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A amante de Freud – Karen Mack, Jennifer Kaufman

Atemporada dos suicídios havia começado. Ela sentou-se à escrivaninha perto da janela e mergulhou sua caneta na tinta preta. A ponta raspava as folhas de papel como a garra de um corvo. Lá fora, o céu era cor de cinza. Desde o princípio de novembro, um frio rascante pairava no ar, e placas de gelo haviam se espalhado pela extensão do Danúbio. Logo o rio estaria com a sua superfície congelada para esperar a primavera seguinte. Outra semana mesmo ela havia lido no Salonblatt sobre a moça rica de família aristocrata que, vestida de noiva, com véu e tudo, saltara a cavalo por cima da amurada da ponte KronprinzRudolf. A linda égua afundou feito uma pedra, e o corpo da jovem foi empurrado para a margem na sua mortalha de cetim branco. Ela mesma nunca imaginara chegar àquele ponto e agora ali estava, à mercê da irmã, redigindo seu pedido de socorro. A carta foi concluída ao amanhecer, no momento em que os sinos da catedral de São Estêvão ressoavam pela cidade. Depois de selar o envelope, ela o depositou na caixa do correio junto à porta principal da casa. Este dia ficaria marcado na sua memória. Era o princípio de tudo. DOIS DIAS ANTES A chuva de granizo caía forte, mas a mulher que vinha apressada pelo boulevard não estava usando casaco nem chapéu. Ela trazia nos braços um embrulho envolto em cobertores ásperos, e a carga pesava sobre o seu passo, fazendo com que precisasse avançar com uma perna, depois a outra. Mechas molhadas do cabelo comprido batiam na boca e nos olhos, e de tempos em tempos ela precisava parar, apoiando o embrulho em um dos quadris para passar a mão livre no rosto. A mulher atravessou a Ringstrasse – a avenida larga e pontilhada de árvores que circundava Viena – e depois passou por uma fileira de prédios de apartamentos parrudos cujas fachadas projetavam sombras no calçamento. A tempestade estava cada vez mais forte, um pé-d’água constante. Cega pela chuva, ela seguia adiante, chapinhando nas poças com suas botas de couro de boa qualidade ao cruzar a Schwarzenbergplatz, a fronteira invisível que separava a aristocracia de todas as outras pessoas. Poucas centenas de metros à frente, brilhavam as luzes das fachadas de uma fileira de casarões imponentes. Mais cedo, na pressa de partir, ela não se dera ao trabalho de subir para buscar as luvas ou o sobretudo de lã, mas agora se arrependia amargamente por ter sido tão precipitada. O frio a fazia tremer até os ossos. Idiota, pensou. Minhas botas estão arruinadas. Reduziu o passo para atravessar os portões de ferro trabalhado da residência da baronesa e contornou a casa principal até chegar à entrada de serviço.


Depois de ter tocado a campainha noturna, começou a bater estrondosamente na porta, praguejando baixinho e andando impaciente de um lado para o outro. Abram essa maldita porta. Uma dor abafada e persistente apareceu na lateral do seu corpo quando uma rajada de vento gelado ameaçou desequilibrá-la. Ela ergueu o embrulho e o apoiou por cima do ombro, sentindo os dedos latejarem ao encontrarem a madeira da porta. Quando a criada da noite finalmente apareceu, Minna passou por ela e entrou na casa numa rajada de fúria. Maldita demora essa sua, pensou, mas murmurou um “boa-noite” mecânico antes de descer a escadaria mal iluminada que levava ao porão. Com cuidado, depositou seu embrulho numcatre perto da “Besta”, a imensa fornalha negra ao lado de onde ficava a área com os tanques de lavar. Uma criança frágil e sonolenta emergiu do meio dos cobertores e ficou sentada em silêncio enquanto Minna empurrava o catre mais para junto da fornalha, afastava o colchão fino de cima do estrado e tratava de acomodá-la debaixo da luz rala da vela acesa numa prateleira de madeira. – Fräulein Bernays, sua presença foi solicitada. A patroa já está tocando a sineta há mais de uma hora – disse a criada da noite, ajeitando a touca branca engomada. – Todos são prejudicados com essas suas ausências… – acrescentou soltando um suspiro pesado enquanto se abaixava para limpar uma pegada enlameada de um dos degraus. – Eu falei que era um passeio. Mas ela não quis acreditar, ficou repetindo que a senhorita só podia estar num outro lugar… – Se quer mesmo saber, nós duas fomos nos fartar de gim. Não fomos, Flora? – Fomos sim, Fräulein – Flora disse, com um sorriso débil. – E depois nós fomos ao médico. – A criança só pode estar delirando – atalhou Minna. – Trate de se cobrir, querida. Está gelado aqui dentro. Uma corrente de ar vinda sabe-se lá de onde a fez desejar ter uma muda de roupa seca, e ela podia sentir sua cabeça latejar. Mergulhando a mão no bolso da saia, apalpou o saquinho de papel pardo com o remédio. Graças a Deus: as pastilhas continuavam ali. Naquele dia mais cedo Minna havia se deparado com Flora em péssimo estado, tentando cumprir suas tarefas enquanto era sacudida por uma tosse tão forte, que cada acesso a fazia cair de joelhos no chão. Diversas vezes ela havia mergulhado a pobre criatura, em meio a choramingos de protesto e soluços, numa tina de água fria na tentativa de fazer a febre ceder. Mas nada parecia funcionar. A criança estava mal: as bochechas brilhantes por causa da febre, os suores da doença cada vez mais intensos.

