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A Ameaça de Bedford Square – Série Pitt 19 – Anne Perry

Pitt apareceu em camisa de dormir à janela do dormitório, que dava à rua, de onde o olhava o policial, cujo semblante, amarelo à luz da luz de gás, refletia uma tensão e uma contrariedade devidas a algo mais que a ter despertado ao delegado do Bow Street às quatro da madrugada. — Morto, senhor – disse em resposta à pergunta do Pitt, — e a julgar por seu estado e lugar não parece um acidente. Desculpe, mas tenho que voltar. Dá-me medo deixá-lo só, e vá movê-lo alguém e nos estragar as provas. — Sim, claro – assentiu Pitt. — Volte, agente. Fez o devido. Descerei assim que me vista. Suponho que não terá tido tempo de avisar ao legista nem ao necrotério. — Não; venho diretamente. Como o encontrei aí… — Aviso-os eu. Volte e vigie. — Sim, senhor. Sinto muito, senhor. — Pois não o sinta, porque fez o devido – repetiu Pitt, colocando a cabeça no dormitório. Sofreu um calafrio involuntário. Era junho, nominalmente verão, mas as noites londrinas continuavamsendo frias e flutuava um véu de névoa sobre a capital. — O que acontece? Charlotte se endireitou na cama e procurou um fósforo. Pitt ouviu o esfregar e viu acendê-la vela, que iluminou suavemente o rosto de sua mulher, fazendo brilhar os tons quentes de seu cabelo e a trança meio desfeita. — Acharam um cadáver no Bedford Square, e parece que há indícios de assassinato – lhe disse. — Tanta falta lhes faz? – protestou ela. — É alguém importante? Desde sua ascensão, Pitt tinha instruções de concentrar-se nos casos que possuíssem relevo policial ou potencial escandaloso. — Pode ser que não – respondeu, fechando a janela e aproximando-se da cadeira de cujo espaldar pendia sua roupa. Tirou a camisa de dormir e começou a vestir-se, mas sem colarinho nem gravata. Verteu na pilha o conteúdo do jarro; estava frio, mas não havia tempo de acender o fogão da cozinha e esquentar a água para barbear-se.


Por desgraça tampouco o havia para uma Anne Perry – Thomas Pitt 19 – A Ameaça de Bedford Square Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções xícara de chá, que teria gostado ainda mais. A sensação da água fria na rosto foi muito violenta. Procurou a toalha com os olhos fechados. — Obrigado. – Pegou-a de Charlotte e secou o rosto vigorosamente, sentindo que o rígido algodão lhe ativava a circulação e fazia que aquecesse. — Parece que apareceu diante da porta de uma das mansões – respondeu. — Ah. Charlotte entendeu as conseqüências. Londres vivia momentos de especial sensibilidade aos escândalos. No ano anterior, 1890, tinha presenciado um no Tranby Croft, e o julgamento tinha em brasas todo o país. Tratava-se de um caso bastante lamentável, ocorrido durante uma festa em uma casa de campo em que alguém tinha sido acusado de fazer armadilhas no bacará, jogo ilegal. Não obstante o previsível e indignado desmentido do suposto jogador profissional, não podia se ocultar nem justificar o fato de que o príncipe do Gales figurasse entre os implicados e estivesse a ponto de comparecer diante do juiz a fim de prestar declaração. Meia Londres continha a respiração ao abrir o jornal cada manhã. Pitt terminou de vestir-se, abraçou a sua mulher e lhe deu um beijo que lhe permitiu sentir o calor de sua pele. Depois lhe jogou para trás a densa cabeleira e apalpou sua suavidade com um prazer por desgraça efêmero. — Você continue dormindo – disse com doçura. — Voltarei assim que puder, mas duvido que chegue a tempo para o café da manhã. Percorreu o corredor nas pontas dos pés e abriu a porta sem fazer ruído para não despertar as crianças, nem à criada Grace, que dormia no piso de cima. O lampião de gás do patamar, que sempre deixavam ao mínimo, foi suficiente para que visse os degraus. Quando chegou ao saguão, levantou o auricular do telefone (aquisição que levava pouco tempo emseu lar) e solicitou à operadora que lhe pusesse com a delegacia de polícia do Bow Street. Quando ouviu a voz do sargento lhe ordenou enviar a Bedford Square o legista e a carruagem do necrotério. Pendurou-o, calçou as botas, recolheu a jaqueta do cabideiro da porta principal e saiu à rua. Fazia um frio úmido, mas começava a amanhecer. Caminhou depressa pela rua molhada e dobrou pela esquina do Gower Street. Os poucos metros que o afastavam do Bedford Square não lhe impediram de divisar a inquieta figura do agente que montava guarda a sós no meio da rua, e que balançou sua lanterna com expressão de alegria, aliviado ao vê-lo emergir com rápidas passadas da escuridão.

