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A Auto-Estrada – Stephen King

Estava quente ali dentro. A loja era comprida mas não muito larga, com um único corredor. Do outro lado da porta, no lado esquerdo um armário de vidro onde eram guardadas as caixas de munição. Reconheceu imediatamente os cartuchos .22 porque, ao tempo de garoto em Connecticut, possuíra uma carabina .22 de tiro único. Quisera aquela arma durante três anos e quando finalmente a ganhara, não soubera o que fazer com ela. Durante algum tempo, atirara em latas. Depois, matou umgaio azul. Aquele gaio não fora uma execução bem feita. O passarinho ficara parado na neve cercado por uma mancha rosada de sangue, o bico abrindo-se e fechando-se lentamente. Depois disso, guardara a espingarda, que permanecera pendurada durante três anos, até que a vendera a um garoto da rua por nove dólares e uma caixa de revistas em quadrinhos. Os outros tipos de munição eram menos conhecidos. Trinta-trinta, trinta-zero-seis, e algumas que pareciam obuses em miniatura. Que animais só morriam quando atingidos por aquelas balas? perguntou a si mesmo. Tigres? Dinossauros? Ainda assim, fascinavam-no, ali dentro do armário envidraçado como se fossem bombons numa vitrine. O empregado, ou proprietário, conversava nesse momento com um homem gordo vestido comcalça verde e camisa de serviço da mesma cor. A camisa possuía bolsos com flapes. Falavam sobre uma pistola nesse momento desmontada, em cima de outra caixa de vidro. O homem gordo puxou para trás o cursor e os dois olharam para dentro da câmara oleada. O gordo disse alguma coisa e o empregado, ou proprietário, riu. — As automáticas sempre engasgam? Você herdou essa de seu pai, Mac. Confesse. — Harry, você está cheio de babaquice até o gogó. Você está cheio também, Fred, pensou, Até o gogó.


Sabia disso, Fred? Fred disse que sabia. À direita uma vitrine de vidro prolongava-se por todo o comprimento da loja. Cheia de rifles descansando em cima de suportes. Conseguiu identificar uma espingarda de dois canos mas tudo o mais era mistério para ele. Ainda assim, algumas pessoas — como os dois no balcão mais distante, por exemplo — haviam aprendido a dominar esse mundo com a mesma facilidade com que dominara contabilidade geral na faculdade. Entrou mais na loja e examinou um mostruário cheio de armas curtas. Viu algumas pistolas de ar comprimido, uma poucas .22s, um .38 com cabo de madeira um .45, e uma arma que reconheceu como um Magnum .44, a arma que Dirty Harry usara naquele filme. Ouvira Ron Stone e Vinnie Mason conversando na lavanderia sobre aquele filme e Vinnie dissera: Nunca deixam que um tira ande com uma arma como aquela na cidade. Com uma delas pode-se abrir um buraco num cara a quilômetro e meio de distância. O gordo, Mac, e o empregado, ou proprietário, Harry (como em Dirty Harry), haviam remontado a arma. — Bata um fio pra mim quando receber aquela Menschler — disse Mac. — Combinado… mas seu preconceito contra automáticas é irracional — disse Harry. (Chegou à conclusão de que Harry devia ser o proprietário: um empregado jamais chamaria de irracional umcliente.) — Vai precisar do Cobra na próxima semana? — Eu gostaria — respondeu Mac. — Não posso prometer nada. — Você nunca pode… mas é o melhor armeiro da cidade, e sabe disso. — Claro que sei. Mac bateu com a arma em cima do mostruário de vidro e virou-se para ir embora. Chocou-se com ele — Cuidado, Mac. Sorria quando fizer isso — e depois dirigiu-se para a porta. Mac levava um jornal dobrado sob o braço e conseguiu ler: DUVIDOSO CESS Harry virou-se para ele, sorrindo ainda e sacudindo a cabeça.

— Posso ser-lhe útil em alguma coisa? — Tomara que possa. Mas aviso, de início, que não manjo nada de armas. Harry encolheu os ombros. — Há alguma lei dizendo que o senhor deve? Há para alguém? Como presente de Natal? — Exatamente — disse ele, aproveitando a sugestão. — Eu tenho um primo… Nick, é o nome dele. Nick Adams. Mora em Michigan e tem armas. O senhor sabe como é. Adora caçar, mas é mais do que isso. É uma espécie de, bem, um… — Um hobby? — perguntou Harry, sorrindo. — Isso, é isso. Estivera prestes a dizer fetiche. Seus olhos caíram sobre a registradora, onde um velho adesivo de pára-choques fora pregado. O adesivo dizia: SE AS ARMAS FOREM PROSCRITAS, SÓ OS PROSCRITOS TERÃO ARMAS. Sorriu para Harry e disse: — Isso aí é uma grande verdade, sabia? — Claro que é — confirmou Harry. — Esse seu primo… — Bem, é um caso de um querer superar o outro. Ele sabe como eu gosto de barcos e no último Natal me deu de presente um motor Evinrude de 60hp. Enviou-o como encomenda expressa. Eu dei a ele uma jaqueta de caça. Não preciso dizer que fiquei danado de humilhado. Harry inclinou compreensivo a cabeça. — Bem, recebi uma carta dele há umas seis semanas e ele parecia um garoto que ganhou um passe livre para o circo. Parece que ele e seus amigos juntaram uns trocados e compraram um pacote para um lugar no México, uma espécie de zona livre de tiro… — Uma zona de caça sem limite ao número de peças abatidas? — Sim, é isso mesmo. — Fred soltou uma pequena risada. — O cara pode atirar tanto quanto quiser.

Os proprietários mantêm o lugar abastecido de caça. Veados, antílopes, ursos, bisões. Tudo. — Esse lugar seria Boca Rio? — Realmente, não me lembro. Acho que o nome era mais comprido do que esse. Os olhos de Harry tornaram-se levemente sonhadores. — Esse cara que acaba de sair daqui, eu e dois outros fomos para Boca Rio em 1965. Matei uma zebra! Uma zebra de verdade! Mandei empalhá-la e ela está em minha sala de troféus lá em casa. Foi o melhor tempo que já passei em toda minha vida. Tenho inveja de seu primo. — Bem, conversei sobre isso com minha mulher — disse Fred —, e ela me disse para ir emfrente. Tivemos um ano muito bom na lavanderia. Eu trabalho na Blue Ribbon Laundry, que fica lá em Western. — Eu sei onde fica. Achou que podia continuar a conversar com Harry o dia inteiro, pelo resto do ano, e com verdades e mentiras bordar uma bela e vistosa tapeçaria. O mundo que se lixasse. O diabo levasse o racionamento de gasolina, o alto preço da carne e o duvidoso cessar-fogo. E que pudessem conversar sobre primos que nunca existiram, certo, Fred? Certo, Georgie. — Este ano, conseguimos a conta do Central Hospital de doentes mentais e também de três novos motéis. — O Quality Motor Court, na Franklin Avenue, é um de seus clientes. — Sim, é. — Hospedei-me lá umas duas vezes — disse Harry. — Os lençóis são sempre muito limpos. Engraçado, a gente nunca pensa em quem lava os lençóis quando se hospeda num motel. — Bem, tivemos um ano muito bom e eu pensei, talvez eu possa dar de presente a Nick um fuzil e uma pistola.

Sei que ele sempre quis um Magnum .44, ouvi-o falar nisso certa vez… Harry trouxe o Magnum e colocou-o com cuidado em cima do balcão de vidro. Fred levantou-o. Sopesou-o. A arma parecia ser capaz de dar conta de um recado. Recolocou-o sobre o balcão. — A carga dessa arma… — começou Harry. Fred riu e levantou a mão. — Não me convença. Já estou convencido. Um ignorante sempre se convence a si mesmo. Quanta munição devo levar com a arma? Harry encolheu os ombros. — Dê a ele umas dez caixas, por que não? Ele poderá sempre conseguir mais. O preço da arma é 289 dólares, fora o imposto, mas vou fazer 280 para o senhor, incluída a munição. Que tal isso? — Super — retrucou Fred, acreditando no que dizia. Em seguida, porque achou que algo mais era necessário, acrescentou: — É uma bela arma. — Se é para Boca Rio que ele vai, poderá usá-la bem. — Agora, o fuzil… — O que é que ele tem? Fred encolheu os ombros e abriu as mãos. — Sinto muito, mas realmente não sei. Duas ou três espingardas e uma que ele chama de automuniciamento… — Remington? Harry fez a pergunta tão rapidamente que ficou com medo. Era como se estivesse andando comágua pela cintura e subitamente caísse num buraco. — Acho que sim. Mas posso estar enganado. — A Remington é que fabrica as melhores — explicou Harry e inclinou a cabeça, pondo-o à vontade novamente. — Em matéria de preço, até aonde o senhor quer ir? — Bem, vou ser honesto com o senhor.

