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A águia e o dragão – Serge Gruzinski

Escritores da primeira metade do século XX percorreram os caminhos que nos levaram do México à China. Por muito tempo Jean Giraudoux nos sugeriu um título, “A guerra da China não acontecerá”, que foi preciso abandonar. Paul Claudel soube ressuscitar mundos que, hoje, talvez sejamos mais capazes de compreender. Nas jornadas de O sapato de cetim (1929) dialogam seres vindos dos quatro cantos do globo. “O palco deste drama é o mundo, e mais especialmente a Espanha no final do século XVI.” Ao “comprimir os países e as épocas”, 1 Claudel não pretendia fazer um trabalho de historiador, mas nos mergulhava nos remoinhos de uma globalização. Uma globalização que não era nem a primeira nem a última, mas que se instalou rapidamente durante o século XVI, na esteira das expedições portuguesas e espanholas. A águia asteca e o dragão chinês sofreram, então, os primeiros efeitos da desmesura europeia. Essa globalização é um fenômeno diferente da expansão europeia, que mobilizou muitos recursos técnicos, financeiros, espirituais e humanos. Ela respondeu a opções políticas, cálculos econômicos e aspirações religiosas que se conjugaram, com menor ou maior eficácia, para atrair marinheiros, soldados, padres e comerciantes a milhares de quilômetros de distância da península Ibérica, numdeslocamento em todas as direções do mundo. A expansão ibérica provocou reações em cadeia e, com frequência, choques que desestabilizaram sociedades inteiras. Foi o que aconteceu na América. A Ásia enfrentou algo mais forte do que ela, quando não atolou nos pântanos e nas florestas da África. A imagem de uma progressão inelutável dos europeus, quer exaltemos suas virtudes heroicas e civilizadoras, quer a condenemos às gemônias, é uma ilusão da qual é bem difícil se desfazer. Resulta de uma visão linear e teleológica da história que continua a aderir à pena do historiador e ao olho do leitor. O que é equivocado quanto à expansão ibérica é ainda mais errado quanto à globalização, que podemos definir como a proliferação de todos os tipos de vínculo entre partes do mundo que até então se ignoravam ou se relacionavam com enorme distanciamento. A que se desenrola no século XVI abrange ao mesmo tempo a Europa, a África, a Ásia e o Novo Mundo, entre os quais comfrequência se desencadeiam interações de intensidade sem precedentes. Um tecido ainda frágil, cheio de buracos imensos, sempre prestes a rasgar ao menor naufrágio, mas indiferente às fronteiras políticas e culturais, começa a se estender por todo o planeta. Quais são os protagonistas dessa globalização? Por bem ou por mal, populações africanas, asiáticas e ameríndias participam dela, mas os portugueses, os espanhóis e os italianos fornecem o essencial da energia religiosa, comercial e imperialista, ao menos nessa época e por um bom século e meio. O servo chinês de O sapato de cetim diz a Don Rodrigue, vice-rei das Índias: “Nós nos tomamos um pelo outro e não há mais como nos desvencilhar”. 2 O que os contemporâneos percebem de tudo isso? Com frequência o olhar deles é mais penetrante do que o dos historiadores que se sucederam para observá-los. Homens do século XVI, e não somente europeus, compreendem a amplitude do movimento ao qual são confrontados, e na maioria das vezes o fazem em termos religiosos, a partir das perspectivas que a missão lhes abre. Mas a globalização se desenha também no espírito dos que são sensíveis à aceleração das comunicações entre as diferentes partes do mundo, à descoberta da infinita diversidade das paisagens e dos povos, às extraordinárias oportunidades de lucro trazidas por investimentos projetados no outro lado do globo, ao crescimento ilimitado dos espaços conhecidos e dos riscos enfrentados. Nada parece resistir à curiosidade dos viajantes, ainda que muitas vezes estes não fossem a lugar algum sem o auxílio de seus guias e de seus pilotos nativos. Pode-se atribuir o descobrimento da América ou a conquista do México a figuras históricas como Hernán Cortés ou Cristóvão Colombo.


