| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Batalha de Moscou – Andrew Nagorski

No outono de 1941, dois exércitos gigantescos lutaram ferozmente nas estradas do norte, sul e oeste que levavam a Moscou. De ambos os lados do campo de batalha, o comando não estava com os generais, mas com os tiranos Adolf Hitler e Joseph Stalin, que davam ordens sem hesitar em mandar milhões para a morte, fosse em combate, fosse nas prisões e nos campos de concentração. Os dois demonstraram uma determinação implacável e, por vezes, táticas brilhantes, mas tiveram tambémmomentos de miopia estratégica em escala colossal. Hitler enviou seus exércitos para a Rússia sem fardas de frio, pois estava convencido de que triunfariam muito antes das primeiras neves do inverno. Stalin mandou muitos dos seus soldados semarmas para a batalha, pois não tinha preparado o país para a invasão nazista. Isso selou o destino de milhares de alemães condenados à morte pelo frio no primeiro inverno da campanha russa e de incontáveis milhares de soldados do Exército Vermelho condenados à morte instantânea por não terem tempo suficiente para pegar alguma arma que encontrassem entre os mortos e agonizantes. A Batalha de Moscou, que oficialmente durou de 30 de setembro de 1941 até 20 de abril de 1942, mas que na realidade cobriu um período maior que esses – 203 dias de ininterrupto assassinato em massa –, marcou o primeiro fracasso da tática de Blitzkrieg dos exércitos de Hitler. Quando esmagaram a Polônia, França e grande parte do restante da Europa com uma velocidade de tirar o fôlego, aqueles exércitos pareciam impossíveis de serem detidos. “Essa derrota, entretanto, foi mais que apenas outra batalha perdida”, lembrou em suas memórias Fabian von Schlabrendorff, um dos oficiais que mais tarde participariam da conspiração contra Hitler. “Com ela se perdeu o mito da invencibilidade do soldado alemão. Foi o começo do fim. O exército alemão nunca se recuperou completamente daquela derrota.”. É verdade, mas as forças alemãs continuariam a lutar com incrível tenacidade e a derrota final só viria muito tempo depois, e por isso esses julgamentos só forampossíveis com o benefício da avaliação retrospectiva. É provável que a Batalha de Moscou tenha sido a mais importante da Segunda Guerra Mundial e, indiscutivelmente a maior entre dois exércitos. Combinando os totais dos dois lados, aproximadamente sete milhões de soldados se envolveram em algum episódio dessa batalha. Desses, 2,5 milhões morreram, foram feitos prisioneiros, desapareceram em ação, ou se feriram comgravidade suficiente para exigir hospitalização, sendo muito maiores as baixas no lado soviético do que no alemão. De acordo com os registros militares russos, 958 mil soldados soviéticos “pereceram” – número que inclui mortos, desaparecidos e prisioneiros. Considerando o tratamento que receberam dos seus captores, a maioria dos prisioneiros de guerra russos foi efetivamente condenada à morte. Outros 938.500 foram hospitalizados, totalizando em 1.896.500 as perdas soviéticas. O número correspondente de soldados alemães chegou a 615 mil. Por comparação, as baixas em outras batalhas épicas, apesar de aterrorizantes, nunca chegaramperto desses números.


