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A Balconista – Steve Martin

QUANDO VOCÊ TRABALHA NO setor de luvas da Neiman’s, você vende coisas que ninguém mais compra. As luvas não são como aquelas de pegar pesado vendidas na L.L. Bean. São tão finas e delicadas que se pode apanhar um alfinete com elas. O setor de luvas fica ao lado do setor de alta costura e existe por pura ostentação. E é por isso que Mirabelle passa a maior parte do tempo recostada, com uma perna flexionada para trás e as mãos apoiadas no balcão de vidro. Num dia especialmente lento e monótono ela é até capaz de descansar a cabeça nas mãos, cotovelos contra o balcão — embora esta não seja a posição preferida da gerência —, e fixar os olhos nas luvas de couro e de seda em exposição como peixes recém-pescados. A luz do teto reflete-se no balcão e se mescla ao preto e ao cinza das luvas, formando um redemoinho madrepérola que às vezes conduz Mirabelle a um sonho hipnótico. Na Neiman’s todos trabalham em silêncio, como se fosse algum local religioso, e Mirabelle tenta abafar do melhor modo possível o toque-toque dos saltos dos seus sapatos ao atravessar os corredores de mármore. Se você a visse, julgaria pelo seu modo de andar que ela corre o risco de escorregar a qualquer momento. Mesmo assim, este é o modo de Mirabelle caminhar o tempo todo, até mesmo numa calçada de concreto segura. A verdade é que ela jamais aprendeu a caminhar ou adotar uma postura confortável, o que a faz parecer uma jovem atraente à espera de alguém que venha tirá-la para dançar. Para Mirabelle, o ponto alto de trabalhar numa loja de departamentos é vestir-se elegantemente, pois a direção encoraja as vendedoras a serem uma espécie de modelo na precisão e no estilo. Seu problema, é claro, é pagar pelas roupas de sua preferência. Nesse sentido, é socorrida pelo generoso desconto para funcionários e por seu talento para harmonizar uma saia reciclada comuma suéter Armani com cinqüenta por cento de desconto. Graças a isso, consegue vestir-se com elegância, sem extrapolar seu orçamento. Todos os dias, na hora do almoço, ela vai até a esquina de Beverly Hills e entra no Time Clock Café, que oferece um almoço regular a bom preço. Um sanduíche de três dólares e setenta e cinco centavos, uma salada de alface e tomates e um refresco; tudo um pouco abaixo do limite que estipulou para si mesma: seis dólares. Eventualmente, pode chegar a doze dólares quando ela pede uma sobremesa. Às vezes, um homem, cujo nome ela acha que é Tom, olha suas pernas, que se mostram muito bonitas quando ela senta na mesinha tão apertada contra a cadeira que a obriga a posicioná-las de lado, no corredor. Posição desconfortável mas agradável aos olhos masculinos. Mirabelle, que não dá crédito à sua beleza, acha que o homem não reage a ela propriamente dita mas ao belo corte de sua saia azul que se abre diagonalmente, contrastando com a pele branca da sua coxa logo acima do joelho. O resto do dia na Neiman’s a vê recostada, se inclinando ou rearrumando os artigos que vende. Ocasionalmente, um cliente esporádico aparece e a arranca da câmera lenta, até que o relógio marque seis da tarde.