O assunto é discutível, mas o procedimento é cômodo. A distância dos séculos e nossa ignorância cada vez maior militam para que aceitemos essas simplificações. Já a globalização não tem autor. Ela responde em escala planetária aos embates provocados pelas iniciativas ibéricas. Mistura histórias múltiplas cujas trajetórias de repente se entrechocam, precipitando desenlaces imprevistos e até então inconcebíveis. A globalização não tem nada de uma maquinaria inexorável e irreversível que executaria um plano preconcebido com vistas à uniformização do globo. Portanto, seria equivocado acreditar que nossa globalização nasceu com a queda do muro de Berlim. Seria igualmente ilusório imaginar que ela é a gigantesca árvore nascida de uma semente plantada no século XVI por mãos ibéricas. Parece, contudo, que nosso tempo é devedor dessa época longínqua, por várias razões, se aceitarmos que a ausência de filiação direta ou de linearidade não transforma o curso da história numa cascata de acasos e de acontecimentos sem consequências. É no século XVI que a história humana se inscreve num cenário que se identifica com o globo. É então que as conexões entre as partes do mundo se aceleram: Europa/Caribe a partir de 1492, Lisboa/Cantão a partir de 1513, Sevilha/México a partir de 1517 etc. Acrescentemos outra razão que está no cerne deste livro: é com a globalização ibérica que a Europa, o Novo Mundo e a China se tornam parceiros planetários. A China e a América têm um papel importantíssimo na globalização atual. Mas por que a China e a América se encontram face a face no xadrez terrestre, de onde vem isso? E por que a América dá hoje sinais de esgotamento, enquanto a China parece ter tomado impulso para lhe arrebatar o primeiro lugar? Numa obra anterior, Que horas são lá… do outro lado?, havíamos nos interrogado sobre a natureza dos vínculos que se estabeleceram desde o século XVI entre o Novo Mundo e o mundo muçulmano. Essas regiões foram então confrontadas com os primeiros efeitos da expansão europeia sobre o globo. Colombo estava convencido de que sua descoberta forneceria o ouro com o qual os cristãos retomariam Jerusalém e esmagariam o islã. O Império Otomano, por sua vez, se inquietava por ver um continente desconhecido pelo Alcorão e pelos sábios do islã entregue à fé e à rapacidade dos cristãos. Não se poderia abordar a globalização que progressivamente fez do globo o cenário de uma história comum sem considerar o que se deu desde essa época entre terras do islã, da Europa e da América. Mas será suficiente? Se a adjunção de uma quarta parte do mundo é o registro de nascimento da globalização ibérica, a irrupção da China nos horizontes europeus e americanos constitui outra perturbação. O fato de ela ter sido, com poucos anos de diferença, contemporânea ao descobrimento do México deveria ter chamado nossa atenção mais cedo, mas nosso olhar, por longo tempo retido pela Mesoamérica, havia esquecido que ela não é o extremo do mundo: como repetiamos antigos mexicanos, é o meio. No século XVI, por duas vezes os ibéricos visaram conquistar a China. Mas o desejo deles nunca se realizou. Parafraseando o título da célebre peça de Jean Giraudoux, “A guerra da China não acontecerá”. Alguns, um pouco tarde, lamentarão isso. Outros, junto conosco, refletirão sobre aquilo que nos ensinam essas veleidades de conquista, contemporâneas da colonização das Américas e da exploração do oceano Pacífico.

