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A Aventura em Budapeste – Ferenc Kormendi

Inaugurando a nossa coleção de “Obras primas contemporâneas”, obteve este romance um dos mais decisivos êxitos do mercado livreiro português, registrados nestes últimos anos. Não só com singular brevidade, se esgotou a sua primeira edição como ainda depois persistiram os pedidos do livro, e isto em tal afluência que tivemos de olhar o caso como imperativa intimação do público para que o puséssemos de novo ao seu alcance: eis por que, após revisão do tradutor, hoje se reimprime. Ficou dito na nota preambular da anterior tiragem que tem uma história a sublinhar-lhe o mérito. Mantém-se a oportunidade de referi-la, ainda que sumariamente. Associados, em 1932, os principais editores ingleses e americanos na fundação de um Prémio Internacional do Romance (“International Novel Competition”), de entre nada menos que dois mil e quinhentos manuscritos, redigidos em muitos idiomas, que concorreram ao certame, foi este, o da , que o respectivo e exigente Júri elegeu como digno do cobiçável Prémio. O seu autor – como não tardou em saber-se – era um jovem húngaro, nessa data na precária situação de desempregado bancário, até então desconhecido no mundo das letras e quiçá ignorante ele próprio da pujança do seu talento. De súbito viu-se, assim, elevado aos cumes da fama e convertida a sua penúria emfortuna: bastara dizer-se que imediatamente foi traduzida para quinze línguas europeias e americanas. Aberta diante de si tão auspiciosa carreira, outras obras F. Körmendi se apressou a escrever, sem trair as responsabilidades impostas pela estréia, contando-se entre elas o curiosíssimo romance O EQUÍVOCO, também já traduzido para português e editado pela nossa Casa. Encarando especialmente é lícito perguntar: qual a razão do seu “fulminante” triunfo? A resposta é fácil: o haver neste romance “a pintura fiel duma época”, a do autor e a nossa, aquela que a Grande Guerra de 1914-1918 deixou juncada de escombros e de ideologias antagónicas, de costumes livres e de desenfreadas ambições. Arguto observador, psicólogo que consegue ver os homens e os factos como eles são e que não hesita em descrevê-los com verdade crua, o romancista elaborou umdocumentário estupendamente fidedigno sobre a sociedade contemporânea. E achando-se esta retratada com flagrância nas suas páginas como em poucos mais romances dos últimos anos – porque se a Hungria, país natal de Körmendi, conheceu mais cedo e com maior intensidade toda a gama das modernas convulsões sociais, o certo é que todos os restantes povos, mais ou menos vieram a sentir (e continuam sentindo) os seus efeitos, dos quais o mais terrível é a incerteza do futuro para as gerações novas, em cujos espíritos se fez como que um “vácuo de esperança”, – o êxito do livro era fatal. Deste modo – e assim o assinalou por toda a parte a crítica – e aparece não só como o mais palpitante romance da Hungria em dramática convalescença, como também um dos mais vigorosos e de mais amplo significado humano que as diversas literaturas de hoje têm produzido. Reeditando-o, orgulha-nos verificar que o nosso público, tão apto como os alheios a apreciar as obras-primas, de pronto lhe pulseou o valor e lhe concedeu a consagração. OS EDITORES PRIMEIRA PARTE A IDEIA CAPÍTULO I Os “companheiros” reuniam-se no café pelas dez horas da noite. Os “companheiros” eram rapazes de Budapeste, de trinta e dois a trinta e cinco anos, antigos condiscípulos do liceu, o único laço que os prendia agora era, por assim dizer, apenas essa denominação de “companheiros”, pela qual se designavam entre si. Noutro tempo, na escola, haviamformado um grupo; pelo menos, a maior parte dos frequentadores destas reuniões do café pertenceu no mesmo rancho. A promiscuidade dos assentos escolares, a uniformidade de seus interesses, a semelhança de suas aptidões e, até certo ponto, a classe e a situação económica das respectivas famílias, tinham agrupado os companheiros. Quanto eram diferentes uns dos outros, ou quanto assim se haviam tornado, não o compreenderamsenão no dia em que o banco da escola foi substituído pela mesa redonda de mármore do café, o tinteiro pela chávena, e quando às dores de barriga perante as perguntas-de-algibeira sucedeu o medo das responsabilidades. Pouco a pouco, alguns desertaram do grupo, enquanto outros, que a princípio se tinham mantido de lado, se lhe juntaram. Nenhum deles se apercebeu, provavelmente, de que o tempo tinha quebrado, há muito, os laços outrora existentes entre eles, de que a sua união assentava, afinal, no hábito cotidiano e não possuía sombra de intimidade. Inicialmente, haviam sido dois ou três a reunirem-se por acaso, durante os dias turvos e inconscientes e as noites de pânico; mais tarde surgiram outros rostos conhecidos: a sociedade ampliara-se. Havia os que “à chucha calada” pediam umas coroas emprestadas ao vizinho; mas havia também quem, uma dada noite, chegava ao café num automóvel novinho em folha. Um negociante de móveis que casara cedo trouxera a mulher junto dos companheiros. Todos esquadrinharam, da cabeça aos pés, mas disfarçadamente, a casadinha de fresco; trocaram entre si olhares furtivos, dando estalos com a língua como faria um gastrónomo perante iguaria delicada; depois, aproximando as cabeças, mas semmais cerimónias, puseram-se a pormenorizar os encantos da senhorita.