O motor custou a ele provavelmente uns quatrocentos dólares. Eu gostaria de ir até pelo menos quinhentos. Seiscentos como máximo. — O senhor e esse primo são realmente muito amigos, não? — Nós crescemos juntos — retrucou Fred, com toda sinceridade. — Acho que daria meu braço direito a ele, se ele quisesse. — Bem, vou lhe mostrar uma coisa — disse Harry. Tirou uma chave de um molho e dirigiu-se a um dos armários envidraçados. Abriu-o, subiu num tamborete e desceu um comprido e pesado fuzil com coronha trabalhada. — Este aqui pode ser um pouco mais caro do que o teto que o senhor estabeleceu, mas é uma bela arma. Harry entregou-lhe o fuzil. — O que é isso? — Essa arma é uma Weatherbee 4-60. Utiliza munição de maior calibre do que a que tenho neste momento na loja. Eu teria que encomendar a Chicago todos os projéteis que o senhor quiser. Levaria uma semana, mais ou menos. É uma arma com equilíbrio perfeito. A energia de saída desse bebê é de mais de 450kg… mais ou menos como atingir alguma coisa com uma limusine de aeroporto. Se atingir um alce na cabeça com esta arma, terá que contentar-se com a cauda dele como troféu. — Não sei — disse Fred, parecendo em dúvida, embora já houvesse resolvido que queria aquela arma. — Sei que Nick gosta de ter troféus. Faz parte do… — Claro que faz — concordou Harry, abrindo a câmara do Weatherbee. O buraco parecia suficientemente grande para alojar um pombo. — Ninguém vai a Boca Rio para comer. De modo que seu primo atira pra valer. Com esta peça, o caçador não tem que preocupar-se em seguir o animal por 30km através de terreno acidentado, o animal sofrendo o tempo todo, para nada dizer de perder o jantar. Este bebê aqui é tiro e queda.

— Quantos? — Bem, vou ser franco com o senhor. Não consigo vendê-lo nesta cidade. Quem quer um canhão antitanque quando por aqui nada mais há para caçar, com exceção de faisões? E se põe o faisão na mesa, parece que a gente está comendo fumaça de escape. É vendido no comércio a 950 dólares e a atacadistas por 630.O senhor pode levá-lo por 700 dólares. — A conta total, neste caso, vai a quase… mil dólares. — Nós damos um desconto de 10% em compras acima de 300 dólares. O desconto reduz o total para 900. — Encolheu os ombros. — Dê esta arma a seu primo. Aposto que ele não tem uma igual. Se tiver, recompro a arma por 750 dólares. E ponho isto por escrito, tão certo estou do que digo. — Não está brincando? — Absolutamente. Absolutamente. Claro, se é caro demais, tudo bem. O senhor pode examinar outras armas. Mas se ele é realmente maluco por armas, não tenho outra coisa da qual ele quereria ter duas. — Compreendo. — Fred adotou uma expressão pensativa. — Tem telefone? — Claro, lá nos fundos. Quer telefonar pra sua mulher e conversar com ela. — Acho que seria melhor. — Claro. Venha comigo.

Harry levou-o para uma atravancada sala nos fundos da loja. Havia aí uma bancada de madeira toda arranhada coberta de peças de armas, molas, fluido de limpeza, panfletos e garrafas etiquetadas cheia de projéteis de chumbo. — O telefone fica ali — indica Harry. Fred sentou-se, tirou o aparelho do gancho e discou, enquanto Harry voltava à loja para pegar o Magnum e colocá-lo numa caixa. — “Muito obrigada por ligar para o serviço de Meteorologia da WDST — disse uma alegre voz gravada. — Esta tarde, borrifos de neve que se transformarão em leve queda de neve à noite…” — Oi, Mary? — disse ele. — Escute, estou numa loja chamada Casa Harvey, Armas e Munições. Sim, é a respeito de Nicky. Comprei a pistola sobre a qual falamos, não houve problema. No mostruário havia exatamente o que queríamos. Depois, o moço me mostrou um fuzil… — “…melhorando pela tarde de amanhã. As mais baixas temperaturas hoje à noite oscilarão entre 1°C e 4°C e amanhã deverá variar entre 7°C e 9°C. As probabilidades de precipitação hoje à noite…” -…de modo que, o que é que você acha que devo fazer? Harry encontrava-se nesse momento à soleira da porta, às suas costas. Podia ver-lhe a sombra. — Sim — disse. — Sei disso. — “Obrigada por ligar para o Serviço de Meteorologia da WDST e não esqueça de assistir ao Notícias-mais-60, com Bob Reynolds, todos os dias da semana às 6h da tarde, para obter um boletimatualizado. Adeus”. — Você não está brincando. Sei que é um bocado de dinheiro. — “Muito obrigada por ligar para o Serviço de Meteorologia da WDST. — Esta tarde, borrifos de neve que se transformarão em leve queda de neve à noite…” — Tem mesmo certeza, amor? — “As probabilidades de precipitação hoje à noite são de 80%. Amanhã… — Bem, tudo bem. — Virou-se no banco, sorriu para Harry, e formou um círculo com o polegar direito e o indicador. — Ele é uma cara bacana.

Ela disse que garantia que Nick não tem uma arma igual. — “…tarde de amanhã. As mais baixas temperaturas hoje à noite…” — Eu te amo também, Mary. Tchau. Desligou. Jesus, Freddy, essa foi bem feita. Foi, George. Foi. Levantou-se. — Disse para eu ir em frente, se achar que devo. Acho. Harry sorriu. — O que é que o senhor vai fazer se ele lhe enviar um Thunderbird? Fred retribuiu o sorriso. — Devolverei, sem abrir o embrulho. Quando voltavam para a loja, Harry perguntou: — Cheque ou a debitar? — American Express, se aceitável. — Tão bom como ouro. Puxou do bolso o cartão de crédito. Nas costas, escrito na fita especial, o nome: BARTON GEORGE DAWES — Tem certeza de que os cartuchos chegarão a tempo de eu enviar tudo junto a Fred? Harry ergueu a vista da fatura do cartão de crédito. — Fred? O sorriso de Fred expandiu-se. — Nick é Fred e Fred é Nick — explicou. — Nicholas Frederic Adams. É uma espécie de brincadeira sobre o nome. De nosso tempo de garotos. — Oh. — Harry sorriu polidamente como acontece quando a gente não entende uma piada.

—Quer fazer o favor de assinar aqui? Fred assinou. Harry tirou um livro de baixo do balcão, um livro pesado, com uma corrente de aço passada através do canto superior esquerdo, perto da lombada. — E agora seu nome e endereço aqui, para a polícia federal. Fred sentiu os dedos se contraíremem volta da caneta. — Claro — disse. — Olhe pra mim, nunca comprei uma arma em toda minha vida e sou louco. Escreveu no livro o nome e endereço. Barton George Dawes, 1241 Crestallen Street West — Eles se metem em tudo — disse. — Isso não é nada em comparação com o que gostaria de fazer — observou Harry. — Eu sei. Sabe o que ouvi no noticiário um dia destes? Querem uma lei estabelecendo que caras que dirigem motos têm que usar um protetor de boca. Um protetor de boca, pelo amor de Deus. Agora, é assunto do governo se um cara quer arriscar perder seu teclado? — Não, na minha opinião não é — respondeu Harry, guardando o livro sob o balcão. — Ou veja aquela ampliação da auto-estrada que estão construindo em Western. Um topógrafo cretino diz “Vai passar por aqui” e o estado envia um bocado de cartas e elas dizem: “Lamentamos muito, mas a ampliação da 784 vai passar por aqui. O senhor tem um ano para procurar uma nova casa”. — Isso é uma grande vergonha. — Ora, se é. O que é que “domínio iminente” significa para um cara que morou na droga da casa durante 20 anos? Fez amor com a esposa lá, criou nela os filhos e é o lugar para onde volta após uma viagem. Isso é simplesmente um troço que tiraram de um livro de direito e que interpretam de maneira a roubar mais tranqüilamente a gente. Cuidado, cuidado! O disjuntor de circuito, porém, foi um pouco lento dessa vez e deixou passar alguma coisa. — O senhor está se sentindo bem? — perguntou Harry. — Estou. Comi no almoço um desses sanduíches enfeitados. Não devia ter feito isso.

Eles me provocaram um bocado de gases. — Experimente um destes — disse Harry, e tirou uma fita de comprimidos do bolso da camisa. Na parte externa estava escrito: ROLAIDS — Obrigado — disse Fred. Pegou um dos comprimidos e levou-o à boca, não se importando com o pedacinho de papel que veio colado ao remédio. Olhe para mim. Estou num comercial da TV. Consome 47 vezes seu próprio peso em excesso de ácido estomacal. — Eles sempre resolvem o problema no meu caso — garantiu Harry. — A respeito da munição… — Certo. Uma semana. Não mais de duas. Vou-lhe conseguir setenta tiros. — Bem, que tal eu deixar as armas aqui mesmo? Ponha meu nome nelas ou coisa assim. Acho que é tolice minha, mas não quero realmente essas armas em casa. Tolice, não é? — Cada louco com sua mania — disse afavelmente Harry. — Tudo bem. Anote aí o número de meu escritório. Quando essas balas chegarem… — Cartuchos — interrompeu-o Harry. — Cartuchos ou cargas. — Cartuchos — disse Fred, sorrindo. — Quando chegarem, dê-me um telefonema. Pegarei as armas e providenciarei o aviso delas. O correio transporta armas, não? — Claro. Seu primo vai ter que assinar um recibo quando as receber, só isso. Escreveu o nome em um dos cartões comerciais de Harry, que dizia: Harold Swinnerton 849-6330 CASA HARVEY — ARMAS Munição Armas antigas — Hei — disse —, se você é Harold, quem é Harvey? — Harvey era meu irmão.

Morreu há oito anos. — Oh, sinto muito. — Todos nós sentimos. Ele chegou aqui certo dia, abriu a loja; zerou a caixa registradora e caiu morto com um ataque do coração. Um dos homens mais doces que se poderia imaginar. Podia abater um cervo a 200m de distância. Ele estendeu a mão e apertou a do proprietário. — Eu lhe darei um telefonema — prometeu Harry. — Cuide bem de minhas armas. Saiu novamente para a neve que caía, passou pela manchete CONTINUA O DUVIDOSO CESSAR-FOGO. A neve caía com mais força nesse momento e deixara as luvas em casa. O que era que você estava fazendo lá dentro, George? Um estalido e o disjuntor de circuito foi acionado. Ao chegar ao ponto de ônibus, aquilo podia ter sido um incidente sobre o qual lera em algumlugar. Não mais do que isso. Crestallen Street West era uma rua comprida que descia em curva e desfrutara uma excelente vista do parque e do rio até que o progresso interviera sob a forma de um alto prédio de apartamentos. Construído na Westfield Avenue dois anos antes, o prédio bloqueara a maior parte da paisagem. O número 1241 era uma casa estilo rancho em vários níveis, com garagem para um carro ao lado. Possuía um longo pátio fronteiro, nesse momento estéril e à espera de ser coberto pela neve — neve de verdade. A entrada de automóveis era de asfalto, recapeada e quente na primavera anterior. Entrou e ouviu a TV, o novo modelo de gabinete Zenith que haviam comprado no verão. No telhado havia uma antena orientável que ele mesmo instalara. Ela não quisera por causa do que se supunha que ia acontecer, mas ele insistira. Se podia ser montada, raciocinara, podia ser desmontada quando se mudassem dali. Bart, não seja tolo. É simplesmente uma despesa extra… apenas umtrabalho extra pra você.

Ele, porém, resistira mais e ela finalmente dissera que ia fazer “a vontade” dele. Era isso o que ela dizia nas raras ocasiões em que ele se importava o suficiente com uma coisa para forçá-la através do melado pegajoso dos argumentos da mulher. Tudo bem, Bart. desta vez vou fazer sua “vontade”. Nesse momento ela assistia a um programa em que Mery Griffin conversava com uma celebridade. A celebridade era Lorne Green, que falava sobre sua nova série policial, Grif . Lorne contava a ela como adorava fazer aquele programa. Logo depois, uma cantora negra (uma negra cantora, pensou) de quem nunca ninguém ouvira falar, apareceria para cantar, talvez, I left my heart in San Francisco. — Oi, Mary — disse. — Oi, Bart. Correspondência na mesa. Folheou-a rapidamente. Uma carta para Mary enviada pela irmã ligeiramente psicótica que morava em Baltimore. Uma fatura do cartão de crédito Gulf — 38 dólares. Um extrato de conta corrente: 49 débitos, 9 créditos, saldo de US$954.47. Fora uma boa coisa ter usado o cartão da American Express na loja de armas. — O café está quente — gritou Mary da sala. — Ou prefere um drinque? — Um drinque — respondeu ele. — Eu mesmo vou preparar. Três outras cartas: uma notícia de atraso de devolução, da biblioteca, pelo livro Facing the Lions, de Tom Wicker. Wicker falara em um almoço do Rotary há um mês e fora o melhor orador que ouvira em anos. Uma nota pessoal de Stephan Ordner, um dos altos executivos da Amroco, a empresa que nesse momento era a proprietária quase total da Blue Ribbon. Ordner convidava-o a aparecer por lá a fimde discutirem aquela questão Waterford. Sexta-feira seria conveniente ou ele estaria pensando em viajar no Dia de Ação de Graças? Se assim, telefonasse.

Se não, trouxesse Mary. Carla sempre gostava de bater um papo com Mary, e blablablá, blablablá, etc. e tal. E outra carta do departamento de estradas de rodagem. À luz da tarde cinzenta que caía pelas janelas ficou olhando durante muito tempo para a carta. Emseguida colocou a correspondência em cima do aparador. Preparou um uísque com gelo e levou-o para a sala de estar. Merv continuava prosando com Lorne. A cor na nova televisão Zenith era melhor do que boa, quase desaparecera. Se nossos mísseis balísticos internacionais forem tão bons como nossas televisões, pensou, algum dia vai haver uma explosão danada de grande. Os cabelos de Lorne eramcor de prata, a tonalidade concebível mais impossível de prata. Poxa, se estivesse aí eu lhe arrancava essa peruca e você ia aparecer careca como é, pensou, soltou uma risadinha. Aquela fora uma das frases favoritas de sua mãe. Não sabia bem por que a imagem de um Lorne Greene careca era tão divertida. Um leve ataque de histeria atrasada após o episódio na loja de armas, talvez. Mary ergueu a vista, um sorriso nos lábios. — Uma piada engraçada? — Nada — respondeu ele. — Apenas uma coisa que pensei. Sentou-se ao lado da esposa e deu-lhe uma bicota no rosto. Era uma mulher alta, de 38 anos nessa ocasião e naquela crise de aparência em que a beleza anterior está resolvendo o que fazer com a meia-idade. A pele dela era boa, os seios pequenos e sem tendência para cair demais. Comia muito, mas seu metabolismo de esteira transportadora mantinha-a esbelta. Não era provável que tremesse ao pensamento de usar um maiô numa praia pública dentro de dez anos, por mais que os deuses resolvessem dispor do resto de sua embalagem. Esses pensamentos tornaram-no consciente de sua barriguinha. Diabo, Freddy, todo executivo tem uma barriguinha.

É um símbolo de sucesso, tal como um Delta 88. Isso mesmo, George. Cuidado com o coração e os cigarros cancerígenos e você ainda chega aos oitenta. — Como é que foram hoje as coisas? — perguntou ela. — Bem. — Foi ver a nova instalação em Waterford?

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