China, Pacífico, Novo Mundo e Europa ibérica são os protagonistas de uma história que surge de seu encontro e enfrentamento. Essa história se resume numa simples frase: no mesmo século, os ibéricos falham na China e têm êxito na América. É isso que nos é revelado por uma história global do século XVI, concebida como outra maneira de ler o Renascimento, menos obstinadamente eurocentrada e, sem dúvida, mais em harmonia com nosso tempo. 1. Dois mundos tranquilos O que me apavora na Ásia é a imagem de nosso futuro, por ela antecipada. Com a América indígena acalento o reflexo, fugaz mesmo ali, de uma era em que a espécie se encontrava na escala de seu universo. Claude Lévi-Strauss, Tristes trópicos Em 1520, Carlos V, Francisco I e Henrique VIII são os astros ascendentes da cristandade latina. Regente de Castela desde 1517, sagrado rei da Germânia em 1520, Carlos de Gand nasceu com o século. Francisco I torna-se rei da França em 1515 e Henrique VIII, da Inglaterra em 1509. 1 EmPortugal, o velho Manuel, o Venturoso, ainda tem força suficiente para contrair novas núpcias, agora com a irmã do rei Tudor. Diante dos rivais franceses e ingleses, Carlos de Gand e d. Manuel alimentam ambições oceânicas que projetam seus reinos em direção a outros mundos. Em novembro de 1519, um aventureiro espanhol, Hernán Cortés, à frente de uma pequena tropa de infantes e de cavaleiros, entra em México-Tenochtitlán. Em maio de 1520, uma embaixada portuguesa, de efetivos ainda mais modestos, penetra em Nanjing. É nessa cidade que o emissário Tomé Pires é recebido pelo imperador da China, Zhengde. Fontes coreanas assinalam a presença de portugueses no ambiente imperial, onde se teriam beneficiado com os serviços de um guia e de um intérprete, o negociante muçulmano Khôjja Asan. 2 Em México-Tenochtitlán e na mesma época, Hernán Cortés encontra Moctezuma, o chefe da Tríplice Aliança ou, se preferir, o “imperador dos astecas”. OS DOIS IMPERADORES Primeiro, Zhengde. Em junho de 1505, em Beijing, Zhu Houzhao sucedeu ao seu pai, o imperador Hongzhi, sob o nome imperial de Zhengde. Tendo subido ao trono aos catorze anos, o décimo imperador Ming morrerá em 1521. 3 Seu reinado foi depreciado pelos cronistas. Se dermos crédito a eles, Zhengde teria abandonado os assuntos do Estado para se entregar a uma vida de prazeres. Preferia viajar para fora da Cidade Proibida, deixando que seus eunucos predadores amealhassemfortunas. Na verdade, Zhengde era um guerreiro que se esforçava para fugir à tutela da alta administração a fim de reatar com a tradição de abertura, para não dizer de cosmopolitismo, da precedente dinastia mongol, os Yuan. Passava a maior parte do seu tempo fora do palácio imperial e gostava de se rodear de monges tibetanos, clérigos muçulmanos, artistas oriundos da Ásia central, guarda-costas jurchen e mongóis, quando não frequentava as embaixadas estrangeiras de passagem por Beijing.

Ele teria até proibido o consumo de porco para melhorar suas relações com as potências muçulmanas da Ásia central. Em 1518 e 1519, Zhengde conduziu pessoalmente campanhas militares no norte, contra os mongóis, e no sul, em Jiangxi. Em 1521, decide liquidar um príncipe rebelde e manda executá-lo em Tongzhou. Sua imagem não sairá engrandecida desse episódio. Pelo menos, essa é a impressão deixada pelas crônicas oficiais e pelas gazetas aparecidas após sua morte, que são unânimes em fazer de seu reinado uma era de transtornos e de declínio (moshi). Êxodo de camponeses para as minas e as cidades, ascensão dos parvenus, revolução das tradições, “costumes locais varridos pelas mudanças”, 4 cobranças abusivas perpetradas pela administração, mal-estar e agitação da plebe, boom do contrabando com os japoneses — o balanço que a história oficial reteve não é muito brilhante. Sem contar as catástrofes naturais — a inundação e a fome de 1511 —, que ninguém hesita em lançar à conta da crise que atinge a sociedade. Ao mesmo tempo, são incontáveis as novas fortunas, a produção aumentou por toda parte e o comércio internacional é mais próspero do que nunca. 