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A Balada de Bob Dylan – Daniel Mark Epstein

No começo da década de 1990, os jornalistas britânicos Patrick Humphries e John Bauldie lançaramum livro cujo título era simultaneamente uma provocação e uma autoironia: Oh, No! Not Another Bob Dylan Book. Os anos 80 tinham acabado de revelar ao mundo um Dylan supostamente descartável – e havia mesmo quem achasse que já era hora de ele ser incorporado, se não à lata de lixo da história, pelo menos à sacola plástica do pop. Quem ainda se interessaria pelo bardo de voz desalinhada, então imerso num constrangedor proselitismo evangélico? Na época, e lá se vai quase um quarto de século, estudos sobre a vida e a obra de Dylan realmente abundavam nas prateleiras das livrarias – quando não nos depósitos das editoras… Qual o sentido de produzir mais um? A coisa toda tivera início em 1972, com a investigação de ares detetivescos lançada por Anthony Scaduto, tida como “a primeira biografia séria escrita sobre um rock star”, e certamente pioneira na dissipação de uma vasta cadeia de mistérios, mentiras e meias verdades que até então cercavam a vida de Dylan, a maioria dos quais propagados por ele mesmo. Depois que o livro pioneiro liberou uma enxurrada de informações factuais e desmistificadoras – com grau próximo ao zero no quesito “transcendência analítica” –, foi como se o dique tivesse se rompido. Da seriedade perspicaz e austera, quase scholar, do consagrado crítico de rock Greil Marcus ao rigor (também um tanto policialesco) de Howard Sounes, passando pelas minúcias obsessivas dos “dylanólogos” Michael Gray (autor de uma Bob Dylan Encyclopedya, de quase oitocentas páginas) e Clinton Heylin (que em Stolen Moments coligiu uma cronologia tão exaustiva quanto delirante – Bob Dylan dia a dia!), o mercado editorial passou a oferecer material para todos os gostos: Dylan e a Bíblia, Dylan e os poetas malditos, Dylan e o tarô, a cabala, o judaísmo, as drogas, o budismo, a gaita de boca, a pintura, o cinema. Dylan e Sócrates, Dylan e Abraão, Dylan e Dante. Dylan e o diabo… literalmente (The Devil and Bob Dylan, Yippie Museum Press, escrito pelo famigerado A.J. Weberman, o primeiro dos fãs perigosamente malucos de Dylan). Quando a década de 1980 viu o velho Bob dissolver-se na própria lenda – contando, para tanto, com os inestimáveis préstimos dele próprio e de sua desastrada conversão ao cristianismo-estilobispo-Macedo –, o fluxo de publicações arrefeceu. Em fins dos anos 90, porém, logo após o enésimo “renascimento” artístico de Dylan (dessa vez propiciado pela fortuna crítica que cercou seu trigésimo disco de estúdio, Time Out of Mind, lançado em setembro de 1997), a já vasta bibliografia adquiriu fôlego redobrado. Surpreendentemente, em 2008, o próprio artista tratou de incrementá-la com a publicação de Crônicas, a primeira das três partes em que dividiu sua autobiografia, e cujo volume um (único lançado até agora) acabaria por arrebatar o prestigiadíssimo prêmio Pulitzer daquele ano. “I’ve already confessed, no need to confess again…” havia cantado Dylan (“Já me confessei, não preciso confessar de novo”) numa das faixas do álbum Modern Times, gravado pouco antes, como se disposto a colocar um ponto final não só às próprias rememorações, ainda que a primeira parte delas sequer tivesse sido publicada, mas também às de seus inumeráveis biógrafos, estudiosos, críticos e analistas. Se a intenção era essa, Dylan danou-se. Afinal, à medida que ele foi se aproximando dos setenta anos, completados em 24 maio de 2011, o dilúvio se reiniciou. Então, em um raríssimo pronunciamento público, postado em seu site oficial (e cujo objetivo primordial era defender-se das acusações de que teria aceitado se submeter a supostas imposições feitas por censores chineses emtroca da permissão para se apresentar em Pequim, Xangai e Hong Kong, um mês antes de seu aniversário), Dylan optou por mudar radicalmente de tática: “Todo mundo sabe que há um zilhão de livros sobre mim, já lançados ou prontos para ser. Estou, portanto, disposto a encorajar qualquer um que jamais tenha me encontrado, me ouvido ou mesmo me visto para pôr mãos à obra e rabiscar seu próprio livro. Nunca