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A batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

HÁ MUITOS E MUITOS ANOS, HÁ TANTOS ANOS quanto o número de estrelas no céu, o paraíso celeste foi palco de umterrível levante. Armados com espadas místicas e coragem divina, querubins leais a Yahweh travaram uma sangrenta batalha contra o arcanjo Miguel e os anjos que o seguiam. Deus, o Senhor Supremo de Todas as Coisas, continuava imerso no profundo sono em que caíra após ter concluído o trabalho da criação – o descanso do sétimo dia. Enquanto ele permanecia ausente, os arcanjos ditavam as ordens, impondo seus desígnios no céu e na terra. Sentados no topo de seus tronos de luz, cada um deles almejava alcançar a divindade. Concentrando todo o poder debaixo de suas asas, os poderosos arcanjos, onipotentes e intocáveis, utilizavam a palavra de Deus para justificar sua própria vontade. Revoltados com o amor do Criador para com os seres humanos e movidos por um ciúme intenso, decidiram ir contra as leis do Altíssimo e destruir todo homem que caminhasse sobre a terra, acabando assim com parte da criação do Divino. Impulsionado por essa fúria, Miguel, o Príncipe dos Anjos, enviou à Haled diversas calamidades, mas, como insetos persistentes, os mortais resistiram. Os tiranos alados desejavam um regresso à aurora dos tempos, quando só os animais povoavam o mundo. Eles nunca aceitariam venerar uma criatura feita do barro, uma vez que tinham sido gerados a partir do próprio esplendor e glória do Senhor. Decidido a eliminar de vez a humanidade, Miguel ordenou que os ishins, a casta angélica que controla as forças da natureza, arquitetassem a destruição final. Submissos, eles derreteram as calotas polares e a terra foi inundada por um volumoso dilúvio. Não obstante, os mortais novamente subsistiram. Diante de tanta morte e devastação, uma conjuração teve início. Em sua inocência política, os líderes dessa conjuração foram traídos por outro arcanjo, Lúcifer, a Estrela da Manhã, o único que conhecia o plano dos revoltosos para libertar o paraíso da opressão a que era submetido. Quando o Arcanjo Sombrio denunciou as ideias revolucionárias, os rebeldes foram derrotados, expulsos do céu e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o fim dos tempos. Enquanto a luz do sétimo dia brilhar, enquanto Deus continuar adormecido, os anjos renegados serão perseguidos e mortos pelos agentes celestiais. Com o poder e prestígio que conseguiu por ter delatado os insurgentes, Lúcifer arquitetou sua própria revolução. Movido por interesses nem um pouco justos, o Arcanjo Sombrio pretendia tomar o principado de Miguel e ascender acima mesmo do Criador, coroando-se em Tsafon, o Monte da Congregação, e tornando-se assim igual a Deus. O Filho do Alvorecer não queria apenas vencer seu irmão, desejava tornar-se ele próprio Deus – subjugar não apenas o monarca, mas também Yahweh. Muitos anjos, revoltados com a política celeste, não conheciam as motivações egoístas de Lúcifer e se juntaram a ele. Ao descobrir a traição, o Príncipe dos Anjos declarou nova guerra, e uma segunda batalha estalou. Por seus atos e ambições macabros, a Estrela da Manhã e seus seguidores foram lançados ao Sheol, poço obscuro de trevas e sofrimento, um lugar terrível, um cárcere permanente. Lá, o Arcanjo Sombrio governa e espera o momento certo para iniciar sua vingança. Hoje, os mortais conhecem essa dimensão pelo nome de inferno.


