| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Alma Nova – Guilherme de Azevedo

NOTA: Texto publicado no Álbum das Glórias, nº 14, Lisboa, Dezembro de 1880 Chegado de Santarém pelo comboio da manhã, ele entrou em Lisboa há onze anos trazendo consigo um livro primoroso — A Alma Nova. Desde então até hoje a sua pena nunca mais cessou de correr no papel em alegres esfuziadas, que como um fogo-de-artifício estalam na página em arabescos luminosos e em estrelas rutilantes. Não é possível estar mais na publicidade e ao mesmo tempo aparecer menos na evidência. Toda a gente o leu e ninguém pessoalmente o comece. No meio do estrépito retumbante da sua obra, assinada pelos pseudónimos famosos de “Gil Vaz” ou de “João Rialto”, na Lanterna Magica e no António Maria, ele, encolhido, recluso, escorredio, atravessou a celebridade lisbonense pelo lado da sombra, caminhando no escuro em bicos de pés. Os diferentes prazeres da glória, que consistem para o eleito em ser curiosamente apontado no Passeio Público pelas mulheres feias que infestam aquela região ao domingo de tarde, em ocupar uma cadeira em São Carlos e em ter um retrato fotográfico exposto nas vidraças da Rua do Ouro entre o de um bailarino e o de uma cocote — esses prazeres capitosos e ardentes, que tantas imaginações devoram no interior das nossas províncias -, Guilherme de Azevedo repeliu-os sempre com uma energia inexpugnável. O Álbum das Glórias, abrindo nesta página um alçapão que faz tombar de chofre no meio do público a personalidade do organizador literário desta galeria, emprega a emboscada como único meio de trazer a lume esse perfil, o mais refratário às seduções da notoriedade. Apesar de coxear um pouco, por defeito físico, como Lorde Byron, Guilherme de Azevedo é dos raros escritores que na imprensa caminham pelo seu pé. A maior parte dos jornalistas seus confrades andam pela mão, amparados às ideias e ao estilo dos outros. Temos seguramente no país uns quinhentos ou seiscentos indivíduos perfeitamente habilitados para alinharem quotidianamente ao longo de uma gazeta três ou quatro colunas de frases aproximadamente corretas. Cumpre unicamente advertir que essas frases nem exprimem as ideias nem representam os processos estéticos dos sujeitos que se encarregam de as reduzir ao sinal gráfico. São as frases que toda a gente respira no espaço e que se apanham no ar como as moscas. A prosa expressiva, artística, pessoal, dando a imagem viva de uma ideia através da força de um temperamento, essa é apenas mantida nos jornais portugueses por uns quatro ou cinco escritores originais, que vão adiante; e todos os demais, consciente ou inconscientemente, os seguem. Guilherme de Azevedo é um desses chefes de fila. Ele possui em alto grau as grandes qualidades do jornalista moderno: a coragem da opinião, a fina sensibilidade mental perante a orientação científica do seu tempo, a suficiente dose de irreverência por todas as expressões de autoridade, e o poder da forma; — não da velha forma clássica dos compêndios de eloquência, mas da forma irregular e individual que mete a alma do artista na expressão da sua ideia e transforma o vocábulo inerte na palavra alada de que fala Homero. O estilo de Guilherme de Azevedo dobra-se com admirável flexibilidade a todos os caprichos da fantasia; de sorte que, dado o facto sobre o qual o artigo tem de ser bâclé para o jornal do dia seguinte, ele arranca-lhe de dentro em cinco tiras de papel tudo o que se lhe pedir: cabriolas, guinchos, métodos científicos, carrancas de palhaço, religiões, filosofias, busca-pés, baba de tigre, teorias de arte, formas de governo, bandeirolas, blasfémias ou pastilhas. Exercendo uma considerável força de crítica e de mordacidade sobre os compadrios caturras da sociedade de Lisboa, ele nunca teve inimigos. Quando há meses partiu para Paris, onde presentemente reside, li eu num jornal que vinte e três dos seus amigos tinham ido dizer-lhe adeus. Vinte e três amigos, para um homem que não tem pelo menos dois ou três ministros fechados em cada mão, parece-me ser o mais expressivo elogio que se pode fazer à bonomia de um malicioso. E esse elogio Guilherme de Azevedo merece-o mais que ninguém, porque nunca a fibra belicosa de um mais arrogante sapador revestiu o coração ingénuo de um melhor rapaz.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |