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A Aprendiz – Trudi Canavan

Rodeada pela escuridão, ela espreitou pelo buraco, com a respiração pesada. Pelo pequeno orifício, viu vários aprendizes passarem. Ao contá-los, sentiu-se mal. Vinte aprendizes. Mas ela havia escapado deles. Seu coração se acalmou e a respiração se aquietou. Um pouco de ar quente lhe tocou o pescoço. Sonea franziu as sobrancelhas. Ar quente? Então, por baixo do som de sua respiração, ela ouviu outra respiração mais suave. Virou-se e manifestou uma luz com sua mente… Então, conteve um grito de terror. Olhos escuros encaravam os seus. Os braços dele estavam cruzados na altura do peito, o incal brilhando dourado contra o negro da túnica. Seu rosto estava fechado com um semblante de desaprovação. Engolindo em seco, ela se esgueirou para o lado, mas um braço se colocou de forma a bloquearlhe o caminho. — Cai fora — ele rosnou. Ela hesitou. Ele não estava ouvindo os aprendizes? Ele não entendia que ela iria cair numa armadilha? — Agora! — ele vociferou. — E não entre nessas passagens de novo. Agradecimentos Além das pessoas a quem agradeci em O Clã dos Magos, eu queria fazer um agradecimento extra: Aos amigos e à família, os quais generosamente dedicaram seu tempo para ler e criticar este livro num prazo curto: mamãe e papai, Yvonne Hardingham, Paul Marshall, Anthony Mauriks, Donna Johansen, Jenny Powell, Sara Creasy, Paul Potiki. A Jack Dann, por lançar O Clã dos Magos com tanto estilo e entusiasmo. A Justin Ackroyd, por permitir que eu me apoderasse de sua biblioteca, e a Julian Warner e aos funcionários na Slow Glass Books, pela ajuda. A Fran Bryson, meu agente e herói. E à equipe de edição da HarperCollins por transformar minhas histórias em livros tão adoráveis e atraentes. A primeira metade de A Aprendiz foi escrita durante uma residência no Varuna Writers’ Centre, concedida pela Fundação Eleanor Dark. Obrigada a Peter Bishop e à equipe do Varuna pelas três semanas inspiradoras e produtivas.


E, por fim, obrigada a todos que me mandaram e-mails com elogios para O Clã dos Magos! Saber que proporcionei a todos vocês algumas horas de divertimento e escape faz tudo isso valer a pena. Parte um Capítulo 1 A Cerimônia de Aceitação Por algumas semanas, em todos os verões, o céu sobre Kyralia ficava limpo, de um azul intenso, e o Sol brilhava implacável. Na cidade de Imardin, as ruas estavam empoeiradas e os mastros dos navios na Marina se retorciam sob o calor cerrado, enquanto homens e mulheres se retiravam para suas casas para se abanar e bebericar sucos ou — nas partes mais ruins das favelas — beber abundantes quantidades de bol. Mas no Clã dos Magos de Kyralia, esses dias escaldantes saudavam a chegada de uma importante ocasião: o juramento dos aprendizes aceitos no verão. Sonea fez uma careta e puxou a gola de seu vestido. Embora ela tivesse preferido vestir as mesmas roupas simples mas benfeitas que sempre usara antes de viver no Clã, Rothen insistiu que ela precisava de algo mais chique para a Cerimônia de Aceitação. Rothen deu risada. — Não se preocupe, Sonea. Isso vai acabar logo e você vai ter túnicas para vestir. E tenho certeza que vai enjoar delas logo, logo. — Eu não estou preocupada — disse Sonea num tom irritado. Os olhos dele brilharam, surpresos. — Verdade? Você não se sente nem um pouco nervosa? — Não é como a Audiência no ano passado. A parada foi doida. — Parada? — Suas sobrancelhas se levantaram. — Você está nervosa, Sonea. Faz semanas que não deixa escapar uma palavra dessas. Ela deu um pequeno suspiro de exasperação. Desde a Audiência, cinco meses atrás, quando Rothen ganhara o direito de ser seu guardião, ele lhe dera a educação que todos os aprendizes precisam ter antes de começar na Universidade. Ela conseguia ler a maioria dos livros sem ajuda e podia escrever, como Rothen colocou, “suficientemente bem para se virar”. Matemática foi mais difícil de entender, mas as aulas de História eram fascinantes. Durante esses meses, Rothen a havia corrigido sempre que usava uma palavra da gíria da favela, e constantemente a fazia reformular a frase e repetir até soar como uma lady de uma poderosa Casa Kyraliana. Ele avisou que os aprendizes não seriam tão tolerantes quanto ele em relação ao passado dela, e que ela tornaria as coisas piores se chamasse a atenção para suas origens toda vez que falasse. Ele tinha empregado o mesmo argumento para convencê-la a usar um vestido para a Cerimônia de Aceitação, e embora ela soubesse que ele estava certo, isso não a fazia se sentir de forma alguma mais confortável. Um círculo de carruagens se tornou visível conforme eles chegaram na frente da Universidade.

