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A arvore que dava dinheiro – Domingos Pellegrini

Era uma vez em Felicidade um velho tão unha-de-fome que andava uma semana com o chinelo esquerdo, pé direito com sapato — para ninguém dizer que ele era pobre. Depois andava outra semana com o chinelo direito, o pé esquerdo com sapato: chinelo é mais barato e, assim, os sapatos duravam anos. Até que um dia ele morreu, sem desconfiar que aquela dor nas costas era de andar com um pé mais alto que o outro. Se Cristóvão Colombo se chamasse Américo Vespúcio, tinha descoberto a América do mesmo jeito; e Joaquim José da Silva Xavier era tão Joaquim quanto Joaquim Silvério dos Reis, de modo que não adianta nada contar o nome do velho. Com qualquer nome ele ia morrer do mesmo jeito: sozinho, apesar de rodeado de gente. Antes de morrer ficou um tempão caído no quintal, sem ninguém para dar uma mão ou uma palavra. Tinha chegado da rua e ia entrando pela cozinha para economizar a escada da frente, que era de mármore. Aí, caiu e ficou. A escada era de mármore porque o velho era munheca mas não era pobre; era dono de metade da cidade. Morava ali porque a cidade era tão pobre que ninguém pagaria aluguel daquele sobrado. Tinha comprado da viúva do fundador de Felicidade, que tinha erguido o sobrado no tempo em que as tropas de burros passavam com café e açúcar a caminho do porto. Depois voltavam comtecidos, mantimentos, remédios, miudezas e encomendas. Quando viam de longe uma tropa chegando, os meninos ficavam até sem fôlego de contar um, dois, três, dez, cinqüenta burros olhando o rabo umdo outro pela estrada enrolada na serra, na frente a mula-madrinha com o cincerro no pescoço. O eco batia no povoado, e sempre algum menino gritava que tinha tropa descendo a serra; ia gritando rua afora e os moleques iam despencando das árvores, saindo dos esconderijos, batendo portas — e corriam pela estrada para esperar na ponte. A tropa arranchava ali, e a molecada ia e voltava com cestas cheias de cocada, curau, pamonha, quindim, bom-bocado e outros doces e salgados para vender. Os tropeiros comiam com saudade de casa, depois de mastigar o arroz-feijão com carne-seca que cozinhavam nas pedras da beira do rio. Tomavam banho, lavavam a camisa para o dia seguinte e, de manhã, entravam na cidade vendendo bebida e sedas, sapatos e pimenta, roupas e aviamentos, secos e molhados; de modo que Felicidade, no tempo em que era povoado, era mais animada do que depois que cresceu e as tropas deixaram de passar. No dia em que passou a última, ninguém desconfiou que era a última. Ficaram muito tempo esperando outra, e enquanto isso gente ia casando, ia nascendo gente e o povoado virou uma cidadezinha ao longo da estrada, espremida entre os morros e o rio. A estrada virou uma rua de paralelepípedos e o Governo Estadual mandou botar postes para ganhar eleição. Em cada poste acenderam uma luz, os pirilampos sumiram e apareceram muitas mariposas. Era como as luzes de um velório; muita gente foi embora e Felicidade parecia morrer. O Governo tinha aberto outra estrada contornando a serra, e agora as cargas passavam por lá, em caminhões que nem tinhamtempo de parar. O fundador de Felicidade gostava tanto de conversar que tinha erguido o sobrado para ser casa em cima e hotel embaixo — mas, quando morreu (de uma doença que ninguém falava o nome), o hotel estava vazio. Fazia tempo que não passava um viajante, fazia anos que não parava um circo.


As luzes dos postes queimavam e a Prefeitura dizia que era o Estado quem devia trocar, o Estado dizia que era a Prefeitura, e Felicidade continuava escura. Então a viúva ficou muito desgostosa e disse no velório que queria morar longe da lembrança do marido e daquela escuridão, e nem bem ela fechou a boca, o velho — que naquele tempo ainda não era velho mas já usava chinelo e sapato —, o velho falou que, sendo assim, fazia a caridade de comprar o sobrado. — Não sei direito quanto vale — a viúva gemeu e pediu um preço que achou alto, mas era muito barato. — Negócio fechado — disse o velho, e aí ela não pôde mais voltar atrás, porque naquele tempo negócio era negócio. Com aquele dinheiro ela pagou as dívidas, foi embora com uma mão na frente e outra atrás; e o velho deu de fazer negócio em velório. Quando teve idade de aposentar, vendeu o moinho que era a única indústria da cidade, e economizou ainda mais para comprar mais casas ou emprestar a juros. O cidadão emprestava dinheiro do velho, não pagava, o velho ficava com a casa. Tinha até gente que vendia casa ao velho e ficava pagando aluguel; mas pelo menos ficava com o dinheiro para ir conhecer o mar ou a capital, comprar móveis e roupas, tratar dos dentes, fazer metade de um enxoval: na metade o dinheiro sempre acaba. Só o dinheiro do velho não acabava: aumentava. Tinha um chuchuzeiro trepando na casa e, no almoço, comia feijão com chuchu e na janta chuchu com arroz, de modo que ele assim continuou comprando casa, comprando casa. De dois em dois anos comprava uma caneta para fazer as contas dos aluguéis e dos juros, em papel de embrulho. Uma preta, dessas que ninguém sabe que idade tem, trabalhava para o velho desde muito tempo. Dormia num quartinho do porão, com um cobertor de criança: cobria o peito descobria os pés, cobria os pés descobria o peito. Então dormia mal, acordava cansada e pegava na vassoura para se escorar, tonta; aí via um cisco no chão e varria, de tão acostumada, e continuava a trabalhar o dia inteiro por puro costume, e também porque não sabia o que mais fazer da vida; aliás, nem pensava nisso. Varria o sobrado todo, passava pano nos móveis da viúva, até cansar; aí parava numa janela para suspirar, via mato na grama, ia arrancar. Voltava, passava o dedo num beiral, estava empoeirado, então pegava um pano úmido e passava em tudo; e de repente sentia um cheiro no ar: era o urinol do velho debaixo da cama. Ia despejar na privada; olhava e o que é que via? Via que a privada estava encardindo. Pegava o pano com areia e esfregava até branquear; depois passava pela cozinha e o fogão olhava para ela, ela olhava o fogão, suspirava e ia bater arroz no pilão: o velho só comprava arroz com casca para economizar. De tardezinha, quando ela ia à missa, parava no portão de uma velha com cadeira na calçada. A velha sempre perguntava: — Como é que vai a senhora? — Levando a vida, levando — ela sempre respondia. Mas naquele dia a velha falou que ela estava muito abatida. — Arroz também — ela respondeu — apanha no pilão para ficar bom de comer. A velha olhou a cruz na torre da igreja: — É mesmo, a gente quando apanhou bastante é porque logo vai se libertar. Então a preta foi rezar, rezou, voltou: e, para economizar gás, só amornou o arroz-feijão do almoço com chuchu da cerca. A igreja badalou seis vezes e o velho não aparecia; ela embrulhou as panelas no cobertor para economizar forno e sentou esperando, ficou olhando as coisas sem ver nada, até que viu a lata de feijão: tirou um punhado, começou a escolher para o dia seguinte.

Lá fora, o velho tinha caído de barriga para baixo, mas depois de muito custo conseguiu virar. Depois conseguiu sentar no chão, de costas para a parede, e ficou muito tempo vendo como as nuvens formam tanta coisa, e como o sol foi avermelhando o céu, e como as cores foram mudando devagar e para sempre, enquanto os passarinhos quase se matavam de tanto cantar. Era a primeira vez que reparava na morte de um dia, e agora olhava tanto que os olhos secavamsem piscar e formigas bicavam a baba que escorria da boca. O velho olhava maravilhado; de repente tudo era tão bonito… — … e de graça! A boca falou e entortou. O velho estava com uma careta de dor olhando a primeira estrela. Ela parecia piscar para ele; então tentou sorrir, a boca entortou mais. Foi então que a velha preta resolveu espiar no quintal, saiu olhando o vermelhão do céu e tropeçou no velho. — Que que o senhor tá fazendo aí no chão? Ele resmungou alguma coisa, ela voltou resmungando que ele era um velho resmungão, que ela devia ter deixado aquela casa fazia muito tempo, que onde já se viu trabalhar em troca de cama e comida, ele tinha sorte que ela estava pagando uma novena, senão pegava a trouxa e saía pelo mundo, ele ia ver um dia. Foi resmungando assim até a porta da cozinha; parou, virou para trás com as mãos nas cadeiras: — E se quiser jantar vem logo que tá esfriando. Entrou, sentou de novo catando feijão, esperou que esperou e o velho não vinha. Aí ela botou o feijão de molho e foi de novo ver por que aquele velho caduco não vinha jantar. Já estava escuro e agora ele estava deitado de cara no chão, incomodado igual tartaruga virada. Ela debruçou: — Quer alguma coisa? Ele resmungou alguma coisa, se contorcendo no chão; ela olhou bem: — Esse velho tem alguma coisa… Foi bater na casa vizinha. Levaram o velho para o quarto com tanto cuidado que acabaramcaindo na escada, depois se perderam na escuridão cheia de portas: o andar de cima não tinha lâmpadas. A preta estava na cozinha fazendo um chá de sabugo de milho, ele gostava muito: mal não fazia e não custava nada. Metade do corpo dele tinha endurecido, a outra metade não obedecia; umvizinho pegava numa perna que nem um pau, outro pegava noutra perna bamba igual corda; parecia que o velho fazia de pirraça, e a boca torta parecia rir o tempo todo. Um menino correu buscar o médico espalhando a notícia — de modo que, quando voltou com o médico, os inquilinos do velho já estavam se ajuntando na rua. Alguém emprestou uma lâmpada e logo estavam todos olhando para a única janela acesa no sobrado. A preta conseguiu molhar todo o travesseiro despejando chá na boca do velho, até ele engasgar. Aí ela se trancou no porão, acendeu uma vela e rezou ajoelhada num canto, onde São José de braço quebrado segurava Menino Jesus sem cabeça, num altarzinho arrumado em caixote comboizinho de presépio, Nossa Senhora da Aparecida e uma espada-de-são-jorge que levava um mês para murchar numa lata com água. Conforme ela rezava, o sobrado ia enchendo de gente; o assoalho rangia e ribombava com o tropel: criançada corria, homens pisavam duro com sapatões e botinas, mulheres arrastavamcadeiras, de repente parecia que tudo ia desabar em cima dela. Então pegou o travesseiro e as roupas, e as coisas do altar e o cobertor, enfiou tudo dentro de um saco, jogou o xale nos ombros e o saco nas costas, saiu mas voltou logo, devolveu o cobertor e tornou a sair sem ninguém perceber; deixou a vela acesa e sumiu de Felicidade. O médico chegou; a multidão abriu caminho e ele subiu, sentou na beirada da cama, as mulheres saíram do quarto e ele examinou o velho; parecia um gafanhoto enrugado. O médico parecia um anjo de branco no quarto escuro; a lâmpada era tão fraca que a luz morria no assoalho empoeirado e nos móveis sem brilho. Era um médico moço mas meio careca; examinou, examinou, aí botou a mão na testa e foi levando para trás até encontrar cabelo, parou como se achasse também o pensamento: — O senhor vai pagar o tratamento? O velho balançou de leve a cabeça: Não ia não.

— E a consulta? O velho parecia até melhorar, balançou firme a cabeça: Não! Então o médico levantou falando a todo mundo que não adiantava mesmo tratamento. O velho estava com derrame, infarto e começo de pneumonia. A notícia rolou sobrado abaixo: o velho estava morre-não-morre; estava nas últimas; já tinha batido as botas, se tivesse botas; vai morrer, está morrendo, morre logo — iam passando a notícia de boca em boca, enquanto no quarto ele tentava falar com a boca retorcida. Alguém debruçou na cama, a voz saía num fio de dor: — O cartorário… com o testamento. A notícia desabou sobrado abaixo, rua afora: o velho tinha um testamento! O cartório era na cidade vizinha, mas cinco homens se juntaram para pagar a viagem de táxi. Eram inquilinos do velho, e o táxi era um Oldsmobile que fazia uma semana não pegava uma corrida; então o motorista avisou logo que era preciso esquentar o motor e trocar um pneu murcho. Quando o motor esquentou, o pneu já estava trocado e, quando partiram, todo mundo se dividiu: metade no sobrado, metade na igreja fazendo promessa: — Minha Nossa Senhora da Aparecida, se a casa ficar de herança pra gente, prometo o seguinte… E desfiavam terços, enquanto no quarto o velho olhava a lâmpada. Entravam mulheres com cadeiras trazidas de casa, sentavam beirando as paredes e iam puxando terço ou cochichando. Os homens fumavam em rodas no quintal, moleques subiram na mangueira, e na rua os moços sentaram no meio-fio. Fazia lua cheia e noite estrelada; logo os homens começarama contar casos e piadas, e as moças começaram a passar na rua de braços dados. Iam até a esquina e voltavam passando pelos moços, mas sem olhar para eles, que olhavam para elas tão acostumados como se olhassem um rio passando. De vez em quando um falava uma gracinha, elas fingiam não ouvir e iam rir na esquina, voltavam de novo de nariz erguido. O posto telefônico era na frente do sobrado, e o telefonista não parava de fazer ligação. Felicidade tinha 12 linhas e 57 telefones, quatro ou cinco para cada linha, cada um numa casa. Então alguém ligava falando da herança e os vizinhos ouviam nos outros telefones da linha, quem sabe alguém sabia mais alguma coisa; e ligavam para os parentes, sondavam: — O velho nunca tocou no assunto com você? — assim o painel do posto telefônico acendia todas as luzes e o telefonista precisava de mais duas mãos para dar conta — até que desistiu e ficou ouvindo um namoro. — Acho que eu podia ficar eternamente ouvindo você — dizia o rapaz. — O quê? Minha mãe chegou dizendo que o velho do sobrado tá morrendo, vai deixar as casas de herança. Alô? Ele já tinha desligado; a rua enchia mais. Cinco ou seis moços estavam sempre no posto vendo o telefonista mexer naqueles cabos todos. Só tinha aquele emprego nos últimos anos, a velha telefonista aposentou e o moço passou no concurso; agora o remédio para os outros era esperar a fábrica de arredondar tijolo, a fábrica de desentortar banana, a fábrica de engarrafar fumaça, ou uma herança: será que o velho tinha muito dinheiro? No quarto o velho mandou chamar um viúvo que estava de mudança. O homem entrou miúdo e de olhar vivo feito um mico; mas sem encarar ninguém — e o velho viu logo que era o pior tipo para se fazer negócio. Então chamou com a mão que ainda se mexia: chega mais perto, chega. O homem chegou, ele bateu de leve no colchão: senta aqui, senta. O homem sentou, ele chamou com os olhos: escuta aqui, escuta; e o homem quase colocou o ouvido na boca do velho, que gemeu baixinho. — Ninguém leva dinheiro para o caixão… Tenho dinheiro no banco, fica pra você… Os olhinhos do mico brilharam: — Pra mim? Quanto dinheiro? O velho disse a quantia até o último centavo, e emendou: — Só que você me passa a escritura da sua casa… — A casa vale muito mais! — Valer é uma coisa, vender é outra… — É muito pouco dinheiro.

— É tudo que eu tenho, e não tenho mais tempo… — Um pouco mais e, quem sabe, sai negócio… — Um pouco mais e eu morro… — É muito pouco… — Mas é à vista… O cartorário vem vindo, ele ajeita os papéis. É minha última palavra. E a boca torceu, o corpo esticou endurecendo. Quando viu aquilo, o homem apertou rapidinho a mão dura do velho: — Negócio fechado. Aplaudiram na rua: o cartorário chegava. Abriram a porta do táxi, foram abrindo caminho para aquela pasta preta que ele levava no peito. Chegou no quarto, puxou uma cadeira, sentou e foi falando que estava tudo em ordem: fazia anos o testamento estava perfeitamente registrado e plenamente válido, o velho nem precisava ter chamado. Mas o velho esticou o braço, e fez sinal de escrever; o cartorário enfiou uma caneta naqueles dedos secos e ele escreveu: LÊ. Então o cartorário começou a ler o testamento, num silêncio de se ouvir o próprio coração. O sobrado ficava de herança para a preta velha, e todas as outras casas ficavam para os próprios inquilinos. Imediatamente as mulheres caíram de joelhos dando graças a Deus, foram beijar a mão do velho. Os homens se cumprimentavam com tapas e empurrões, querendo descer a escada semconseguir, porque quem estava embaixo queria subir e, naquele entupimento de gente, de repente, alguém gritou na janela a grande notícia. Urraram de alegria lá fora, e um rojão subiu e estourou três vezes. No primeiro estouro apagou a vela no quartinho da velha. No segundo estouro apagou a lâmpada no quarto do velho. No terceiro estouro o velho apagou. Quando o cartorário saiu, o sobrado já estava vazio e a rua em festa. Procurou alguém sóbrio para dizer que as casas só seriam deles dali a dois anos: — Conforme o testamento, vocês têm de requerer escritura neste mesmo dia daqui a dois anos, ou então tudo fica para a Prefeitura. Mas todo mundo festejava. O cartorário insistia: — Além disso, vocês têm de plantar na praça, em cerimônia pública, três sementes que ele deixou. É o pedido dele no testamento.

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