Ela então fecha a caixa registradora e caminha até o elevador, mantendo ereta a parte superior do corpo. Desce ao primeiro andar e passa pelos brilhantes balcões do setor de perfumes cujas vendedoras saem meia hora mais tarde, a fim de atender os últimos clientes. Agora, os vários aromas que foram espargidos durante o dia nos clientes amontoaram-se em camadas no ar da loja de departamentos. E assim Mirabelle, que tem l,70m, sente o aroma de Chanel 5. Quem tiver apenas l,50m poderá ser atacado pelo bem mais forte Chanel 19. Esta caminhada diária faz com que ela se lembre sempre que trabalha na Sibéria da Neiman’s, o isolado e de difícil acesso setor de luvas. Pergunta-se sempre quando será promovida na hierarquia e transferida, pelo menos para o setor de perfumaria. Lá, no energético mundo dos cosméticos e aromáticos, ela terá aquilo que mais deseja: alguém com quem falar. Dependendo da época do ano, a viagem de Mirabelle até sua casa oferece-lhe ou a luz crepuscular do sol de verão, ou a noite e as luzes halógenas dos postes e letreiros e dos faróis dos automóveis, de acordo com o fuso horário do oceano Pacífico. Ela atravessa o Beverly Boulevard, a camaleônica rua com lojas de móveis elegantes e restaurantes finos numa extremidade e com lojas vietnamitas que vendem misteriosas raízes na outra. Nos 25 quilômetros seguintes, como um jogo de Monopólio ao contrário, as ruas vão decrescendo em valor imobiliário até chegarem ao seu apartamento no segundo andar de um prédio em Silverlake. Trata-se de uma comunidade artística que está sempre no limite — jamais ultrapassado — de ser considerada perigosa. Algumas noites, no tempo certo, ela pode subir pela escadaria externa e surpreender a mais bela paisagem de Los Angeles: o pôr-do-sol do Pacífico sobre as luzes que se derramam da porta da frente de seu prédio para o mar. Ela então entra no seu apartamento que, por razões não bem explicadas, não tem uma janela para a paisagem. O sol, que desaparece aos poucos, finalmente enegrece tudo que está do lado de fora e transforma suas janelas em espelhos. Mirabelle tem dois gatos. Um é normal, o outro é um filhote recluso que vive debaixo de umsofá, de onde raramente sai. Muito raramente. Mirabelle tem a sensação de que há um estranho misterioso morando em seu apartamento e que ela jamais vê, mas que deixa traços da sua existência quando move sutilmente objetos redondos de um quarto para outro. Esta descrição pode se aplicar facilmente aos poucos amigos de Mirabelle que também deixam traços de sua existência emmensagens telefônicas e raros encontros. Como o filhote debaixo do sofá, ela pouco os vê. Isso se deve ao fato de eles a considerarem meio estranha, e a sua exclusão dos programas faz com que fique sozinha em casa a maioria das noites. Ela sabe que necessita de novos amigos, mas as apresentações são difíceis quando seu estado natural é a timidez. Mirabelle substitui os amigos ausentes pelos livros e pelos seriados de mistério da TV. Os livros, quase todos, são romances do século XIX, em que as mulheres ou são envenenadas ou envenenam alguém.

Ela não lê esses livros como se fosse um solitário coração romântico vivendo no isolamento da sua casa. Não mesmo. Ela é um espírito educado com muito senso irônico. Ela adora os cenários sombrios desses romances de época, especialmente aqueles mais kitsch. Apesar de distanciada, ela sabe que no fundo uma parte dela se identifica com todas aquelas trevas. Ainda há outra coisa: Mirabelle sabe desenhar. Sua produção é pequena em tamanho e quantidade. Só consegue terminar alguns desenhos de dez por doze centímetros: todos eles impregnados pelo espírito de mistério dos livros que lê. Densamente, ela preenche todo o papel comum lápis de cera preto, com exceção da imagem que pretende revelar que parece flutuar na escuridão. Seu último desenho mostra uma criança agachada petrificada pela lava de Pompéia. Sua mão é firme graças aos anos de treino numa universidade da Califórnia, onde, além de adquirir um mestrado emBelas-artes, contraiu uma dívida de 39 mil dólares para pagar seus estudos. O diploma faz dela uma anomalia ambulante entre as vendedoras de perfume e os vendedores de sapatos da Neiman’s, cujos sonhos acabaram com a escola secundária. Raramente, mas com freqüência suficiente para ter uma pequena coleção dos seus próprios trabalhos, Mirabelle tira de uma gaveta seu material, puxa a luminária para perto da superfície dura da mesa de café e faz um desenho. Em seguida, ela o fixa na parede, bate uma foto e o coloca junto com os outros em seu portfólio. As noites de desenho deixamna exausta, pois requerem sua concentração total. Nessas noites, ela cambaleia até a cama e cai emsono profundo. Numa noite normal sua rotina é muito simples. Envolve a aplicação de loção por todo o seu corpo enquanto conversa com o gato visível. Esses bate-papos são entremeados por interjeições ocasionais em voz alta supostamente dirigidas ao gato que está embaixo do sofá. Se houvesse umobservador silencioso, certamente concluiria que Mirabelle é uma jovem despreocupada e feliz, que se prepara para uma noite na cidade. Na realidade, entretanto, essas atividades são manifestações físicas da sua vida vazia. Hoje, à medida que a noite se instala firmemente, Mirabelle desliza para debaixo dos lençóis, dá uma boa-noite aos dois gatos e fecha os olhos. Sua mão apaga o abajur da mesa-de-cabeceira e sua cabeça se enche de fantasmas. Agora, sua mente pode vaguear pelas paisagens que ela bem desejar e ela faz desses sonhos semi-acordados uma espécie de ritual noturno. Ela se vê de pé à beira de uma lagoa tropical.