— Aqui, senhor! Anne Perry – Thomas Pitt 19 – A Ameaça de Bedford Square Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções Pitt se aproximou e olhou o lugar que lhe assinalava. O vulto negro se destacava claramente contra a escada de acesso à primeira mansão a mão esquerda. A julgar por sua postura devia haver-se desabado quando tentava alcançar a campainha. A causa da morte era visível: uma ferida profunda e ensangüentada a um lado da cabeça, cuja origem, na verdade, parecia algo menos acidental. Nenhum percalço acontecido na via pública o teria arrojado tão longe, e não se apreciava nenhuma outra ferida. — Me ilumine – solicitou Pitt antes de ficar de joelhos ao lado do cadáver e examiná-lo de perto. Aplicou os dedos à garganta do desconhecido, o qual, embora falto de pulso, continuava quente. — A que horas o achou? – perguntou. — Às quatro menos dezesseis. Pitt consultou seu relógio de bolso. Eram as quatro e treze. — E a que horas tinha passado pelo lugar por última vez? — Às três menos um quarto, senhor, e então não estava. Pitt se voltou para olhar as luzes, e viu que estavam apagadas. — Procure o faroleiro – ordenou. — Não pode ter acontecido faz muito. As de Keppel Street continuam acesas, e a estas horas quase não se vê nada. Passa um pouco de preparado, na verdade. — Às ordens! – respondeu o agente, preparando-se para obedecer. — Alguém mais? – perguntou-lhe Pitt antes que partisse. — Não, para os distribuidores é muito cedo. Começam às cinco, quando muito cedo, e as criadas não estão levantadas. Demorarão no mínimo meia hora mais. Para os notívagos é um pouco tarde; costumam voltar por volta das três, embora nunca se sabe. Poder-se-ia perguntar… Pitt sorriu com ironia, dando-se conta de que o agente tinha renunciado a encarregar-se disso e o considerava mais adequado para fazer indagações entre a alta sociedade do Bedford Square e lhes perguntar se voltando de seus ócios noturnos tinham visto um cadáver diante de uma porta, ou possivelmente uma rixa de rua. — Veremos se é necessário – disse subitamente.

— Revistou-lhe os bolsos? — Não, senhor. Deixei à você. — E tampouco não terá nenhuma pista sobre sua identidade, não é? Não sabe se é criado ou vendedor, ou se ronda a alguma criada? — Não, senhor, é a primeira vez que o vejo e acredito que não é de daqui. Quer que vá procurar ao faroleiro antes que se afaste muito? — Sim, traga-me ele – deu a ordem. Anne Perry – Thomas Pitt 19 – A Ameaça de Bedford Square Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções — À ordem. O policial deixou a lanterna no degrau, virou sobre seus calcanhares e se afastou à luz da alvorada sem que a Pitt tivesse ocorrido nenhuma outra pergunta. O delegado recolheu a lanterna e examinou o cadáver. Tratava-se de um homem de feições enxutas e pele curtida, como se tivesse passado muito tempo à intempérie. Devia fazer um ou dois dias que não se barbeava. Quanto ao cabelo era de uma cor castanha apagada, provavelmente loira em sua juventude. Possuía traços agradáveis, com certa tensão: muito breve o lábio superior, as sobrancelhas diretas, e na da esquerda uma descontinuidade que podia dever-se a uma antiga cicatriz. Era um rosto ao mesmo tempo harmonioso e fácil de esquecer, como os havia aos milhares. Pitt empregou um só dedo para descer a camisa quatro ou cinco centímetros. A pele de baixo era clara, quase branca. Examinou a seguir as mãos do morto, mãos fortes, de unhas rotas e não precisamente limpas, mas que não pareciam pertencer a um trabalhador. Não tinham nenhum calo. Os dedos estavam cheios de cortes, como se o morto brigara a murros pouco tempo atrás (possivelmente escassos momentos antes de seu falecimento). A pele estava levantada em muitos pontos, mas sangrava pouco e não tinha havido tempo de que saíssem hematomas. Colocou a mão em um bolso da jaqueta e ficou surpreso pelo achado de uma caixinha de metal, que extraiu e examinou, apreciando sua grande qualidade. A simples vista não soube se era ouro maciço ou um banho. Até podia tratar-se daquela excelente imitação chamada similar, mas estava lavrada como o relicário de uma catedral, dos que se usam para cobrir ossos de santos. A tampa tinha como adorno uma minúscula figura na posição deitada da morte, com vestimentas eclesiásticas e mitra de bispo. Abriu a caixa e a aproximou do nariz. Sim, era o que tinha suposto: uma caixinha de rapé. Dificilmente pertenceria ao morto, que em todo um mês, por não dizer um ano, não teria reunido o dinheiro necessário para comprá-la, tanto se se tratasse de ouro como de uma imitação.