Muitos milênios se seguiram às duas guerras angélicas, e então os humanos reinventaram o período das grandes catástrofes, com suas próprias armas modernas. No céu e no inferno, o Armagedon marca o início de uma nova era. Quando o ciclo for completado, Deus despertará de seu sono e todas as sentenças serão revistas. O tecido da realidade cairá. Antigos inimigos se enfrentarão, e não haverá fronteiras entre as dimensões paralelas. Esse será o Dia do Ajuste de Contas. O crepúsculo do sétimo dia se aproxima, e a noite cairá em breve. Tsafon, o Monte da Congregação, dias atuais CERTO DIA, O ARCANJO UZIEL, CANSADO daquela espera infindável, resolveu galgar o monte Tsafon e afrontar seu irmão. Armou-se de sua espada de fogo, vestiu uma armadura dourada e tomou a longa escadaria de mármore que levava à construção de pedra no topo do morro. Ao fim dos degraus, o Santuário do Alvorecer aparecia meio oculto pelas nuvens geladas, um aposento imponente, erguido por largas colunas redondas. Uma forte luz azulada coruscava em seu interior, um brilho que o arcanjo acreditava ser as emanações do próprio Deus. Mesmo através de seu elmo polido, que completava o conjunto da bela couraça, o rosto de Uziel era austero e demonstrava sua vontade. Sozinho, ele ponderara por anos a fio e agora enfim decidira visitar o Altíssimo, só para ter certeza de que o espírito de Deus continuava adormecido, deitado no santuário, e não morto, como às vezes suspeitava. Um dia, havia muito tempo, Uziel contemplara a face do Criador, uma dádiva reservada aos arcanjos – nem os anjos tiveram esse júbilo. E o que ele viu foi fraternidade, amor e compreensão. Então, como teriam os celestiais chegado àquele grau de corrupção? O paraíso caíra em decadência, e com ele também o mundo dos homens. Mas o caminho ao santuário não seria facilmente vencido. Miguel, o Príncipe dos Anjos, irmão direto de Uziel, guardava o trono divino e não estava disposto a permitir seu ingresso. Sozinho, ele bloqueava a passagem, brandindo sua espada sagrada, a insuperável Chama da Morte. Envergava uma armadura completa, prateada como os raios da lua e adornada por detalhes dourados no peito, que formavam desenhos complexos no metal espelhado. O capacete, de crista vermelha e queixada pontuda, fora posto de lado, deixando aparentes as feições masculinas, a barba por fazer e o rosto cheio de cicatrizes horríveis, adquiridas nas Batalhas Primevas, confronto ancestral sucedido antes mesmo da criação do universo. Miguel era o mais forte dos cinco arcanjos, o primogênito, o herdeiro do Criador. Seu cabelo, negro e comprido, era cortado por uma mecha alva que corria à nuca, e os fios estavam presos em umrabo de cavalo pouco alinhado. Se avistado por olhos humanos, poucos o reconheceriam como uma entidade celeste, não fossem as asas branquíssimas, afiadas como navalhas. O vento ameno da aurora agitou o cabelo do príncipe e soou como apito aos ouvidos de Uziel.

O visitante estacou a dez metros do guardião, na parte mais baixa da escadaria. Silenciosos, os dois gigantes se encararam – Miguel, forte e confiante; Uziel, indignado e decidido. O invasor levantou sua espada em posição de defesa, segurando a arma com ambas as mãos. – Saia de meu caminho, Miguel. Estou reivindicando o direito de visitar o nosso Pai, Yahweh, em seu leito de repouso. É meu direito como arcanjo e descendente do Criador. Por um momento, o príncipe nada disse. Em seguida, desceu um degrau. – Você não vai a lugar algum, caro irmão. Minha paciência esgotou-se. Estou farto de sua insolência. Sou o Príncipe dos Anjos, e isso significa que sou o líder dos arcanjos também. A minha palavra é a lei – determinou. – Yahweh está dormindo, como sabemos. E não pode ser perturbado. Estou aqui para defendê-lo, e não será você ou qualquer outro que me destituirá de minha função principal. Uziel pareceu ainda mais irritado. – E como saberei que ele está mesmo aí dentro, Miguel? Você nos diz o mesmo há milênios, insistindo que, um dia, o Criador despertará para punir os injustos. Pois eu digo que este dia chegou. A podridão tomou conta do mundo. Já é hora de sabermos se o que fala é correto. – Atreve-se a questionar os meus comandos? Sou o seu irmão mais velho! Não duvide de seu comandante. – Veja aonde você nos levou e pergunte a si mesmo se é realmente algum tipo de líder. Gabriel arrastou metade dos nossos anjos para uma guerra civil contra nós, e Rafael nos abandonou, caindo em desgraça. Se você se opuser a mim, que outro arcanjo terá ao seu lado? Lúcifer? – ironizou, evocando o nome do maior de todos os inimigos do céu: Lúcifer, o Arcanjo Sombrio, expulso pelo próprio Miguel do paraíso, com sua horda nefasta.