Um homem surge atrás dela, envolve os braços na sua cintura, encosta a cabeça em seu pescoço e murmura: “Não se mova.” A imagem gera a primeira molécula úmida no meio das suas pernas. Ela aperta a mão contra elas e cai no sono. Pela manhã não há mais vestígios da comida deixada numa tigela na noite anterior. Mais uma evidência do gato fantasma. Ainda grogue de sono, Mirabelle prepara seu café da manhã e toma seu Serzone. O Serzone é um presente de Deus que a impede de ser imobilizada pela depressão, que de outra forma a envolveria completamente para penetrar em seu corpo como uma névoa venenosa. Embora a depressão nunca esteja fora da sua vista, a droga consegue distanciá-la. É o terceiro tranqüilizante que ela tenta nos últimos anos. Os dois primeiros funcionaram durante algum tempo para deixarem de fazer efeito de uma hora para outra. Como, no princípio, a nova droga tem de ser ingerida com metade da antiga, um conflito estabelece-se em sua mente por algum tempo. O conflito se encerra quando a nova droga finca as raízes em seu cérebro e põe para funcionar sua química misteriosa. A depressão contra a qual ela luta não é o sintoma recentemente adquirido de uma jovem mulher vivendo em Los Angeles por sua conta. Sua depressão instalou-se no arco de Vermont, onde Mirabelle foi criada, e que disparou como uma flecha que a acompanha desde então. Graças à droga, ela em geral é capaz de encurralar a depressão num canto e mantê-la distante da sua rotina. Há lapsos sombrios, entretanto, que às vezes a impedem de sair da cama. Nessas ocasiões, ela aproveita para ficar em casa, pois a firma lhe dá alguns dias de folga por ano em caso de doença. Apesar da sua depressão, Mirabelle gosta de pensar que é uma pessoa bem-humorada. Quando a ocasião requer, ela pode se transformar numa garota jovial e divertida. Nesses momentos, Mirabelle se sente o centro das atenções nas reuniões sociais. Na verdade, esses episódios nada mais fazem do que apresentar uma Mirabelle normal. Para ela, entretanto, o que sente é tão excepcional que se vê despontando sobre as demais. Na verdade, nessas festas, o poder permanece nas mãos de mulheres espiritualmente neuróticas, que atraem exatamente os homens que têm necessidade de domá-las. Mirabelle atrai outro tipo de homens, os mais tímidos e reticentes. Olham para ela por um longo tempo antes de se aproximar.

Quando encontram alguma coisa nela que desejam, trata-se simplesmente de algo que está dentro dela. jeremy COM 26, JEREMY É DOIS ANOS mais novo do que Mirabelle. Criou-se no meio indolente das escolas secundárias de Los Angeles, onde as aspirações definham e aqueles que têm sorte acabam numa universidade onde podem desenvolver-se graças ao entusiasmo de algum professor carismático. Jeremy jamais sonhou com a universidade e conseqüentemente com o desafio de entrar em contato com novas faces e idéias. Para viver, ele reproduz com estêncil logotipos em amplificadores. A vida de Jeremy após o ensino médio parece caminhar para os lados, sobre uma rampa de gelo, escapando obliquamente do centro. Mirabelle o conheceu numa lavanderia automática, certamente o lugar menos romântico e misterioso do mundo. Seu primeiro encontro começou com um “Oi!” e acabou com umdesanimado “A gente se vê!” enquanto Mirabelle estava envolvida com calcinhas e calções de jogging úmidos. Mirabelle e Jeremy tiveram dois encontros e meio. O meio encontro transcorreu na verdade durante algumas horas, mas foi tão nebuloso que Mirabelle tinha dificuldade em considera-lo uma unidade. O primeiro encontro consistiu num passeio por um shopping, quando Jeremy tentou passar disfarçada-mente as costas da mão na bunda de Mirabelle. Depois disso, foram jantar numa lanchonete, contas separadas. Quando Mirabelle sugeriu que fossem ao cinema cujo cartaz de néon havia entusiasmado Jeremy, ele fez com que ela pagasse a própria entrada. Mirabelle não tinha condições econômicas de sair com Jeremy novamente nas mesmas circunstâncias, e não havia como explicar isso a ele. A conversa durante o jantar também não fora nenhum sucesso. Poderíamos dizer que esteve próximo da marca de um casal que vive junto há muitos anos e não tem mais nada para dizer um ao outro. Depois de levá-la até a porta da casa dela, Jeremy deu-lhe seu número de telefone, uma inversão peculiar do que se espera em um primeiro encontro. Ela até poderia ter considerado a possibilidade de beijá-lo mesmo depois daquele horrível primeiro encontro, mas ele simplesmente parecia não ter a menor idéia do que fazer. Apesar disso tudo, Jeremy possui uma qualidade extraordinária. Ele gosta de Mirabelle. E esta qualidade numa pessoa torna-a infinitamente interessante para a outra pessoa. No fim do primeiro encontro, quando Mirabelle já estava dentro do apartamento e sua mão conduzia a porta para o batente, houve uma pequena pausa, e eles trocaram umrápido olhar de intenções inexplicáveis. Uma vez dentro do apartamento, em vez de esquecer para sempre o papel com telefone dele dentro do bolso do seu casaco, ela, sem pensar muito sobre o assunto, guardou-o debaixo do telefone. Seis dias depois do primeiro encontro que reduziu o salário mensal de Mirabelle em vinte por cento, ela encontrou-se com ele novamente e por acaso, na mesma lavanderia. Ele acenou para ela, levantou o polegar e depois a observou encher de roupas uma das máquinas.