Ela a princípio ficara embaraçada, achando-se constrangida em tal companhia; mas, pouco a pouco, fora-se afazendo àquilo, pusera-se a rir das facécias e das anedotas de liceu, e tinha acabado por se mover comnaturalidade junto do lorpa do marido e sob os fogos cruzados dos olhares ávidos desses caloiros de vinte anos atrás. Um proferira a frase perigosa “noite de núpcias”, e, a partir do momento, era de temer a crepitação de inequívocos atrevimentos; o negociante de móveis tinha-se erguido então e o juvenil casal despedira-se. Unanimemente, os “companheiros” haviam sentenciado: uma mulher assombrosa! Depois, o assunto ficara arrumado: o negociante de móveis não tornara a trazer a mulher e, passados tempos, ele mesmo deixara de vir. Em compensação, viera outro: Suhajda. Usava o barrete de pala dos estudantes, o seu porte era correto; fácil era, todavia, notar que não gostava de dirigir a palavra a certos membros da sociedade. Às vezes o nome dele andava em realce nos jornais, relacionado com assuntos universitários; murmuravam-se até, a seu respeito, certas histórias; pretendia alguém tê-lo visto, de mistura com oficiais, num automóvel que rodava pela estrada de Vacs {1} . Mas, em suma, tudo aquilo não passava do “diz-se”; e como Suhajda não aparecera ali, no primeiro ano, mais do que uma ou duas vezes e como, aliás, não incomodara ninguém, os outros não se inquietavam muito com ele. Depois, alguns deles não voltaram mais; mas em seu lugar surgiramoutras caras conhecidas: Kürschner, regressado do cativeiro na Rússia; Tiszay, que apresentava a perna direita postiça; Schwarz, com uma ligadura negra sobre o olho direito. Efetivamente, na sua maioria haviam sido chamados às fileiras logo após o bacharelado; muitos serviram no mesmo regimento, mas a maior parte começara a dispersar-se no dia imediato ao do banquete de fim de curso e não voltara a encontrar-se, salvo nessa época, em redor da mesa do café. Estes serões eram agradáveis; por vezes, é certo, uma fala, uma palavra sofriam desvio ao ponto de evocarem as granadas da Flandres, as trincheiras piolhosas de Volhynia, as defesas de arame farpado de Krasnojarsk, a infecta cevada cozida e os tumultos das ruas, de triste memória; – porémimediatamente a voz importuna era expulsa por uma nota de premeditado bom-humor: “Olha lá, JoséPolgár, lembras-te de uma vez, no corredor …” Durou isto três ou quatro anos. Havia serões vazios e serões em cheio; numa dada ocasião, durante seis meses, o número dos “companheiros” elevou-se a vinte e cinco; alugaram, então, no café uma sala especial para as suas reuniões. Quando, depois, alguns começaram a deixar de vir, houve necessidade de espaçar as reuniões. Passaram a juntar-se só de quinze em quinze dias e, após o banquete do décimo aniversário do bacharelado, combinaram reunir-se apenas na quinta-feira última de cada mês. O seu número já não ia além de quinze. Esse banquete do décimo aniversário fora muito concorrido. Tinham faltado somente os que se encontravam no estrangeiro: Cseh, que era chefe de engenheiros numa fábrica de produtos químicos de Francfort; Bortkó, expedido para a Rússia em 1920, quando duma troca de prisioneiros; Kádár, que em 1919 desaparecera de Budapeste e em que ninguém mais tornara a pôr a vista em cima; Szalay, secretário na delegação de Paris; Bamberger, que vivia em Hollywood com um tio, rei do cinema. Na noite do banquete haviam-se reunido em massa pela última vez: quarenta e sete. Examinaram-se reciprocamente quanto à indumentária; inquiriram-se mutuamente da sua saúde, da sua situação; acolheram o relato das lamentações ostensivamente francas de uns e as gabarolices generosamente atenuadas de outros; pronunciaram brindes, gracejaram, riram, formularam amistosos votos a despeito de se sentirem, por natureza, estranhos de todo entre si; e, dada a meia-noite, mais de um se levantou da mesa com o sentimento tranquilizador de que por cinco anos, até à reunião seguinte, nada mais teria a tratar com aquelas criaturas. Apesar disso, esses dez ou quinze rapazes continuaram a encontrar-se, apegados uns aos outros à força do hábito e por causa do serão mensal, que à sua imaginação aparecia como isento de cuidados. Viviam uns com desafogo; outros eram pobres; havia entre eles casados e celibatários, cristãos e judeus,) gracejadores e homens deveras sisudos. Nenhum destes rapazes de Budapeste conseguira uma carreira e todos o sabiam perfeitamente semque nunca falassem em tal. Nas fontes duns já brilhavam cabelos brancos; o alto da cabeça doutros começava discretamente a desplumar-se; passavam-lhes por cima os anos e eles não reparavam senão numa coisa única, ou seja que os “companheiros” se divertiam, em volta de uma mesa redonda. CAPÍTULO II No começo de novembro, na sala de espera dum dentista, sucedeu cair nas mãos de Kelemen umjornal ilustrado, em que determinada gravura lhe provocou especial atenção. Notava-se nela, ao fundo, um belo portal vedado por arames, que tinha diante uma espécie de toldo. Um homem ainda novo trajando de escuro encontrava-se na frente desse toldo; defronte dele, uma multidão de pessoas, algumas das quais com uniformes brilhantes.

Por baixo da foto havia a seguinte legenda: “Pôrto-Isabel, Cabo. – O sr. A. T. Cadar (nº 1), o célebre arquiteto de origem húngara, recebe as autoridades no ato da inauguração da sua nova cidade-jardim, que abrange oitocentos pavilhões. Esta cidade-jardim, cujo encanto se torna impossível imaginar e que sem parceira na superfície do globo, está situada a setecentos quilómetros da antiga povoação, a beira . Grande número de notabilidades da África do Sul apressaram-se a adquirir ou a alugar vivendas nesse sítio, para passarem as férias ou o week-end {2} . Esta cidade jardim, com as suas edificações do mais moderno estilo, os seus magníficos campos desportivos, o seu Casino e o seu cinema, constitui verdadeiro ornamento e jóia única em todo o Império Britânico. Em virtude do sr. Cadar ter ali construído e oferecido ao Estado um amplo sanatório para crianças e bem assim uma quantidade doutros edifícios de utilidade pública, o governo consentiu que à nova localidade fosse dado o nome da esposa do sr. Cadar, “Bairro Helena”, e fez-se representar na inauguração. Os chefes da Comissão Oficial são o general L. I. Baldwin (nº 2), Sir Kobert Hall (nº 3), governador civil de Pôrto-Isabel, e Mrs. Elisa Beitner-Dirk, diretora da Repartição de Higiene do distrito (nº 4). A seu lado, está Mrs. Helena Cadar (nº 5) Kelemen olhou a fotografia, correu a vista pelo texto, e como não compreendia o inglês continuou a folhear distraidamente a revista; depois, como o olhar se lhe detivera involuntariamente na palavra “Húngaro”, voltou à aludida página e releu todas as palavras do texto que era capaz de entender: “Mr. A. T. Cadar, the famous architect of Hungarian oiigin”. Aproximou dos olhos a revista, observou o homem que estava na frente do toldo, e em seguida repo-la em seu lugar. “Aposto que aquele idiota, com a folha de papel na mão, é o Tony {3} Kádár.” Novamente examinou o texto e experimentou decifrá-lo, sem o conseguir. Todavia, teimou em seguir até às palavras: “A seu lado, está Mrs. Helena Cadar (nº 5) “Isto aqui quer dizer a Senhora de Kádár; ele deve-se ter casado.

” Voltou a fixar a imagem, tentou distinguir a figura da mulher, mas na página um tanto amarrotada, nada mais apercebeu de que uma mulher de estatura mediana, vestida de preto; não se lhe podiam apreciar as feições. “Quem é que pôde casar-se com um idiota daqueles?” pensou, enquanto voltava a colocar a revista sobre a mesa.

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