Ao lado de cada uma, encontrava-se um conjunto de servos vestidos de maneira impecável, todos usando as cores da Casa a que serviam. Conforme Rothen apareceu, eles se voltaram e lhe fizeram uma reverência. Sonea encarou as carruagens e sentiu seu estômago revirar. Ela tinha visto veículos como aqueles antes, mas nunca tantos juntos. Cada um era feito de madeira bastante polida, esculpida e pintada comtraçados intricados, e no centro de cada porta estava uma estrutura quadrada que indicava a que Casa a carruagem pertencia — o incal da Casa. Ela reconheceu os incals de Paren, Arran, Dillan e Saril, algumas das Casas mais influentes de Imardin. Os filhos e as filhas dessas Casas seriam seus colegas de classe. Ao pensar nisso, sentiu como se seu estômago estivesse virando do avesso. O que achariam dela, a primeira kyraliana de fora das grandes Casas a se juntar a suas fileiras em séculos? Na pior das hipóteses poderiam concordar com Fergun, o mago que tentara evitar que ela se juntasse ao Clã no ano anterior. Ele acreditava que apenas a progênie das Casas deveria aprender magia. Ao aprisionar seu amigo, Cery, ele havia chantageado Sonea para que ela cooperasse com seus esquemas. E esses esquemas provariam para o Clã que kyralianos de classe baixa eram desprovidos de moral e que não se devia confiar a eles a magia. Mas o crime de Fergun fora descoberto, e ele foi enviado para um forte distante. Para Sonea, isso não parecia uma punição particularmente severa por ele ter ameaçado matar seu amigo, e ela não conseguia deixar de pensar se isso de fato iria dissuadir outros de fazer algo semelhante. Ela esperava que alguns dos aprendizes fossem como Rothen, que não se importara com o fato de ela ter vivido e trabalhado nas favelas. Algumas das outras raças que frequentavam o Clã também podiam ser mais tolerantes em relação a uma garota de classe baixa. Os vindos eram um povo amigável; ela havia conhecido vários nas favelas que tinham viajado para Imardin para trabalhar emvinícolas e pomares. Os lans, contaram a ela, não tinham classes baixas ou altas. Eles viviam emtribos e classificavam homens e mulheres por meio de provas de bravura, astúcia e sabedoria —embora ela não soubesse onde a colocariam na sociedade deles. Olhando para Rothen, ela pensou em tudo que ele havia feito por ela e sentiu uma pontada de afeição e gratidão. Em outros tempos, ela teria se sentido horrorizada por, entre tantas pessoas, se descobrir tão dependente de um mago. Em outras épocas, ela odiava o Clã, e a primeira vez que usou seus poderes foi sem querer quando, com raiva, jogou uma pedra num mago. Depois disso, quando procuraram por ela, tinha tanta certeza que queriam matá-la que ousou buscar a ajuda dos Ladrões, e eles sempre cobravam um alto preço por tais favores. Conforme seus poderes cresceram de forma incontrolável, os magos convenceram os Ladrões a entregá-la a seus cuidados. Rothen fora seu captor e professor.

Ele tinha provado que os magos — bem, a maioria deles — não eram os monstros cruéis e egoístas que os moradores das favelas acreditavam que fossem. Dois guardas estavam postados um de cada lado das portas abertas da Universidade. Sua presença era uma formalidade observada apenas quando se esperavam visitantes importantes no Clã. Eles fizeram uma reverência cheia de formalidade quando Rothen guiou Sonea para o Salão de Entrada. Embora ela já o tivesse visto algumas vezes antes, o salão ainda a impressionava. Milhares de filamentos incrivelmente finos de uma substância semelhante ao vidro brotavam do chão, apoiando escadas que subiam em espiral de maneira graciosa para os andares mais altos. Fios delicados de mármore branco se entrelaçavam entre os corrimões e degraus como ramos de uma trepadeira. Eles pareciam finos demais para suportar o peso de um homem, e provavelmente seriam se não tivessemsido fortalecidos com magia. Passando as escadas, eles entraram num pequeno corredor. Além dele, estava o cinza grosseiro do Salão do Clã, prédio ancestral protegido, delimitado por uma enorme sala conhecida como o Grande Salão. Do lado de fora do Salão do Clã, várias pessoas estavam paradas próximo das portas, e Sonea sentiu uma secura na boca ao vê-los. Homens e mulheres se voltaram para olhar quem se aproximava e seus olhos brilharam com interesse quando viram Rothen. Os magos que estavam entre eles fizeram um aceno cortês com a cabeça. Os outros se curvaram em reverência. Eles entraram no Grande Salão e Rothen conduziu Sonea para um canto da pequena aglomeração. Sonea notou que, apesar do calor do verão, todos os magos estavam vestidos com camadas de roupas opulentas. As mulheres estavam envolvidas em vestidos elaborados; os homens usavam casacos longos, as mangas decoradas com incals. Olhando com mais atenção, ela prendeu a respiração. Cada costura era feita com cintilantes e minúsculas pedras vermelhas, verdes e azuis. Joias enormes estavam afixadas nos botões dos casacos longos. Correntes de metais preciosos se enrolavam pelos pescoços e pulsos, e joias resplandeciam em mãos cobertas por luvas. Olhando para a casaca de um homem, ela considerou quão fácil seria para um ladrão profissional despojá-lo de seus botões. Nas favelas, havia pequenas facas curvadas disponíveis para essa tarefa. Tudo que era preciso era uma colisão “acidental”, um pedido de desculpas e uma retirada apressada. O homem provavelmente não perceberia que fora roubado até chegar em casa.

E o bracelete daquela mulher… Sonea balançou a cabeça. “Como vou fazer amizade com esse povo se tudo que posso pensar é emquão fácil seria roubá-los?” Ainda assim ela não podia deixar de sorrir. Havia sido tão habilidosa em bater carteiras e abrir fechaduras sem usar a chave quanto qualquer um de seus amigos de infância — com exceção talvez de Cery —, e, embora sua tia Jonna a houvesse por fim persuadido de que roubar era errado, Sonea não havia esquecido as manhas do negócio. Juntando coragem, ela olhou para os jovens estranhos e viu vários rostos rapidamente se voltarempara o outro lado. Achando graça, perguntou-se o que esperavam ver. Uma mendiga de sorriso tonto? Uma operária torta e com a pele grossa do trabalho? Uma prostituta maquiada? Já que ninguém encarava seu olhar, ela pôde examiná-los à vontade. Apenas duas das famílias tinham o cabelo escuro e a pele pálida do kyraliano típico. Uma das mães estava vestida com a túnica verde dos Curadores. A outra segurava a mão de uma garota magra, que olhava sonhadora para o teto de vidro reluzente do salão. Três outras famílias se encontravam juntas, exibindo a baixa estatura e os cabelos ruivos típicos da raça Elyne. Conversavam num tom baixo e ocasionalmente uma risada ecoava no salão. Dois lonmares de pele escura esperavam em silêncio. Pesados talismãs de ouro da religião Mahga estavam pendurados sobre a túnica roxa de Alquimista de seu pai, e tanto este último como o filho haviam raspado o cabelo. Um segundo par de lonmares estava de pé no lado mais distante das famílias que ali esperavam. A pele do filho era de um moreno mais claro, indicando que a mãe pertencia a uma raça diferente. O pai também usava túnica, mas a dela tinha o vermelho de umGuerreiro e ele não portava nenhuma joia ou talismã. Pairando próximo ao corredor estava uma família de vindos. Embora o pai estivesse vestido ricamente, os olhares furtivos que dirigia aos outros indicavam que se sentia desconfortável na companhia deles. O filho era um jovem parrudo cuja pele morena tinha um aspecto amarelado e doentio. Conforme a mãe do garoto descansou a mão em seu ombro, Sonea pensou na tia Jonna e no tio Ranel e sentiu um desapontamento com o qual estava acostumada. Embora eles fossem sua única família, tendo criado Sonea depois que sua mãe morrera e seu pai a deixara, eles se sentiamintimidados demais pelo Clã para visitá-la ali. Quando ela pediu que fossem à Cerimônia de Aceitação, eles se recusaram, dizendo que não queriam deixar seu filho recém-nascido aos cuidados de outro e que não seria adequado levar um bebê chorando para uma cerimônia tão importante. Passos ecoaram no corredor e Sonea se voltou para observar mais um trio de kyralianos vestidos de maneira ostentosa se juntar aos visitantes. O garoto lançou um olhar arrogante ao redor dos círculos de pessoas. Seus olhos varreram a sala até caírem sobre Rothen e depois deslizarem para Sonea.

Ele pareceu olhar direto nos olhos de Sonea e um sorriso amigável formou-se nos cantos da boca. Surpresa, ela começou a sorrir em resposta, mas assim que fez isso a expressão dele lentamente se transformou numa cara de desdém. Sonea só conseguiu encará-lo de volta com consternação. O garoto virou o rosto com desprezo, mas não tão rápido que ela não captasse um sorriso presunçoso de satisfação. Sonea estreitou os olhos e observou enquanto ele voltava a atenção para os outros candidatos. Parecia que ele já conhecia o outro garoto kyraliano, e os dois trocaram piscadelas amigáveis. As garotas foram tratadas com sorrisos deslumbrantes; e embora uma garota kyraliana tenha respondido com aparente desdém, seus olhos se demoraram sobre ele muito depois que virou o rosto. O resto recebeu acenos educados com a cabeça. Um barulho alto de metal batendo interrompeu o jogo social. Todos os rostos se voltaram para o Salão do Clã. Um silêncio longo e tenso se seguiu e então sussurros excitados encheram o ar quando as enormes portas começaram a se abrir. Conforme a abertura se ampliava, um brilho dourado familiar fluiu do salão além das portas. A luz vinha de milhares de minúsculos globos mágicos flutuando a alguns metros do teto. Um cheiro fresco de madeira e polimento se espalhou para acolhêlos.

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