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A Alma Trocada – Rosa Lobato de Faria

Finalmente o prazer. Farrapos de fantasias eróticas de toda uma vida, numa espiral onde rodopiavam emoções, sensações, esquecimento próprio, loucura, aceitação do animal em mim, do grito, da fome, da liberdade de ser e saber que se é. Apesar. Mau grado. Não obstante. Que se lixe. Finalmente o prazer. Tantas vezes sonhado, imaginado, desejado, pressentido. Puro e irracional. Irresponsável. A fúria da descoberta e depois a paz. Essa paz desconhecida, completa, apaziguadora. Pela primeira vez na vida, a plenitude. Dormi sobre isto e acordei feliz. Fixo a cortina de renda, talvez fora de moda mas tão próxima do meu imaginário. A luz de Lisboa, o Tejo, o céu sem nuvens dão-lhe reflexos azuis. Nunca estive neste quarto, nesta cama, mas conheço intimamente esta cortina. Sim, é a cortina do meu quarto em casa da minha avó alentejana. As crianças têm de se alevantar quando o sol nasce, mandou dizer a avozinha, toca a saltar da cama que há muito mundo lá fora, os pintainhos estão a sair dos ovos, a vaca pariu um bezerrinho, está lá em baixo uma cesta de figos fresquinhos tapados com folhas de figueira e o seu pinguinho de mel, que os trouxe agora mesmo o tio Zé Ganhão, toca a alevantar que o pão está saídozinho do forno e a manteiga, na sua bacia de água com um bocadichito de sal, nem pode esperar para se derreter naquelas fatias, e o queijo e a marmelada, e os biscoitos de erva-doce e os beijos do Hugo, e as mãos do Hugo, e as palavras nunca ouvidas, nunca ditas Toca a descer, que a avozinha não quer comer sem companhia na mesa grande da copa, já sabe como ela é, alevanta-se com as galinhas e quando são sete horas já está varadinha de fome. E a cortina a estremecer nas mãos da brisa eu, o Hugo e a desenhar as rosas da renda na parede. De manhã, o feno. A silhueta da carroça contra o horizonte, a azáfama dos pássaros. Eram as férias, tão diferentes do 6º andar em Lisboa, dos móveis soturnos da família do meu pai, da austeridade, da prisão. Isto não pode, aquilo não pode. E aquilo? Não, também não pode.


No Alentejo a luz imensa, os cheiros diferentes, alfazema, carqueja, alecrim, hortelã, coentros e, logo ao acordar, a cortina de renda beija-me que afastada com a ponta do dedo indicador desvenda o olival com as suas folhinhas prateadas, os seus olhinhos pretos no tempo da apanha e mais longe o trigo, como um mar de ondas mansas, onde era bom perder-se, cuidado com os lacraus. O Hugo disse. Croissants e café à esquina da rua. Têm uma compota deliciosa de maçã. Vá lá. Um banho e enfrentar o mundo. E de súbito, no espelho, o esgar horrorizado da mãe. A reprovação do pai. Da Raquel. Do director do colégio. Dos alunos. Dos pais dos alunos. Do senhor Alberto do café. Dos fregueses habituais. Da rua inteira a ler-me o pecado na testa cuidado com os lacraus a testa de um rosto contente, épanoui. Dar aulas de francês tem destas coisas. Como é que se diz épanoui em português? Descontraído, distendido? Desabrochado como as rosas de Malherbe? Parece que épanoui é mais distendido que distendido, mais descontraído que descontraído. Seja. A felicidade, em suma. Quanto lixo metem na cabeça das crianças. Quanto preconceito idiota, quanta pressão, quanta norma. Normas, para que todos sejamos normais. Mas eu, com pretensões na área da escrita, nunca serei normal. Aulas de francês, muito bem. Fino, até.