Na imaginação popular, a Batalha de Stalingrado, de julho de 1942 até fevereiro de 1943, é geralmente considerada a mais sangrenta dessas lutas. Ela também foi enorme, mas ainda assim muito distante do tamanho da Batalha de Moscou. Em Stalingrado, tomaram parte 3,6 milhões de soldados, e as perdas dos dois lados chegaram a 912 mil soldados, bem inferior aos 2,5 milhões na Batalha de Moscou. Nenhuma das mais importantes batalhas da Primeira e da Segunda Guerra Mundial se aproximou dos números de Moscou. Na Batalha de Gallipoli, por exemplo, as baixas dos soldados turcos e aliados foram de cerca de 500 mil; na Batalha do Somme, de julho a outubro de 1916, as baixas alemãs, inglesas e francesas somaram cerca de 1,1 milhão. E apenas em termos do número de soldados envolvidos na luta, muitas outras batalhas lendárias da Segunda Guerra Mundial nemchegaram a pertencer à mesma classe da Batalha de Moscou. Na Batalha de El Alamein, durante a campanha do Norte da África, por exemplo, os exércitos antagonistas totalizaram 310 mil soldados. Essa foi também uma batalha que se desenrolou diante de uma plateia global, quando Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão e outros tomavam decisões com base na avaliação do seu resultado provável. Não há dúvida de que, se os alemães não tivessem sido rechaçados nos arredores de Moscou, suas repercussões teriam sido sentidas em todo o mundo. Ainda assim, a Batalha de Moscou está hoje bastante esquecida. Os historiadores têm dado muito mais atenção às batalhas de Stalingrado e do saliente de Kursk, que representaram vitórias claras contra as forças de Hitler, e ao pavoroso drama humano do cerco de Leningrado. Por outro lado, o início da Batalha de Moscou, marcado pelo número excessivo de erros de Stalin, apesar de ter levantado muitas perguntas perturbadoras, não teve o mesmo nível de atenção. O resultado foi ter sido tantas vezes discutida apressadamente nos livros de História e nunca ter atingido o mesmo tipo de status mitológico das vitórias posteriores. Mas é precisamente por causa de seu papel crucial no período inicial da Segunda Guerra Mundial, e do que ela revelou sobre a natureza dos gigantes totalitários que se enfrentaram, que a Batalha de Moscou deve finalmente ser contada e colocada no lugar que merece na História da guerra. A história sempre parece inevitável em retrospectiva, mas o fato é que não há nada inevitável nos eventos cataclísmicos que dão forma ao nosso mundo. Para a liderança soviética em 1941, não havia nada inevitável com relação ao resultado do assalto alemão contra o seu país – apesar da retórica oficial. No confronto entre os dois líderes mais monstruosos de todos os tempos, Hitler e Stalin, foi o ditador alemão quem de início pegou o adversário soviético despreparado. Stalin ignorou um fluxo crescente de informações recolhidas pela inteligência avisando-o de que os alemães estavam prontos a atacar e proibiu expressamente aos seus generais tomarem quaisquer medidas que pudessem aumentar suas chances de enfrentar os invasores. Por consequência, as forças soviéticas foram lançadas em completa desordem nos primeiros meses da guerra, e os alemães avançaram cada vez mais em território soviético com os olhos claramente fixados em Moscou. Em 12 de agosto de 1941, Wilhelm Keitel, chefe do Alto-Comando das Forças Armadas de Hitler, definiu o objetivo principal da ofensiva alemã, escrito na Diretiva 34ª. O objeto das operações deve então ser privar o inimigo, antes da chegada do inverno, do seu governo, de armamentos, e do departamento de tráfego em torno de Moscou, e assim evitar a reconstrução das suas forças derrotadas e a operação ordeira do controle do governo. Em outras palavras, o objetivo de uma vitória rápida no leste, para que Hitler pudesse voltar sua atenção para a guerra contra a Grã- Bretanha, dependia da capacidade dos seus exércitos de cercar e em seguida tomar a capital soviética. De início, essa pareceu ser uma possibilidade real. Enquanto alguns soldados soviéticos lutavam heroicamente contra forças muito superiores, outros – e eram centenas de milhares – rendiam-se tão imediatamente quanto podiam. Stalin, por sua vez, quase sofreu um colapso psicológico quando seu país parecia prestes a implodir.

