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A balada de Adam Henry – Ian McEwan

Londres. Sessões do tribunal encerradas havia uma semana. O tempo implacável de junho. Fiona Maye, juíza do Tribunal Superior, em casa na noite de domingo e deitada numa chaise longue, olha além de seus pés calçados com meia para o fundo da sala e a vista parcial das estantes embutidas junto à lareira; do lado oposto, perto de uma janela alta, uma pequena litografia de Renoir representando uma mulher no banho, comprada trinta anos atrás por cinquenta libras. Provavelmente falsa. Abaixo da gravura, no centro de uma mesa redonda de nogueira, um vaso azul. Nenhuma recordação de sua origem. Nem de quando pusera flores nele pela última vez. Havia um ano a lareira não era acesa. Gotas de chuva enegrecidas caíam de forma irregular no suporte de ferro da lareira, estalando ao se chocarem com as folhas de jornal amarrotadas que já começavam a amarelar com o passar do tempo. Um tapete Bokhara cobrindo as largas tábuas enceradas. Na margem de seu campo de visão, um piano de cauda curta sobre cujo tampo negro e reluzente se viam fotografias da família em molduras de prata. No chão, ao lado da chaise longue e a seu alcance, o rascunho de uma sentença. E Fiona, deitada de costas, desejando que todas aquelas coisas fossem parar no fundo do mar. Na sua mão, o segundo copo de uísque com água. Ela estava trêmula depois de uma discussão muito desagradável com o marido. Raramente bebia, mas o Talisker com água da torneira era um bálsamo, e ela pensou que poderia atravessar a sala até o aparador para se servir de um terceiro. Menos uísque, mais água, pois estaria no tribunal amanhã e agora era a juíza de plantão, disponível para atender a qualquer pedido repentino embora ainda estivesse se recuperando. Ele tinha feito uma declaração chocante e lhe imposto um fardo insuportável. Pela primeira vez em anos ela havia de fato gritado, e um tênue eco ainda soava em seus ouvidos. “Seu idiota! Seu idiota de merda!” Desde suas visitas alegres a Newcastle, quando adolescente, ela não tinha dito um único palavrão em voz alta, embora alguma palavra possante vez por outra invadisse seus pensamentos quando ouvia uma argumentação interesseira ou uma opinião legal irrelevante. E então, não muito depois, ofegante com o insulto, disse em voz alta pelo menos duas vezes: “Como você ousa me dizer isso?”. Não chegava a ser uma pergunta, mas ele respondeu calmamente. “Eu preciso. Tenho cinquenta e nove anos.


É minha última chance. Ainda não me mostraram nenhuma prova de vida no Além.” Um comentário presunçoso, e ela ficou sem palavras. Apenas o olhou fixamente, talvez de boca aberta. Agora, deitada na chaise longue, lhe ocorreu a resposta: “Cinquenta e nove? Jack, você temsessenta! É patético, é vulgar”. Na verdade, o que ela havia dito, sem muita convicção, foi: “Isso é ridículo demais!”. “Fiona, qual foi a última vez que fizemos sexo?” Quando tinha sido? Ele já havia perguntado isso antes, em tons que variavam do queixoso ao irritadiço. Mas o passado recente, movimentado demais, é difícil de recordar. A Vara de Família fervilhava com estranhos conflitos, argumentos especiosos, meias verdades íntimas, acusações exóticas. E, como em todos os ramos do direito, pequenas peculiaridades circunstanciais precisavamser assimiladas rapidamente. Na semana anterior ela ouvira as alegações finais de um casal de judeus, com graus diversos de ortodoxia, que estava se divorciando e disputava a educação das filhas. O rascunho da decisão estava no chão ao lado dela. No dia seguinte, se apresentaria diante dela uma inglesa desesperada, magérrima e pálida, altamente educada, convencida de que, malgrado as garantias dadas pela corte, sua filha estava prestes a ser levada pelo pai, um homem de negócios marroquino e muçulmano praticante, para viver em Rabat, onde ele pretendia se instalar definitivamente. Além disso, disputas rotineiras sobre a residência de crianças, casas, pensões, rendas, heranças. Só as grandes fortunas vinham ao Tribunal Superior. A riqueza em geral não conseguia trazer uma felicidade duradoura. Os pais logo aprendiam o novo vocabulário e os procedimentos legais aplicáveis às crianças, pasmos ao se verem combatendo a pessoa que um dia haviam amado. E, aguardando nos bastidores, meninos e meninas identificados apenas pelo primeiro nome nos documentos constantes dos processos, pequenos Bens e Sarahs, atônitos, se abraçando enquanto os deuses acima deles batalhavam até o amargo fim, indo da Vara de Família para o Tribunal Superior e de lá para o Tribunal de Recursos. Todo esse sofrimento tinha temas em comum, refletindo a uniformidade dos comportamentos humanos, mas continuava a fasciná-la. Ela acreditava ser capaz de injetar razoabilidade em situações onde não havia mais esperança. De modo geral, acreditava nos preceitos da Lei da Criança. Emmomentos de otimismo, considerava esse estatuto um marco importante no progresso da civilização, por colocar, num texto legal, as necessidades das crianças acima das de seus pais. Os dias de Fiona Maye eram cheios e à noite, recentemente, se sucediam os jantares, uma comemoração no Middle Temple Hall em homenagem a um colega que se aposentava, um concerto no Kings Place (Schubert, Scriabin), e táxis, metrô, roupas para buscar na lavanderia, a redação de uma carta a fim de arranjar uma escola especial para o filho autista da arrumadeira e, por fim, algumas horas de sono. Onde entrava o sexo? No momento, ela não sabia dizer. “Eu não costumo anotar.

