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A arte de pedir – Amanda Palmer

Cerca de dez anos atrás, em Boston, Amanda se apresentava na rua como estátua viva — mais exatamente, uma estátua de noiva com 2,5 metros de altura e o rosto pintado de branco. A distância, era possível ver um transeunte que parava, punha dinheiro no chapéu na frente da caixa e então sorria quando Amanda fitava amorosamente os olhos daquela pessoa e lhe estendia uma flor do buquê que tinha nas mãos. Seria mais difícil me ver. Eu era aquela que fazia o maior desvio possível para evitar a estátua viva. Não que eu não deixe a minha cota de dólares nos chapéus dos artistas de rua —deixo, sim. Só que gosto de ficar a uma distância segura, e aí, da maneira mais discreta possível, ponho o dinheiro e volto depressa ao anonimato. Eu faria de tudo para evitar contato visual com uma estátua. Não queria uma flor; queria passar despercebida. A distância, Amanda Palmer e eu não temos nada em comum. Enquanto ela se atira sobre a multidão num show em Berlim, sem nada no corpo a não ser o ukulelê vermelho e os coturnos, ou conspira para subverter a indústria fonográfica, estou cumprindo minha vez no rodízio do carro, compilando dados ou, se for domingo, talvez assistindo à missa na igreja. Mas este livro não trata de ver as pessoas a uma distância segura — aquele lugar sedutor em que muitos de nós vivemos, nos escondemos e para o qual corremos em busca do que pensamos ser segurança emocional. A arte de pedir é um livro sobre o cultivo da confiança e da maior proximidade possível com o amor, a vulnerabilidade e a conexão. Uma proximidade incômoda. Perigosa. Bela. E a proximidade incômoda é exatamente onde precisamos ficar se quisermos transformar essa cultura de afastamento e desconfiança fundamental. A distância é enganadora. Distorce como vemos a nós mesmos e entendemos uns aos outros. São pouquíssimos os escritores capazes de nos despertar para essa realidade tanto quanto Amanda. Sua vida e carreira são um estudo da intimidade e da conexão. Ela tem como laboratório o caso de amor com sua arte, com sua comunidade e com as pessoas com quem compartilha a vida. Passei a maior parte da vida tentando ficar a uma distância segura de qualquer coisa que parecesse incerta e qualquer pessoa que pudesse me ferir. Porém, como Amanda, aprendi que a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. Afinal, Amanda e eu não somos nada diferentes. Não se você olhar de perto — o que, em última instância, é o único olhar que importa quando se trata de conexão.


Família, pesquisa, igreja — são os lugares na minha vida aos quais me entrego sem reservas e onde me sinto conectada. São os lugares aos quais me dirijo para ter os recursos de que preciso: amor, conexão e fé. E agora, graças a Amanda, quando estou cansada, com medo ou precisando de alguma coisa das comunidades de que participo, eu peço. Não sou muito boa nisso, mas peço. E sabem do que eu mais gosto na Amanda? A honestidade. Ela também nem sempre é muito boa em pedir. Debate-se como nós. E é quando ela conta sobre suas dificuldades de vir à frente e se mostrar vulnerável que enxergo de modo mais claro a mim mesma, a minha luta e a nossa humanidade emcomum. Este livro é um presente que nos é oferecido por uma artista sem inibições, uma pioneira corajosa, uma batalhadora incansável — uma mulher que tem a capacidade duramente conquistada e cuidadosamente afinada de enxergar as partes da nossa humanidade que mais precisam ser vistas. Aceitem a flor. ALGUÉM TEM UM absorvente? Acabei de ficar menstruada, anuncio em voz alta a ninguém em particular no banheiro feminino de um restaurante em São Francisco, ou a quem estiver no camarimde um festival de música em Praga, ou ao pessoal entretido na cozinha de uma festa em Sydney, Munique ou Cincinnati. Invariavelmente, no mundo todo, ouço e vejo mãos femininas remexendo em bolsas e mochilas, até o momento triunfal em que uma desconhecida, com um sorriso gentil, me estende um absorvente. Ninguém fala em dinheiro. O acordo tácito universal é o seguinte: Hoje é a minha vez de pegar o absorvente. Amanhã será a sua. Existe um círculo cármico constante de absorventes. Descobri que existe também com lenços de papel, cigarros e canetas. Muitas vezes me perguntei: será que existem mulheres tímidas DEMAIS para pedir? Mulheres que preferem enrolar um monte de papel higiênico e enfiar na calcinha, em vez de pedir um favor numlugar cheio de desconhecidas? Devem existir. Mas não eu. De jeito nenhum. Não tenho o menor medo de pedir. De pedir nada. Sou DESCARADA. Eu acho. • • • Estou com 38 anos.

Criei minha primeira banda, The Dresden Dolls, aos 25 e só lancei meu primeiro disco por uma grande gravadora aos 28, que é, na indústria fonográfica convencional, uma idade geriátrica para começar a carreira. Nos últimos treze anos, tenho viajado muito, raras vezes dormindo mais de duas ou três noites no mesmo lugar, tocando sem parar, em praticamente todas as situações possíveis e imagináveis. Bares, boates, teatros, estádios, festivais, do CBGB em Nova York ao Sydney Opera House. Toquei sessões inteiras com a orquestra mundialmente famosa da minha cidade no Boston Symphony Hall. Conheci e fiz algumas turnês com os meus ídolos: Cyndi Lauper, Trent Reznor do Nine Inch Nails, David Bowie, “Weird Al” Yankovic, o Peter do Peter, Paul and Mary. Compus, toquei e cantei centenas de músicas em estúdios de gravação pelo mundo inteiro. Fico feliz por ter começado tarde. Deu tempo de levar uma vida de verdade, e passei uns bons anos dando um jeito de arranjar dinheiro para pagar o aluguel todo mês. Desde o final da adolescência até os vinte e poucos anos trabalhei em dezenas de coisas, mas principalmente como estátua viva: uma artista de rua parada no meio da calçada, vestida de noiva e com a cara pintada de branco. (Você já viu gente-estátua como nós, não é? Provavelmente fica imaginando quem somos na Vida Real. Olá. Somos Reais.) Ser estátua era um trabalho no qual eu encarnava a mais pura manifestação física do pedir: passei cinco anos empoleirada numa pilha de engradados de leite, imóvel, com um chapéu no chão, esperando que as pessoas deixassem um dólar em troca de um instante de conexão humana. Mas também me dediquei a outras formas inspiradoras de emprego com vinte e poucos anos: fui balconista, recebendo 9,50 dólares a hora (mais gorjetas) para servir sorvete e café; massagista terapêutica sem registro, trabalhando no meu alojamento na faculdade (sem finais felizes, 35 dólares a hora); consultora de nomes e marcas para empresas de internet (2 mil dólares a lista de nomes de domínio livre); escritora e diretora de peças de teatro (em geral, sem remuneração; normalmente, na verdade, eu mesma tirava dinheiro do bolso para comprar roupas e acessórios); garçonete num bar alemão ao ar livre (uns 75 marcos por noite, mais gorjetas); vendedora de roupas que comprava embrechós, reciclava e revendia no campus da universidade (dava para fazer 50 dólares por dia); ajudante numa oficina de molduras de quadros (14 dólares a hora); atriz em filmes experimentais (paga com pizza, vinho e alegria); modelo nua para aulas de desenho e pintura em escolas de arte (12 a 18 dólares a hora); organizadora e hostess de mostras alternativas apenas com peças doadas (pagamento suficiente para cobrir as despesas com as bebidas e o espaço do evento); pessoa responsável por conferir a roupa dos convidados em festas clandestinas de fetichismo sexual (100 dólares por festa) e, por intermédio desse serviço, auxiliar de costura num fabricante de algemas de couro sob encomenda (20 dólares a hora); stripper (cerca de 50 dólares a hora, mas na verdade dependia da noite); e — por pouco tempo — dominatrix (350 dólares a hora; mas havia, claro, despesas indispensáveis com roupas e acessórios). Todas essas atividades me ensinaram várias coisas sobre a vulnerabilidade humana. Acima de tudo, aprendi muito sobre o pedir. Quase todos os contatos humanos importantes se resumem ao gesto e à arte de pedir. Pedir é, em si, o elemento fundamental de qualquer relação. Constantemente e em geral de maneira indireta, muitas vezes sem falar, pedimos uns aos outros — aos chefes, aos cônjuges, aos amigos, aos funcionários — a fim de construir e manter as relações entre nós. Você me ajuda? Posso confiar em você? Você vai me ferrar? Posso meeeesmo confiar em você? E muitas vezes, por baixo disso tudo, essas perguntas derivam de nosso anseio humano, fundamental, em querer saber: Você me ama?

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