se sabe, vá que apareça algum que preste…” Como em tantas outras vezes em sua carreira, o sarcasmo de Dylan acabou¸ inadvertidamente ou não, se revelando profético. Afinal, a declaração foi feita em 13 de maio de 2011. Dois dias mais tarde, Daniel Mark Epstein lançava esta admirável Balada de Bob Dylan. Poeta erudito e dramaturgo consagrado, além de biógrafo especializado em Lincoln (sobre quem já escreveu três livros, um deles sua “vida paralela” à de Walt Whitman), o que teria levado Epstein a arriscar-se na ingrata tarefa de retratar um personagem sobre o qual tantos já haviam escrito tanto, e alguns mais de trinta anos antes dele? Finda a leitura da obra, é lícito supor que seu propósito se baseou na adorável presunção de que não fazia muita diferença que a história já tivesse sido contada inúmeras vezes, pois ela ainda não fora contada por ele. De fato, embora não tenha sido, como o biógrafo “oficial” de Dylan, Robert Shelton, umpersonagem diretamente responsável pelo começo da trama (que se iniciou a partir das primeiras apresentações públicas de Bob, em abril de 1961, resenhadas de forma tão explosivamente positiva por Shelton no New York Times que catapultaram de imediato a carreira do jovem cantor), Epstein não só estava plenamente qualificado para a empreitada como parecia destinado a ela. Afinal, não apenas tomara conhecimento do surgimento de Dylan naquele mesmo ano de 1961 (quando tinha apenas treze anos) como, dois anos mais tarde, teve a chance de assisti-lo num show memorável. Com efeito, em 14 de dezembro de 1963, menos de quatro meses depois de ter participado da Marcha pelos Direitos Civis, cantando na presença de Martin Luther King, e apenas 22 dias após o assassinato de Kennedy, Dylan estava de volta à capital dos Estados Unidos. Naquela ocasião, ele se apresentou no Lisner Auditorium da Universidade George Washington.


Sentado entre a mãe e a irmã, Daniel Mark Epstein estava lá – com quinze anos de idade, e a poucos metros do palco. Embora quase cinquenta anos já tenham se passado, Epstein emite indícios de que ainda conserva suas anotações do show – bem como, é claro, o canhoto do ingresso, cuja reprodução tratou de estampar na página de abertura da Parte I deste livro. Mas no fundo o que importa é que ele foi capaz de transformar suas memórias numa espécie de passaporte, um salvo-conduto, não só para recriar o quadro inteiro como também, por meio de alguma secreta alquimia do verbo, conceder-lhe novas cores, mesmo sem acrescentar um só fato novo à história já dissecada por tantos biógrafos. A partir de suas relembranças, Epstein se atreve a recontar até os episódios quase mitológicos da chegada de Dylan a Nova York, no inverno de 1961. Mas o faz com tal leveza e traços tão cálidos que acaba por compor uma cena impressionista, ao estilo de certas aquarelas de Pissarro (um dos pintores favoritos de Dylan), de modo que você julga estar lendo aquele conto surrado não pela enésima, mas pela primeiríssima vez. Residem aí o encanto e a magia do livro agora em suas mãos. Mas não se resume a eles. Apesar de não ser músico de ofício, o múltiplo Epstein se mostra preparado para dissecar os arranjos, os acordes e o peculiar dedilhado de Dylan, lançando sobre eles o olhar do especialista em folk que de fato é. E aqui ele opera outro prodígio: consegue ser detalhista e minucioso sem jamais soar esotérico ou aborrecido, até porque não se propõe a expor os nervos vivos das composições, evitando a vivissecção à qual tantas vezes elas foram submetidas. Mais do que a mera análise poética e musical da obra do arrojado menestrel, Epstein trata de compartilhar com o leitor insights saborosos, como no trecho em que compara determinado período da obra de Dylan com a “fase azul de Picasso”, ou quando escreve: “Se Bob Dylan tivesse ido vaguear pelo México antes do Natal de 1962 e sumido, como Ambrose Bierce fez em 1914, nós ainda nos lembraríamos dele.” E assim, com prosa poética, foco firme e propósitos inabaláveis, vai repassando a seara biográfica de Dylan, sempre pronto para extrair dela flores raras que passaramdespercebidas de dezenas de antecessores. Não há segundo ato nas vidas americanas, profetizou sombriamente Scott Fitzgerald, para quem a sorte, com efeito, sorriu apenas uma vez, ao menos durante sua atribulada existência terrena. Como em tantas outras instâncias, Bob Dylan revelou-se capaz de romper também esse axioma: ele, quando não seus avatares, foi capaz de vivenciar no mínimo quatro, quiçá cinco, “renascimentos”. Para dar sentido e coerência às várias encarnações de Dylan, e reagrupar sob uma mesma moldura todas as suas personas – o jovem cantor folk “de protesto” (“um garoto de coral com uma granada no bolso”, nas palavras de Epstein); o roqueiro de cabelos hirsutos, óculos indevassáveis e letras idem; o recluso hippie rural em sua Arcádia particular; o profeta irado com a garganta repleta de trovões que retornou à estrada em 1974; o pastor evangélico de dedo em riste, ardente como as chamas do inferno; o morto-vivo condenado a vagar por estádios, arenas, ginásios ou salões de baile progressivamente vazios de cidades fora do circuito; o incansável ambulante, em perpétua recusa de sucumbir ao peso da lenda, um Sísifo pop rolando a própria pedra; e, por fim (mas quem pode garantir que por último?), o septuagenário reconciliado consigo mesmo, com seu cânone de mais de mil canções e com fãs de cinco gerações –, pois para dar perspectiva a essa colcha de retalhos biográficos, Epstein se utiliza de quatro shows específicos de Bob a que assistiu num período de tempo que, espantosamente, abarca quase cinco décadas. As colunas de amarração que sustentam o livro são o mencionado show de Washington em dezembro de 1963, a lendária apresentação no Madison Square Garden, em Nova York, em 1974 (que resultou no álbum duplo Before the Flood); um concerto no Tanglewood Music Center, em Massachusetts, em agosto de 1997, já no décimo ano consecutivo da chamada Never Ending Tour; e, por fim, uma apresentação em Aberdeen, em julho de 2009, com o “novo” e aparentemente apaziguado Dylan do século XXI. É como se o livro fosse, assim, uma longa, lenta (embora ritmada e paradoxalmente célere) resenha – só que não apenas desses quatro shows, mas, por hipérbole, de todos os mais de 1.500 shows de Dylan, bem como de suas principais canções e confissões poéticas e seus mais de cinquenta discos, além, é claro, da relação desse legado com a psique da América e com a cultura ocidental (pelo menos a cultura pop) ao longo de cinco décadas de transformações incessantes, de avanços e retrocessos, vários dos quais o próprio Dylan provocou ou profetizou. Por isso, esta balada é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma biografia: é uma reportagemautoral, um conto fidedigno, um ensaio biográfico, um longo poema em prosa; os gêneros se mesclam, se fundem e se completam de tal forma que, a certa altura, chegam a dar ao leitor a impressão de que o fazem com o propósito de forjar um novo modelo: um retrato musical, como o subtítulo sugere. Ou talvez, no fundo, A balada de Bob Dylan seja justamente isso: uma balada, fulgurante e elegíaca, elíptica (quando não concêntrica), simultaneamente sombria e luminosa, com suas zonas negras e ensolaradas clareiras, composta ao modo de uma trova medieval, que não pretende esmiuçar a multiplicidade de significados dos álbuns e das canções de Dylan mas sim o papel dele como bardo: o trovador simultaneamente de frente e de costas para seu próprio tempo, fora de época mas sempre atual, que irrompeu na cena em pleno Renascimento da década de 1960, sobrepujou a idade das trevas dos anos 70 e passou pelo movediço pantanal dos anos 80 para chegar aos albores do novo milênio, nascido à sombra das torres do 11 de Setembro (dia exato em que Dylan lançou o álbum Love and Theft), ainda envolto no mesmo halo enigmático que Epstein pôde vislumbrar de perto quando ele tinha quinze anos, Bob 22 e a América sorria esperançosa e insegura como uma debutante. Eis aqui, portanto, um cântico à vida e à obra do incansável Bob Dylan, imprevisível até quando se repete e que, em plena segunda década do segundo milênio, segue em frente junto a nós, através de nossas vidas. Together Through Life, como sussurra o título de seu mais recente disco. Só mesmo assim para que este não fosse oh no, just another Bob Dylan book. PARTE I Washington, D.C., 1963 1.

Lisner Auditorium, 14 de dezembro de 1963 O JOVEM DE APARÊNCIA FRÁGIL e cabelos castanhos desgrenhados entrou no auditório pelo lado esquerdo do palco, arranhando seu violão enquanto as pessoas ainda se acomodavam em seus assentos. Três filas de cadeiras dobráveis tinham sido apressadamente dispostas em um semicírculo no palco, atrás do lugar reservado ao músico, para dar conta do grande afluxo de última hora. Agora os retardatários sentavam-se, aplaudindo enquanto ele passava. O jovem usava uma camisa azul desbotada, calça jeans azul e botas. Sua entrada foi tão casual e inesperada que deu a impressão de que ele vinha de longe, cantando o tempo todo para si mesmo e para qualquer grupo que pudesse reunir nas esquinas e na frente das lojas. Caminhou em direção ao centro do palco, perto de um banco alto de madeira. No assento do banco havia um amontoado de brilhantes gaitas Marine Band. Mal agradecendo aos aplausos e levemente constrangido por eles, deu uma guinada até seu lugar usando um suporte de ferro para gaita ao redor do pescoço – que o fazia parecer uma criatura selvagem com arreios –, piscando sob os holofotes, arqueando os ombros para ajustar a alça que segurava o violão Gibson Special em seu corpo esguio. Antes que pudéssemos perceber, ele já estava entre nós, tocando. Parou e dedilhou. As luzes esmaeceram, mas permaneceram ligadas. O aplauso iniciado pelos espectadores atrás dele foi caloroso porém breve, pois não queríamos interromper o cantor nem perder nenhuma de suas palavras. Ele tocou uma melodia simples na gaita. A primeira música que escolheu cantar não era familiar, mas era um convite que prometia familiaridade, como tantas baladas antigas em que os bardos incitam o povo a se reunir para ouvir uma história: Come all ye fair and tender maidens, ou então Come all ye bold highway men. 1 Mil e quinhentos assentos tinham sido vendidos no lotado Lisner Auditorium da Universidade George Washington naquela noite em dezembro, e pouco menos da metade deles estava ocupada por estudantes da universidade. As fileiras foram preenchidas pelos fiéis membros da comunidade de música folk de Washington. O concerto, na realidade, não havia sido patrocinado pela universidade e sim pelo National Folk Festival, fundado nos anos 1930 com o apoio de Eleanor Roosevelt e da escritora Zora Neale Hurston. Homens de cavanhaque ou barba cheia, usando camisas xadrez de lenhador, macacões e óculos com aro de tartaruga, sentavam-se ombro a ombro com mulheres de cabelos compridos vestindo batas com bótons do símbolo da paz, tipos acadêmicos usando tweed ou jaquetas de veludo com retalhos de couro nos cotovelos e alguns beatniks de meia-idade em golas olímpicas pretas. Havia mais filosofia do que estilo propriamente dito nas botas e sandálias; havia uma rejeição da moda conservadora que atravessou as gerações durante a Guerra Fria. Minha irmã, Linda Ellen, de treze anos, era provavelmente a pessoa mais jovem no prédio. Meu melhor amigo, Jimmy Smith, e eu tínhamos acabado de fazer quinze anos e não podíamos dirigir, então minha mãe, com 37 anos, nos levou dos subúrbios de Hyattsville, Maryland – descendo pela avenida Connecticut até os limites do campus, na esquina das ruas 21 e H –, para ouvir Bob Dylan ao vivo. Ela havia comprado nossos ingressos com antecedência na bilheteria – sempre conseguia os melhores –, e agora estávamos sentados no centro da quinta fileira, perto da boca do palco, um pouco acima e a menos de dez metros de Bob Dylan. Quando ele finalmente parou de piscar e abriu os olhos para a plateia, nós pudemos ver como eles eram azuis. Ouvimos primeiro o violão, um som poderoso, que era percussivo, modal e agudo. Ele estava tocando um acorde Sol completo com a palheta num andamento moderado, em tempo 3/4.

O que o tornou distinto e o fez sobressair foi a força da primeira batida do compasso, e também o fato de o músico ter adicionado um Ré sustenido na segunda corda para fazer uma quarta perfeita com o Sol próximo a ele. Este foi o truque, a magia especial que transformou o acorde de uma simples tríade maior numa tensão mística e antiga; celta talvez, medieval ou nativa da América, uma atmosfera que transcendia o tempo. Come gather ’round people, wherever you roam And admit that the waters around you have grown And accept it that soon you’ll be drenched to the bone. 2 Isso era um chamado para as barricadas, se não para as armas. Era uma alvorada, um despertar para os vivos, para os mortos e para os semimortos de que “os tempos estão mudando”. O compositor tinha sido inteligente o bastante para escrever a melodia no ritmo de valsa de modo que ninguém, bêbado ou sóbrio, marchasse ao ouvi-la (ele escreveria uma marcha bêbada algum dia – tudo a seu tempo). A canção, quando tocada ou declamada, tinha o poder encantatório de alertar, paralisar, prevenir e nos alarmar; estrofe por estrofe, ela nos chamava: escritores e críticos, senadores e congressistas (logo ali na esquina), mães e pais (minha mãe ouviu atenta), todos sendo avisados, um de cada vez, que seria um desastre caso não se “prestasse atenção ao chamado”. O caminho conhecido não será viável, ele estava nos dizendo, a velha ordem está desaparecendo, a roda da mudança está girando, a batalha já é incontrolável e, se não abalou suas janelas, em breve irá.

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