5 Em 1520, o senhor da China, embriagado, cai do barco imperial nas águas do Grande Canal, a principal artéria que liga o norte ao sul do país. A febre ou a pneumonia que ele contrai após esse banho forçado o matará no ano seguinte, em 20 de abril, com trinta anos. Como a água é o elemento do dragão, alguns cronistas acreditaram que os dragões foram responsáveis pelo seu fim. 6 Alguns meses antes, criaturas estranhas teriam perturbado a calma das ruas de Beijing. Atacavam os passantes, ferindo-os com suas garras. Eram chamadas de “sombrias aflições”. 7 O ministério da Guerra se encarregou de estabelecer a ordem e os boatos se dissiparam. Zhengde, que sempre se mostrara curioso por coisas estrangeiras, havia encontrado os portugueses da embaixada pouco antes de morrer. Mas, aos olhos de seus contemporâneos e sucessores, o episódio permanecerá insignificante. Não lhe valerá o renome póstumo e trágico que se ligará à pessoa do tlatoani de México-Tenochtitlán, Moctezuma Xoyocotzin. Um filme feito em 1959, Kingdom and the Beauty [Reino e a beleza], em plena época comunista, não bastará para imortalizar as extravagâncias de umsoberano que se disfarçava de homem do povo para se entregar aos prazeres. De Moctezuma Xoyocotzin, sabem-se muitas e poucas coisas. Aqui, o tom muda. O universo asteca nos é ainda menos familiar do que o mundo chinês, e se recobre com um véu permanentemente trágico. De Moctezuma Xoyocotzin, índios, mestiços e espanhóis nos deixaram retratos parciais e contraditórios: era necessário, a qualquer preço, encontrar razões para a derrocada dos reinos indígenas ou para magnificar as proezas da conquista espanhola. 8 Neto e sucessor de Ahuitzotl (1486-1502), Moctezuma nasceu por volta de 1467. É um homem idoso e experiente — à chegada de Hernán Cortés, já tinha passado dos cinquenta anos.

Nono tlatoani, reina de 1502 a 1520 sobre os mexicas de México-Tenochtitlán; domina também Texcoco e Tlacopán, seus parceiros da Tríplice Aliança — as “três cabeças”. A tradição ocidental fez dele o imperador dos astecas. Os cronistas lhe atribuem virtudes guerreiras que teriam sido manifestadas no início de seu reinado, mas ele não parece havê-las mobilizado muito contra os conquistadores. Teria reforçado seu domínio sobre as elites nobiliárias e remanejado os quadros do poder destituindo uma parte dos servidores de seu predecessor; teria modificado o calendário, um gesto cujo alcance será percebido mais tarde, e movido várias campanhas contra os adversários da Tríplice Aliança. Com um sucesso mitigado. A derrota que sofreu diante de Tlaxcala (1515) prova que não era necessário, em absoluto, ser espanhol nem possuir cavalos e armas de fogo para enfrentá-lo. Assim como seu colega chinês, o imperador Zhengde, Moctezuma mantinha um curral cheio de animais exóticos; também como o chinês, apreciava as mulheres. O cronista Díaz del Castillo confirma que ele era “isento de sodomias”, já que os espanhóis sempre precisavam tranquilizar-se quanto a esse aspecto. Moctezuma pereceu executado pelos índios ou pelos espanhóis. As histórias redigidas após sua morte recheiam seu reinado com maus presságios que os “sacerdotes dos ídolos” teriam sido incapazes de decifrar e que mais tarde serão associados à conquista espanhola. Sua sorte lamentável inspirará filmes e óperas. 9 E lhe valerá, ao contrário de Zhengde, um lugar imperecível na história ocidental e no imaginário europeu. Nada em comum entre esses dois imperadores, exceto pelo fato de ambos se terem visto implicados na mesma história. Em novembro de 1519, Moctezuma encontra os espanhóis em MéxicoTenochtitlán; alguns meses mais tarde, Zhengde trava conhecimento com portugueses em Nanjing. Antes, porém, de voltar a essa coincidência, uma palavrinha sobre o que a China e o México representam no alvorecer do século XVI. A CHINA DE ZHENGDE E O MÉXICO DE MOCTEZUMA Em 1511, os portugueses tomam Malaca e os espanhóis se apoderam de Cuba. As frotas ibéricas se encontram então a uma curta distância de dois gigantescos icebergs cuja face emersa se apresta a descobrir. Durante alguns anos ainda, o México e a China escaparão ao frenesi expansionista que impele as Coroas ibéricas e seus súditos. As duas terras não possuem então, claro, nada em comum, exceto pelo destino de serem as próximas na lista dos descobrimentos… ou das conquistas hispano-portuguesas. E sobretudo a particularidade — aos nossos olhos de europeus — de ser o fruto de histórias milenares que se desenrolaram fora do mundo euro-mediterrâneo. China e México seguiram trajetórias estranhas ao monoteísmo judaico-cristão e à herança política, jurídica e filosófica da Grécia e de Roma, sem comisso terem vivido voltados sobre si mesmos. É verdade que, à diferença das sociedades ameríndias, que se edificaram sem relação de nenhum tipo com o resto do globo, existiram contatos bastante antigos entre o mundo chinês e o Mediterrâneo (através da famosa rota da seda). Não esqueçamos, portanto, que a China teve constantes intercâmbios com uma parte da Eurásia, no mínimo acolhendo o budismo indiano, deixando-se durante séculos penetrar pelo islã ou compartilhando resistências imunitárias que, na hora do choque, faltarão cruelmente aos povos ameríndios. O que é a China ou o México nos anos 1510? Se a China é de fato um império (embora alguns tenham preferido falar mundo chinês), 10 o México antigo não tem nada de um conjunto politicamente unificado. Os arqueólogos privilegiam a ideia, mais vasta, de Mesoamérica, a tal ponto a noção de México remete a uma realidade nacional surgida no século XIX, totalmente anacrônica na época de que estamos falando.

Aliás, não se trata, aqui, de comparar a China ao México, mas de esboçar um rápido panorama desses lugares às vésperas da chegada dos ibéricos, descobrindo chaves que nos esclareçam sobre as reações chinesas e mexicanas por ocasião da intervenção europeia. Particularmente em âmbitos cruciais, sempre que se produz um choque de civilizações: a capacidade de se deslocar rapidamente por terra e por água, a arte de armazenar a informação e de fazê-la circular, o hábito de operar em escalas continentais e intercontinentais, a faculdade de mobilizar recursos materiais, humanos e militares diante do imprevisto e do imprevisível, uma propensão a pensar o mundo. Todos esses fatores, em parte técnicos, em parte psicológicos e intelectuais, exerceram um papel na expansão dos ibéricos: sem os capitais, os navios, os cavalos, as armas de fogo e a escrita, nenhuma expansão longínqua teria sido projetável, com tudo o que ela comporta de envio de homens e de material, de apoio logístico, de campanhas de informação e de espionagem, de operações de extração e de transporte seguro das riquezas, e, o que é demasiadamente esquecido, de criação de uma consciência-mundo. Todo inventário é sempre insatisfatório. Tal exercício é ainda mais no caso da Mesoamérica, porque, no terreno da memória, China e México antigo não se situam em iguais condições. Embora o afluxo repentino de espanhóis à sua nova conquista tenha inspirado uma pletora de relatos e de descrições, os tempos pré-colombianos permanecem amplamente opacos para nós, a despeito dos avanços às vezes notáveis da arqueologia. Os antigos mexicanos não tinham escrita, os chineses escreviam desde pelo menos 3 mil anos antes. O que significa que as fontes chinesas são abundantes, ao passo que, do lado americano, o historiador deve se contentar com depoimentos europeus ou comum punhado de narrativas indígenas e mestiças que o trauma da conquista e os constrangimentos da colonização deturparam irremediavelmente. Os mundos indígenas do século XV nos escapam semdúvida para sempre. O mundo chinês ainda nos fala, e provavelmente nos falará cada vez mais. ZHONGGUO Zhongguo, o país do meio… Diante do Novo Mundo e do resto do mundo, a China