Ele parecia incapaz de se mover, mas falou alto o suficiente para que sua voz pudesse atravessar doze máquinas em franca atividade: “Você assistiu ao jogo ontem à noite?” Mirabelle ficou chocada quando descobriu mais tarde que Jeremy considerava as horas que passaram na lavanderia, a razoável distância um do outro, como o segundo encontro. Fez essa descoberta quando ele tentou levá-la para a cama invocando a “regra” do “terceiro encontro”. Mas Mirabelle não se deixou enganar por esta regra e informou a Jeremy que ela não podia considerar de modo algum um encontro na lavanderia, ou qualquer encontro que envolvesse apenas um sinal positivo com o polegar. Este terceiro encontro também foi problemático. Depois de informá-lo de que não pretendia pagar metade das despesas da noite, ele a levou para um salão de boliche e a informou de que devia pagar pelos calçados que alugou. Explicou que sapatos de jogar boliche eram um item de vestuário, e ela não podia esperar que ele pagasse por algo que ela usava num encontro. Se a mente lógica de Jeremy pudesse ser aplicada à astrofísica e não a calçados alugados, ele hoje seria uma fera da NASA. Tentou não pagar os jogos e o jantar, embora usasse cartões de desconto recortados de jornal, o que reduzia de alguma forma os preços. Finalmente, Mirabelle sugeriu que se voltassem a se encontrar, ele deveria apanhar seu número de telefone, ligar para ela e convidá-la para fazer algumas coisas grátis. Mirabelle sabia, e deixou isso entendido sem ter de falar, que todas as coisas grátis requeriam conversa. Ficar sentados num cinema escuro não exige qualquer conversa, enquanto umpasseio pelo Hollywood Boulevard numa noite movimentada requer comentários, observações e, com sorte, alguma inteligência. Ela temia que aqueles encontros sem despesa fossem horríveis, pois não trocaram mais de doze frases nos dois encontros e meio. De qualquer modo, estava disposta a sair com ele, até que surgisse algo menos horrível. A atração de Jeremy por Mirabelle se deve ao fato de ela lembrar-lhe uma pessoa pela qual esteve apaixonado em sua pré-adolescência. Esta pessoa é Olívia Palito, a namorada de Popeye, pela qual se apaixonou ao ganhar de um tio alguns gibis antigos. E é verdade, Mirabelle tem alguma semelhança com Olívia Palito, mas só depois que alguém sugere isso. Você não entraria num lugar onde Mirabelle estivesse e assim que pusesse os olhos nela pensasse: Olívia Palito! De qualquer modo, uma vez proposta a idéia, sua reação talvez fosse um longo e vagaroso “Ahhhhh, sim, é verdade”. Ela tem um corpo longo e esguio, dois olhos negros e pequenos, como sua boca vermelha e pequena. Também se veste como Olívia Palito em roupas comportadas — jamais algo esvoaçante e juvenil. Olívia Palito não tem seios, mas Mirabelle tem. Infelizmente, suas roupas não acentuam suas curvas, e isso faz com que seu peito pareça chato. Tudo isso, porém, não quer dizer que não seja atraente. Ela é atraente, mas não é nunca a primeira ou segunda moça escolhida. Para Jeremy, a mais incrível semelhança de Mirabelle com Olívia Palito é sua pele translúcida. Faz com que se lembre da pele pálida da personagem dos quadrinhos, o que era na verdade um efeito do papel amarelado.

O processo mental de Jeremy é tão tênue que, como feliz conseqüência, faz com que ele acabe sempre fazendo exatamente o que pretendia fazer. Ele jamais complica um desejo repensando-o duas ou três vezes, ao contrário de Mirabelle, que tece um casulo em volta de uma idéia até que ela esteja completamente imobilizada. A visão do mundo de Jeremy mantém baixa sua pressão sangüínea e expulsa o colesterol das suas artérias, auto-estradas sem movimento. Todos sabem que ele viverá até os noventa anos e todos também se perguntam “para quê?”

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