” Ele estendeu as mãos, encerrando a discussão. Ela o viu atravessar a sala e se servir de uma dose de uísque, o Talisker que ela estava bebendo. Ultimamente ele parecia mais alto, com movimentos mais ágeis. Enquanto observava suas costas, veio-lhe a fria premonição de que seria rejeitada, a humilhação de ser trocada por uma mulher mais jovem, deixada para trás, inútil e solitária. Ela se perguntou se deveria simplesmente aceitar qualquer coisa que ele quisesse, mas depois rechaçou esse pensamento. Ele havia caminhado na direção dela com o copo na mão e sem oferecer o Sancerre, como costumava fazer naquela hora. “O que você quer, Jack?” “Vou viver esse caso.” “Você quer se divorciar.” “Não. Quero que fique tudo igual. Sem falsidades.” “Não entendo.” “Entende, sim. Você não me disse certa vez que pessoas casadas por muito tempo acabam tendo vontade de se tornar irmão e irmã? Pois chegamos lá, Fiona. Eu me tornei seu irmão. É acolhedor, carinhoso, e eu te amo, mas antes de morrer quero viver uma grande paixão.” Interpretando erroneamente o arquejo de surpresa dela como uma risada, quem sabe como ummuxoxo zombeteiro, ele disse ríspido: “Êxtase, quase desmaiando de prazer. Lembra? Quero sentir isso outra vez, mesmo que você não queira. Ou talvez você queira.” Ela o olhou com uma expressão de descrença. “É isso aí.” Foi então que ela recobrou a voz e lhe disse que tipo de idiota ele era. Ela tinha uma forte convicção do que era convencionalmente correto. O fato de que, até onde Fiona sabia, ele sempre lhe fora fiel tornava a proposta ainda mais indecorosa. Ou, se ele a havia enganado antes, tinha feito isso de modo brilhante.

Ela já sabia o nome da mulher. Melanie. Bem próximo do nome de um tipo fatal de câncer de pele. Sabia que poderia ser reduzida a pó pelo romance dele com aquela especialista em estatística de vinte e oito anos de idade. “Se você fizer isso, está tudo terminado entre nós. Simples assim.” “É uma ameaça?” “Uma promessa solene.” A essa altura ela havia recuperado a calma. De fato parecia simples. A hora de propor um casamento aberto era antes da cerimônia e não trinta e cinco anos depois. Arriscar tudo o que tinham para que ele pudesse reviver um prazer sensual! Quando tentou se imaginar querendo algo semelhante para si própria — seu “último êxtase” seria seu primeiro —, só lhe vinham à mente confusão, encontros secretos, desapontamento, chamadas telefônicas em má hora. A dura tarefa de aprender a conviver com alguém novo na cama, inventar novas carícias, todo o fingimento. Ao final, a necessidade de desfazer o nó, o esforço exigido para abrir o jogo e ser sincera. Depois, nada mais como era antes. Não, ela preferia uma vida imperfeita, a que tinha agora. No entanto, deitada na chaise longue, diante dela se ergueu o insulto em sua verdadeira dimensão, o fato de que Jack estava preparado para pagar por seus prazeres com a infelicidade dela. Impiedoso. Ela o vira seguir em frente à custa de outras pessoas, quase sempre com uma boa razão. Isso era novo. O que teria mudado? Ao se servir do uísque de malte, ele ficara ereto, os pés bem afastados, os dedos da mão livre se movendo ao ritmo de uma canção que só ele ouvia, quem sabe uma canção compartilhada, mas não com ela. Ferindo-a e não ligando para isso — algo novo. Ele sempre fora amável, leal e bondoso. E, como a Vara de Família provava diariamente, a bondade era o ingrediente humano mais essencial. Ela tinha o poder de afastar uma criança de um pai insensível, e às vezes o fazia. Mas afastar a si mesma de um marido insensível? Quando se sentia frágil e solitária? Onde estava o juiz que iria protegê-la? A autocomiseração nos outros a incomodava, e agora ela se recusava a aceitar isso nela.

Melhor tomar um terceiro drinque. Mas só derramou uma dose pequena, adicionou muita água e voltou para a chaise longue. Sim, tinha sido o tipo de conversa que ela deveria ter anotado. Importante não se esquecer, avaliar a ofensa cuidadosamente. Quando ameaçara romper o casamento caso ele fosse em frente, Jack apenas se repetira, dizendo outra vez como a amava e sempre amaria, que não queria mudar de vida, que suas necessidades sexuais não atendidas lhe causavam grande infelicidade, que havia aquela oportunidade única que ele desejava aproveitar com o conhecimento dela e, assimesperava, com a concordância dela. Estava falando com toda a franqueza. Poderia ter feito às escondidas, “pelas costas dela”. Pelas costas magras e rancorosas dela. “Ah”, ela murmurou. “Muito decente de sua parte, Jack.” “Bom, na verdade…”, ele disse, e não terminou a frase. Fiona teve a impressão de que ele ia lhe dizer que a relação já havia começado, e ela não suportaria ouvir isso. Nem precisava. Viu tudo com clareza. Uma bonita especialista em estatística trabalhando com a probabilidade decrescente de que um marido voltasse para a esposa amargurada. Viu uma manhã ensolarada, um banheiro que não conhecia e Jack, ainda com uma musculatura apreciável, vestindo pela cabeça uma camisa de linho branco semiabotoada com seu jeitão impaciente, uma camisa usada sendo jogada na direção da cesta de roupa suja e ficando ali pendurada por uma das mangas antes de escorregar para o chão. Que horrível. Aconteceria, com ou sem sua concordância. “A resposta é não.” Ela havia usado um tom crescente, tal qual uma professorinha durona. Acrescentou: “O que você esperava que eu dissesse?”. Ela se sentia impotente e queria que a conversa terminasse. Havia uma decisão a ser finalizada antes do dia seguinte para publicação no Family Law Reports. O destino das duas estudantes judias já havia sido decidido na sentença que ela proferira no tribunal, mas ainda precisava trabalhar no texto, a fim de que ele ficasse mais elegante e à prova de qualquer recurso. Do lado de fora, a chuva de verão tamborilava nas janelas; ao longe, mais além da Gray’s Inn Square, os pneus sibilavam no asfalto encharcado.