Bem, mas se o tinham surpreendido no ato de roubá-la por que deixá-lo naquele degrau? E, sobre tudo, como se explicava que o assassino não tivesse recuperado a caixa? Apalpou o bolso para ver se havia algo mais, mas só achou um pouco de corda e uns cordões que pareciam novos. Outros bolsos continham uma chave, um trapo como lenço, três xelins e quatro peniques em caldeirinha e várias folhas de papel, uma das quais era um recibo por três pares de meias três-quartos comprados dois dias antes em uma loja de Anne Perry – Thomas Pitt 19 – A Ameaça de Bedford Square Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções Rede Lion Square. Aquelas provas, bem investigadas, podiam estabelecer a identidade do morto. Não havia nada mais que desse pistas sobre seu nome ou domicílio. É claro que havia milhares de pessoas sem lar, pessoas que dormiam diante das portas, debaixo das pontes ou, naquela época do ano à intempérie (se a polícia, tolerante, não as incomodava), mas o aspecto do cadáver levou ao Pitt à conclusão de que seu ingresso naquela categoria tinha que ter sido recente. Levava objetos puídos, meias furadas e botas com solas a ponto de furar, mas estava secas. Não se apreciava a capa de imundície nem o aroma de mofo das pessoas sem teto. Levantou-se ao ouvir passos, e viu aproximar-se por Charlotte Street a silhueta familiar, muito torpe e angulosa do sargento Tellman. Teria reconhecido-o até à luz do lampião, mas a alvorada já embranquecia o céu no amanhecer. Tellman se deteve poucos passos. Só a jaqueta, mal abotoada, delatava a precipitação com que se vestira; pelo resto levava o colarinho tão reto e bem engomado como de costume, a gravata impecável e o cabelo úmido e penteado para trás. Sua seriedade era a habitual. — Um cavalheiro muito bêbado para esquivar-se de uma carruagem de cavalos? – perguntou. Pitt estava acostumado à opinião do sargento sobre os privilegiados. — Se era um cavalheiro passava muito má época – respondeu, contemplando o cadáver. — E não o atropelaram, não; os únicos sinais da roupa são as da queda, mas tem os dedos cortados, como se tivesse brigado com alguém. Comprove-o você mesmo. Tellman seguiu a indicação com um olhar interrogativo. Agachou-se, examinou o cadáver, voltou a levantar-se e Pitt lhe mostrou a caixa de rapé. A testa do sargento se enrugou. — Levava-o com ele? — Sim. — Sinal de que era um ladrão. — E quem o matou? Por que diante desta porta? Não entrava nem saía! — Duvido que o mataram aqui – disse Tellman com certa satisfação. — A ferida da cabeça deve ter sangrado muito. É o normal.

Faça um corte e verá. Em troca no degrau quase não há sangue. Suspeito que o mataram em outro lugar e o trouxeram aqui. — Por roubo? — Parece bom motivo. — E por que deixaram a caixa? Além de seu valor, é a única pista para saber de que Anne Perry – Thomas Pitt 19 – A Ameaça de Bedford Square Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções casa a roubou. Duvido que haja muitas que se pareçam. — Não sei – disse Tellman, mordendo o lábio. — Não tem lógica. Suponho que terá que interrogar aos que vivem na praça. Sua expressão delatava o pouco agrado que lhe inspirava a idéia. Ouviram ruído de cavalos. Uma carruagem dobrou pela esquina do Caroline Street, seguida pela do necrotério, que se aproximou à calçada a uns dez metros enquanto o primeiro chegava até os dois policiais. Desceu o legista, vestido com um paletó. Subiu a gola, caminhou para eles, saudou-os coma cabeça e dirigiu ao cadáver um olhar de resignação. Depois arregaçou um pouco a calça para não forçar o tecido e ficou de cócoras, disposto a atacar o exame. Pitt, que tinha ouvido mais passos, viu chegar o agente em companhia de um faroleiro muito nervoso. Era um indivíduo loiro e magro, a quem seu cassetete esgotava. À luz da alvorada filtrada pelas árvores, parecia um cavalheiro extravagante, armado de uma lança que superava suas forças. — Não vi nada – disse sem que Pitt tivesse ocasião de perguntar-lhe. — Sim. — Mas aconteceu – afirmou o delegado. — É sua rota? – Só havia uma resposta possível. — Sim. — Quando passou? — Esta manhã – respondeu o faroleiro, como se fosse evidente. — Quando começava a amanhecer.

Sempre passo à mesma hora. — Qual? – disse Pitt pacientemente. — Já o disse, quando começa a amanhecer! – O faroleiro, nervoso, olhou de esguelha o cadáver, meio abafado pelo legista. — E não estava aí. Eu ao menos não o vi! — Tem relógio? – prosseguiu Pitt com escassa esperança. — Para que? Se cada dia amanhece a outra hora – disse o faroleiro. Pitt se deu conta de que não conseguiria nada mais exato. Do ponto de vista do faroleiro era uma resposta bastante sensata. — Viu a alguém mais na praça?

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