Animados pelo rápido avanço inicial, os soldados alemães fincaram sinais indicando a direção: “para Moscou”. Em setembro de 1941, enquanto preparava a Operação Tufão, que deveria culminar com a tomada da capital soviética, Hitler disse aos seus subordinados: “dentro de poucas semanas estaremos em Moscou”. Acrescentou, então: “vou arrasar aquela cidade maldita e no seu lugar vou construir um lago artificial comiluminação central. O nome Moscou vai desaparecer para sempre”. Se ele falava literalmente, ou se deixou levar-se pela emoção do momento, o fato é que a promessa refletia a sensação crescente de que a capital soviética não seria capaz de montar uma defesa eficaz contra as forças alemãs que se preparavam para lançar um ataque maciço. E o que significaria a tomada de Moscou para todo o esforço de guerra? No passado, quando invasores estrangeiros por duas vezes tomaram a cidade – os poloneses no início do século XVII, e Napoleão em 1812 – as vitórias tiveram vida curta. No caso de Napoleão, a ruptura das linhas inimigas até Moscou só serviu para preparar o palco para a derrota e a retirada catastróficas da sua Grande Armée. Mas em termos de relevância para qualquer comparação com o que se passava na Segunda Guerra Mundial, Moscou, naquelas ocasiões anteriores, não era nem de longe o prêmio que teria sido em 1941, quando já não era apenas o centro político, mas sim o centro estratégico e industrial do país e também o centro de transporte. A tomada da capital teria sido um golpe devastador para a União Soviética – e para todos que buscavam frustrar os objetivos de guerra de Hitler. Boris Nevzorov, historiador militar russo que passou a vida estudando a Batalha de Moscou, argumenta que o fracasso alemão foi o evento mais importante a determinar o resultado final da guerra. “Se tivessem tomado Moscou, a guerra teria terminado com a vitória alemã”, afirma ele. Outros historiadores, e até mesmo alguns participantes sobreviventes, discordam dessa afirmativa, insistindo que a União Soviética teria contra-atacado mesmo depois da perda da capital. Evidentemente, nenhum dos dois lados é capaz de provar a sua tese, pois a História não oferece respostas definitivas para perguntas do tipo “e se”. Mas Nevzorov está em terreno inegavelmente firme ao caracterizar a Batalha de Moscou como “nossa primeira grande vitória e a primeira grande derrota da Alemanha nazista”. Relatos soviéticos dessa batalha mencionam solenemente o perigo para o país, quando as tropas alemãs cercaram a capital no outono de 1941. “Foi o ponto mais baixo que atingimos durante a guerra”, observou a oficial History of the Great Patriotic War of the Soviet Union nos seus cinco volumes, publicado no início da década de 1960. Mas esses relatos não se estenderam na significância do fracasso alemão em completar o esforço para tomar a cidade, e isso não foi acidente, ou nye sluchaino, como dizem os russos. As primeiras Histórias soviéticas do período tiveram muitas razões para esquecer rapidamente a Batalha de Moscou. Em primeiro lugar, a desastrosa série de eventos associados com essa batalha levantou todo tipo de pergunta sobre Stalin e seu incessante uso do terror como arma contra seu próprio povo – uma prática que ele manteve durante toda a guerra. Foram seus erros que permitiram aos alemães chegarem tão perto como chegaram, e também o que causaram as cenas subsequentes de pânico na cidade, quando as pessoas se apressaram a fugir, negando o mito de que todos tiveram fé inquebrável na vitória desde o início. E houve a questão da escala das baixas soviéticas. Boris Vidensky era cadete da Academia Podolsk de Artilharia quando a guerra estourou, e foi um dos poucos sobreviventes da sua classe, que foi lançada – absolutamente despreparada – contra o avanço dos alemães. Depois se tornaria o chefe de pesquisa do Instituto de História Militar em Moscou. Já aposentado, ele contou como, ao término da guerra, o marechal Georgy Zhukov, o lendário arquiteto da vitória soviética, decidiu tentar estimar as baixas das suas tropas perto de Moscou. No período do pós-guerra, Zhukov serviu como ministro da defesa e pediu ao seu assistente para fazer alguns cálculos aproximados.

Quando o assistente lhe mostrou o número que tinha encontrado, Zhukov rapidamente gritou uma ordem: “esconda, e não mostre a ninguém!”. Mesmo quando o avanço alemão para tomar a capital foi repelido, a Batalha de Moscou demonstrou ser uma vitória incompleta. Assim como foi precedida dos monumentais erros de cálculo de Stalin, a ela se seguiram muitos outros. Mesmo com a oposição de seus generais, a insistência do líder soviético para que estes lançassem suas forças exaustas numa ofensiva geral contra os alemães produziu uma série de derrotas penosas e elevou estratosfericamente o número de baixas. Os alemães se agarraram a bolsões de território, principalmente em torno da cidade de Rzhev, a noroeste de Moscou, durante quase um ano depois de a batalha pela capital ter sido oficialmente declarada terminada. O alívio inicial por Moscou ter sido salva foi rapidamente substituído por amargo desapontamento. Em outras palavras, apesar da coragem e heroísmo genuínos dos defensores de Moscou, essa enorme batalha foi marcada por humilhações e derrotas desde seus primeiros dias e por toda a duração do seu longo período posterior. Os dois lados perceberam que tinham pela frente uma longa guerra, a luta mais sangrenta da história da humanidade. E foi mesmo muito mais sangrenta do que seria necessário por causa dos erros de cálculo e da incansável crueldade de Hitler e Stalin. Para Stalin, a contagem de baixas era a menor das