Ele a abandonaria e o mundo seguiria em frente. Seu rosto tinha endurecido ao dar de ombros e se voltar para sair da sala. Vendo suas costas se afastarem, sentiu o mesmo medo gélido, e o teria chamado de volta não fosse o receio de ser ignorada. Mas o que poderia dizer? Me abrace, me beije, fique com a garota. Ela ouvira os passos dele no vestíbulo, a porta do quarto sendo fechada com firmeza e depois o silêncio invadindo o apartamento, o silêncio e a chuva que havia um mês não parava. Primeiro os fatos. As duas partes pertenciam aos círculos fechados da comunidade haredi do norte de Londres, composta de judeus ultraortodoxos. O casamento dos Bernstein havia sido arranjado por seus pais, que não esperavam ser questionados. Arranjado e não forçado, insistiam as duas partes num raro gesto de entendimento. Treze anos depois, todos concordavam — inclusive o mediador, o assistente social e a juíza — que se tratava de um matrimônio impossível de reparar. O casal estava separado. Os dois mal e mal conseguiam cuidar das filhas, Rachel e Nora, que viviam com a mãe e mantinham contatos prolongados com o pai. A ruína do casamento começara nos primeiros anos. Após o nascimento laborioso da segunda menina, a mãe se tornou incapaz de ter outros filhos devido a uma cirurgia radical. Como o pai almejava ardentemente uma grande família, o doloroso distanciamento começou ali. Depois de um período de depressão (prolongado, disse o pai; curto, disse a mãe), ela estudou na Universidade Aberta, obteve uma boa qualificação e iniciou a carreira de professora primária tão logo as filhas entraram para a escola. Essa situação não era bem-vista pelo pai nem por muitos dos parentes. Na comunidade haredi, cujas tradições se mantêm inalteradas há séculos, espera-se que as mulheres criem os filhos (quanto maior o número deles, melhor) e cuidem da casa. Um diploma universitário e um emprego eram extremamente raros. Uma figura de destaque na comunidade serviu como testemunha do pai e confirmou essa informação. Os homens também não recebiam uma educação primorosa. Desde a adolescência, tinham de dedicar a maior parte do tempo ao estudo da Torá. Em geral, não cursavam a universidade. Em parte por causa disso, muitos haredi possuíam parcos recursos. Mas não os Bernstein, embora isso viria a acontecer depois que acertassem as contas com os advogados.

Um avô com participação na patente de uma máquina para descaroçar azeitonas havia doado dinheiro ao casal. Eles deveriam gastar tudo o que possuíam para pagar as advogadas, ambas bem conhecidas pela juíza. Na superfície, a disputa tinha a ver com a educação escolar de Rachel e Nora. Entretanto, o que estava realmente em jogo era o contexto geral da formação das meninas. A luta era pela alma delas. Os meninos e as meninas haredi eram educados em separado para preservar sua pureza. Roupas da moda, televisão e internet eram proibidas, assim como o convívio com crianças a quem erampermitidas tais distrações. Não se podia entrar em casas onde não fossem obedecidas de modo estrito as regras kosher. Todos os aspectos da existência cotidiana eram totalmente ditados por costumes que vinham de longa data. O problema tivera início com a mãe, que estava rompendo com a comunidade, embora não com o judaísmo. Malgrado as objeções paternas, ela já estava mandando as crianças para uma escola secundária judaica com alunos de ambos os sexos e onde eram permitidas a televisão, a música pop, a internet e o relacionamento com crianças não judias. Ela queria que as meninas ficassem na escola até depois dos dezesseis anos e cursassem uma universidade se quisessem. No seu depoimento por escrito, havia manifestado o desejo de que as filhas conhecessemmelhor como viviam as outras pessoas, que fossem socialmente tolerantes, que tivessem a oportunidade de seguir alguma carreira que ela não tivera e, como adultas, fossem autossuficientes do ponto de vista econômico, tendo a chance de encontrar um marido com capacitações profissionais que lhes permitissem ajudar a criar uma família. Ao contrário de seu marido, que dedicava todo o tempo a estudar e ensinava a Torá oito horas por semana sem nenhuma remuneração. A despeito de toda a razoabilidade de sua posição, Judith Bernstein — rosto pálido e ossudo, cabelo crespo e arruivado contido por um enorme prendedor azul — não era uma presença fácil no tribunal. Seus dedos sardentos e agitados que não cessavam de passar bilhetes para os advogados, os constantes suspiros em surdina, os olhares para o teto e o franzir da boca sempre que os advogados do marido falavam, o remexer impróprio e ruidoso numa grande bolsa de pele de camelo, dali retirando um maço de cigarros e um isqueiro no momento mais tenso de uma longa tarde — semdúvida objetos provocativos no esquema existencial de seu marido — e os colocando lado a lado, ao alcance para quando a sessão fosse suspensa. Fiona via tudo isso de seu ponto de observação mais elevado, porém fingia não ver. O depoimento por escrito do sr. Bernstein visava persuadir a juíza de que sua esposa era uma mulher egoísta, com dificuldade de controlar a raiva (na Vara de Família uma acusação comum, frequentemente mútua), que dera as costas a seus votos conjugais e discutia com os pais dele e comos membros da comunidade, afastando as meninas de ambos. Pelo contrário, afirmou Judith do banco de testemunhas, eram seu sogro e sua sogra que se recusavam a ver as crianças até que elas retomassem o antigo padrão de vida, repudiando o mundo moderno, inclusive os meios de comunicação sociais, e a própria Judith mantivesse um lar kosher segundo a concepção deles. O sr. Julian Bernstein, alto e magro como um dos juncos que haviam ocultado Moisés quando bebê, se curvava sobre os documentos do caso com a expressão de quem pede desculpas, enquanto o advogado acusava sua esposa de ser incapaz de separar suas necessidades das necessidades das crianças. O que ela dizia que elas necessitavam era o que desejava para si própria. Estava arrancando as meninas de um ambiente familiar cálido e seguro, disciplinado mas carinhoso, cujas regras e ritos forneciam respostas a todas as contingências, cuja identidade era clara, seus métodos comprovados no curso do tempo, e cujos membros eram em geral mais felizes e mais realizados que os habitantes do mundo secular e consumista que os cercava — um mundo que zombava da vida espiritual e cuja cultura de massa denegria as jovens e as mulheres adultas. Suas ambições eramfrívolas, seus métodos, desrespeitosos, senão destrutivos.

Ela amava muito mais a si mesma do que às meninas. Ao que Judith respondeu com voz roufenha que nada denegria uma pessoa, menino ou menina, mais do que a negação de uma educação decente e a dignidade de um trabalho honesto; que, ao longo de toda a sua infância e juventude, lhe haviam dito que seu único objetivo na vida era manter uma boa casa para o marido e cuidar dos filhos — e que isso também era um modo de conspurcar seu direito de escolher um objetivo por conta própria. Quando decidiu estudar na Universidade Aberta, enfrentando grandes dificuldades, tinha sido ridicularizada, vista com desprezo e amaldiçoada. Prometera a si própria que as meninas não sofreriam as mesmas limitações. Os advogados da outra parte concordaram por razões táticas (porque esta era claramente a posição da juíza) que a questão não se restringia aos métodos educacionais. A corte deveria escolher, para benefício das crianças, entre a obediência total à religião ou algo menos rígido. Entre culturas, identidades, estados de espírito, aspirações, conjuntos de relações familiares, definições fundamentais, lealdades básicas, futuros incognoscíveis. Em tais matérias, havia uma propensão sub-reptícia e inata em prol do status quo, desde que ele parecesse benigno. O rascunho da sentença de Fiona tinha vinte e uma páginas, abrindo-se como um grande leque no chão e esperando que ela pegasse uma página de cada vez para fazer anotações comum lápis de ponta macia. Nenhum som vindo do quarto, nada além do murmúrio do tráfego deslizando sob a chuva. Ela se sentia magoada por tentar perceber algum ruído feito por ele, a atenção concentrada, prendendo a respiração, à espera do ranger da porta ou de uma tábua do assoalho. Querendo ouvir, temendo ouvir. Nos círculos dos magistrados, Fiona Maye, mesmo quando ausente, era elogiada por sua prosa incisiva, quase irônica, quase entusiasmada, assim como pelo modo conciso com que expunha a disputa. Durante um almoço, o próprio lorde que presidia o Judiciário havia murmurado a seu companheiro de mesa: “Imparcialidade divina, inteligência diabólica, e ainda é bonita”. Em sua própria opinião, a cada ano ela se aproximava um pouco mais de uma exatidão que alguns poderiamqualificar como pedante, de uma definição inquestionável que um dia poderia ser citada comfrequência, como Hoffman no caso Piglowska contra Piglowski, ou Bingham, ou Ward, ou o indispensável Scarman, todos utilizados por ela naquela primeira página que pendia de seus dedos sem ser lida. Estaria sua vida prestes a mudar? Será que os amigos eruditos, ainda estupefatos, embreve sussurrariam nos almoços no Lincoln’s Hall ou no Middle Temple: Então, ele foi mesmo posto para fora de casa? Para fora do adorável apartamento da Gray’s Inn, onde ela se sentaria sozinha até que finalmente o aluguel, ou o passar dos anos, subindo como a lúgubre maré do Tâmisa, também a expulsaria?

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