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A Arte de ler – Ou como Resistir à Adversidade – Michele Petit

“Eles tiveram que forjar para si uma arte de viver em tempos de catástrofe para nascer uma segunda vez e em seguida lutar, com o rosto descoberto, contra o instinto de morte que está ativo em nossa história.” Albert Camus A idéia de que a leitura pode contribuir para o bem-estar é sem dúvida tão antiga quanto a crença de que pode ser perigosa ou nefasta. Seus poderes reparadores, em particular, foram notados ao longo dos séculos. “O estudo foi para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, não tendo existido jamais uma dor que uma hora de leitura não afastasse de mim”, escreveu Montesquieu. Mais perto de nós, no século XX, pensemos no papel que a leitura ou a recordação de textos lidos desempenharam para tantos deportados nos campos de concentração nazistas, ou para os que resistiram ao degredo stalinista. Primo Levi recitava Dante a seu amigo Pikolo, em Auschwitz, e os companheiros de Robert Antelme se lembravam dos poemas que transcreviam em pedaços de cartão, encontrados no depósito da fábrica. Brodsky, condenado a trabalhos forçados em um lugar próximo ao círculo polar, lia Auden, de onde tirava forças para sobreviver e enfrentar os carcereiros. E a biblioteca que Chalámov encontrou depois de ter deixado o campo de Kolimá lhe pôs de pé: “A extraordinária biblioteca de Karaiev — não havia um único livro que não merecesse ser lido — me ressuscitou, me rearmou para a vida o quanto era possível”. Nas prisões dos militares argentinos e uruguaios, vários homens e mulheres redescobrirão essa importância vital dos livros ou da recordação de textos lidos. Assim como fará Jean-Paul Kauffmann, prisioneiro durante três anos no Líbano: quando não tinha mais nada para ler, recordava os poemas ou romances “de antes”, empenhando-se em recuperar “a impregnação”: “Essa ginástica da memória não se ocupava de maneira alguma da história. Reconstituir a intriga de O vermelho e o negro, Eugénie Grandet ou Madame Bovary não era o objetivo que eu perseguia. Recriar a lembrança de uma leitura, reconhecer em mim os rastros que perduraram, recuperar a impregnação, eis a meta que estabeleci. Dar um significado àquilo que eu lia era secundário. Procurava embeber-me do texto, não a sua interpretação. […] Eu jamais tinha devorado [um texto] com tamanha intensidade. Esquecia a cela. Enfiado no fundo da minha leitura, produzindo em mim mesmo um outro texto. Fruição estranha, eqüivalia a uma reconquista provisória da liberdade. […] Encarcerado e sob a luz de uma vela, conheci a adesão absoluta ao texto, a fusão integral com os símbolos que o compunham — a questão do sentido, repito, era secundária”. Para além dessas situações extremas, a contribuição da leitura para a reconstrução de uma pessoa após uma desilusão amorosa, um luto, uma doença etc. — toda perda que afeta a representação de si mesmo e do sentido da vida — é uma experiência corrente, e numerosos escritores a testemunharam, como Sérgio Pitol em uma entrevista que encontro na noite em que escrevo estas linhas: tendo perdido seu pai, quando era bebê, e logo depois sua mãe, com cinco anos de idade, ele fica gravemente doente; embora não pudesse mais ir à escola, a casa onde sua avó o acolheu era repleta de livros: “Minha avó lia sem parar. E eu apanhava tudo o que me caía nas mãos. […] Com doze anos, descobri Guerra e paz e não fiquei mais doente. Continuo acreditando que Tolstói me salvou”. De maneira semelhante, Marc Soriano contou um dia como Pinóquio o ajudara, quando criança, a sobreviver à morte de seu pai e à grave anorexia que em seguida ameaçou sua vida.


Ele teria “devorado, mastigado, ingerido, regurgitado Pinóquio”, no qual teria encontrado “ao mesmo tempo o seu crime e a salutar revolta que lhe deu força para lutar contra o massacrante sentimento de culpa que a morte bastante real de seu pai ameaçava tornar irreversível e fatal”. Avaliamos aí o quanto uma obra, às vezes, nutre literalmente a vida. Em troca, Soriano dedicou a sua a estudar contos. Tomo emprestado um último exemplo de Laure Adler, que, ao se referir à morte de seu filho, declarou: “Se eu não me matei, foi porque me deparei sem querer com Uma barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras”, encontrado em uma casa alugada para uma temporada de verão: “[…] sempre tive o sentimento de que ele de fato me esperava. Naquele verão eu tinha acabado de passar por uma dessas provações pessoais às quais nunca imaginamos subsistir. Posso garantir que um livro, substituindo o meu tempo pelo seu, o caos da minha vida pela ordem da narrativa, me ajudou a retomar o fôlego e a vislumbrar o amanhã. A determinação selvagem e a inteligência do amor manifestadas pela jovem de Uma barragem foram para isso, sem dúvida, influentes”. Anos de guerra, “anos-biblioteca” Não é apenas no momento de desarranjos internos que os livros servem de auxílio, mas tambémquando acontecem crises que afetam simultaneamente um grande número de pessoas. “Nos anos 1930, nos Estados Unidos, a crise, segundo várias análises, levou milhares de norte-americanos para as bibliotecas”, escreve Martine Poulain: “Às vezes, os desempregados buscavam na leitura uma oportunidade de se distanciar do real e de sua própria situação, esperando que ela lhes levasse para ‘fora do mundo’. Às vezes, esperavam o contrário, que lhes mantivesse ‘dentro do mundo’. A leitura de jornais e periódicos era então a mais apreciada, seja porque a leitura de ‘notícias’ sancionava essa necessidade de se sentir parte de uma comunidade, seja porque a consulta das ofertas de emprego assinalava mais diretamente uma busca de reintegração”. Em muitos lugares, a Segunda Guerra Mundial suscitou igualmente um forte aumento das práticas da leitura, fato testemunhado por muitas pessoas, como Thais Nasvetnikova, na Rússia, quando recorda o inverno de 1941: “Lembro que todo mundo lia… muito… eu nunca vi isso… esgotamos a biblioteca destinada às crianças e aos adolescentes. Então nos permitiram ler os livros dos grandes”. Ou Le Clézio, que se encontrava em Nice: “Não podíamos sair, era demasiadamente perigoso. Os caminhos e os campos estavam minados. […] Assim era impossível vadiar. Não tínhamos muitos amigos, vivíamos confinados. Era preciso ocupar aquele vazio, e os livros estavam lá para isso”. Ou Marina Colasanti, que fala da sua infância na Itália: “Mas em pleno nomadismo, uma normalidade estável foi criada pelos meus pais, para mim e para meu irmão. Essa normalidade foi a leitura. […] Quando penso nesses anos, eu os vejo forrados de livros. São meus anos-biblioteca. […] Olhava pela janela da nossa sala, via o símbolo do fascio aposto à fachada do Duomo, e lia. Comíamos couve-flor sete dias na semana, um ovo passou a custar uma lira, dizia-se que o pão era feito de serragem, e eu lia. Deixamos a cidade, buscamos refúgio na montanha.

Agora, acordando de manhã, todas as manhãs, as colunas de fumaça no horizonte nos diziam que Milão estava debaixo de bombardeios, e eu, ah! eu continuava lendo”. Mais recentemente, no dia seguinte ao 11 de setembro de 2001, em um tempo em que o audiovisual já era onipresente, uma multidão acorria às livrarias nova-iorquinas, enquanto a freqüência em todos os outros comércios diminuía: “o público se volta para a leitura para compreender a crise”, relata o Le Monde de 22 de setembro de 2001. Após o primeiro impacto, as pessoas “vieram procurar os livros para superar a dificuldade”, comentou a diretora de uma grande livraria. Na França, os livreiros também constataram um movimento semelhante. Qual o poder da leitura nestes tempos difíceis? Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um “espaço em crise”. Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal — mesmo se preparadas há tempos —, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das migrações alteraram ou fizeramdesaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem. Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos semelhantes. Vividas como rupturas, ainda mais quando são acompanhadas da separação dos próximos, da perda da casa ou das paisagens familiares, as crises os confinam em um tempo imediato — sem projeto, sem futuro —, em um espaço sem linha de fuga. Despertam feridas antigas, reativam o medo do abandono, abalam o sentimento de continuidade de si e a auto-estima. Provocam, às vezes, uma perda total de sentido, mas podem igualmente estimular a criatividade e a inventividade, contribuindo para que outros equilíbrios sejam forjados, pois em nosso psiquismo, como disse René Kaês, uma “crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças de regeneração”. “O desastre ou a crise são também, e sobretudo, oportunidades”, escrevem Chamoiseau e Glissant, após a passagem de umciclone. “Quando tudo desmorona ou se vê transformado, são também os rigores ou as impossibilidades que se vêem transformados. São os improváveis que, de repente, se veemesculpidos por novas luzes”. A leitura pode garantir essas forças de vida? O que esperar dela — sem vãs ilusões — em lugares onde a crise é particularmente intensa, seja em contextos de guerra ou de repetidas violências, de deslocamentos de populações mais ou menos forçados, ou de vertiginosas recessões econômicas? Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma. A hipótese parecerá paradoxal em uma época de mutações tecnológicas na qual é a eventual diminuição da prática da leitura o que preocupa. Parecerá mais audaciosa, até mesmo incoerente, visto que o gosto pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos. Pensemos nos exemplos dados anteriormente: trata-se de homens e mulheres que provavelmente desde a mais tenra idade mergulharam nos livros, ou que ao menos foram introduzidos precocemente nos usos da cultura escrita. A avó de Sérgio Pitol lia sem parar, e, se Marina e seu irmão viveram “anos-biblioteca”, foi graças a seus pais. A leitura é uma arte que se transmite, mais do que se ensina, é o que demonstram vários estudos. Estes revelam que a transmissão no seio da família permanece a mais freqüente. Na maioria das vezes, tornamo-nos leitores porque vimos nossa mãe ou nosso pai mergulhado nos livros quando éramos pequenos, porque os ouvimos ler histórias ou porque as obras que tínhamos em casa eram tema de conversa. Nesse sentido, será a experiência de Jean-Paul Kauffmann, Marc Soriano ou Marina Colasanti aplicável a categorias sociais mais distanciadas da escrita, que são as mais afetadas pelas transformações atuais? Os trabalhos que desenvolvi anteriormente, nos espaços rurais ou nos bairros populares da periferia urbana, levaram-me a pensar que, sob certas condições, a experiência da leitura poderia ser aplicável em tais contextos, assim como era possível estendê-la para as gerações mais novas, emgeral apresentadas como mais resistentes à cultura escrita que aquelas que as antecederam. Essas pesquisas me ensinaram, na verdade, que essa experiência não diferia de acordo com a condição social ou com a geração.

Em particular, o que meus colegas e eu encontramos durante nossas enquetes atentava amplamente, de maneira espontânea e detalhada, para a importância dessa atividade na construção ou reconstrução de si mesmo, ainda nos casos em que a leitura fosse realizada esporadicamente. Mas, tais processos se davam por meio de apropriações singulares, às vezes até mesmo desviando-se dos textos lidos. Com um senso de descoberta desconcertante, cada um “farejava” o que estava secretamente vinculado com as suas próprias questões, o que lhe permitia escrever sua própria história nas entrelinhas: estávamos nas “artes de fazer” que estudara Michel de Certeau. Nossos interlocutores se referiam a alguma coisa mais abrangente do que as acepções acadêmicas da palavra “leitura”: aludiam a textos que tinham descoberto em meio a um tête à tête solitário e silencioso, mas também, algumas vezes, a leituras em voz alta e compartilhadas; a livros relidos obstinadamente, e a outros que haviam somente folheado, apropriando-se de uma frase ou de umfragmento; aos momentos de devaneio que se seguiram à relação de convívio com a escrita; às lembranças heterogêneas que ali encontravam, às transformações pelas quais passavam. Mais do que a decodificação dos textos, mais do que a exegese erudita, o essencial da leitura era, ao que parecia, esse trabalho de pensar, de devaneio. Esses momentos em que se levantam os olhos do livro e onde se esboça uma poética discreta, onde surgem associações inesperadas. De todo modo, o que distinguia um meio social de outro eram os obstáculos. Para alguns, tudo era dado de nascença, ou quase; para outros, o distanciamento geográfico se somava às dificuldades econômicas e às interdições culturais. Se chegaram a ler, foi sempre graças a mediações específicas, ao acompanhamento afetuoso e discreto de um mediador com gosto pelos livros, que fez com que a apropriação deles fosse almejada. Incríveis experiências literárias compartilhadas Nos anos que se seguiram a essas pesquisas, as contingências do destino profissional — ou melhor, as manobras do desejo que me reconduziam para onde anteriormente eu havia vivido por tanto tempo — fizeram com que eu viajasse com freqüência pela América Latina. Desde 1998, todo ano eu fazia várias estadias, encontrando um grande número de mediadores culturais e conversando com eles. Dessa forma, eu descobri incríveis experiências literárias compartilhadas, organizadas por diversos profissionais (professores, bibliotecários, psicólogos, artistas, escritores, editores, livreiros, trabalhadores sociais ou humanitários…) com crianças ou adultos expostos a um isolamento social mais ou menos acentuado, somado a adversidades múltiplas. De fato, programas em que a leitura ocupa um lugar fundamental estão atualmente sendo realizados em diferentes regiões do mundo que são cenário de guerras ou de violências, crises econômicas intensas, êxodos de populações ou catástrofes naturais. Na maior parte das vezes, essas experiências têm uma circulação ruim e acabam ignoradas ou subestimadas, não só na Europa (onde a presunção etnocêntrica nos proíbe de considerar que ganharíamos se nos informássemos a respeito do que é empreendido no exterior), mas também a alguns poucos quilômetros dos lugares onde são realizadas. E, no entanto, elas são ricas em ensinamentos. Mantidas por organizações internacionais, por instituições públicas, associações ou fundações privadas, tais experiências apresentam a particularidade de se voltar para aqueles que estão mais distantes dos livros: crianças, adolescentes, mulheres ou homens, em geral pouco escolarizados, oriundos de ambientes pobres, marginalizados, cujas culturas são dominadas. Vários provêm de sociedades onde é a tradição oral, muito mais do que a escrita, que há muito fornece as balizas, os recursos que tornam possível a associação entre a experiência particular e as representações culturais compartilhadas. Mitos, contos, lendas, provérbios, cantos, refrões permitiam-lhes, em certa medida, simbolizar emoções intensas ou acontecimentos inesperados, representar conflitos, dar forma a paisagens interiores, inserindo-se ao mesmo tempo em uma continuidade, uma transmissão. Construir um sentido. Ao menos, esse era o caso das sociedades que mantiveram uma mitologia viva, reformulada ou enriquecida ao sabor dos encontros. Entretanto, hoje em dia, em muitos lugares, a tradição oral se encontra desarticulada, as balizas simbólicas desorganizadas, com todos os riscos que comporta uma tal alteração da “rede” da cultura. Em tais contextos, a introdução de propostas nas quais a escrita é central pode servir de reparo a essa tradição, talvez reativá-la, ou, ao contrário, ameaça o que dela subsiste? Além disso, a análise desses programas e a sua confrontação permitem precisar os mecanismos exigidos para sua implantação, delimitar o papel dos mediadores, a sua margem de manobra e as parcerias que o “sucesso” de tais empreendimentos pressupõe. Fornecem também pistas para se identificar os processos que se põem em prática e esclarecer os benefícios que podem ser esperados da leitura em tais contextos, assim como os limites, os impasses e a eventual parcela de risco que essas iniciativas implicam. Ora, se o recurso a essa prática em tempos de crise tem sido ressaltado com freqüência, a natureza dos processos visando à reconstrução de si mesmo raramente é trazida à tona. Tampouco em instituições como hospitais ou prisões, onde serviços públicos e associações empenham-se emfacilitar o acesso aos livros.

Uma parte dos que colaboram com esses projetos tem consciência da complexidade dos processos, mas outra enfatiza apenas o papel de “distração” da leitura e, no caso do universo penitenciário, somente os aspectos funcionais que podem contribuir para uma futura reinserção profissional. Basta pensar nos apontamentos de Jean-Paul Kauffmann ou de Marc Soriano, citados anteriormente, para desconfiar de que uma grande parte das vivências é ignorada. Em contrapartida, existe uma literatura científica no campo da psicanálise. Nas mediações culturais que são inspiradas por ela, a leitura de contos, mitos e, com menos freqüência, de livros ilustrados, romances, peças de teatro etc. é por vezes utilizada especialmente com crianças ou adolescentes com dificuldades escolares, com psicóticos ou autistas, na psicologia clínica intercultural ou em terapias de família. Entretanto, tanto essas observações quanto a conceitualização que as acompanha permanecem pouco conhecidas fora dos círculos especializados.

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