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A Armadilha de Dante – Arnaud Delalande

Francesco Loredan, príncipe da Sereníssima, 116° doge de Veneza, estava sentado na Sala dei Collegio, onde, em circunstâncias normais, recebia os embaixadores. De quando em quando, levantava os olhos para admirar o imenso quadro de Veronese, A vitória de Lepanto, que enfeitava uma das paredes. Por vezes perdido em pensamentos, movia os olhos em direção aos revestimentos de ouro do teto, a Marte e Netuno, ou Veneza entronizada entre Justiça e Paz, até se achar novamente forçado a concentrar-se no assunto urgente que o preocupava. Era um homem idoso, de rosto enrugado, formando um contraste surpreendente com a veste púrpura. Alguns raros fios de cabelo escapavam-lhe do chapéu ducal. Sobrancelhas e barba brancas contribuíam para dar-lhe à fisionomia um ar patriarcal totalmente adequado ás circunstâncias e funções exercidas no seio da República. À sua frente, uma escrivaninha recoberta de um dossel no qual figurava um leão alado mostrando as garras, símbolo de poder e majestade. Ao doge não faltava pompa nas roupas suntuosas; um manto de tecido ornado com gola de arminho e grandes botões nos ombros, aberto, deixava entrever outro hábito de um tecido mais fino que lhe descia até as pernas cobertas de vermelho. A bacheta, o cetro simbolizando o poder dogal, repousava displicentemente entre seus braços. As mãos longas e delicadas, ostentando um anel com as armas e a balança veneziana, apertavam nervosamente o relatório da última deliberação do Conselho dos Dez, acompanhado de uma correspondência marcada com o sinete oficial do Conselho. A última reunião acontecera naquela manhã, em circunstâncias excepcionais. O relatório informava Francesco de umassunto no mínimo tenebroso cuja conclusão era: Uma sombra passa sobre a República. Uma sombra perigosa, que tem nesse assassinato, Vossa Alteza Sereníssima, nada mais que uma de suas múltiplas manifestações. Veneza encontra-se em situação desesperadora; os criminosos mais odiosos nela penetram como lobos numa selva escura. O vento da decadência paira sobre a cidade: não é mais possível ignorá-lo. O doge limpou a garganta, tamborilando com os dedos a carta. E assim, um drama abominável ocorreu. O carnaval de Veneza remonta ao século X. Durava seis meses ao ano: do primeiro domingo de outubro até 15 de dezembro; depois da Epifania à Quaresma. Por fim, ressurgia na Sensa, a Ascensão. A cidade inteira ocupava-se com os preparativos. As mulheres de Veneza desfilavam pelas ruas: sob as máscaras, exibiam a brancura da pele, iluminadas por adereços, joias, colares, pérolas e drapejados de cetim, golas de pele e metros de rendas, os seios apertados em corpetes. Os cabelos, daquele louro tão raro, tinham sido arrumados, com o maior esmero, em coques, enrolados em torno de diademas, à sombra de um chapéu, soltos e ondulando numa liberdade calculada, ou então frisados, de várias cores, arrumados em penteados mais inesperados, mais extravagantes. Mascaradas, se faziam de importantes e caminhavam com a cabeça erguida, segundo as regras do comportamento, afetando a dignidade da mais alta nobreza. Com seus suntuosos vestidos e porte elegante, desfilavam com graça e altivez.


Nesses tempos de carnaval, não eram elas as mais cobiçadas, as mais ardentemente desejadas, enfim, as mais lindas mulheres do mundo? Essa segurança tranquila servia de fonte de inspiração. Um dilúvio de beleza, um arco-íris de cores sedutoras; uma num vestido de cambraia branca sem transparências, com a barra guarnecida por camadas de renda; outra se adornava com mangas bufantes, em gaze da Itália, um cinto de fitas azuis cujas pontas esvoaçavam ao andar; outra, ainda, usava um grande lenço plissado, com nó no pescoço, abrindo-se em triângulos sobre um vestido estilo “andrienne” ou saia armada com anáguas, sombrinha na mão. Algumas sustentavam a moretta, a máscara negra, apertando com os dentes a pequena saliência interna introduzida na boca. Adiante, outras alisavam os vestidos, abriam os leques com um movimento do pulso. As cortesãs da mais alta linhagem misturavam-se às moças alegres numa extrema confusão. O Catalogo di tutte le principal e piú onorate cortigiane di Venezia e o tratado La tariffa delle puttane di Venezia, acompanhados de considerações técnicas acerca dos talentos dessas amantes de uma noite, clandestinamente voltaram a circular. Quanto aos homens, usavam a máscara branca do fantasma, conhecida como larva, o tricórnio, e a bauta que cobria o corpo; bem como a capa negra ou tabarro, para os mais conservadores. Outros se apresentavam como personagens saídos de contos, peças de teatro ou dos caprichos da imaginação: Tracagnin, Arlequim, Pantaleão, o Doutor, Polichinelo, os habituais, os eternos; mas também como Demônios armados de bexigas, mouros empoleirados em asnos ou cavalos-de-pau, turcos fumando cachimbo, falsos oficiais franceses, alemães, espanhóis, sem falar na horda de confeiteiros, limpadores de chaminés, floristas, carvoeiros, mascastes… Charlatões, vendedores de poções prometendo a vida eterna ou a volta do ser amado, mendigos, pedintes, camponeses sem tostão vindos da Terra Ferma, cegos e paralíticos dos quais não se sabia se a enfermidade era real ou falsa. Todos se espalhavam pela cidade. Os cafés e numerosas tendas montadas para a ocasião exibiam cartazes convidando os curiosos a descobrir os “monstros”: anões, gigantes, mulheres com três cabeças aos quais se misturava a multidão. O momento chegara: aquele de todas as euforias, de todas as liberações, aquele em que o plebeu podia se imaginar rei do mundo e a nobreza imitava a corja; em que o universo, de repente, se punha de pernas para o ar, onde se invertiam e se trocavam os papéis e onde todas as licenciosidades e excessos eram permitidos. Gondoleiros em traje de gala conduziam os nobres pelos canais. A cidade se enfeitava com inúmeros arcos do triunfo. Aqui e acolá se jogava pelota ou meneghella, enquanto os passantes faziam apostas atirando moedas que tilintavam nos pratos ou então as escondiam em sacos de farinha onde se mergulhava a mão, cada um esperando recuperar as apostadas com lucro. Vendedores expunham montanhas de fritadas nos balcões. Dos barcos, pescadores de Chioggia gritavam para a multidão. A mãe dava uma palmada na filha, cujo pretendente abraçava um pouco apertado demais. Vendedores de roupas usadas empurravam carrinhos de mão abarrotados, tentando atrair possíveis fregueses dos barcos. Nos campi, marionetes de estopa arremessavam guloseimas e frutos secos. Um bando de frombolatori, moleques mascarados, assombravam os sestieri, atirando ovos podres nos trajes das belas e das velhas debruçadas nas sacadas das villas, antes de fugir, ás gargalhadas. Os jogos mais grotescos floresciam de um lado a outro dos bairros de Veneza: um cachorro se balançava numa corda, homens subiam até o topo de paus-de-sebo para pegar um salsichão ou uma garrafinha de bebida; outros mergulhavam em tinas de água salobra para tentar pegar uma enguia com os dentes. Na Piazetta, uma máquina de madeira em forma de bolo cremoso tentava os gulosos; ajuntamentos se formavam em torno dos malabaristas, das cenas de comédia improvisadas, dos teatros de marionetes. De pé sobre tamboretes, astrônomos de araque, os indicadores levantados em direção a estrelas invisíveis, anunciavam o Apocalipse. Gritava— se de espanto, gargalhava-se, ria-se muito ao derrubar sorvete ou bolo nas calçadas, gozava-se da alegria e da doçura de viver. Saiu, então, das sombras, aquela conhecida como Dama de Copas.

Escondida até então sob as arcadas, deu alguns passos hesitantes abrindo o leque. Os longos cílios se curvaram por trás da máscara. Os lábios vermelhos se arredondaram. Deixou cair o lenço aos pés ao ajeitar uma prega do vestido. Abaixou-se para pegá-lo e lançou um olhar a outro agente postado mais adiante, na esquina da Piazetta, para se certificar de que ele havia compreendido. E esse gesto queria dizer: ele está aqui. De fato ele estava lá, no meio da multidão. Aquele cuja missão consistia em abater o doge de Veneza. Chifres de falso marfim de cada lado do crânio. Máscara de touro munida de um focinho emproporção alarmante. Os olhos dissimulados brilhavam por trás do peso da máscara. Entretanto, a armadura feita de malhas e placas de prata era verdadeira e suficientemente leve para permitir-lhe mover-se com toda a rapidez exigida. Uma capa vermelho-sangue escondia duas pistolas cruzadas nas costas, de que necessitaria para cumprir a tarefa. Trazia joelheiras de metal por cima das botas de couro. Um gigante, uma criatura imponente cuja respiração atroadora tinha-se a impressão de escutar. O Minotauro. Pronto para devorar as crianças de Veneza no labirinto da cidade em plena efervescência, o Minotauro se preparava para mudar o curso da história. O carnaval havia começado. Poucos meses antes, numa noite escura, Marcello Torretone quebrava o silêncio com gritos dilacerantes no interior do teatro San Luca. A Sombra estava lá. A Sombra que invadira a cidade, pairando sobre os tetos da Sereníssima. Sob os reflexos do pôr-do-sol, se esgueirara furtivamente no teatro. O padre Caffelli a chamava de Il Diavolo, o Diabo em pessoa, mas em seu relatório Marcello havia mencionado o outro nome pelo qual era conhecido por seus simpatizantes: a Quimera. O padre tentara prevenir Marcello e este se rendera à evidência. Algo de muito grave se tramava.

Naquela noite, caíra numa armadilha. Um desconhecido misterioso marcara um encontro comele ali, no San Luca, ao final da primeira representação de L’Imprásario di Smime, onde obtivera umsucesso triunfal. Proprietários do San Luca, os Vendramin foram os últimos a partir. O desconhecido se escondera nas coxias enquanto o público saía. Marcello havia embrulhado a roupa de cena, que repousava agora não muito longe, atrás das cortinas. Havia relido a carta lacrada que lhe trouxeram, na qual um certo Virgílio lhe prometia informações da mais alta importância. Uma ameaça pairava sobre as instituições de Veneza bem como sobre a pessoa do doge. Marcello planejava encontrar Emilio Vindicati no dia seguinte; o Conselho dos Dez precisava ser avisado da trama, sem demora. Mas, no momento, só podia maldizer sua imprudência. Sabia: não iria a parte alguma. Não veria o dia seguinte. Tinham-no atacado, espancado e amarrado nas pranchas de madeira. Semiconsciente, vira mover-se uma forma encapuzada da qual não podia distinguir o rosto. Pousara o olhar no martelo, nos pregos, na lança, na coroa de espinhos — e naquele curioso instrumento de vidro que brilhava na mão do visitante. Marcello estava aterrorizado. — Quem… Quem é você? — articulou, a fala pastosa. Como resposta, o outro se contentou em soltar um riso sardônico. Depois, Marcello só ouviu a respiração surda, profunda. O desconhecido acabava de aprisioná-lo contra as tábuas de madeira cuja sombra projetaria em breve uma cruz no piso. — Você… Você é Il Diavolo? A Quimera? Por um instante, a forma encapuzada se virou em sua direção. Marcello tentou, em vão, vislumbrar os traços do rosto mergulhado na escuridão. — Então você existe? Mas eu pensei… — Uma nova risada. — Vexilla regis prodeunt inferni… — murmurou a Quimera. A voz era grave, assustadora. Na verdade, parecia vinda de um túmulo.

— O quê? — Vexilla regis prodeunt inferni. Vamos cuidar de você. Primeiro vou terminar de prendê-lo, depois o suspenderemos aqui mesmo, neste palco de espetáculo. Alegre-se, meu amigo. Você terá, esta noite, representado seu mais importante papel. Então a Quimera pegou um martelo e dois compridos pregos afiados. Os olhos de Marcello se arregalaram de pavor. — O que você vai.? — Vexilla regis prodeunt inferni, Marcello Torretone! Colocou a ponta do primeiro prego num dos pés firmemente amarrados de Marcello e o braço ergueu-se, o martelo na mão. — NãããããããO! Marcello berrou como nunca. Vexilla regis prodeunt inferni. Avançam os estandartes do rei do Inferno. Com a fisionomia grave, Francesco Loredan caminhava com precipitação pelos corredores do palácio ducal. — É preciso colocar as mãos nesse homem a qualquer preço. Francesco era um dos nobres habituados à magistratura. Tendo chegado ao poder em 1752, era doge havia mais de quatro anos. Desde os 25 anos, os jovens aristocratas venezianos eram treinados para servir ao Estado. Como por direito de nascimento, as portas do Grande Conselho se lhes abriam. Francesco fora um deles. Como era hábito em Veneza, aprendera as vicissitudes das funções governamentais em contato com os anciãos; uma prática tanto mais necessária já que a constituição da República era essencialmente oral. Em geral, os embaixadores levavam consigo os filhos para iniciá-los nos segredos da diplomacia. Alguns jovens nobres, os Barbarini, escolhidos por sorteio, por ocasião da festa de Santa Bárbara, recebiam autorização para assistir ás deliberações do Grande Conselho antes de atingirem a maioridade. Todos os responsáveis pelo Estado privilegiavam, para a prole, um aprendizado fundado, sobretudo, na experiência prática do funcionamento das instituições. Para as dinastias nobres, as carreiras eram traçadas com antecipação: Grande Conselho, Senado, Governo de colônias ou funções públicas na Terra Ferma, embaixadas, Conselho dos Dez, até a função de procurador ou mesmo de doge, primaz da cidade veneziana. Essa cultura política constituía um dos fundamentos do poder na Laguna Veneta, largamente consolidada graças ao talento de seus líderes e à influência de seus relacionamentos, mesmo que as avaliações dos dignitários de Veneza se voltassem por vezes contra a brilhante República, afeita a todos os grandes erros diplomáticos.

A aliança dos doges com Florença contra Milão, selada três séculos antes pela Paz de Lodi, havia permitido à Sereníssima contribuir para a liberdade da Itália, mas preservando sua própria independência. No rastro da de Constantinopla, a mais influente entre todas, as grandes embaixadas venezianas tinham se multiplicado: Paris, Londres, Madri e Viena. A divisão do Mediterrâneo entre os turcos e as frotas católicas, sinal da erosão de sua superioridade no Levante, havia igualmente permitido a Veneza garantir sua perenidade. A República não havia inventado a política, mas como rainha dos mares, mediadora das culturas e virtuose da aparência, lhe conseguira novos títulos de nobreza que a equiparavam a outros emblemas italianos, como Maquiavel, do Príncipe, e os Médicis florentinos. O pragmatismo, o talento para as atividades públicas, a habilidade nos negócios, tanto comerciais quanto jurídicos, diplomáticos e financeiros faziam de Francesco o digno herdeiro da alma aristocrática veneziana. E enquanto caminhava na direção da Sala del Collegio, com a carta na mão, dizia a si mesmo, mais uma vez, que ser doge de Veneza não era uma função sem sobressaltos. Eventualmente, um guarda do palácio curvava-se à sua frente, levantando sua alabarda antes de retomar sua postura ereta e afetada. Os Dez têm razão, se dizia Loredan. É preciso agir com rapidez. Desde o século XII, os atributos do doge não cessaram de ser reforçados: a investidura pelo estandarte de são Marcos, os laudes oriundos dos costumes carolíngios, o dossel e a púrpura de Bizâncio e a coroa encimando o chapéu ducal eram provas. No entanto, o povo de Veneza sempre velou para que o primaz na cidade não pudesse arrogar a si todo o poder. Sua autoridade, desde o início restringida pela pessoa jurídica da comuna de Veneza, havia sido rapidamente limitada pelo grupo das elites dirigentes da cidade. Ainda hoje, as grandes famílias, no início responsáveis pela expansão da península, preservavam a própria supremacia nas tomadas de decisões importantes; e se Veneza evitava toda espécie de absolutismo monárquico, o Estado marcava com vigor a fronteira entre o suposto poder do povo, que não tivera uma duração maior que a de um sonho, e a preponderância das dinastias as quais a cidade devia sua supremacia. Como todos os venezianos, Francesco gostaria de ter nascido na Idade de Ouro, do progresso de Veneza e suas colônias: poderia ter sido, senão o único mestre a bordo, pelo menos um dos arquitetos dessa vasta empreitada de conquista. Com certeza obtinha uma imensa satisfação do esplendor do título e do cerimonial incessante que rodeava sua pessoa. Mas, por vezes, se sentia prisioneiro da pompa, rex in purpura in urbe captivus, “rei vestido de púrpura, prisioneiro na própria cidade”. Quando fora proclamado doge na basílica vizinha, se apresentara diante da multidão jubilosa na praça San Marco, antes de receber o chapéu ducal no topo da escadaria dos Gigantes. Entretanto, imediatamente após a nomeação, fora forçado a prestar o juramento de jamais exceder os direitos acordados pelo promissio ducalis, lida todo ano em voz alta para lembrá-lo da natureza exata de suas atribuições. Francesco, doge vitalício, membro por direito de todos os conselhos e depositário dos mais altos segredos do Estado, encarnava melhor que qualquer outro, pela virtude de sua função, a autoridade, o poder e a continuidade mesma da Sereníssima. Era ele quem presidia o Grande Conselho, o Senado, as Quarantie; era ele quem exercia funções, todos os dias úteis, com as seis pessoas de seu Conselho particular, para ouvir as súplicas e as queixas. Visitava toda semana uma das 250 a 300 magistraturas de Veneza. Verificava a natureza e o montante dos impostos, aprovava os balanços das finanças públicas. Tudo isso sem contar as múltiplas visitas e recepções oficiais. O doge, na verdade, praticamente não tinha vida privada. Essa maratona permanente afetava comfrequência a saúde dos idosos — pois a idade mínima para ser eleito doge era 60 anos — a ponto de terem julgado prudente colocar, no trono da sala do Grande Conselho, um suporte acolchoado de veludo que permitisse a Sua Serenidade tirar um cochilo, quando não estivesse mais apta a acompanhar os debates.

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