Mas escrever? Veja lá se arranja um hobby mais útil ou mais sociável, que não seja preciso esconder como se fosse uma doença. Sinto o doce sabor da vingança ao transgredir as normas. Não foi por isso que o fiz, nem pensei em tal, só na turva premência do desejo, nos olhos, nas mãos do Hugo. O sangue espesso, a boca seca. Mas agora reconheço que a vingança tem o gosto bom da compota de maçã, partilhada à vista de todos, numa manhã de sol. Só que, aos poucos, a norma que trago cosida à consciência com uma linha indestrutível fala mais alto. Hugo, isto não pode voltar a acontecer. Mas porquê, caramba. Porquê? Sabes perfeitamente que a minha família, o noivado, o colégio… E tu? Não pensas existir como pessoa, tu? Dá-me tempo. Quanto tempo? Tens vinte e seis anos. Eu sei. E então? Preparar as coisas, falar com os meus pais, romper o noivado… Ah. Romper a merda do noivado. Não pretendo ter amantes depois do casamento. Nem antes, pelos vistos. Tem que ser um segredo nosso, Hugo. Não me entregues. Achas-me capaz de te atraiçoar? Não, nem por sombras. Até parece. Por isso agora… meu querido… vamos ficar assim. Tu é que sabes, Teófilo. Tu é que sabes. Teófilo de Deus Ferreira de Mendonça, poder-se-ia dizer Pleonasmo Ferreira de Mendonça. João Teófilo de Deus Ferreira era o meu avô alentejano, pai da minha mãe, engenheiro agrónomo, agricultor e proprietário, homem bonacheirão e generoso, dizem-me, que não o conheci. Morreu no dia em que fui concebido e a minha mãe, se bem a conheço, deve até hoje arrepelarse de remorsos por estar a fornicar com o meu pai à hora em que o meu avô se despedia deste mundo.

Como se a morte não fosse um apelo à vida e a vida a lógica substituta da morte. Foi a minha avó que me contou. A minha avó Jacinta, tão diferente da filha, tão alegre e directa e terra-a-terra e desbocada, que faz a minha mãe morrer de vergonha com a sua total ausência de hipocrisias classe média, a sua vitalidade, o seu apetite, os seus sapatos todo-o-terreno. A minha mãe deixou de ser uma Ferreira para se transformar, com o casamento, numa Mendonça; numa senhora como-deve-ser; num tailleur escuro de bom corte; num agasalho de peles herdado da sogra; numa frase feita; num cliché. O meu avô João Teófilo, diz a avó Jacinta, morreu do 25 de Abril. Não da democracia, nem das novas ideias que aliás professava, mas da ingratidão dos seus homens que estimava e ajudava como se fossem família. Apareceu-lhe um grupo de mal-encarados com o Custódio à frente, de caçadeira, Ó senhor engenheiro, isto não é nada com vossemecê, mas tem uma semana para deixar a casa e o monte que isto agora é tudo da gente. É o quê, meu filho de uma grande puta? Tratei-te sempre como se fosses um irmão, paguei a clínica da tua mulher, os estudos do teu filho doutor, dei-te dadas as belgas que agora são tuas e tu atreves-te a vir com essa conversa? Dou trabalho a uma cambada de madraços, achas que me vou embora com medo da tua caçadeira de chumbar pardais? Eles disseram que eu era para dizer: Não, passarão! Tás-me a chamar passarão? Filho duma égua, cabrão dum corno, paneleiro de merda. Mata-me já, que daqui não arredo pé, e depois de morto só se quatro homens me levarem como diz o Marquês de Pombal. Esse tal marquês não sei quem é, mas o senhor engenheiro é que é para sair de hoje a oito dias, são ordens, que eu cá por mim nem me dá jeito perder o emprego. A gente agora arretira-se em boa ordem e vossemecê pensa o que é melhor para vossemecê. E tenha muito boas tardes que a gente temmais montes para despejar. A minha avó Jacinta saiu a porta com uma enxada e correu-os a poder de braços, com tal força de argumentação que nunca mais lá puseram os pés. O Custódio desapareceu da circulação, diz-se que levou um tiro num dos montes que andou a despejar. Mas o meu avô não se refez. Teve uma pataleta do coração (frases da avó Jacinta) e ficou desminingúido para o resto da vida. Que foi curta. Morreu em 1975, em Julho, nove meses antes de 20 de Março de 1976, que foi o dia em que eu nasci. Feitas as contas e estando os meus pais a estrear as férias de Verão num hotel do Algarve, como é suposto em pessoas do seu estatuto económico e social, houve a previsível coincidência da cópula conjugal (que só viria a repetir-se um mês depois, no final das férias, para despedida). Como o meu avô se passou desta para melhor com a sua segunda pataleta à meia-noite e quinze, é de supor que a minha mãe, tão cumpridora dos seus deveres de esposa, estivesse de perna aberta a receber no seu casto seio a semente de mim na hora em que seu pai desencarnou. Foi nesse instante que me trocaram a alma. Um rasgão no peito, uma saudade de mim. E a minha mãe para sempre com aquele remorso (ela considera que fazer-me foi uma coisa suja) a imaginar, logo à partida, formas de se redimir, e a primeira, assim que lhe comunicaram que tivera um rapaz, foi pôr-lhe o nome do morto recente, o meu pai achou Teófilo mais carismático que João Teófilo, pois bem, deixaram cair o João, mas a homenagem ao finado era inevitável. Teófilo de Deus, pois claro. Nem repararam que Teófilo quer dizer o que ama Deus (o meu pai é economista), só faltou porem-me Teófilo Amadeu e lá carrego eu este nome em duplicado, eu, que nem sou religioso e não é para contrariar a minha mãe.

É porque no dia em que acreditar que há um Deus tenho de lhe pedir contas da minha alma trocada e duvido que ele saiba responder-me. Ao contrário do que diz a Natália Correia, raramente encontro relação entre a pessoa e o seu nome, essa ligação misteriosa e premonitória, imaginem, a minha mãe chama-se Generosa (Geni para disfarçar). Punham-me no Alentejo quando iam viajar, só os dois, felizmente nunca se lembraram de me levar, tudo o que viajei foi por minha conta e risco, já adulto, e tudo o que não viajei foi aprendizagem de mim e do universo, foi o silêncio, os cântaros a beberem avidamente das fontes, o recolher do rebanho, um cão com alma de leader, um pássaro tardio num desenho de flecha, o meu coração inquieto, uma pedra fechada na palma da mão. Em contraluz, a Maria vinha devagar, menino Teozinho está a merenda servida, a avozinha, já sabe, mandou fazer um bolo grande de chocolate por sua causa e agora quer que o vá comer com ela, sempre alegre a minha senhora, sempre alegre apesar de tudo, da falta que lhe faz o avôzinho, da morte do seu tio Emílio na guerra de África, da sua mãezinha que, com sua licença, não lhe passa cartão, sempre armada em fina e em desocupada das que não têm tempo para nada, nem para pegar num telefonezinho, salvo seja, e perguntar a mãe se está viva, vá o menino ter com ela à sala que já lá levo a bandeja, fiz salada de frutas, vai gostar. Eu, doze anos, um rasgão no peito, uma saudade de mim, a pensar em palavras, voo, regato, antemanhã, tão à espera da minha verdadeira alma, tão à deriva, a agarrar-me como um náufrago à minha fatia de bolo de chocolate, a pô-la no prato, a cobri-la de salada de frutas, mais pêssego que pêra, dois cubinhos de melão e por fim uma ginja em calda, tão bonita, mas que afinal me enjoa e me faz arrepender. É fácil conversar com a avó Jacinta. É ela que me conta a história, que considera hilariante, da minha concepção, do meu nascimento, a Generosa a tapar-se toda para amamentar, e a avó a lembrarse de como expunha, às vezes ao sol, os seus belos peitos, fartos de leite, para alimentar os filhos, nada mais belo que a maternidade, a assunção do corpo, a verdade da pele voo, regato, antemanhã Lanchaste bem? Comi de mais, avó. Vai correr, então. Mostra os sapatos, são bons. Foi a tua mãe que os comprou? Mandou o motorista. Ele tem filhos da minha idade, está mais habituado. Vai, então. Cuidado com os lacraus. Corri até à beira da charca, mas fiquei entre as árvores, que o sol ainda ia alto e estava calor. As palavras continuavam a aparecer na minha cabeça como se alguém mas ditasse miligrã, oxálida, xarel e foi quando vi o Tinito, todo nu, entretido com o seu próprio membro. Negro. Assustador. Acho que há um Tinito ou uma Tinita na vida de todos nós. Pode ser a criadita descarada, a filha da vizinha, o rapaz das pizzas, o sabidão da turma. Este Tinito, que se chamava Justino, era um cigano que os pais tinham deixado à minha avó como penhor de um empréstimo que ela lhes fez. Era uma criança linda de dois anos, e por mais que a minha avó gritasse que não queria penhor nenhum (porque o dinheiro, já se sabe, havia de acabar por ser dado), muito menos um menino para criar, eles picaram a mula e desapareceram na curva da estrada, não sem recomendar que acautelassem a criança do mau-olhado. O miúdo foi crescendo por ali, caladinho, muito afeiçoado aos animais, a minha avó registou-o, para poder mandá-lo à escola, com o nome improvável de Justino Trovoada, que era a alcunha do pai. Estudou até ao 9º ano, com relativa facilidade, era um ás em matemática, medíocre emportuguês, mas não quis continuar. Os bichos eram a sua paixão e a avó Jacinta pô-lo a tomar conta das vacas e dos cavalos. Era um criado da sua casa, devidamente assalariado e assim as coisas deixavam de ser equívocas.

O rapaz é seu neto? Não, não, é meu afilhado. A avó Jacinta era uma viúva ainda fresca, o rapaz um matulão incrivelmente bem-parecido com olhos negros e caracóis na testa, bermudas e t-shirt Benetton, que sabia misturar o odor a cavalo comum toque de lavanda. Mas de um modo geral chamavam-lhe o cigano e ele não escondia a sua origem. Gabava-se até, para as muitas raparigas que desviavam caminho para passar no monte da minha avó, da sua aristocracia cale. Sou neto de rei, dizia, embora não fizesse a mais remota ideia de quemera o avô. Esquecera os pais e só sabia como fora ali parar porque a Maria e a avó Jacinta lho tinham contado como se fosse uma história de fadas. Chegou a pensar que era um príncipe encantado e daí à convicção de ser neto de rei foi um pequeno passo. Lá estava o Tinito na beira da charca, ao sol, com aquele corpo como eu só tinha visto num livro sobre escultura grega na biblioteca do meu avô, mas em moreno, a deliciar-se com o seu rapidíssimo jogo de mão. Depois meteu-se na água, deu meia dúzia de braçadas e viu-me quando vinha a sair. Veio ter comigo. Viste, não viste? Então agora tens que experimentar. Não, não. Dá fraqueza nos pulmões e até cegueira e até nascem pêlos na palma da mão. Ele virou as palmas claras para mim, exibindo-as como uma evidência. Vá, experimenta. Eu ensino-te. Despe-te. Foi ele que fez. Eu não despreguei os olhos dos seus olhos negros, a fingir que aquilo ali embaixo não me pertencia. E de repente aconteceu. A descoberta tomou conta de mim com tal violência que pensei que ia morrer. Depois fomos os dois ao banho. A charca (que hoje está seca) tinha água que dava ao Tinito pela cintura, a mim pelo pescoço. Brincámos como dois miúdos que éramos, o Tinito ia fazer dezoito anos, eu treze, e de repente sentime enjoado, maldisposto, com uma urgência enorme de voltar para casa, para o meu quarto, para a minha cama, para a minha cortina de renda. Entrei só de calções, meio molhado e pus-me a vomitar.

Foi o bolo, disse a avó. Ele comeu bastante e depois foi nadar. Quantas vezes lhe disse para não se meter na água sem ter a digestão feita. Vá, meu filho, insistiu a Maria. Está aqui um chazinho de poejo que é calmante para o estômago. Vá lá, meu querido. Meta-se na caminha que amanhã está bom. Durma que lhe faz bem. Logo passo, a trazer-lhe uma aguasinha de arroz.

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