O Príncipe dos Anjos lançou ao invasor um olhar de desdém, ao mesmo tempo em que levantava sua espada fulgente. – Eu não preciso de você, Uziel. Não preciso de ninguém. Então, o guardião empunhou sua arma e a moveu para o ataque. Suas chamas cresceram, e a luz do fogo sagrado refletiu nos olhos castanhos do príncipe. Uziel sentiu vontade de fugir ante a majestade do inimigo, mas sua pujança o motivou ao combate. – Então é verdade, não é? É verdade o que Gabriel disse aos seus anjos… – Mas, antes que Uziel terminasse, Miguel alçou voo, abriu as asas e desceu para ferir o irmão com um golpe violento de espada. Ofuscado pelo brilho do sol, o visitante quase não se esquivou, mas conseguiu rolar para o lado no instante preciso. Um estrondo titânico abalou a montanha, e a lâmina flamejante tocou a escadaria de mármore, abrindo uma fenda larga no solo. O invasor teria caído pela encosta do morro, não tivesse adejado em reflexo. Ascendeu às alturas e em seguida mergulhou, aterrissando em um sítio acima do guardião, muito perto da passagem ao santuário. Dando as costas ao perigo, disparou para dentro do templo, subestimando a potência de seu algoz. Mesmo entendendo que jamais venceria o impiedoso vigia, Uziel continuou em sua trilha. Queria entrar no Santuário do Alvorecer e vislumbrar a face do Onipotente, só mais uma vez, nem que isso lhe custasse a vida. Se o Altíssimo estivesse realmente adormecido, ele teria obtido a resposta que procurava – a de que sua luta ao lado do arcanjo Miguel tinha sido legítima. Mas e se nada encontrasse? E se Yahweh não estivesse deitado em Tsafon? Essa hipótese o apavorava, mas ainda assim pereceria feliz, sabendo que desafiara seu tirânico irmão, mesmo que num derradeiro momento. Teria, então, se redimido de todas as matanças, de todas as catástrofes que promovera, de todos os cataclismos que comandara. Correndo e voando, ele pulou para o interior do edifício, venceu as colunas e ultrapassou o umbral de entrada. Uma luz intensa confundiu seus sentidos, mas logo a vista se adaptou à claridade. No centro do grande aposento, surgiu um pedestal trabalhado, e sobre ele descansava um livro grosso, de aparência antiga, escrito por dentro e por fora. Aquele era o Livro da Vida, um magnífico artefato deixado ao Príncipe dos Anjos pelo próprio Deus, e que relatava em detalhes toda a história do sétimo dia, desde a criação do homem até o crepúsculo dos tempos. Estava marcado com o código secreto dos malakins, um idioma anterior à aurora do mundo. Miguel nunca deixava que qualquer umse aproximasse do tomo, e sua obsessão pelo objeto chegava a ser psicótica. Quando percebeu o que se passava, Uziel sentiu as costas rasgarem em um corte abrasado. A dor do fogo queimou suas asas, e o sangue escorreu pelo ferimento.

Como um raio certeiro, a espada flamejante do furioso Miguel dilacerou suas costas, lançando o invasor ao estado letal. Atordoado, desabou contra o chão, largando o sabre e se esticando à espera da morte. O guardião pisoteou o busto do visitante, esmagando o metal da armadura dourada. Então, apontou a lâmina ao rosto do irmão, em prelúdio ao choque final. – Miguel, você nos traiu! – protestou o ferido, cuspindo um refluxo de sangue. – Você traiu a confiança dos arcanjos e de todos os celestiais. – Eu não traí ninguém, Uziel. Foi você quem traiu a si próprio. – Onde está Deus, Miguel? Onde está o nosso Pai Luminoso? Prestes a desfalecer, Uziel ainda resistia, procurando resposta à sua busca desesperada. Não distinguira sinais do Altíssimo no templo de mármore, apenas os contornos de um livro envelhecido. O que teria acontecido ao Criador? – O Onipotente está aqui mesmo, Uziel. Será que não percebe? Ele está aqui, no Santuário do Alvorecer! Uziel maneou a cabeça, convencido da insanidade do irmão. – Yahweh está morto, é isso! Ele morreu ao fim do sexto dia! Não está apenas adormecido, como você contou. Você nos enganou por todos estes anos, Príncipe Celeste – acusou. – Eu me sinto envergonhado por ter acatado as suas ordens, mas estou feliz por ter enfim alcançado a verdade. Assim, Uziel se acalmou. A vida o estava deixando, mas ele havia cumprido sua missão. Agora, sua essência vital poderia finalmente se dissipar e regressar ao ventre do infinito. Pronto para a execução, Miguel deteve a espada por mais um segundo. – Perdeu o juízo, pobre irmão. Se preferisse esperar só mais um pouco, não estaria agora estendido neste piso gelado. A Roda do Tempo não tardará a anunciar o Apocalipse. Mas não é sua culpa. Você não poderia ter feito nada para evitar o destino. Assim está escrito – completou, fatalista.

Então, o príncipe levantou sua lâmina, e Uziel aguardou a sentença. – Não me tome por louco – acrescentou o arcanjo Miguel, em inesperado discurso. – Antes que morra, quero que saiba que só digo a verdade e faço tudo pelo bem da criação. Deus está adormecido, e se você não o encontrou quando entrou nesta sala – pausou e em seguida atacou com a espada, perfurando o estômago do moribundo – é porque não teve a dignidade de olhar para trás. Quando a arma encravou, o invasor se contorceu em espasmos de dor. Miguel trespassara seu peito, a parte mais sensível da anatomia angélica, onde está concentrada toda a essência celeste, toda a energia sagrada, todo o poder da aura pulsante. Com uma mão, o príncipe despedaçou a couraça, e com a outra arrancou o coração do irmão. Uma luminosidade mística envolveu o cadáver, e o corpo se dispersou em vibrações cintilantes. E esse foi o fim do arcanjo Uziel, patrono da casta dos querubins. Vitorioso, Miguel se aproximou do pedestal, onde repousava o livro fechado. Deslizou os dedos sobre as inscrições e sublinhou com os olhos os caracteres marcados. Virou-se para trás, para a nave do templo, agora vazia. Então, voltou a atenção ao tomo sagrado. Com um misto de seriedade e loucura, o arcanjo falou num sussurro: – Concordo com você em um ponto, irmão: chegou o dia de Deus despertar de seu sono.

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