preocupações. Assim como diria o primeiro-ministro chinês Chou En Lai durante a Guerra da Coreia, os norte-coreanos podiam continuar lutando indefinidamente pois “não perdem nada, ‘exceto’ seus homens”. Foi essa mesma a atitude de Stalin com relação às baixas do seu próprio país quando elas aumentavam num ritmo estonteante. Por outro lado, Stalin também inspirou muitos dos seus compatriotas e foi a sua decisão de ficar em Moscou – depois de já ter ordenado a evacuação dos seus principais funcionários e das instalações civis e militares – que, em retrospectiva, se mostrou um divisor de águas da Batalha. Se Stalin era prova viva do dito de Maquiavel, segundo o qual, para um governante “é muito mais seguro ser temido do que amado”, ele também se aproximava do ideal do florentino de que “devia ser ao mesmo tempo temido e amado”. A guerra foi uma dessas ocasiões, quando muitos dos seus compatriotas estavam genuinamente dispostos a sacrificar a vida por seu país e por Stalin, convencidos de que eram os dois lados da mesma moeda. Este livro se vale de um grande conjunto de fontes, algumas consultadas pela primeira vez. Entre elas: muitos documentos recentemente liberados dos arquivos da NKVD, o nome da KGB naquela época; relatos em primeira mão de sobreviventes, alguns dos quais somente agora se sentem livres para falar da totalidade das suas experiências, que em geral contradizem a versão “higienizada” dos acontecimentos como apresentada pelos soviéticos, e mesmo por alguns escritores ocidentais; entrevistas com os filhos de personagens importantes, como o marechal Georgy Zhukov, o membro do Politburo [comitê do Partido Comunista] Anastas Mikoyan e os principais líderes da NKVD, responsáveis pelo planejamento da resistência e da sabotagem na Moscou controlada pelos nazistas; diários publicados e inéditos, cartas e memórias de vários russos e estrangeiros. Todas essas evidências deixam claro que a Batalha de Moscou não foi apenas a maior batalha da Segunda Guerra, mas também a primeira mudança de direção. Com certeza, a Batalha da Inglaterra já tinha demonstrado que a máquina militar alemã não era invencível – mas aquela havia sido uma batalha aérea. Por onde quer que marchassem, os exércitos de Hitler continuariam a conquistar vitórias, ou melhor, até a Batalha de Moscou. Num evento no Sportpalast, em Berlim, em 4 de outubro de 1941, Hitler disse aos seus entusiasmados seguidores que o avanço para Moscou, que parecia estar nos seus estágios finais, era “a maior batalha na história do mundo”. Uma vez morto, o dragão soviético “nunca mais se levantaria”, previu ele. Apesar de ciente do precedente estabelecido por Napoleão, Hitler se convencera – e conseguiu convencer os seus exércitos – de que não tinham de temer pela derrota nas neves da Rússia. Mas pouco depois ele veio a descobrir estar errado em todas as suas previsões. Só tivera razão na afirmativa de a Batalha de Moscou ter sido a maior batalha de todos os tempos, mas, do seu ponto de vista, pelas razões erradas.

Este livro trata de como Stalin transformou em vitória o que parecia uma debandada, do preço humano daquela vitória, e de como ela preparou o palco para tudo que se seguiu, tanto em termos das lutas quanto dos primeiros embates diplomáticos entre Stalin e o Ocidente com relação ao futuro de uma Europa no pós-guerra. Pois mesmo quando o destino de Moscou ainda era incerto, Stalin já estava lançando as bases da expansão do seu império – e os Estados Unidos e a Grã-Bretanha ainda lutavam para descobrir uma contraestratégia. Se Moscou tivesse caído, nada disso teria importância. Mas Moscou sobreviveu, ainda que por muito pouco, e isso foi o suficiente para fazer toda a diferença. Finalmente, uma nota pessoal. Como alguém que esteve em Moscou por duas vezes na qualidade de correspondente estrangeiro, eu pensava ter uma ideia geral do significado e da escala da luta que lá se desenrolou. Agora que passei os últimos anos escavando o que podia com relação a esse assunto, percebo que não podia estar mais errado. Tal como todos que voam frequentemente chegando e partindo do Aeroporto Sheremetyevo, na capital russa, em cada uma dessas ocasiões, passei pelo monumento naquela estrada e pelas enormes barricadas que representam as barreiras antitanque que foram espalhadas pela cidade na expectativa do ataque alemão. Mas o meu conhecimento do que realmente aconteceu era extremamente limitado. Eu sabia que os alemães chegaram perto, possivelmente até onde está hoje o monumento no distrito Khimki, nos subúrbios da cidade – uma viagem de apenas meia hora até o Kremlin quando a estrada não está engarrafada. Ainda assim, tal como a maioria dos ocidentais, e até mesmo a maioria dos russos, eu desconhecia uma parte significativa da história de Moscou. Este livro é minha tentativa de preencher este enorme abismo existente nos livros de História e na imaginação popular.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |