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A Arte de Ler – Mortimer J. Adler

Este é um livro para leitores que não sabem ler. Parece rude assim, mas sem intenção. Contraditório, e não o sou. A aparência de contradição e indelicadeza deve-se aos vários significados da palavra “leitura”. Quem leu até aqui, é porque sabe ler, ao menos num dos sentidos da palavra. Percebe-se, portanto, o que quero dizer. É que este livro foi escrito para os a que, num sentido, sabem ler e não o sabem nos outros. Há várias espécies de leitura e vários graus de habilidade em ler. Não é contradição afirmar que este livro é para os que querem ler melhor ou ler de um modo diferente do que lhes é habitual. Então, para quem não foi ele escrito? Posso responder, simplesmente, à pergunta falando nos dois casos extremos. Há os que não sabem ler de todo: as crianças, os imbecis e outros inocentes. E há os que talvez sejam mestres na arte de ler – fazem qualquer espécie de leitura tão bem quanto é humanamente possível. Muitos autores não achariam nada melhor do que escrever para tais mestres. Mas um livro como este, que trata da arte de ler propriamente dita, e que procura ajudar seus leitores a lerem melhor, não pretende exigir a atenção dos experientes. Entre os dois extremos, está o leitor médio, isto é, muitos de nós que aprendemos o ABC. Sabemos ler e escrever Mas não somos bons leitores. Temos consciência disto por vários motivos, sobretudo quando achamos difícil ou complicada uma leitura qualquer ou quando alguém, lendo o que acabamos de ler, mostra-nos o que não percebemos ou não compreendemos. Se vocês não se viram em situações semelhantes, se nunca tiveram dificuldade em ler ou não conheceram o desanimo, quando toda a atenção de quem foram capazes não correspondeu a seus esforços – não sei como interessá-los no problema. Muitos de nós, no entanto achamos dificuldade em ler, sem saber pó que, nem o que fazer para evitá-la. Talvez seja por não considerarmos a leitura como uma atividade complexa, que compreende diferentes etapas, em cada uma das quais podemos adquirir mais habilidade mediante a prática, como acontece com qualquer outra arte. Mas não devemos pensar que exista uma arte de ler. É tendência nossa considerar a leitura tão simples como ver ou andar. E ver ou andar não são artes. No verão passado, enquanto escrevia este livro, um jovem me visitou. Soube o que eu estava fazendo e me pedia um favor.


Será que eu podia ensinar-lhe a melhorar a leitura? Esperava, sem dúvida, que minha resposta viesse em poucas palavras. Mais do que isso, parecia pensar que, uma vez de posse de meia dúzia de regras, o sucesso bateria as suas portas. Procurei explicar-lhe que não era tão simples assim. Disse-lhe que gastei páginas deste livro, discutindo as regras da leitura e mostrando como devem ser seguidas. Que este era como um livro de tênis. Onde se estuda a arte que subentende regras para cada uma das várias raquetadas, em por que e como aplicá-las, descrevendo a organização dessas partes na estratégia geral de um jogo vitorioso. A arte de ler tem que ser estudada de modo semelhante. Há regras para cada uma das etapas a serempercorridas, a fim de se completar a leitura de um livro. O jovem mostrou-se desconfiado. Embora reconhecendo não saber ler, parecia achar que não havia muito que ensinar a tal respeito. Perguntei-lhe, então, se bastava ouvir os sons para se ouvir uma sinfonia. Sua resposta foi – lógico que não. Confessei-lhe que era o que me acontecia e pedi-lhe que me ensinasse a ouvir música, como um músico acha que se deve ouvir. Disse-me que o podia fazer, sim, mas não em poucas palavras. Ouvir uma sinfonia é complicado. Não é só ficar atento, mas há tantas coisas diferentes a considerar, tantas partes a distinguir e classificar. Não podia me ensinar, num instante, tudo o que eu tinha de saber. Além disso, levaria bastante tempo ouvindo música, antes de tornar-me um bom ouvinte. Repliquei-lhe que o caso da leitura era assim também. Se eu podia aprender a ouvir música, ele aprenderia a ler, contanto que fosse nas mesmas condições. Havia regras a conhecer e seguir. É a prática que se criam os bons hábitos. Não havia dificuldades insuperáveis. Só exigia vontade de aprender e paciência. Não sei até que ponto minha resposta o satisfez.

Se ela não o satisfez de todo, foi-lhe difícil aprender a ler. Não tinha noção de que constava a leitura. Por considerá-la como alguma coisa que aprender a ouvir música, a jogar tênis ou a adestrar-se na utilização complexa dos sentidos da mente. Esta dificuldade é, para mim, uma das que muitos de nós conhecemos. Eis por que vou explicar, na primeira parte deste livro, que espécie de atividade é a leitura. Pois, enquanto vocês não levarem em conta o que ela significa, não estarão preparados (como aquele jovem não o estava, quando veio me ver) para a instrução necessária. Estou certo de que querem aprender. Meu auxílio não pode ir além do auxílio de que vocês derem a si mesmos. Não há quem faça vocês aprenderem uma arte mais do que queiram ou julguemnecessário. Muitos dizem, freqüentemente, que achariam bom aprender a ler, se soubessem como fazê-lo. Podem estar certos de o conseguir, se se esforçarem. E se o quiserem saberão como esforçar-se. – 2 – Nunca pensei que não soubesse ler, até ter deixado o colégio. Foi ensinando aos outros que o descobri. Muitos pais sem dúvida fizeram descoberta semelhante, ao estudar com os filhos. Daí, umparadoxo: em geral, os pais aprendem mais do que os filhos. É simples a razão. Eles têm que desempenhar maior atividade no trabalho. Qualquer pessoa que ensina faz o mesmo. Voltemos a minha história. No dia em que os diplomas foram conferidos, considerava-me um dos bons estudantes de Colúmbia. Tínhamos passado com boas notas. O jogo era fácil, conhecendose os truques. Se alguém nos dissesse que não sabíamos grande coisa ou que não líamos muito bem, isso os chocaria. Estávamos certos de poder assistir as aulas e ler os livros que nos tinham indicado, de modo a responder satisfatoriamente no exame.

Era esta a única prova de nossa competência. Fizemos depois de um curso que aumentou, ainda mais, nosso convencimento. Curso de John Erskine tinha acabado de criar. Durava dois anos, chamava-se “General Honors”, e destinava-se a um grupo seleto de juniors e seniors. Não consistia em nada mais do que “ler” os livros célebres, desde os clássicos gregos, passando pelas obras-primas da latinidade e da Idade Média, até os melhores autores de ontem, William James, Einstein e Freud. Os livros eram de todas as especialidades: havia Histórias, livros de Ciência e Filosofia, poemas dramáticos e novelas. Líamos um livro por semana, uns sessenta nos dois anos, e havia uma noite em que tínhamos que comentá-los com os professores, sem formalidade, como se estivéssemos em seminário. Esse curso produziu dois efeitos em mim. De um lado, fez-me pensar que eu tinha sido o primeiro a perceber o ouro educacional. Por ser um curso materializado, um curso que podia ser realmente apreendido, era diferente dos outros e dos compêndios que só exercitam a memória. Mas eu não possuía só o ouro, não, pensava também possuir a mina. Estavam ali os livros celebres. Sabia que de modo lê-los. O mundo era minha ostra. Se, depois de formado, me dedicasse a Medicina ou ao Direito, talvez julgasse, ainda, ter tido uma ótima leitura e, em comparação com os outros, saber desempenhar-me bem dessa tarefa. Felizmente, acordei deste sonho. Para cada ilusão que a sala de aula alimenta, há uma escola que, pesadamente, a destrói. Uns poucos anos de prática despertam o advogado e o médico. O comércio ou jornalismo desiludem o rapaz que se julgava negociante ou repórter ao deixar a escola. De modo que, no ano que se seguiu à minha formatura, considerava-me liberalmente educado, pensava que sabia ler e que tinha lido muito. O remédio era ensinar e o castigo que convinha ao meu crime era ensinar, assim que me diplomei, nesse mesmo curso que tanto me enfatuara. Estudante – tinha lido todos os livros que, ago-ra, ia explicar, mas como era jovem e consciencioso resolvi lê-los de novo – só para refrescar a memória, compreende-se. Para minha admiração crescente notava que, semana após semana, os livros me pareciam novos, Era como se tivesse lido pela primeira vez os livros que pensava ter dominado inteiramente. Com o correr do tempo, fui descobrindo não só que os desconhecia, como também que não sabia ler. Para tapear minha ignorância e minha incompetência, fiz o que qualquer professor jovem teria feito, se tivesse receio de seus alunos e de seu trabalho.

Recorri a outros meios: enciclopédias, comentários, toda espécie de livros sobre livros sobre esses livros. Desde modo julgava aparentar mais sabedoria do que os alunos. Eles não eram capazes de afirmar que as perguntas e observações que eu fazia não eram devidas à minha maior capacidade em ler os livros que eles estudavam tanto, Ainda bem que fui desmascarado. Senão ter-me-ia contentado em passar por tão bomprofessor, quanto passava por bom aluno. Se tinha conseguido enganar aos outros, não estava longe de enganar-me a mim mesmo. Minha sorte foi, primeiro, ter como colega nesse ensino, o poeta Mark Van Doren. Discutia poesia como eu, aparentemente, discutia História, Ciência e Filosofia. Era muitos anos mais velhos do que eu, provavelmente mais honesto e melhor leitor, sem dúvida. Obrigado a comparar meu trabalho com o dele, não podia mais ensinar-me assim. A verdade é que eu não tinha descoberto o que continham os livros, ao lê-los, mais lendo o que se escrevia sobre eles. As perguntas que eu fazia sobre um livro eram das que qualquer um podia fazer sem o ter lido – qualquer um que recorresse aos comentários, fáceis de encontrar em centenas de fontes secundárias, quando não se pode ou não se ler. Ao contrário, as perguntas dele brotavam das páginas do livro, mesmo. Parecia ter realmente uma certa intimidade com o autor. Cada livro era um mundo infinitamente rico para se explorar. E pobre do aluno que fizesse perguntas como se, em vez de viajar nele, seguisse apenas um guia dos viajantes. O contraste era evidente e era mais de mais, pra mim. Eu não sabia ler. Minha sorte estava, em segundo lugar, no grupo de alunos de que se compunha essa primeira turma. Eles sabiam utilizar-se de enciclopédias, comentários ou da introdução feita pelo editor que, freqüentemente, ilustra a publicação de um clássico – do mesmo modo que eu o fazia. Um deles comfama de crítico, era particularmente turbulento. Parecia ter um enorme prazer em discutir várias teorias, que podiam se encontrar em fontes secundárias, só para me mostrar e ao resto da classe que o livro, em si, ainda não tinha sido comentado. Não quero dizer com isso que eles ou os outros lessem melhor do que eu ou o tivessem feito um dia. A verdade é que nenhum de nós, com a exceção de Van Doren, conhecia o assunto. Depois desse primeiro ano de magistério, estava desiludido de minha cultura. Desde então, venho ensinando aos alunos ler os livros: seis anos em Columbia com Mark Van Doren e, nesses últimos dez anos na Universidade de Chicago, com o reitor Roberto M.

Hutchins. Com o tempo, acho que fui aprendendo a ler um pouco melhor. Não há perigo de decepção se afirmar que sou o mestre, hoje. Por quê? Porque lendo o mesmo livro, ano depois de ano, descobri de cada vez, o que tinha percebido em meu primeiro ano de magistério: o livro que estava relendo era como se fosse novo para mim. Durante certo tempo, cada vez que o relia julgava, muito naturalmente alias, que o dominava, que afinal o tinha lido bem – só para que a nova leitura mostrasse minhas falhas e interpretações errôneas. Acontecendo isso uma porção de vezes, até o menos inteligente de nós acaba aprendendo que a leitura está lá, na extremidade do arco-íris. Embora a prática nos aperfeiçoe nessa arte de ler em qualquer outra, o longo caminho que vai confirmar tal máxima é maior do que se pensa. – 3 – Não sei que resolução tomar. Gostaria de encorajá-los para o trabalho de aprender a ler, mas não vou enganá-los afirmando que é fácil ou que pode ser levado a. termo em pouco tempo. Estou certo de que não querem ser logrados. Como qualquer outra aptidão, a leitura apresenta dificuldades somente superáveis com esforço e tempo. Quem empreende alguma coisa é porque está preparado para isso e sabe que, raramente, os resultados vão além da energia despendida. É preciso tempo e trabalho para crescer, para fazer fortuna, sustentar a família ou adquirir a prudência de certos velhos. Por que não aconteceria o mesmo ao se aprender a ler e ao ler o que vale a pena? Claro, seria mais fácil começar no colégio. Mas o que acontece é, quase sempre, o contrário: forçam-nos a parar. Pretendo discutir a falência da escola, mais tarde e mais completamente. Agora, quero apenas acusar os colégios de uma culpa que nos atinge a todos, porque e, em parte, a causa de sermos o que somos hoje – que não sabem o suficiente, para se divertirem em ler com proveito, ou para aproveitarem a leitura como divertimento. Mas a educação não se interrompe com o colégio, nem a responsabilidade de nosso destino educacional é inteira do sistema escolar. Qualquer um pode e deve decidir por si mesmo se está satisfeito com educação que recebeu ou recebe no colégio. Se não o esta, que faça alguma coisa. Com os colégios assim como são, o remédio não é a intensificação do ensino. O jeito – único, talvez, admissível para muita gente – É aprender a ler melhor e, lendo melhor, aproveitar ao máximo os ensinamentos da leitura.

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