imperial bate recordes de antiguidade: o império chinês remonta ao terceiro milênio antes da era cristã com a dinastia dos Xia, ao passo que os impérios mexica e inca, para nos limitar aos mastodontes do continente americano, mal totalizam um século de existência no momento da conquista espanhola. A continuidade e a antiguidade, o gigantismo da China, seus recursos humanos — mais de 100 milhões, talvez 130 milhões de habitantes —11 e suas riquezas incalculáveis: os ibéricos iriam descobrir tudo isso, com estupefação, e experimentar um incontestável prazer quando ouviam tais descrições, antes de repeti-las para o resto da Europa. O império chinês é sobretudo uma colossal máquina administrativa e judiciária, com uma prática de séculos, que controla o país através de uma infinidade de mandarins, eunucos, magistrados, inspetores, censores, juízes e chefes militares. Ainda que, exceto nas fronteiras setentrionais e no litoral, o Exército só exerça um papel secundário. A máquina se renova com base em concursos de recrutamento que garantem a continuidade do poder entre a corte de Beijing, as capitais de província e os mais baixos escalões do império. Não há nobreza de espada nem grandes senhores, mas uma pequena nobreza fornecedora dos letrados que, tendo obtido sucesso nos concursos e contando comapoio familiar ou regional, empreendem uma ascensão ao término da qual um pequeno grupo, os mais dotados e os mais protegidos, se verá na capital imperial. Os 20 mil quadros da burocracia confuciana, os 100 mil eunucos podem dar a impressão, vistos da Europa ou do México, de uma administração pletórica. Na realidade, a China do século XVI é um monstro notoriamente subadministrado. 12 Como em toda administração, a corrupção lubrifica as engrenagens nos pontos onde o controle imperial, muito longínquo, muito lento ou muito esporádico, se mostra ineficaz. Ela atinge o ápice no litoral meridional, que extrai do comércio com o estrangeiro grande parte de sua prosperidade. Os portugueses terão a frutífera experiência disso. Ninguém é perfeito; a gestão desonesta, as revoltas e o banditismo impossibilitam idealizar a burocracia celestial, mas convém reconhecer que ela é então, em todo o planeta, a única a poder enquadrar uma população e espaços tão consideráveis. É comessa burocracia que colide o poder do imperador: as liberdades que ele assume com os rituais e as práticas da corte, suas veleidades militares, sua curiosidade pelos mundos exteriores e suas ambições universais desagradam aos letrados da administração, apegados a outros valores. Mas a China é também um mundo de grandes comerciantes: grãos, sedas, sal, chá, porcelanas. O congestionamento crescente do Grande Canal, eixo essencial do comércio Norte-Sul, comprova a intensidade das trocas.

13 No limiar do século XVI, os comerciantes reforçam sua posição perante a pequena nobreza, que vê esses parvenus com maus olhos. Com suas atividades invasoras, eles abalam os princípios da moral confuciana, pois preferem as eventualidades e os compromissos do mercado ao mundo estável, organizado e saudável dos campos. Mas o modelo antigo ainda é tão pregnante que se impõe a essas novas classes. Os comerciantes de Huizhou, grandes exportadores de grãos e de chá, e felizes beneficiários do monopólio do sal, se esforçam para melhorar sua imagemagarrando-se ao universo dos letrados e dos altos funcionários. 14 Quanto à pequena nobreza, ela não consegue resistir aos produtos de luxo — porcelanas antigas, plantas e frutos exóticos — importados, muitas vezes de bem longe, por esses negociantes prósperos. A tentação é forte porque colecionar ou consumir coisas raras e preciosas sempre foi vital para os membros da pequena nobreza. É compreensível que a curiosidade despertada pelos objetos estranhos introduzidos pelos ibéricos venha a reforçar a criação de vínculos com os europeus e, por conseguinte, o contato entre os mundos.

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