Minna não podia aguentar mais aquela situação. Tratou de fazer um embrulho bem quente com os cobertores e, sem dizer uma palavra a ninguém, saiu para levá-la ao médico. – Minha garganta dói – choramingou Flora, respirando com dificuldade enquanto Minna tocava a campainha do doutor. – Ele vai cuidar de você – ela respondeu, exalando uma confiança que na verdade não sentia. – Você é da casa da baronesa, é alguém muito importante. Um cavalheiro mais velho surgiu à porta enxugando o bigode com um guardanapo de linho. Pelo vão, Minna avistou uma mulher sentada à mesa do jantar mais ao fundo, de onde vinha o aroma de carne cozida e vinho. – Herr Doutor, minha patroa, a baronesa Wolff, solicita atendimento imediato para esta criança. Ela está muito preocupada com o estado da menina. O médico hesitou por um momento enquanto Minna abria caminho para entrar, já recitando o rosário dos males que afligiam a pequena: febre, tosse, náuseas, perda de apetite. Não haveria motivo para duvidar da sua autoridade. Mesmo sem ter trazido o sobretudo, e apesar da lama respingada nas suas roupas, ela era uma mulher elegante – esguia, com a postura aprumada, a pele macia e uma dicção perfeita. E, além do mais, era também uma mentirosa bastante convincente. – Será que pode ser escarlatina? – Minna indagou, enquanto o doutor conduzia as duas até o seu consultório nos fundos da casa. – Uma infecção inespecífica – foi o que ele concluiu depois do exame. – Repouso absoluto por pelo menos um mês… lençóis trocados duas vezes por semana… pastilhas para a inflamação na garganta e Heroína Bayer para a tosse… Minna foi ouvindo e assentindo com a cabeça, ciente o tempo todo de que seria impossível cumprir as prescrições médicas na casa em questão. E, fosse como fosse, ela ainda não sabia como podia ter achado que se safaria daquela situação. Seus dias, suas noites e até mesmo os seus domingos pertenciam à baronesa. Minna devia ficar ao inteiro dispor da sua empregadora, e qualquer atraso poderia ser motivo de demissão sumária. Ela voltou a pensar nas ordens do Herr Doutor quando pousou a mão na testa úmida de Flora. – Não me deixe – a criança falou, ligeiramente desnorteada, com uma voz forçada e rouca. Mesmo tendo 10 anos de idade, sua aparência era de 6. Pressentindo a partida, seus dedos agarrarama saia de Minna. Ela lhe deu duas colheradas do xarope pegajoso de cheiro doce e sussurrou-lhe alguma coisa ao ouvido. A criança voltou a se deitar e virou o rosto para a parede.

A criada da noite ficou medindo Minna com os olhos enquanto ela ajeitava algumas pontas úmidas de cabelo de volta para dentro do seu pequeno coque, limpava enfaticamente os saltos das botas com um pano e saía da cozinha sem dizer uma palavra. Ela tornou a subir a escada estreita, atravessou o piso de mármore do saguão de entrada e depois enveredou por um corredor de teto abobadado onde havia uma série de lâmpadas elétricas importadas. Depois de uma parada ligeira perto da entrada da sala de visitas carmesim para recuperar o fôlego, ela bateu suavemente na porta. – Entre – disse uma voz. O refúgio particular da baronesa se parecia mais com uma sala que ninguém jamais iria visitar, com suas poltronas e sofás opulentos e pesados em tecido adamascado, os vitrais nas janelas, os tapetes persas e uma coleção de figuras de porcelana que incluía alguns pugs e poodles, além de pássaros exóticos. Numa mesa lateral havia um vaso com lírios, e no canto perto da janela estava a escrivaninha onde repousava uma bandeja de prata cheia de bolinhos e sanduíches imaculadamente brancos. Minna aparentava calma, mas tinha as faces afogueadas e o coração acelerado como alguémque tivesse acabado de quebrar um vaso precioso. E, além disso, o aroma dos bolinhos da baronesa a fez lembrar que não havia comido nada o dia inteiro. – Boa noite, baronesa. – As outras andam comentando sobre a sua conduta – foi a resposta abrupta da jovem senhora, na sua voz nasal refinada. Sentada sobre o seu torturante vestido espartilhado, ela dirigiu à Minna umolhar capaz de escalpelar um coelho. – Quer saber o que dizem? Elas falam das suas peculiaridades: das leituras constantes, desses seus passeios e tudo mais. Hábitos que eu tolero mesmo com as grandes inconveniências que me trazem. Hábitos que tenho feito esforço para ignorar. Você está atrasada. Por onde andava? – Fui falar com o farmacêutico. Flora está doente – explicou Minna. – E você pensou que eu não havia reparado – retrucou a baronesa, fazendo um gesto para que Minna fosse sentar à sua frente. Ela hesitou por um instante. A saia ainda estava úmida e certamente deixaria uma marca no tecido delicado do sofá. Acabou decidindo equilibrar o corpo precariamente na beirada do assento, não sem antes puxar e pôr de lado uma das almofadas de seda. – Não sou nenhum monstro, afinal. Semana passada, cheguei a pedir pessoalmente à cozinheira que preparasse doses diárias de cânfora para a pobre criatura. Se isso tivesse mesmo acontecido seria o primeiro sinal de um tratamento decente dispensado pela baronesa à Flora em toda a sua vida, Minna pensou. A desafortunada menina fora trazida do campo para fazer parte da criadagem da ampla residência barroca.

E, desde o dia em que chegara, muito magra e muito pálida, Flora havia se mostrado frágil demais para aquele tipo de serviço. Com seus cabelos cor de palha e os olhos que lembravam duas taças de xerez, ela passava a maior parte do seu dia no porão, aspirando nuvens espessas de fumaça e fuligem. Suas tarefas incluíam desde limpar o aquecedor e esvaziar as lareiras até arear panelas e limpar os banheiros da casa. À noite, não era incomum que Minna a ouvisse chorar até pegar no sono. – A cânfora não adiantou. Ela estava precisando… A baronesa ergueu o dedo em sinal de alerta, interrompendo a fala de Minna. – Cabe a mim decidir quando providenciar medicamentos para a criadagem. E, por falar nisso, quando minha garganta estava inflamada na semana passada não me lembro de ter visto você sair correndo até a farmácia. – Uma pausa tensa caiu sobre a sala enquanto a baronesa ajeitava as almofadas franjadas do seu sofá império. – Eu realmente não tenho sorte com essa sua gente. Não costumo contratar ninguém que venha do Segundo Distrito, mas o seu trabalho me foi tão bemrecomendado… Minna não retrucou. Embora, na verdade, jamais tivesse vivido no Segundo Distrito, na área de Leopoldstadt, onde a maior parte dos judeus de classe média de Viena morava, ela costumava sentir na pele com frequência os golpes do antissemitismo. Quando era menina, chegou a se vingar de alguns dos colegas de escola que a perturbavam com enxurradas de apelidos preconceituosos, e uma vez socou um garoto com tanta força que o nariz dele sangrou. Mas, à medida que foi crescendo, concluiu que a melhor atitude era ignorar as agressões, mesmo sentindo um calafrio na nuca a cada vez que uma delas era lançada na sua direção. – A senhora pode ter certeza de que eu só estava preocupada com a menina – disse Minna, numa voz baixa e firme. – Pois deveria se preocupar mais com o seu emprego. Foi contratada como dama de companhia, e até onde sei não possui qualquer conhecimento médico. – Mas a verdade é que eu tenho algum. Trabalhei para um doutor em Ingolstadt. – Que doutor? – quis saber a baronesa, cética. – Herr Doutor Frankenstein – disparou Minna numa voz jocosa. A baronesa a encarou sem dizer nada por um instante, depois abriu um sorriso maroto ao entender a piada. Ela se levantou e caminhou até junto da lareira, pegando a sua cesta de trabalhos manuais. – Agora, Minna – prosseguiu, dando um tom conciliatório à voz –, eu preciso do seu pedido de desculpas para que possamos encerrar esse assunto. – Me desculpe – Minna disse prontamente, sem uma ponta de sentimento verdadeiro.

– Eu aceito suas desculpas – respondeu a baronesa. – Seja como for, essa menina nunca foi mesmo ideal. Fraca demais, enfermiça demais. Ela se olhou no espelho acima do consolo da lareira e levou a mão ao cabelo preso numpenteado intrincado. – O que você acha deste estilo? É o que Clara tem usado. Ela esteve no Palácio Imperial com o cabelo arrumado assim na semana passada. – Ficou muito bem na senhora – respondeu Minna, com os olhos pregados no topete Pompadour ridiculamente bufante e pensando como alguém na face da Terra conseguiria ver aquilo sem dar uma risada. – Ótimo, então. Vou passar a adotá-lo – a outra concluiu, fazendo um gesto para dispensar Minna e voltando a se acomodar no sofá com a cesta no colo. A luz da tarde ia se apagando, e sombras escureciam a sala. Ruídos distantes dos cascos de cavalos e rodas de coches contra as pedras do calçamento chegavam através das pesadas cortinas drapeadas, e ocasionalmente a voz abafada de um dos criados ecoava pelos corredores. As mãos brancas e macias da baronesa se moviam depressa sobre a cena pastoril que ela estava bordando numa toalha de mesa: pálidos campos verdejantes, um céu cor de lavanda e um pastor conduzindo seu rebanho. Mais tarde, Minna subiu os dois lances de escadas até seu quarto e livrou-se imediatamente da saia de musselina molhada, da anágua de flanela e das meias de lã, abrindo um por um os vinte botões da camisa de algodão branca. O corpete muito apertado estava esmagando suas costelas, e Minna deixou escapar um suspiro aliviado quando ele foi desamarrado e jogado ao chão. Ela precisava se secar. Estava começando a ficar com cheiro de cachorro molhado. O quarto estava sombrio como seu estado de espírito, com suas paredes num tom de verde arsênico doentio. Ela vestiu uma camisola e levou uma vela até a penteadeira, seguida pela própria sombra bruxuleante na parede. Inclinando a cabeça para trás, Minna começou a escovar o espesso cabelo castanho, mecha por mecha. Na juventude, costumava ficar orgulhosa do cabelo vistoso e do seu porte alto e esguio. Mas o passar dos anos levara a vaidade embora. As planícies lisas das faces e do pescoço ainda se destacavam, mas mesmo à luz da vela era possível enxergar linhas finas de expressão ao redor dos olhos. Ela nunca imaginara que a essa altura, com quase 30 anos, estaria na posição de receber emsilêncio os achaques de uma mulher jovem que mal devia ter a sua idade, e que teria que assistir igualmente impassível enquanto essa mesma mulher praticamente deixava uma pobre criança morrer como um cão sem dono. Minna certamente já estaria casada, como a irmã Martha, se sua vida tivesse seguido outro rumo, se seu pai não tivesse perdido tudo o que tinha e caído morto em plena rua, se seu próprio noivo não tivesse chegado a falecer. Se, se, se… Não fazia sentido remoer tudo mais uma vez.

Havia anos que ela só podia contar consigo mesma. Não havia parente que pudesse arcar com seu sustento: Martha tinha sua própria família, que não parava de crescer; o irmão, Eli, havia se casado e mudado para longe. Minna, assim, só podia contar com as parcas opções que lhe restavam: trabalhar como dama de companhia ou como governanta. Estava sozinha no mundo e, ao que tudo indicava, prestes a se mudar mais uma vez. Depois de enrolar um xale nos ombros, abraçou o próprio corpo, afundando os dedos na carne dos antebraços. Estava se sentindo cansada. E com dor no pescoço. Saindo para a sacada, Minna voltou os olhos para o norte.

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