedo sob a batina encharcada e a levantou. O pé era pequeno, quase delicado, e calçava o que era, sem dúvida, um sapato feminino de couro. — É um travesti? — perguntou ele, impressionado. — Não exatamente. — Hapadi parecia estar quase apreciando aquilo. — Certo, agora a cabeça. Piola precisou se agachar, as nádegas quase tocando a água em redemoinho, para fazer o que Hapadi pediu. Os olhos do cadáver estavam abertos, a testa repousada no degrau como se o padre tivesse morrido bem no ato de beber a água do mar. Enquanto Piola olhava, uma pequena onda chegou ao queixo e entrou na boca aberta do morto antes de voltar, deixando-o babando. Então Piola viu. O queixo era liso, sem barba, os lábios rosados demais. — Minha nossa — murmurou, surpreso. — É uma mulher! — Automaticamente, fez o sinal da cruz. Não havia dúvida, a sobrancelha feita e o traço de delineador nos olhos sem vida, as pestanas femininas. Agora ele podia ver o discreto brinco meio oculto por uma mecha de cabelo emaranhado. Ela devia ter cerca de 40 anos, com o ligeiro engrossamento dos ombros característico da meiaidade, razão pela qual Piola não havia percebido de imediato. Recuperando-se, tocou a alva molhada. — Bem realista para uma fantasia. — Se for uma fantasia. Piola olhou para Hapadi, curioso. — Por que diz isso? — Que mulher ousaria sair vestida de padre na Itália? — indagou Hapadi, retoricamente. — Ela não andaria mais de 10 metros. — Ele deu de ombros.

— Bem, talvez não tenha. Andado 10 metros, quero dizer. Piola franziu o cenho. — Duas balas atrás da cabeça? Parece um pouco exagerado. — Colonnello? Piola se virou. Uma bela jovem, muito maquiada, usando um casaco preto curto, botas de borracha e aparentemente quase mais nada, o saudava da passarela de madeira. — Não é permitido passar por aqui — declarou ele, automaticamente. — Isso é a cena de umcrime. Ela tirou uma identidade do bolso e mostrou a Piola. — Capitano Tapo, senhor. Fui designada para o caso. — Então é melhor atravessar. Kat hesitou por um instante apenas, Piola notou, antes de tirar as botas e andar descalça em sua direção. Ele teve um vislumbre do esmalte vermelho nas unhas quando ela pôs os pés na lama. — Da última vez que vi alguém tentar isso em Veneza — comentou Hapadi com ar divertido —, os pés ficaram em frangalhos. Tem vidro quebrado embaixo d’água. A capitano o ignorou. — Alguma identificação com ele, senhor? — perguntou ela a Piola. — Ainda não. Estávamos apenas comentando o fato de que nossa vítima não é de fato “ele”. Os olhos de Tapo passaram, desconfiados, pelo corpo, mas Piola percebeu que ela não fez o sinal da cruz como ele. Os jovens nem sempre tinham o catolicismo entranhado com o qual ele lutava para se livrar. — Será que não é alguma brincadeira idiota? — perguntou ela, hesitante. — Afinal, é La Befana. — Talvez.

Mas na verdade devia ser ao contrário, não acha? — Em Veneza, onde qualquer desculpa para se fantasiar era aproveitada, La Befana era celebrada com fantasias pelos barqueiros e trabalhadores braçais, que se vestiam de mulher. Agachando-se ao lado do corpo, exatamente como Piola havia feito minutos antes, Kat o examinou com cuidado. — Mas isso parece autêntico. — Gentilmente, ela puxou uma corrente sob as vestes. Um crucifixo de prata balançou na ponta.

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